BrunoAccioly

29 Setembro 2004

“Quer ir por onde?”

Quando tinha 28 anos furtaram o meu carro. Eu não tinha vaga, na garagem de onde morava, no bairro do Flamengo e, oportunamente, até recebi a micharia do seguro.

Não comprei outro carro. Resolvi que nunca mais ia comprar um automóvel. Colocando na ponta do lápis, gastava menos com táxis durante um mês que com os custos do carro.

A escolha não é para qualquer um, concordo. Nem todo mundo abre mão do Barra Shopping todo fim de semana ou de viajar. Naquela época lembro-me que ia para lugares distantes, como a Barra, uma a duas vezes por mês no máximo.

Morando na Zona Sul do Rio de Janeiro era muito fácil não precisar de mais nada de outros bairros. A Marquês de Abrantes tem Metrô, supermercado 24horas, papelaria, academia, bar, restaurante, delicatessem, padaria, confeitaria, açougue, loja de ferragens, lavanderia, locadora de vídeo e ponto de táxi na frente de onde eu morava.

Estava a dez minutos do trabalho e o traslado acabava que não impactava em nada o meu dia, me emprestando uma noite inteira livre e dando uma sensação deliciosa de dia produtivo.

Se morasse em São Paulo provavelmente não poderia ser assim, claro. Lá tudo é longe, cada bairro é monstruoso, o transporte público na prática inexiste e não dá para sair todos os dias usando o produto em cima do qual o Estado te diz, todos os dias, que foi projetada toda a arquitetura urbana.

É engraçado… o dono de automóvel paga o carro, o que até dá pra entender bem; o combustível, que afinal é o suprimento do produto; a manutenção, que aqui no Brasil não só é necessária graças ao uso e a qualidade, mas também a qualidade das ruas e estradas; o IPVA, que supostamente garantiria a qualidade das ruas e estradas; o estacionamento, o que me causa estranheza uma vez que o IPVA e a própria idéia de que as cidades foram projetadas para conter carros deveria cuidar disso; o seguro, para evitar que o carro seja roubado, coisa que outros tantos impostos deveriam cobrir, já que segurança é algo que deve ser provido pelo Estado.

Somando tudo isso com tudo mais que eu me esqueci de mencionar – como o valor real em horas gastas nos engarrafamentos das ruas projetadas com o dinheiro do IPVA – fico pensando se o status de ter um carro, a possibilidade de viajar ou a condição de poder encarar a Estátua da Liberdade do New York City Center, valem todo esse dinheiro.

Com um pouco de boa vontade, creio, dá para chegar em uma conta na qual, abrindo mão do carro, valha muito mais a pena andar de ônibus, metrô e/ou táxi.

Nem comento o impacto no meio ambiente, até porque não há massa crítica de gente preocupada com isso para fazer diferença.

Hoje moro na Ilha do Governador, ando para cima e para baixo com um laptop da empresa – com a qual tenho um contrato de comodato do aparelho – e, pasmem, ainda não tenho carro.

Tá certo… andar de Van não é o mais recomendável, com um equipamento tão caro a tira-colo, mas dá pra deixar o portátil na empresa de duas a três vezes por semana, voltando de mãos abanando e sem incomodar a patroa em casa com o fato de chegar e abrir logo a máquina.

O resto da semana, pensando bem, nem fica tão caro assim ir e voltar de táxi, luxo que os onze anos de profissão felizmente acabaram me permitindo.

Agora há pouco me perguntou o motorista: “Quer ir por onde, senhor?”, ao que eu respondi – “Confio em você, meu caro… Sei que vai fazer o melhor caminho possível. Vai na fé que a gente só vai chegar depois que estiver lá!”.

Isso nada paga, o tempo de pensar na vida, ler um livro, acessar a Internet de dentro do táxi ou simplesmente aproveitar a jornada.

4 Comments currently posted.

Cristiano Dias says:

Vivi 1 ano e meio sem carro amarradão. (numa cidade “carfree”, é verdade)

Hoje é meio luxo, meio mulé-que-trabalha-no-fim-do-mundo. :)

Bruno Accioly says:

Como eu disse pro Zé Vasconcelos: “A paisagem é muito mais bonita sem o painel…”

A gente parece que, de fato, não viaja mais. O trajeto parece que perdeu a importância. Parece que o importante é estar em outro lugar.

O processo da viagem, da jornada, me faz um pouco de falta.

A gente viaja e, depois de passar horas no carro, tem que fazer tudo rapidinho e seguir por um roteiro rígido e organizado - mais um conjunto de estradas - porque, afinal, temos que voltar pra trabalhar na segunda-feira.

Aline says:

O que eu mais gostei foi a mudança sutil nas imagens até que o painel do carro se foi.

Embora eu seja uma aficionada por carros e painéis de carros…

Bruno Accioly says:

O apelo da sociedade de consumo é, de fato, muito forte.

Para além desse apelo há ainda o prazer que conseguimos aprender a ter com as engenhocas que nos convencem a comprar.

Deixar de andar de carro, para quem ama fazê-lo, é como passar a ingerir apenas pílulas nutrientes no lugar de belos almoços e jantares.

Mesmo que o corpo só precisasse dos nutrientes, aprendemos a ter prazer no sabor, na textura e no olor de um belo prato.

Abdicar de prazer é sacrifício e, se não se está preparado para fazê-lo, as consequências tendem a levar-nos a infelicidade…

Ao menos é o que me parece.

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