BrunoAccioly

8 Dezembro 2004

A piada mortal

Outro dia, um amigo do trabalho – o José Vasconcelos – colocou um comentário em um texto meu aqui do 5arcásmos |v|últiplos.

Em “Tutto nel mundo e Burla” comentei a capacidade de algumas pessoas – por chatice, genialidade ou loucura – de identificar sub-textos na realidade a sua volta e transformá-los em obras magníficas, comentários mordazes ou mesmo piadas aparentemente descartáveis que guardam mais relação com a “natureza das coisas” do que gostaríamos que guardassem.

O comentário se referia a uma piada: um homem vai ao médico dizendo estar deprimido. Ele se lamenta afirmando que a vida é dura e cruel, que sente-se só e ameaçado em um mundo onde o que está adiante é vago e incerto. O médico, confiante, retruca que “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci estará na cidade esta noite. Vá assisti-lo! Isto com certeza vai fazê-lo sentir-se melhor”. O pobre homem cai em prantos… “Mas, Doutor… Eu sou Pagliacci.”.

É uma boa piada, todo mundo ri, ouve-se o rufar dos tambores e fecham-se as cortinas… será?

No fim de semana passado vi um ótimo filme, que eu havia visto algum tempo atrás, gostado, mas que sabia ter deixado passar alguma coisa. Não sabia bem o que, mas havia deixado passar.

O filme se chama “O Psicopata Americano”, estrelado por Christian Bale que, descrevendo superficialmente, é um bem sucedido yuppie que “trabalha” em Wall Street em uma empresa fundada por seu pai.

Vivendo uma vida superficial de futilidades e preocupações sem qualquer relação com as divididas pelo resto do mundo, o personagem nos mostra uma rotina completamente alienada do universo que todos conhecemos (cada um a sua maneira).

Em dado momento, o personagem começa a verter sua não-relação com o mundo através de atos para todos nós tidos como vis e cruéis. Na tela, um banho de sangue, morte, violência e humilhação desfila em suas mais diversas formas, vitimando desconhecidos, colegas e amigos do personagem.

Perseguido pelo desejo de continuar a saga de crueldade, acentuando a diferença que existe, ou que ele deseja que exista, entre ele e seu meio, o personagem vê-se também “assombrado” por um detetive de comportamento e percepção absolutamente inverossímeis.

Apesar de sua idéia de si mesmo e da idéia que faz de sua descontextualização de seu entorno, o personagem é um entusiasta e conhecedor de compositores, bandas e cantores da década de oitenta, como Phil Collins e Whitney Huston, sobre os quais discorre enquanto comete seus crimes.

Uma vez que pretendo instigar o leitor a ver o filme, não vou falar ainda mais a respeito de seu enredo, entretanto posso dizer que, desta vez, o número de elementos em jogo que identifiquei foi de fato muito maior que havia notado anteriormente.

Percebi uma relação sombria, um subtexto soturno, que apontava para o significado intrínseco de nutrir e perpetuar um sistema capaz de gerar tamanha diferença entre os indivíduos, capaz de elevar um grupo tão reduzido até os estertores da indecência e da imoralidade através do dinheiro e do poder.

O personagem vivido por Christian Bale é mais que alguém doente; ele é uma metáfora daquilo no que o extremo de poder pode tornar um indivíduo, um grupo ou uma nação. A noção de que o direito de uns acaba onde começa o direito de outros fica comprometida em uma sociedade onde os direitos não são iguais e onde um indivíduo, grupo ou nação acabam por poder cometer qualquer atitude impunemente.

O subtexto está em todo o lugar pois o subtexto está na mente de quem o identificou. Por vezes quem o identificou percebeu algo que o autor desejava insinuar, entretanto o valor em se identificar, em uma obra, algo que de fato não foi intencional, pode ser enorme.

Cada espectador recria uma ou mais obras a partir daquilo que interpretou do que de fato experimentou. Deixar de lado o que se interpreta ou o que se deduz, a meu ver, é um grande erro – sobretudo se temos condição de lembrarmo-nos que o que identificamos não é senão uma conjectura preciosa.

Coincidentemente, ao ver os extras, pude ter conhecimento do fato de que o livro, do qual foi feito o filme, foi considerado, à época, uma paródia mordaz do sonho americano e das conseqüências que são impostas aos demais para que este sonho prevaleça.

A diretora Mary Harron sustenta que extraiu do texto uma noção menos taciturna, atendo-se a outros aspectos da obra e deixando menos expresso um conjunto que, no livro, se torna mais óbvio.

Não é difícil concluir que até mesmo a identidade de um indivíduo, tão alienado de seu meio e de sua noção de eu, fica profundamente comprometida. Fica fácil imaginar que tamanha supremacia torna o indivíduo incapaz de importar-se com questões que aflijam a quaisquer pessoas que não tenham relação com seus próprios interesses.

No fim, o que aflige tal sorte de indivíduo, grupo ou nação, é sequer compreender as próprias motivações e os motivos pelos quais são odiados e incompreendidos. Além do alcance de qualquer forma de resgate, tal sorte de indivíduo é a única chance de si mesmo e, se não encontrar uma forma de prestar-se o devido socorro, vai sucumbir diante da própria alienação.

Outrora, parábolas foram profundamente importantes para nós e, em um mundo onde as novas-fábulas perpetuam uma aridez de subtextos, onde a precisão na passagem da mensagem parece ter tomado o lugar da profundidade temática e da riqueza de interpretações, gastar tempo em interpretar passou a ser sinônimo de entender errado.

Alienamo-nos de nosso potencial humano e subjetivo emulando estruturas intrinsecamente objetivas somente existentes nas máquinas que nós mesmos idealizamos. Valoramos a aderência a metodologias rígidas e a um pragmatismo absoluto como se houvesse apenas um meio de ser objetivo e, no final, perdemos nossa identidade como seres humanos.

Você pode discordar ou concordar com este texto, não me importo. No final, os palhaços somos nós, e a piada de mau gosto em que se transformou a sociedade em que vivemos é um subtexto a ser identificado… e sequer o fazemos.

Parece-me que cabe a nós perceber que nosso tratamento é simples, que alguém chegou por estas paragens e que pode nos ajudar… e que este alguém somos nós mesmos.

13 Comments currently posted.

José Vasconcellos says:

Mas somos o resultado da pouca evolução de sociedades escravagistas, aliás, ainda vivemos em uma.
Felizmente ou infelizmente, não basta, hoje, ser “branco”(que bobagem fazer essa distinção não é? Parece até que só os “clarinhos” prendiam os “escurinhos”) ou fazer parte de um determinado “gueto” social, além disso temos que possuir e, principalmente mostrar.
Mas acho que “WHATCHMAN” é uma excelente “fábula” sobre o poder desinteressado daqueles que o cercam, aliás, o “porquê” do apego e o seu “final”, são sublimes de tão irônicos.

Eduardo says:

O viés para a abordagem da política manicomial torna-se claro. O que torna o sujeito normal, um louco? Porquê “Psicopata Americano”? quem é o “Psycho”?. Quem é doente? porquê é doente? Cara, vc sabia que um tipo moderno de lobotomia é indicado e utilizidado nos EUA como tratamento para transtorno obsessivo-compulsivo?

Hoje em dia eu me pergunto qual é a validade de poder ler subtextos. Pq negar a “Máquina do Mundo” ainda assim não traz nada, e de mãos penses seguimos por um caminho ainda mais cruel.

Bruno Accioly says:

Talvez não haja valor intrínseco nenhum em absolutamente nada…

Optar por um corte da realidade no lugar de toda uma diversidade de aspectos, contudo, não é mais que simplesmente aderir ao método rotineiro de fruição do meio.

Hoje, ao menos, a tal da objetividade e o tal do pragmatismo - colocados como panacéias - reforçam justamente a morte da subjetividade (como se fosse possível), sugerindo um universo humano preciso e destituído de interpretações.

A validade de ler subtextos está na mente de quem os lê. No fim, só fazemos mesmo o que desejamos e temos condição de fazer.

Cruel ou não, o caminho do sacrifício atende a quem atende e pelos motivos que só quem o segue vai compreender.

O totalitarismo do subjetivo é tão bom quanto o totalitarismo do objetivo… a pluralidade nas formas de ver o mundo, ao menos para mim, é uma virtude.

Premissas verdadeiras podem levar a conclusões falsas e, portanto, independente do valor que cada indivíduo dá para as próprias fontes e evidências, estamos condenados a apenas perceber e interpretar o universo, sem desvelar-lhe os reais motivos.

Mesmo ao acharmos que desvelamos algo, o fazemos segundo premissas. A luz de outras premissas sequer desvelamos algo de fato.

Podemos até querer que as coisas sejam como as percebemos ou interpretamos; podemos até desejar que a conclusão a qual chegamos tenha alguma relação com a realidade; podemos mesmo necessitar visceralmente que nossa realidade imaginada mantenha paralelos com o Real… e seja como for… talvez não sejam mais que meras conjecturas.

José Vasconcellos says:

Mas se “…a validade de ler subtextos está na mente de quem os lê…”, onde estão os subtextos propriamente ditos? Onde estão aqueles que propuseram os tais subtextos, ou, realmente essas mensagens foram propostas? Se chegamos a duvidar do motivo que iniciou uma discussão, então o que é essa discussão? Ela é? Acho que não!

Bruno Accioly says:

Os subtextos estão na mente de quem os lê. Ponto.

Mais que isso, um subtexto sequer precisa ser proposto para que seja lido.

Quando um indivíduo expõe os subtextos a outrém, novos subtextos são identificados. É um ciclo perpétuo de um indivíduo para outro e do indivíduo para consigo mesmo.

Um subtexto é identificado, seja ou não ele intenção do autor. Cada presuposição feita acerca de qualquer coisa é um subtexto identificado.

A cada nova afirmação ou pergunta adicional em uma discussão, suas dimensões se tornam maiores. Por isso mesmo, o motivo da discussão é menor que a discussão em si.

