22 Janeiro 2005
“Mulheres Perfeitas”
Nicole Kidman, Matthew Broderick, Glenn Close, Christopher Walken, Betty Midler e Jon Lovitz embarcam em um magnífico projeto dirigido por Frank Oz, no qual a estética cinquentista se mistura ao mundo moderno para acusar-nos de uma ingenuidade moral indesculpável e perigosa.
Um elenco cheio de credibilidade, dando vida a um roteiro cáustico que fala em altos brados contra muitos aspectos da vida como a fizemos ser - é uma das formas pelas quais seria possível descrever esta refilmagem da qual poucos gostaram e que inicialmente seria dirigida por Tim Burton.
Frank Oz habilmente nos expõe ao protótipo de uma “sociedade bem ajustada” que é um belo exemplo do desajuste daquilo com que nos conformamos todos os dias, e já que achamos tão normal.
Assim como nos filmes de Monty Python, nos quais através do exagero o grupo tenta nos permitir uma jornada através do absurdo em que escolhemos viver, o roteiro é um modelo de desconstrução da realidade. Pelas mais incontáveis metáforas, o roteiro vai identificando como, pouco a pouco, a mulher tem sua auto-estima seqüestrada pela inverdade de sua hipotética inadequação.
O filme se preocupa em evidenciar, doa a quem doer, a robotização do indivíduo pela globalização do pensamento e da perpetuação de valores medíocres que garantam a estabilidade, uniformidade e uma perfeição de prateleira que passe por cima da vontade, da diversidade e até mesmo da sexualidade.
A sedução do hedonismo institucionalizado, do chauvinismo voluntário e da intolerância irredutível - ante a qual tantas obras nos alertaram que iríamos sosobrar - acabaram se transformando em alicerce inconspícuo sobre o qual construímos nosso modo de viver.
Sem nos dar trégua, “Mulheres Perfeitas” deixa claro que, ao acreditar que a superfície é tudo que existe; ao nos contentarmos com o que as coisas parecem ser e com a idéia rasa que fazemos delas; ao deixar de questionar o todo pelo todo e percebendo-o apenas como a soma de suas partes; pemitimo-nos aceitar as aparências em detrimento da riqueza de significado.
Stepford - a cidade fictícia em Connecticut - representa a vitória da forma sobre o conteúdo, quando sequer deveria haver a vitória de uma coisa sobre a outra.
Não precisa se tratar apenas de uma crítica social acerca de como evoluiu a sociedade americana, nem tampouco como o “homo-americanus” trata a mulher, mas sim uma alegoria que aponta para aquilo em que todos nos transformamos e nos recusamos a perceber.
Frank Oz consegue, sutilmente, sugerir que despertar do construto social hedonista em que vivemos, livrarmo-nos da mera satisfação e prazer que as coisas que construímos e das coisas em que acreditamos nos oferecem, é um processo individual de desapego, conscientização e tolerância. O resultado deste esforço não apenas nos liberta da prisão invisível que construímos, mas nos permite conhecer a nós mesmos.

Com uma linguagem de comédia leve, os atores desvelam uma história de resistência, cuja mensagem é pungente e atinge com toda sua força aquele que está pronto para identificá-la.
Abdicar de ver para além da superfície e da forma é optar por perder-se de si mesmo e de seu conteúdo. Favorecer o exame contínuo de nossas vidas no lugar de conformarmo-nos com uma perfeição forjada é escolher entre Ser ou Não Ser… e essa é a questão.
Stepford Wives . Site Oficial
IMDBs . Ficha do filme
Apple . Trailer do filme
AdoroCinema . Críticas desencontradas!
IMDB . O filme original, de 1975
AdoroCinema . O filme original, de 1975
IMDB . Monty Python
Mounty Python. Site oficial
Mounty Python . Site não oficial
CrisDias.com . Algo que vale a pena ler para completar…
8 Comments currently posted.
Cristiano Dias says:
Bruno Accioly says:
Eu tinha certeza que ia tentar uma saída como essa e, por isso, resolvi comprar o filme para poder emprestá-lo a você - e ficar cobrando que visse logo!
hehe
Estratégias…
: )
Nicole says:
Eu achei legalzinho, embora longe de ser genial. A premissa é boa, só que achei o filme um pouco cheio de clichês demais. Não vi o original também…
Bruno Accioly says:
Concordo plenamente que há muitos clichês no filme… só não concordo que há clichês demais.
Um dos maiores clichês sociais, presentes no mundo em que vivemos, é o chauvinismo.
A persistência do clichê faz parte da obra tanto quanto evidências fazem partes de um crime.
Podemos ignorar as evidências e, assim, não identificarmos um subtexto interessante - independente da intenção do autor - mas isso é escolha nossa.
Imagino que tenha percebido que, de fato, quando escrevo acerca de um filme escrevo sobre algo que vai muito além do filme, de sua mensagem ou de um dos inúmeros subtextos que identifiquei…
Há portanto um subtexto intencional no que escrevo aqui e, apesar dele, a leitura deste post te tocou como uma crítica acerca do filme apenas.
Não é erro seu! De forma alguma! Muito menos meu. O fato é que tendemos a interpretar o que experimentamos e nossa leitura de obras de arte – ou produção de subjetividade – por vezes, nos torna tendenciosos a uma interpretação única. Podemos ir adiante e cavar as camadas que podem estar abaixo dessa superfície, mas estaremos cavando dentro de nós mesmo, pois a obra é apenas o que é… e isso já é muito…
Aquilo que lemos já se encerra dentro de nós e toda interpretação adicional dessa leitura custa reflexão, flexibilidade e altruísmo para com aquilo que achamos certo e errado, para com nossos preconceitos, para com o que somos.
Sejam filmes, amigos, nuvens, povos, cores, culturas ou idéias, a noção que fazemos das coisas é muito mais nossa que o verdadeiro significado das coisas. Tomando uma montanha e um quadro, ambos os “eventos” são imponderáveis em sua essência, dada impossibilidade de desvendar os processos envolvidos em sua criação.
Ler numa montanha um significado, a despeito de Deus ou da Natureza terem sido seus autores… a despeito mesmo de ninguém poder ser chamado de autor é belíssimo.
Mas mais belo ainda é, após identificar tal significado, não parar e continuar refletindo acerca de novos significados, não se acomodando com as próprias conclusões… acerca de montanhas, gêneros, povos e idéias…
O exercício de não se acomodar com o que se pensa, enfim, mesmo que se refira a um mero filme ou uma simples flor, é o exercício da tolerância e da identificação de mérito. A conclusão e o determinismo posterior a ela são inebriantes e auto-indulgentes… é o caso de perguntar-se se é o que se deseja ser ou não.
Izabel says:
Vi esse filme outro dia. Não sei bem o que pensar dele: é leve, e ao mesmo tempo pesado. É engraçado e ao mesmo tempo extremamente triste. Tem um elenco impecável (adoro todos eles) e uma estória plausível que te faz pensar em “e se”, mas com uma forma de ser que a gente até pensa não ser viável. Claro que o final é previsível, ao menos para mim, mas em algum momento alguém achou que o mundo perfeito seria realmente “perfeito” nos moldes que nos impelem? Pensou sim, e parece que até a realidade já está caminhando para isso… A adequação DEVERIA ser natural, ou não. Mas nos é imposta em todos os dias e todos os níveis da nossa vida cotidiana. Sempre. E daí pra pior: vacas de presépio, gramando.
Amir Samary says:
Stepford =~ Step Foward…
Luiz says:
Esse filme, como cinema, é uma bomba! Como todos aqueles atores conceituados embarcaram nessa furada? Deve ser por amizade ao diretor Frank Oz, só pode. A história começa interessante, mas descamba prá uma total falta de nexo com o seu início. A maior furada do roteiro é: se as mulheres não eram robôs, já que apenas era implantado o chip no seu cérebro, como podiam soltar faíscas, soltar dinheiro pela boca e não sentir o fogo queimando a pele? Acho que houve dois roteiristas prá esse filme. E o roteirista do final não leu o início, total é a falta de nexo. Quando à mensagem que guerra dos sexos, e chauvinismo…nada mais desapropriado e ultrapassado. Quando foi filmado o original -1975- até seria coerente a mensagem. Mas hoje em dia nem as mulheres levam isso a sério.
