BrunoAccioly

22 Fevereiro 2005

Sintomas…

Piada ou não, não há nada mais eloqüente do que a realidade.

A importância atribuída à valores morais, espirituais, artísticos e humanos, pelo Homem de hoje, está profunda e talvez irremediavelmente comprometido.

E, se é discutível que tal comprometimento seja irremediável, é dificilmente contestável que tal comprometimento seja profundo.

Conheço pouca gente que se preocupe com tais problemas no dia-a-dia. Na maior parte dos casos as pessoas acham até muito chato pensar a respeito dessas coisas, não dominam o jargão nem o ferramental para discutí-las e, muitas vezes, acham até que a visão de que há um problema não seja nada mais que pessimismo.

Qualquer um, contudo, está fadado a sofrer as conseqüências da existência de tais problemas, ainda que não relacione cada uma destas questões às suas causas menos óbvias.

Saindo um pouco do campo da abstração, no dia-a-dia alguns pais não sabem lidar com crianças nunca antes tão rebeldes; a todo momento ouvimos na TV que algum país foi bombardeado por motivos que de fato jamais foram comprovados; volta e meia escutamos que pessoas em outro país comem carne do melhor amigo do Homem; repetidamente percebemos os meios de comunicação perpetuando um modelo de beleza tão determinista quanto irreal; e, não raro, a comercialização de práticas cirúrgicas como se fossem meros serviços.

Além de se tratar de questões do dia-a-dia, tais situações não só jamais foram resolvidas como vêm se agravando. Uma idéia comum – nos meios acadêmicos relacionados com o questionamento moral – é que tais questões podem ter raízes em um problema comum, ou em um conjunto de problemas comuns.

Não, não se está dizendo por aí que se trata de uma conspiração governamental ou uma dissimulada estratégia de um governo invisível – ou por outra até se está dizendo isso em alguns círculos, mas não tanto nos meios acadêmicos.

Uma das idéias mais comuns – já há muito tempo – em Filosofia, Antropologia e Sociologia, é a de que há uma inclinação natural para o movimento social observado em nossa civilização, diante do conjunto de escolhas morais e suas inter-relações desde, digamos, o século XVI.

Pode parecer muito estranho que exista um motivo comum para a “má-criação” das crianças de hoje e as características freqüentes em todas as modelos nas capas de revistas femininas. Mas, como sustento aqui, é justamente isso que o pessoal das tais Ciências Humanas vêm comentando.

Já mencionei que minha preocupação é muito menos se as coisas poderiam ser piores e muito mais se as coisas poderiam ser melhores. Seja como for, ao que parece, a maior parte das pessoas que conheço estão bastante mais satisfeitas que eu com seu entorno.

Temos, entretanto, de lembrar que, à época da ditadura, aqueles que discordavam do sistema e que eram exilados ou até mortos – sim, aquela gente que protagonizava o “Anos Rebeldes” – eram a minoria, eram considerados maus meninos por seus pais e pelos vizinhos, e sobretudo eram chamados, pelo governo, de terroristas.

Isso coloca em perspectiva gente maluca como eu, que parece estar gritando para todo mundo ouvir que “o fim está próximo”, que “não está bom do jeito que está” ou que “alguma coisa está fora da ordem”.

Vem sendo dito por esse pessoal - que se formou em cadeiras chatas e aparentemente desnecessárias como a Filosofia, Sociologia, Antropologia e História - que um dos motivos das nossas mais alarmantes e meramente desconfortáveis questões sociais, é justamente aquilo que vem nos proporcionando mais conforto: a Tecnologia.

Antes de concordar ou discordar da proposição, é bom entendermos como é que essa gente esquisita discute questões morais e como identificam as causas de conseqüências como as descritas mais acima neste texto. Eles se questionam o tempo todo, usando sim métodos e premissas mais ou menos fixas, mas nunca conseguindo livrar-se do fato de que, em Ciências Humanas, o número de variáveis é muito maior que o presente nas mais complexas equações matemáticas.

Segundo eles, o conforto proporcionado pela tecnologia, embora valoroso e logicamente muito conveniente, tem conseqüências sérias e que tendem a perpetuar a si mesmas.

