14 Fevereiro 2005
“A Vila”
Subestimado e incompreendido, “A Vila” faz juz a genialidade de M.Night Shyamalan, se apresentando aos espectadores como mero suspense, pungente crítica política ou denúncia da arrogência humana…
…e por aí eu seguiria sem parar, em minha análise tardia – já que não vi o filme no cinema.
E cá estou eu, mais uma vez, defendendo como interessante algo de que pouca gente de fato gostou.
Para quem ainda não entendeu, acho bastante irrelevante se alguém gosta ou não de uma obra - ao menos do ponto de vista da obra. A obra está lá e só vamos aprender alguma coisa com ela se pudermos, quisermos e nos dispusermos a isso. Se ninguém colocar os olhos sobre a obra ainda assim ela existirá.
Deste ponto de vista a obra é quase um acidente geográfico… Olhamos para um afloramento rochoso de dois metros de altura sozinho numa clareira, com árvores a toda sua volta e, de repente, vemos apenas um afloramento rochoso de dois metros de altura sozinho numa clareira, com árvores a toda sua volta.
Um geólogo talvez visse ali algo mais que isso; um físico, por outro lado, talvez interpretasse aquilo de uma forma diferente; um poeta talvez fizesse analogia disso com a solidão do homem; um ufólogo poderia ver ali a possibilidade de intervenção alienígena; e um antropólogo, quem sabe, poderia traçar um paralelo entre a formação e Stonehenge.
Em “A Vila”, Shyamalan conserva seu gosto pela sensação de iminência de desastre, nos deixando sempre a espera de mais uma evidência criptica do que vem a seguir, em nome da história mais rasa, e do significado inconspícuo – fortuito ou não – que cada uma destas evidências de fato guardam.
O filme me pareceu ter sido vendido como filme de terror, à época, e aí está a beleza de pegar o filme em DVD sem sequer ler sinopse – prática que eu sugiro para quem nunca o fez.
Parece-me que alguns autores são refratários a trailers e sinopses. Quase todo filme de Shyamalan acaba sendo vendido de forma a criar expectativas completamente descabidas, o que aconteceu com “Sinais” e com “Corpo Fechado”, por exemplo.
Ver chamadas, na TV ou no Cinema, de filmes de autores como Lars Von Trier – de “Dogville”; ou Charlie Kaufman – de “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, por exemplo, tem se mostrado uma tarefa impossível para quem ganha a bolada de marketing destes filmes.
Sequer esbarrando nas “sagradas” intenções do autor – e sem querer contar nada do filme – vale ver o filme como algo mais que um brinquedo, como algo feito para meramente entreter o espectador e dar a chance para o filme colocar a velha massa cinzenta para funcionar.
“A Vila” é um filme rico em interpretações que vão além da leitura rasa do que se passa na tela, fornecendo uma redução conveniente, que ajuda a explicar a forma pela qual o cidadão é manipulado na sociedade; que nos permite traduzi-lo numa constatação da condição humana, de levar seus problemas para onde vão, independente de sua intenções; ou mesmo para justificar a estupidez e inépcia do poder público, identificando conseqüências de sua atitude e suas mentiras.
O filme coloca diante do expectador – através de arquétipos bem definidos, ameaças iminentes e mentiras bem intencionadas – um quadro profundamente semelhante àquele que vemos todos os dias…
…A estrada para o inferno é pavimentada de boas – e más – intenções.

The Village . Site oficial (Inglês)
CrisDias.com . Estratégia Política e Ignorância (Ótimo!)
AdoroCinema . Sobre o filme
AdoroCinema . Críticas desencontradas
Cocadaboa . Onda de revolta
RottenTomatoes . Críticas (Inglês)
Apple.com . Trailer do filme (Inglês)
12 Comments currently posted.
miru says:
Izabel says:
Vi esse filme outro dia, acho que na quarta feira de cinzas… Bem, a despeito do que todos possam ter achado, eu gostei. Tomei alguns sustinhos, mas o suspense foi bom. Sei lá, ultimamente, acho que “tenho gostado de coisas demais”…
José Vasconcellos Dias Jr. says:
Achei o filme delicioso!
O suspense das imagens, a trama, os motivos da trama e a maneira como ela consegue se perpetuar dentro do universo do filme, tudo é bastante bem engendrado. É um filme que tem o que dizer. Nas ações e reações naquilo que buscam dos personagens.
Mas as cenas, necessariamente mudas ou “pouco sonoras”, são para se deliciar!