Bruno Accioly says:
Acho muito curioso em quanto as pessoas podem ser deterministas e impor às coisas adjetivos tão definitivos.
Ok, Luis… : ) Retiro o que disse, o filme é uma porcaria e quem achou bom não sabe de nada! Mais que isso, como você afirmou tão sabiamente, o machismo acabou. Não existe mais.
Espero agora que o resto da população do planeta passe a pensar da mesma forma que nós, aqueles que detém a única visão correta em cima da realidade.
O surrealismo cômico de “Mulheres Perfeitas”, como você diz, não faz o menor sentido… digo mais. Todo mensagens, em filmes, tem de ser objetivas. Ser subjetivo é uma bobagem.
Diria ainda que Tim Burton é um outro sujeito que tem dessas tendências perniciosas também. Vide “Peixe Grande”, um filme estúpido que só conta mentira de cima a baixo.
Opa… saiu o coágulo do cérebro.
Sinceramente, nem tudo tem de ser literal, esquemático e, muito menos, ser absolutamente bom ou ruim.
Quanto ao chauvinismo ser um conceito ultrapassado, nem sei o que dizer, cara.
Ainda mais no mundo de hoje, onde ainda há diferença salarial entre os sexos em vários níveis da sociedade; onde a imagem da mulher é vendida sem pudor algum; onde o canal Sony faz vinheta de seriado que canta: “tem umas gatinhas bem gostosas”.
O simples fato de, nesta conjuntura, ter gente que nem divisa o machismo na estrutura social é sintomático pacas.
Pergunte para a mulher mais próxima se elas acham que a questão “Machismo” é ultrapassada.
Preste atenção como são tratadas as mulheres em qualquer boate, praia ou no emprego.
“Mulheres Perfeitas”, como qualquer filme, está sujeito a apreciação pública. Alguns vão gostar, outros não vão gostar… outros vão fazer análises mais profundas, favoráveis ou não.
Mas estabelecer o que o filme “é” sem deixar claro que se trata de uma mera opinião é de um Chauvinismo em si mesmo.
(Chauvinismo: entusiasmo INTRANSIGENTE por uma causa, atitude ou grupo)
Recomendo que faça uma breve pesquisa, nem que seja no Google, para abrir os olhos para a realidade que é obvia para tantos e, a partir daí, identificar em quanto o assunto Chauvinismo - enquanto expressão do Machismo - não está ultrapassado.
Um link de exemplo é o disponibilizado pelo Núcleo de Opinião Pública, da Fundação Perseu Abramo:
A mulher brasileira nos espaços público e privado
http://www.fpa.org.br/nop/nop.htm
Vale também ver o comentário acerca do estudo feito pela ONU acerca da violência contra a mulher: http://an.uol.com.br/1998/jul/22/0opi.htm
O filme de Frank Oz é uma alegoria acerca do tratamento dispensado à mulher em nossa sociedade, questão social esta que jamais foi resolvida. O absurdo das cenas serve justamente para apontar que o assunto do filme não reside apenas no diálogo dos personagens ou na história que parece estar sendo contada. Há indícios do início ao fim do filme que ele está falando de algo mais profundo que o que pode parecer óbvio na tela.
Como eu disse ao fim do post, e só pra lembrar:
“Abdicar de ver para além da superfície e da forma é optar por perder-se de si mesmo e de seu conteúdo. Favorecer o exame contínuo de nossas vidas no lugar de conformarmo-nos com uma perfeição forjada é escolher entre Ser ou Não Ser… e essa é a questão.”




São Movielens falou que eu não ia gostar desse filme. E a crítica disse que a versão original era melhor, como a crítica adora dizer. “Se é velho é melhor.”
Então um dia eu vejo esse filme, mas antes tenho uns 340 na frente.