BrunoAccioly

28 Setembro 2004

Voando baixo…

Há mais entre a vinheta de entrada da produtora e os créditos do filme que sonha nossa vã filosofia?

Ontem aconteceu algo muito interessante! Em seguida a última publicação no blog, em que comentei “Voando Alto”, Gwyneth Paltrow (segundo o TeleCine) teria dito que o filme foi o pior filme de todos os tempos.

Segundo o Rotten Tomatoes, o filme não passa de lixo amador, se tratando de uma obra sem graça, boba e que não merece mais de 3.6, numa escala de zero a dez.

Estranhamente, a notícia de que Paltrow teria dito isso acerca do filme surge um dia depois da notícia de que ela teria afirmado que seria uma mulher-gato muito mais competente que Halle Berry, no difamado “Cat-Woman”.

Como perceberam no último post meu comentário acerca do filme foi bastante positivo e, a princípio, poderia-se imaginar que fosse uma grande falta de sorte que a atriz principal (além de tudo que a crítica já havia falado) resolvesse falar tão mal do resultado final da obra.

Por que considero algo muito interessante que isso tenha acontecido?
Deixe-me tentar explicar…


Minha filmoteca doméstica tem cerca de seiscentos DVDs dos mais diversos gêneros, o que não serve apenas para enfeitar a estante e que, de certa forma, me define para mim mesmo e para meus amigos que disso tomam conhecimento. Uma das coisas mais interessantes em receber gente em casa é prestar atenção em suas reações para com os filmes ali presentes.

Eles passam os olhos pelos títulos achando este magnífico, aquele péssimo, aquele maravilhoso e, de repente, esbarram com um que não lhes descem pela goela, “Você gostou deste filme?!?!?!”. Quase sempre respondo… “Eu comprei este filme. Há alguns méritos nessa obra…”, ao que ganho invariavelmente uma torção de nariz.

Gostar ou não-Gostar é algo muito poderoso em nossa sociedade. Com três mil anos de história da Arte e de Filosofia conseguimos reduzir um filme a mero entretenimento. Sorvemos os filmes qual Sangue-de-Boi e, apesar de haver toda uma série de nuances, talvez por falta de sensibilidade, talvez por má-vontade, talvez pela régua que usamos, condenamos uns e enaltece outros, distribuindo sinopses, estrelas e bonequinhos para lá e para cá.

Essas sinopses, estrelas e bonequinhos, quando desfavoráveis, afastam espectadores - que talvez viessem a gostar do filme – das prateleiras da Blockbuster e das portas dos cinemas. Assim é a vida na sociedade de consumo e assim continuará sendo. Cada um de nós que amamos o cinema tem uma relação muito particular com este tipo de “arte” (Há sérios questionamentos acerca de se Cinema é ou não arte).

Basta irmos à locadora mais próxima e observarmos como outras pessoas alugam filmes, as coisas que dizem e vamos notar que critérios de escolha e toda sua experiência com este tipo de media é totalmente diferente da nossa.

Podemos simplesmente dizer que quem pensa diferente de nós nada entende de filmes ou é ignorante ou mesmo que se trata de gente simplória que não gosta realmente de cinema. O fato, entretanto, persiste: Somos diferentes uns dos outros.

Essa diferença, no meu entender, é de profunda importância para a diversidade e sobrevivência humana. Globalizar uma régua criteriosa de fruição da produção artística ou pop, mesmo que fosse possível, não necessariamente impediria esta diversidade, mas também não necessariamente garantiria o meio ótimo de fruição da expressão humana através da arte.

Fato é que Gostar ou não-Gostar pode se transformar em um mero vício metodológico… decidimos, baseados em todos os fatores presentes em uma obra, que estatisticamente ela é ruim ou boa depois de um breve cálculo: captamos o óbvio; com sorte percebemos algo do que não é óbvio; interpretamos a mensagem; e usamos nosso método canhestro, ou não, para catalogá-lo como algo bom ou ruim. O filme que tem sorte é aquele que recebe um tratamento não-binário, sendo classificado por bonequinhos ou estrelinhas.

É prática a abordagem… em arte, contudo, há muitos aspectos pelos quais as obras podem ser avaliadas. Woody Allen teve de ver “2001: Uma Odisséia no Espaço” por seis vezes, odiando cada uma, antes de afirmar de si para si que “Stanley é muito melhor que eu!”; Jackson Pollock teve suas pinturas comparadas com pratos de macarrão com muito molho pela revista Life; Van Gogh jamais vendeu um quadro durante toda sua vida; o polêmico Egon Schiele foi preso devido ao conteúdo “pornográfico” de suas pinturas e morreu em decorrência do fato… os bonequinhos e estrelinhas matam a arte de diversas maneiras há muito tempo, basta que deixemos que aconteça.

Há conteúdo, em livros, pinturas e filmes, que só estaremos preparados para fruir dentro de décadas, ou até séculos. Mesmo que a intenção do autor não tenha sido o que indica a percepção do espectador, o que suscita tal percepção é a existência e o acesso a obra artística. Todo um novo conjunto de significados para uma obra antiga pode advir de uma nova conjuntura sócio-político-cultural e, independente de Gostarmos ou não-Gostarmos de algo, seu mérito intrínseco não deveria ser colocado em questão a partir de um corte reducionista da realidade.

Não descendo demais na questão, podemos imaginar uma menina que tenha visto o “pior filme de todos os tempos”; podemos imaginar que este, como tantos outros filmes, apesar de atrelados a um gênero estereotípico como “Comédia”, “Drama” ou “Romance”, guarda uma gama de mensagens arquetípicas profundamente construtivas; podemos ainda imaginar que, inspirada por estes filmes, em sua vida adulta, a menina resolva crescer como pessoa sem pisar nos outros e sacrificar-se tanto quanto necessário sem deixar de lado a capacidade de ser feliz.

Cada um entende o quanto pode e o quanto quer daquilo que experimenta…

…amém…

No Comments currently posted.

Post a comment on this entry: