21 Dezembro 2004
Gardenal dos tempos…
Em um mar de insensatez o mérito normalmente se perde e tudo o que parece importar é o que menos deveria…
Convenhamos, os dispositivos que projetamos são cada vez mais reduzidos e aglutinam cada vez mais funções… e muitas delas são muito pouco úteis.
Sem entrar no mérito de quão duvidosas são as relações entre cada uma das funções que escolhemos para estes dispositivos, temos de admitir algo: parece uma prerrogativa de mercado disponibilizar todas as fases de produção de seus protótipos como se fossem produtos acabados!
Para atender a esta tendência em aglutinar funções deficientes em um espaço tão diminuto, projetos de interface cada vez mais arrojados têm de ser desenvolvidos.
Escrevi sobre isso em um artigo que discorria acerca de teclados de celulares. A “vedete” do artigo tinha sido idealizada por David Levy, da Apple.
Desde o teclado de múltiplos toques até a função T9 de digitação previsiva, usuários vêm tendo opções canhestras de interação com esses dispositivos maravilhos.
Ainda não vi quem elogiasse o mérito do esforço deste novo brinquedo lançado pela LG - o LG 6190 - entretanto trata-se de uma tentativa legítima de, no espaço exíguo oferecido pelos teclados de celular, dispor uma tecla para cada uma das letras do alfabeto.
Em meio a uma guerra de características sem substância, como câmeras ruins, caixas de som para fones portáteis, celulares com telas wide-screen etc., o contra-intuitivo teclado do tipo FastTap perde em popularidade, arrancando caretas de desgosto dos rostos de compradores de celulares.
Os limites para confecção de interfaces de celulares, hoje, estão profundamente ligados às dimensões dos aparelhos. Futuramente, com um mais sofisticado mecanismo de reconhecimento vocal, possivelmente nossos filhos vão rir da estranheza dos aparelhos que usamos.
O próprio conceito de celular, em um futuro não muito distante, pode vir a ser risível… mas nunca se sabe.
O fato, afinal, é que a demanda é criada por quem vende o produto e empresas vêm perpetuando a estranheza de seus produtos há tanto tempo que fica difícil fazer qualquer previsão.
Listas grandes de funções inúteis vêm ganhando de listas úteis mais modestas já há muito e não há indícios de que isso venha a mudar tão cedo.
Outro dia me perguntaram: “E por que deveria mudar?”, e sinceramente me parece mais importante - perdoe meu conservadorismo - que o foco do produto seja atender aos requisitos do cliente e não oferecer-lhe funções as quais ele jamais virá a usar.
LG . Página do produto
SlashPhone . Sobre o produto
PhoneScoop . Sobre o produto
dotCraft . Os limites da interface de celulares
Comments are locked.
Lismdf says:
Cristiano Dias says:
Blessings of the state, blessings of the masses. Let us be thankful we have commerce. Buy more. Buy more now. Buy. And be happy.
Amir Samary says:
Pois é, mas acredito mesmo que eles estejam se aproveitando da própria demanda que eles criaram. Acredito que eles não pensavam que estas porcarias fariam tanto sucesso e, agora, estão vendendo enquanto podem, alimentando esta onda até que ela desabe graças a um produto “revolucionário” que aguardava para ser lancádo há anos. Não acredito que seus gerentes de produtos sejam incompetentes. Eles já tem outros protótipos prontos, com soluções interessantes. Nós mesmos discutimos isto de vez em quando e inventamos conceitos como o do meu relógio bluetooth que vibra sem barulho e te mostra quem está chamando para que você não tenha que tirar o celular do bolso durante uma reunião… A convergência está sendo levada aos seus extremos e isto é ruim. Acredito que a convergencia deva ser alcançada não pela aglutinação, mas por outros meios, como, por exemplo, pela cooperação de dispositivos próximos (palms, relógios, celulares bem simples, fones, carros, computadores)…
Bruno Accioly says:
É… e o que me incomoda, Amir, é que a tal da “convergência” converge para interesses comerciais e não para as necessidades reais do usuário.
A sua noção de progresso, a minha, ou a de qualquer pessoa ou grupo de pessoas pouco importa. O que importa é crescer, nunca parar, a qualquer custo, valorizando o que não tem valor intrínseco se necessário.