A discussão não precisa de uma meta objetiva para ser uma discussão.

Independente do que achamos ou não achamos, ao fim de uma troca de estímulos e reações, tudo se reduz ao que interpretamos continuamente.

A comunicação, como já discutimos… é uma utopia.

Eduardo says:

Se há um “subtexto” é porquê houve um texto e mesmo que o subtexto pessoal forme-se obviamente na mente de quem o produz ele há de partir, propositadamente ou não, de um embrião plantado, conscientemente ou não, pelo criador, pelo produtor, pelo veiculador e etc. da obra em questão. O que abre a discussão enfadonha de autoria e blá-blá-blás afins. Comunicação ser utopia eu acho pesado. Eu tenho me inclinado a pensar num vilipêndio programado do aparelhamento sensitivo artístico do povo em geral, o que cria guetos e elites com atitudes confortáveis para o sistema que, via de regra, é o alvo maior de contestação da produção artística e que, desta forma, cada vez mais deixa de sê-lo. O urinol de Duchamp parace que foi “eleito” a obra de arte mais relevante da modernidade. Basta lembrar que um dos concorrentes era Guernica, de Picasso.

Bem, eu ainda gosto de pensar que o subtexto é um tempero, apenas isso. Especiaria.

Bruno Accioly says:

Ouso discordar…

Acontece que, da mesma forma que o ser humano pode ver formas não intencionais em nós nas tábuas de madeira ou nos chuviscos de uma tela de TV, é possível para o ser humano identificar um subtexto que não existe senão em sua própria interpretação tortuosa da realidade.

A afirmação que o subtexto lido por um indivíduo necessariamente foi plantada - mesmo que inconscientemente - pelo autor, é tirar do indivíduo o poder de criar algo a partir de estimulos dissociados de intenção.

A comunicação é utópica sob diversos aspectos. Afinal, a mensagem expressa não é a percebida, muito menos a interpretada.

Independente das intenções de Duchamp em criar o urinol, o espectador da obra pode lê-lo de diversas formas.

O subtexto, normalmente, é encarado como algo escrito nas entrelinhas. A questão que levanto, no post, é que o espectador presume entrelinhas o tempo todo.

Isso se dá graças às evidências que percebemos e achamos que percebemos que, graças às nossas experiências, nos tornam capazes de chegar a conclusões.

Certas ou erradas, estas conclusões - sustento eu - têm valor intrínseco.

Filmes como “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, foram lidas como uma sátira ao mercado de consumo enquanto - e isto está nos extras do DVD : ) - não passava de um comercial de chocolate.

Vou me aprofundar nisso em outro post, e numa leitura alternativa e perturbadora deste filme cultuado até hoje.

Em suma… discordo que o subtexto tenha, necessariamente, que ter sido plantado. A leitura de um subtexto não implica em algo subescrito… tanto quanto o óbvio para uns é um completo absurdo para outros.

Quem está certo? A meu ver pouco importa.

Eduardo says:

Concordo com você, mas, e somente isso, eu enxergo, humildemente, uma manipulação vil no que concerne a formação do indivíduo, pois existe um subjetivismo como processo que acaba por criar uma aura de paranóia e dissociação da posição do indivíduo ante a realidade. Mas isso é outro papo. Resumindo, pra mim o subtexto é uma composição do que foi criado com que é interpretado. Não nasce na cabeça de quem interpreta, e sim, tem sua origem na obra sendo que há uma miríade de possibilidades de emissão e recepção. Reafirmo que, não estou dizendo que há a intenção de criar este ou aquele subtexto, por parte de quem cria. Na verdade o que eu acredito é uma situação nos moldes de um lego, onde a obra gera peças que são montadas de formas as mais variadas dentro da percepção de cada um.

Na verdade quando digo plantado, bem, é como se a obra plantasse algo em quem a interpreta ou como se quem interpreta fosse lá e coletasse algo… mas não é uma coleta objetiva/plantio objetivo. Não sei se consegui me expressar direito. Mas não discordo nem concorcodo, eu quero ampliar minha percepção no assunto, porquê me é muito interessante, inclusive profissionalmente. E vejo aí uma das discussões mais relvantes em termo de arte que tenho participado.

Cheers!

Cristiano Dias says:

Maldito Bruno! Eu vi subtexto em ‘Os Incríveis’. Raios triplos!

José Vasconcellos says:

Ué?!…
Alguma dúvida nisso, meu caro Cris?!

José Vasconcellos says:

Mas eu gostaría mesmo é de um bom papo sobre o óbvio ululante e o nem tanto que vai por trás da “história” representada pelo “smile” no topo do texto…

EdGouveia says:

Não seria todo o texto (e não somente o subtexto) uma produção específica da mente que o lê?

Bruno Accioly says:

É o que me parece e é bastante difícil provar o contrário…

De fato um indivíduo produz um texto, mas quem o lê, sob diversos aspectos, está produzindo outro.

Seria incoerente dizer o contrário, uma vez que o afirmamos para subtextos.

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