Não se trata de parar de ler esse texto e ir quebrar o aparelho de DVD mais próximo ou ser um ativista “anti-ar-condicionados”, mas sim de se recostar e continuar lendo e questionando tudo o que está escrito, tendo em mente que temos a conveniente tendência de concordarmos com nossas próprias opiniões.

Em dado momento, o que hoje chamamos de Tecnologia não era senão o estudo da técnica ou um reduzido conjunto de técnicas. O impacto desta panacéia – deste “remédio para todos os males” – era então bem menor que aquele empreendido nos últimos séculos, em que este conjunto de técnicas se tornou tão colossal.

Hoje muitos dos frutos da Tecnologia só podem existir graças a terem envolvido um conjunto de técnicas vertiginoso, um grupo de pessoas enorme e uma movimentação econômica descomunal. Não seríamos capazes de construir sozinhos, ou com a ajuda de todo o pessoal do condomínio, um alto percentual dos aparelhos e até dos móveis que temos em casa.

Sem as incontáveis linhas de montagem que nos proporcionam todo nosso conforto, talvez sequer conseguiríamos sobreviver. Afinal, não sabemos mais construir o que nos oferece o parâmetro de conforto ao qual nos acostumamos; na verdade nem mesmo nos lembramo o que outrora se sabia acerca de como conseguir sobreviver sem esse conforto todo.

O conforto é uma coisa perigosa… por mais abrasivo que seja o mundo a nossa volta, por mais que o ar condicionado, o ventilador, o aquecedor ou o automóvel nos protejam da realidade, proteger-se da realidade é - sob muitos aspectos - se afastar dela.

De diversas formas, afastar-se da realidade através da Tecnologia - a qual se tem acesso graças a quantidade de dinheiro que se tem - é se distanciar da realidade de que não são 170 milhões de brasileiros que tem acesso a mesma Tecnologia… muito menos as 6 bilhões de pessoas do planeta.

“Mas vamos lá” - diriam alguns colegas meus - “De novo, sem demagogia!”.

E ainda assim, o conforto é uma coisa perigosa… André Gregory conta que sua mãe conhecia uma das mulheres mais ricas do mundo, uma tal Lady Hatfield, que não gostava de nada além de frango. Por puro conforto ela passou, portanto, a comer apenas frango. Pois bem, segundo André Gregory ela morreu de inanição graças ao fato de, embora seu corpo estar faminto por nutrientes, ela estar ocupada demais sendo feliz ao comer apenas frango.

Verdade ou não, é uma bela alegoria da questão levantada por esses acadêmicos.

A Tecnologia vêm nos oferecendo cada vez mais, cada vez com mais eficiência e, no processo, influenciando nossos valores e o valor que damos para as coisas. Não precisamos ouvir música ao vivo, basta tocar um mp3; não precisamos de frutas para fazer um suco, basta comprar de caixinha; não precisamos ler livros, basta ler o resumo na internet; não precisamos questionar a existência ou não de um Deus, basta escolher se vai acreditar ou não.

Os valores que fomos adquirindo, graças a nos acostumarmos com o conforto que pode ser proporcionado pela Tecnologia e suas conseqüências, nos fez perverter nossos valores para uma condição de viver para o prazer, viver para conseguir mais conforto, viver para adquirir mais Tecnologia.

Valores outrora promovidos pela Igreja Católica e diversas outras religiões do mundo foram sendo convenientemente chamados de radicais e colocados em segundo plano. A moral secular - aquela passada de pais não religiosos para seus filhos - sofreu da mesma forma, tendo de se adaptar aos novos tempos.

A Ciência não só havia dado a luz à grande parte do que hoje entendemos por Tecnologia, mas se emparelhava com os novos valores orientados à eficiência e a noção cartesiana de que a soma das Partes é Igual ao Todo. A escolha mais natural estava feita para a civilização, cada vez mais globalizada através da Tecnologia da Comunicação de Massa: o “Cânone Científico”.