Como já mencionei em um dos pontos de vista que gosto de revisitar, a tecnologia, na ficção científica, tem mais relação com o progresso humano em diversos níveis… no mundo real, o único progresso que parece importar é o lucro.
Na verdade, muitas obras de ficção científica alertaram-nos de que isso podia vir a acontecer.
Como eram só estorinhas a gente parece ter deixado pra lá e, olhando pro próprio rabo, nos convencendo de que “é diferente”, que nosso mundo não é distópico, que as coisas não poderiam ser de outra forma ou mesmo que só queremos ser felizes, ganhar nosso dinheirinho e comprar mais…
Como o Cristiano tão bem lembrou, isso tudo guarda uma sombria relação com a frase proferida por OMM em THX 1138: “Blessings of the state, blessings of the masses. Let us be thankful we have commerce. Buy more. Buy more now. Buy. And be happy.”
Amir Samary says:
Opa! Não discordo disto. Tenho certeza que o lucro é o direcionador. Só acredito que chega um momento em que as pessoas se enchem e passam a entender o que querem a respeito de um determinado produto.
E é neste momento que o mercado tira da manga um produto mais interessante que, não necessariamente foi criado naquele momento mas que, muito provavelmente, já existia e só estava esperando o momento certo para ser lançado. O momento certo de acordo com a equação ótima de lucro. Os palms foram um exemplo disto.
Acredito que em breve, um celular será um dispositivo mais simples. Um dispositivo de comunicação apenas. Barato e simples. Para alcançar o maior número possível de assinantes e padronizar ao máximo a linha de produção. Outros disposivos que precisarem de um meio de comunicação se utilizarão via bluetooth, por exemplo, do celular ou de outro dispositivo de comuncação próximo. Interfaces diferentes para o celular poderão ser utilizadas através de outros dispositivos (relógios, palms, etc.). É a cooperação com foco na convergência. Dispositivos simples, que poderão ser adquiridos separadamente, de forma independente (até mesmo de fabricante) que trabalharão em conjunto. É uma onda. Depois voltaremos novamente para a convergância por aglutinação e depois, novamente, para a convergência por distribuição e cooperação…
Acredito nesta onda. É como a moda. De vez em quando, roupas dos anos 70 voltam a moda… E os vestidos das mulheres são de todas as épocas conhecidas e tudo é limitado, é claro, pelo que se dispõe para se gastar e outros fatores…
Em resumo, acredito na manipulação. Mas acredito que ela é feita com muita maestria. O manipulador deve prestar muita atenção na onda atual e na resposta do público para seus estímulos. A resposta pode não ser bem o que ele esperava, pode ser diferente… E ele pode ter prejuízo… São possibilidades extremamente plausíveis.
Bruno Accioly says:
Acho essa uma perspectiva bastante otimista, entretanto, dispositivos quiméricos costumam permanecer no cerne da sociedade depois de valorizados.
Quando se pauta o progresso tecnológico pelo lucro a finalidade última não é o progresso sócio-cultural, mas progresso corporativo.
Um bom exemplo é a idéia de diferentes interfaces para um mesmo dispositivo.
Isso, por si só, é um erro de usabilidade. Se você tem um celular e o leva para dentro do carro em uma bolsa, a interface alternativa no rádio do carro não deveria ser outra, mas a mesma!
O celular deveria exportar a interface através de mecanismos de integração entre ambos os dispositivos para que a interface exposta pelo rádio do carro, ao usuário, permaneça obedecendo os mesmos padrões.
E isso só se preocupando com a usabilidade!
Os cânones da convergência e a liturgia dessa nova “buzz word” não são mais que mecanismos de valorização de um erro para empurrar produtos goela abaixo do consumidor.
Não refletir acerca dos caminhos tecnológicos a seguir e deixar-se levar pela necessidade de gerar liquidez não são boas práticas para um saudável progresso tecnológico - sob este aspecto.
São preocupações e comprometimentos antagônicos os do lucro-a-qualquer-custo e do desenvolvimento tecnológico consciente.
Vemos a cada esquina do tempo um banner de propaganda no meio da programação do Discovery Channel, um celular com GPS para localizar os filhos e a venda da base de conhecimento do posicionamento de assinantes para envio de propaganda contextual em seus celulares…
Há que se pensar acerca da ética na propaganda das questões morais envolvidas em nossas escolhas, da privacidade de adultos e de crianças!
O fato de termos sido bem adestrados para nos acostumarmos com algo não significa que este algo é intrinsecamente bom, positivo ou essencialmente uma forma de progresso.
Questiono a maestria desta manipulação e nossa competência para identificar suas consequências a médio e longo prazos.
Afinal, o que acreditamos ou não acreditamos é muito menos importante que as conclusões tiradas a partir de ponderadas reflexões multi-disciplinares acerca, por exemplo, da questão tecnológica.
Bruno Accioly says:
Para completar, sob diversos aspectos eu defendo simplesmente que as convulções são orgânicas.
Não necessariamente há rigor de planejamento na má fé aparente. Apenas reação.
Não identifico nenhuma componente conspiratória relevante, só corolária.
O animal está vivo. O que me parece é que o que consumimos são suas secreções e fezes.
Amir Samary says:
O fato de eu acreditar na manipulação significa apenas que estou consciente dela hoje. Mas não concordo com ela de maneira alguma. Sei, no entanto, que ela está ligada a nossa própria natureza e é algo aparentemente difícil de se evitar. A “maestria” que mencionei foi apenas para colocar que existe um esforço em se manipular e existe uma resposta a cada estímulo. E a resposta pode não ser bem a que o manipulador previa.
Mas são questões separadas. Falando puramente de convergência, a outra questão, só constatei o fato de ela existir e estar em voga. É a onda do momento e todos estão tentando surfa-la. Eu tenho minhas próprias idéias a respeito de convergência e detesto tanto quanto você os amálgamas inúteis e a algutinação desmedida, sem propósito ou planejamento.
A padronização da maneira como se disponibiliza um serviço para um sistema alienígena é uma batalha atual e visa a convergência em termos de cooperação. Não concordo com você quanto a interface se manter pois isto não é necessário. No exemplo do carro, a única coisa que o rádio faria, quando uma ligação chegasse, seria mostrar as informações da chamada e permitir seu atendimento em viva voz através das caixas de som do carro e um microfone de alta sensibilidade. Fazer uma chamada? Talvez… Poderíamos navegar através das entradas da agenda como navegamos por músicas de um CD e solicitar a ligaçào… Jogar um joguinho do celular? Ridículo. Mandar um SMS? Ridículo. O serviço de envio de SMS até seria disponibilizado pelo celular, mas os pré-requisitos para o uso daquele serviço (um teclado) seriam observados pelo rádio que decidiria não disponibilizá-lo.
A exportação da interface, na minha humilde opinião, é tão ruim quando utilizar ALT+TAB para tirar uma informação de um sistema e colá-la em outro.
A padronizaçào da chamada aos serviços (como WebServices por exemplo) e sua caracterização em termos de (1) pré-requisitos de interface para utilização do serviço por um usuário humano, (2) categorização por catálogo padrão (SMS, AGENDA, TCP/IP, ARCONDICIONADO, Serviço Definido pelo usuário e não classificado, etc…) e (3) categorização dos serviços em termos de atividades de interface (ligar/desligar, selecionar, acionar, etc…) são formas de se possibilidar a convergencia por cooperação de forma simples e independente de fornecedor.
Há muito o que se discutir. É claro que isto é muito complexo e claro que a exportação da interface poderia ser feita utilizado-se o que foi exposto em termos de seriços somado com o conceito de skins… Não quero defender uma ou outra forma pois acredito que um pouco de ambas serão e já estão sendo utilizadas.
Bruno Accioly says:
“Sei[…]que ela está ligada a nossa própria natureza” é uma noção viciada. Não há como ter certeza disso. De fato pode ser que seja a natureza que nos foi imposta. Nada muito difícil de fazer, afinal!
O micromundo dos celulares bem sucedidos e mal sucedidos é menos importantes, diante do problema que aponto, que é a valorização do produto Celular do jeito que vem sendo valorizada.
Mais que isso - e para além do produto Celular - há muitas formas que um sistema de produção como o nosso pode tomar, e a que vem crescendo no horizonte, por muitos motivos, me parece ter consequências muito sérias.
Afinal: “Quem cria a demanda é quem vende o produto.”
O importante não é o que especificamente é divergente entre nossas visões profissionais acerca de uma questão - como um mesmo equipamento ser controlado por um sem número de interfaces.
O importante é que uma diversidade de competências tem de existir para chegar a conclusão do que de fato é necessário ou não a despeito de nossos determinismos pessoais ou profissionais - o que em sua posição técnica “não é necessário”, afinal, em minha posição técnica pode ser essencial .
O fato sequer é quem está certo acerca da questão - questão esta da qual discordo de você em gênero, número e grau - o fato é que há a discordância e que a decisão unilateral pela não reflexão acerca dos próximos passos tecnológicos é uma irresponsabilidade.
Não se resolvem discussões filosófico-antropológicas em mesa de bar da mesma forma que não se definem padrões tecnológicos em comentários de blog, mas o fato é que não há qualquer grupo multi-disciplinar refletindo acerca de possíveis consequências perigosas de decisões tecnológicas tomadas por empresas.
Não me sentiria confortável em tomar tais decisões eu mesmo no que diz respeito a todos os aspectos do desenvolvimento tecnológico e só acho possível identificar problemas em potencial com a presença de profissionais de diversas áreas.
Não é suficiente, para mim, ouvir que algo é “inequivocamente desnecessário”.
Acreditar, por exemplo, que uma solução genérica (independente de fornecedor) é o ideal é ir de encontro a décadas de teorias de comunicação, projeto instrucional e usabilidade.
O que me torna incompetente para dizer o que é ou não necessário na bio-tecnologia é minha ignorância e assim é com todos nós. Não há o óbvio. Há o óbvio para nós mesmos. E estar errado, neste jogo onde só quem joga é gente de conhecimentos específicos, é muito fácil!
Defender uma questão tão pequena acaba sendo tergiversar em cima do não óbvio como se o fosse.
E há um problema, como você mesmo deixa claro no início do seu texto.
As questões serem separadas? São!… mas reduzir um problema a questões separadas, muitas vezes, é não resolver o problema, atacando apenas seus sintomas.
O todo do problema é maior do que a mera soma de suas partes.
Há uma relação muito direta entre as questões enumeradas. A noção de convergência atende a interesses comerciais óbvios para manutenção e perpetuação do aquecimento do mercado.
Toda a estrutura do meu discurso dissocia a opinião pessoal e as conclusões individuais de sua validade intrínseca, portanto não tenho como admitir que algo é óbvio, determinado ou inequivocamente certo.
Os riscos a correr são graves demais em basear a hermeneutica do próprio discurso no gostar e não gostar ou na opinião positiva ou negativa acerca de algo. A reflexão e o debate têm de tomar seu lugar e - o que me parece profundamente importante - carecem de uma diversidade de competências maior que a oferecida por duas pessoas que se conhecem e que tem formações acadêmicas tão semelhantes.
Entendo que haja quem não se furte a enumerar quais são as componentes da natureza humana, mas simplemente não me sinto competente para fazê-lo, apesar de minhas inclinações pessoais, crenças ou evidências coletadas ao longo de minha vida.
Amir Samary says:
“Ser da natureza humana” é simplesmente uma forma simples de admitir a possibilidade de falha de qualquer modelo para qualquer atividade que venhamos a executar. É admitir a ganância, o egoísmo e etc… Assim como admitir a honestidade ou o idealismo de outros. Admitir também a possibilidade de erros neste idealismo e etc… Ou seja, nada é perfeito.
Quanto ao assunto da convergência, entendo que o mercado esteja se aproveitando disto para ganhar mais dinheiro. É natural.
Concordo com você e infelizmente acho que pouco podemos fazer a respeito. Acho… Apenas acho… Isto pode ser discutido também, certo?
Concordo com você que as corporações estão tomando suas próprias decisões a respeito de como as coisas devem ser feitas e poucas se preocupam em participar de comitês de regulamentação, debates, normas e etc… Existem poucos comitês multi-disciplinares e etc… para discutirem as questões tecnológicas e sociais sob todos os ângulos necessários. Concordo que precisamos disto e realmente sinto falta pois sei o que eu quero para mim já há alguns anos e compro apenas equipamento usados e baratos pois me recuso a pagar por equipamentos novos que não me atendem completamente. Fico com os “ultrapassados” que também não me atendem completamente e economizo meu dinheiro. Sinto na pele a falta destas discossões e debates, Bruno… Todo problema sempre será maior do que a soma de suas partes. Sempre! Por mais que tentemos ver o todo, sempre restará o contexto onde o todo está contido…
Mas não é por isto que vou para de discutir a respeito e tentar definir sozinho os padrões que ninguém está tentando definir. Mesmo que seja para pura satisfação minha, em saber com mais detalhes o que quero, o que preciso e, melhor, o que não quero e o que não preciso. Discutir é uma forma de forçar a elaboração de idéias e discutir contigo é mais produtivo ainda. O fato de sermos só nós dois a discutir não invalida a nossa discussão pois nós dois sabemos que nossas conclusões serão incompletas. Mas quando você invalida um argumento meu, com uma proposição cabível, este argumento está temporariamente invalidado e pronto. Não precisou de um sociólogo ou filósofo social para isto. É fato que nossas discussões são produtivas pois de uma forma ou de outra passamos a perceber o quanto nos falta. Validar ou Invalidar um argumento não some com ele ou o torna mais verdadeiro ou mais falso. Apenas o coloca de forma diferente dentro do contexto da questão. Contexto…
Por exemplo, o fato de você ter mencionado que aspéctos de usabilidade e transporte de interface são extremamente importantes para você, me fez pensar (e continuo pensando) em como atender estas necessidades, se elas seriam realmente importantes no contexto, e etc… De uma maneira ou de outra, isto me fez pensar sobre suas idéias, sobre o que você pensa ser importante. Eu não vou esperar fazer parte de um grande comitê para exercitar isto… Quem sabe um dia este exercício me sirva em algum comitê? ![]()
Estou grato por poder discutir com este grande assunto com você. Nada é óbvio ou evidente. Só estamos discutindo… E esta discussão realmente não precisa chegar a conclusão alguma. Eu tenho mais informações do que antes. E realmente estou grato por isto. Se tivermos a chance de mudar o mundo com isto, ótimo! Se não, mudo apenas eu mesmo. Sou agora, diferente do que era há 5 horas atrás… ![]()
Bruno Accioly says:
Entendo toda essa questão por pontos de vista bem diferentes do seu.
Veja… no momento que você afirma que a natureza humana é isso ou aquilo, e passa a admitir isso como fato (e evidência), todo o resto do discurso passará a estar viciado nesta premissa. A única coisa admitida, me parece, é a própria crença de que as coisas são assim pois o Homem É Assim.
Ao admitirmos que “o Homem é assim” e partirmos desta premissa, nada poderá mudar, pois é da natureza do Homem e o Homem não pode escapar a sua natureza.
Estar e Ser são dois palavras cujo significado são bastante diferentes em nossa língua. O Homem pode, de fato, estar contextualizado em um momento cultural que o torna incapaz de sequer questionar seu modus vivendi.
Parece-me, contudo, que há muita gente questionando tal forma de ver, fazer e impôr a realidade. No programa “Milenium”, da Globo News, aparecem bons exemplos disso - como Noam Chomsky, só para citar um.
O que estou questionando é justamente este construto social e esta “coisa” de achar que as coisas são como devem ser.
Bruno Accioly says:
Da mesma forma, não sei qual a real relação de causa e efeito entre a convergência e o tudo-pelo-lucro.
Digo isso pois a noção de Convergência é tão conveniente para a noção do tudo-pelo-lucro, que é profundamente suspeita.
Eu adoraria que a noção de Convergência fosse apenas a constatação de um fato tecnológico, mas parece-me mais uma justificativa mercadológica!
Afirmar que isso ou aquilo é natural é fácil, mas ver comerciais na TV pode ser muito educativo quanto ao que é natural e o que é anti-ético - e sobretudo quanto ao que é tolerável mas tem como consequência um construto social distópico.
Um comercial de TV que diz que o telefone tal é “fácil de usar”, por exemplo, acostuma o espectador a tolerar o absurdo de que haja telefones difíceis de usar, ao mesmo tempo que adestra-o a achar uma vantagem comprar um equipamento que, para início de conversa, devia ser fácil de usar como todo o resto dos equipamentos da mesma família.
A propaganda e a tecnologia andam de mãos dadas e a responsabilidade pela propaganda é da mesma instituição que projetou a tecnologia. Não se tratam de problemas separados, embora seja possível separar o problema em duas questões.
Não há nada de construtivo também em uma propaganda de TV que fala das vantagens tecnológicas, de usabilidade, de design e que afirma que, se você não se interessa por nada disso não precisa de celular pois “você deve ser uma chata”.
Encarar a totalidade do problema é uma boa forma de identificar o construto distópico que estamos deixando crescer no horizonte.
Eu poderia completar a metáfora falando de tsunamis e de quão destrutivo seria que esta suposta onda nos atingisse, mas me parece ainda mais complexo que isso.
Parece-me, de fato, que quando a onda chegar já vamos estar a tanto tempo debaixo d’água que sequer vamos perceber que já havíamos nos afogado há muito tempo.
Bruno Accioly says:
Pessoalmente, Amir, não sei quanto de dano já me foi impingido pelo construto social entorno.
Com isso quero dizer que realmente me questiono acerca do que você descreveu como “saber o que quer já há alguns anos”.
Não sou melhor nem pior que ninguém - ou ao menos essa é a teoria - e, provavel ou possivelmente, meus interesses, minha noção do que é melhor pra mim e mesmo as escolhas morais que faço, são tendenciosas em cima de premissas que sequer foram construídas ou identificadas por mim.
Compramos a nossa realidade na prateleira, de diversas formas somos forçados a comprá-la. Mas a responsabilidade pela compra é nossa - ainda que a culpa pelas coisas serem como são não seja.
A mera discussão entre duas ou quinze pessoas pode ser profundamente irrelevante se estamos trabalhando com um construto que nos mantém suficientemente afastados da natureza de um construto maior que de fato representaria a natureza do mundo a nossa volta e das coisas.
A enérgica e interessada troca de frases em uma discussão competente será sempre menor que um livro escrito ou que uma noção elaborada dentro de nossas cabeças.
A habilidade e o erro no meio da discussão, a má articulação de algo que tenhamos pensado, mas que não ficou bem ao traduzir no verbo, pode ser responsável - e quase sempre é - pelo não entendimento, mau entendimento ou total incompreensão do que foi dito.
Pessoas são dadas como perdedoras em discussões a todo minuto e, felizmente, não é assim que a coisa se dá conosco… entretanto, se nos ativermos apenas a discussão como mecanismo de mudança de opiniões vamos estar em maus lençóis.
Afirmo-o pois valorizo muito pouco a noção de opinião, a noção de conclusão e a noção de mudança.
Valorizo a multiplicidade de conclusões, dentro de mim mesmo, a despeito daquelas para as quais tenho mais inclinações e, de fato, acredito mesmo ser possível que o mundo esteja todo cor-de-rosa e que a simples menção de um problema possa ser somente uma forma viável de esquerda de ser o profeta do apocalipse.
É profundamente difícil gerar o questionamento em um meio onde as pessoas têm a certeza de tantas coisas - como qual é a natureza humana, se Deus existe ou não, se a religião é um troço legal, se a tecnologia é ruim e coisas do gênero.
A discussão pode se elevar muito quando se questiona não o “gostar” ou o “desgostar”, mas se a relação entre um objeto de estudo e o Homem pode ocasionar problemas e se estamos dispostos a arcar com tais consequências.
A aquisição e o armazenamento de informações é profundamente inócuo se a intenção é a mera mudança de opiniões, até porque de tudo que eu disse para você e você disse para mim, a parcela que foi de fato percebida, foi interpretada e depois digerida antes de ser armazenada e degradada pelo tempo.
A opinião reinante, as conclusões tiradas e a diferença que isto fez em suas posições duram até a próxima mudança.
Podería-se perguntar agora: “Mas péra aí! Você está dizendo que discutir é inviável? Que tirar conclusão não serve pra nada? Que mudar é bobagem?”
Não… isso é só uma das interpretações possíveis daquilo sobre o que estou de fato discorrendo.