O “papai Robson” e a “mamãe alien”, têm personagens muuuiito doentes, ao menos para mim, muuuiito doentes! Mas há quem discorde, não há?!
Fernanda Rena says:
Amei esse filme.
José Vasconcellos Dias Jr. says:
Miru,
sugiro que assista as matérias do canal sony sobre esse ou aquele filme. Depois de ver uma ou duas matérias e ler as “entre linhas” dos textos dos artistas, é fácil saber o que esperar de um filme. Quer um exemplo?
Gardner, a “feia-gostosona” de Elektra (prestem atenção a alguns closes sela em ALIAS), em uma entrevista disse que algumas de suas amigas diziam que eram o que eram porque tinha lido Elektra, assassina quando eram mais jovens…
Huuummm! Sei lá, mas você viu no que deu????? Ao menos, até agora, não consegui uma pessoa que não tivesse uma palavra de baixo calão para definir o dito “gerador de personalidades femininas”.
Lêmure says:
O filme é bem montado, como todos que o indiano já dirigiu, mas a história é bem manjada. Platão, no conto “A caverna”, fala da mesma coisa e os irmãos Wachowski, em Matrix, também falaram sobre o mesmo tema.
José Vasconcellos Dias Jr says:
Pois é Lêmure!… “Na natureza nada se cria…”, mas isso vem muito bem para ilustrar o texto “SINTOMAS”, não é???
Bruno Accioly says:
Olha… de fato, a alegoria da Caverna, de Platão, sob diversos aspectos se encaixa muito bem na história.
Na verdade, “A Rosa Púrpura do Cairo” também. Muitos filmes e livros esbarram na alegoria da Caverna em algum momento.
Mas não vejo nenhum motivo para não contar a história novamente. “Matrix” pode ser comparado com “O Processo”, por exemplo, e isto não tira o mérito de “Matrix”.
Não entendo bem o problema de alguém repitir uma parábola de fundo, sobretudo quando o faz tão bem.
Se fosse assim seria um absurdo que um cantor cantasse a música que já foi cantada por outra pessoa… e veja que existem diferenças enormes entre “Matrix”, “O Processo” e “A Vila”, para além da parábola que você tão bem identificou ali.
É ruim contar o Livro VII de “A República” de uma forma mais moderna? É realmente prejudicial ou pouco original?
Sinceramente não me parece. Mais que isso… conheço pouca gente que tenha lido “A República” e muita gente que tenha visto “Matrix”. Sob este aspecto, me parece até importante perpetuar a fábula dentro de filmes com uma temática moderna.
Em uma crítica que vi sobre “A Vila”, um sujeito mencionava que o filme era plágio de um trecho de “Peixe Grande” - aquele onde McGregor encontrar uma cidade dentro de um bosque e tal.
Há semelhanças, mas as leituras de “A República” e de “Peixe Grande” são potencialmente bem divergentes.
Apreciar a montagem em detrimento do roteiro por entendê-lo como manjado me parece um tanto injusto, sobretudo porque o “já entendi”, vicia a percepção da obra e não te permite analisar sequer outros aspectos da alegoria da Caverna, de Platão.
Portanto, sequer acho que ilustra bem “Sintomas”. Uma obra não precisa ser original para ter valor intrínseco.
Mais que isso, o que venho tentando dizer é que o hábito de gostar e não gostar é irrelevante e que a segunda árvore que se vê na floresta não é menos magnífica diante do fato de que já se viu a primeira.
José Vasconcellos Dias Jr says:
É isso aí!…
Gostei da alegoria da segunda árvore, muitas vezes ela pode ser bem mais velha e frondosa que a primeira, não é?!?
Também não vejo (e acho que nunca verei) motivos para que uma estória não seja recontada. É sempre uma boa chance de se entender algo mais, se não com a dita estória talvez com os comentários a respeito.
Então, “na natureza nada se cria”… Talvez, ainda bem!
Carol says:
Acho que tá na hora de postar sobre outro filme. Uma sugestão (aposto que você nem imaginava qual seria!!!): “Efeito Borboleta”. Rs. Bjks
viviam says:
meu amei seu comentario e acho o filme matrix otimo ele nos liberta e faz vermos a realidade igual ao mito da caverna de platao.
valeu prazer te conher
Leila says:
eu adoro filmes de terror não tenho preferencia de nenhum mais tem que ser bom e bem assustador para me satisfazer!!!




Faz bastante tempo que não leio sinopses…nem críticas antes de ver um filme. Faço isso depois
Bem, na maioria das vezes, claro. Não consigo em todas!