Parece-me que, dadas as deficiências de discernimento Humano contextualizado neste momento histórico-cultural, uma nova forma de discernimento poderia auxiliar para que as consequências destas deficiências provocassem menos discórdia, intolerância e precipitação.
Uma grade de conclusões baseadas em premissas diversas e divergentes pode ser atingida por uma única pessoa, sem no entanto tirar-lhe o potencial para resolver problemas e tomar decisões utilitárias.
Há tanto para se conversar a este respeito e já o fizemos tanto… mas para um real comprometimento com uma diversidade cognitiva, com uma multiplicidade de cortes da realidade, há que se abrir mão de certos confortos, como o de estar certo, como o de apenas ser feliz, ou com o conforto de meramente gostar e desgostar. Há que se ter vontade de aprender mais esta forma de pensar.
Poderíamos simplesmente adotar uma forma levemente hedonista de lidar com livros, filmes, cultura, raças… e gostar ou desgostar das coisas, sem identificar aspectos pelos quais coisas das quais desgostamos possam ser boas e coisas das quais gostamos possam ser ruins.
Discordar ou concordar não é muito diferente de gostar ou desgostar, Amir, de gostar ou desgostar. Tratam-se apenas de mais conclusões baseadas em premissas e evidências.
E como todo matemático sabe - ou deveria saber - premissas verdadeiras também levam a conclusões falsas.
…ou por outra: “A mentira tolerável é aquela na qual você acredita”.
José Vasconcellos Dias Jr. says:
“…O próprio conceito de celular, em um futuro não muito distante, pode vir a ser risível…”
Don`t worry, my friend it already is!…
Na verdade o verdadeiro conceiro de celular foi tão vilipendiado pela necessidade fasista-empresarial de controle de pessoal que, alguém que não o use para trabalho, só tem duas opções, ou não tem idade para trabalhar, ou está desempregado e, no segunda caso, usa a pecinha eletrônica para arrumar um, enquanto pode pagar o cartão!…
“Comunicação, onde você estiver!” - Mas quem disse que isso é o melhor ou, ao menos, é bom??…
Eduardo says:
Daqui a pouco vagabundo cisma de meter um tamagotchi dentro de um celular e aí eu quero ver. A desgraça, ao meu porco ponto de vista, é a total conivência do cidadão comum ante essas ignorantes tentativas de se impor goela abaixo cada novo gizmo tido como revolucionário. Outrossim, impressionante como os celulares expõe o mau gosto alheio de forma cruel e escancarada. Ser elegante hoje em dia tá ficando brabo. Seria bom se tudo convergisse de verdade, mas aí pro celuleba da Sansunga falar com o Ruindowz e este com o Palm Zero e ainda com o relógio cuco da mamãe e o mesmo com o meu porta-Prozac automático e e ainda fazer baixar receitas da internet no terminal do refrigerador… bem, se isso tudo ainda funcionasse, mas no fim não passa de uma grande fábrica de bugs e impostos.
Bruno Accioly says:
Na verdade já existe um projeto para a nova geração de Tamagochis.
Trata-se de namoradas virtuais, geradas por computação gráfica e expostas pelo celular através de softwares desenvolvidos em Java.
É uma CONVERGÊNCIA entre The Sims e Tamagoshis, e o “usuário” tem de pagar uma taxa para a empresa que provê o serviço, tendo ainda que gerenciar o relacionamento.
Pois é…
Renata says:
Acho tendencioso ficarmos cada vez mais expostos aos fabricantes de tecnologia ultramodernas, seja ela qual for celulares, televisosres..etc….acreditoque num final não muito distante vamos ser cada vez mais controlados e sustentados por esse sistema.
elisangela says:
eu quero,ou melhor vou ganhar do meu pai um desse,novo sansunga vivo ao vivo e queria saber como ele e eo que pode fazer………. SO gud bai,ai ai ai ai!!!!!!!!!!!!.




concordo com vc tem muita coisa q a gente nem usa nos celulares, eu até hoje não vi nenhuma utilidade naquele “infravermelho” do 3320 da nokia sei q serve pra jogar o jogo da cobrinha contra outra pessoa hehehe. Mas é isso aí até mais