Diferente do exercício da Filosofia – responsável por seu nascimento e pelo nascimento de diversas outras escolas filosóficas – a Ciência era capaz de observar o Universo através de uma janela mais estreita, construída a partir de “materiais” mas palpáveis e de mais fácil compreensão… dando ao Homem a idéia de que ele só precisava acreditar na existência do que era detectável e quantificável, sem sequer ter de ponderar para além do que havia sido decidido que não existia ou que provavelmente não existia.

Uma visão dura acerca da Ciência? Uma visão falaciosa da Tecnologia? Talvez… mas ainda assim um conjunto de questionamentos que vêm cozinhando há muito tempo nos meios acadêmicos.

Não se trata de achar que a Ciência e a Tecnologia são nocivas e devem ser esquecidas, mas de perceber que ferramentas devem ser usadas de acordo com os requisitos do trabalho a ser empreendido. E é trabalho tanto da Comunidade Científica quanto de outras instituições, descobrir os limites da Ciência.

É preciso pensar sobretudo, acerca das questões morais, éticas e dos impactos sociais impostos pelos caminhos oferecidos e empreendidos pela Tecnologia.

O que está sendo apontado, afinal, é que o Homem descobriu ter um problema hormonal e que esta é a causa de sua obesidade. O que ele faz? Uma operação de estômago, resolvendo assim sua obesidade e permanecendo com o problema hormonal, cujas repercussões são menos óbvias, mas persistem.

Será este o mundo que queremos para nós?

Ao longo de todo o texto, Jessica Rabbit, atraente e sensual, acompanhou a sua leitura, entretanto sua presença fez pouco mais que desviar sua atenção e até confundí-lo um pouco. Quem viu um sentido, parabéns. Até o momento eu não havia pensado nisso.

Ela bem poderia, contudo, ser uma alegoria do conforto que a Tecnologia nos oferece, a despeito de ser pouco mais que um reflexo da imaginação humana e guardar menos relação do que se pode imaginar, com o que está a sua volta. Em suma… um mero sintoma.

Dito isso, quem chegou até aqui talvez tenha percebido que o escrevi de forma mais coloquial que de costume, concentrando-me em prender mais a atenção do leitor médio e convidando-o muito mais a entender cada um dos parágrafos, sem a necessidade de refletir muito acerca deles, ainda que se trate de um assunto difícil e controverso.

No meu entender, um texto é um texto tanto quanto um quadro é um quadro, e há obras que atendem a uma quantidade maior de pessoas e outras que afugentam àqueles que procuram o que é mais óbvio e mais fácil.

Meu texto tem propostas intrínsecas a serem identificadas ou ignoradas, a meu ver, o rebuscar das palavras enriquece a cultura do leitor, pede maior reflexão no durar da leitura e faz uso de palavras que condensam conceitos sofisticados que merecem a pesquisa individual.

Venho até sendo criticado por algumas pessoas pela forma que dou ao meu discurso e , embora até tenha muito a dizer acerca do assunto, creio que os parágrafos acima dizem tudo:

Parece-me que querer o caminho mais fácil e mais confortável pode ser parte do problema…

…e não parte da solução.

3 Comments currently posted.

José Vasconcellos Dias Jr says:

É meu caro! Bem vindo ao grupo que se preocupa com isso, mas tenho o dever de, como antigo integrante dessa pequena casta, avisá~lo que essa preocupação é antiga, muito antiga, basta lembrar que um dos pecados capitais é… A preguiça!
Na época desses “pecados” não seria muito inteligente dizer algo como “cuidado com a tecnologia” ou “usem mais os seus músculos”.
Mas não indo longe, é por aí!
A deliciosa Jessica bem vem para mostrar um dos muitos lados pouco vistos daquele tal “pecado” capital que falei antes, a “preguiça” em se envolver com uma mulher de verdade (no exemplo da sra. Rabbit) ou um outro ser humano acompanhado de todos os seus defeitos e suas virtudes, mas daí já vira outro papo embora pela mesma linha!

Bruno Accioly says:

A preocupação é tão antiga quanto é antiga a alegoria da Caverna, de Platão, José… entretanto não me furto - mesmo sabendo disso - de trazer a baila a questão.

Creio, inclusive, que minha resposta ao seu comentário vale para o que foi dito nos comentários acerca de “A Vila”.

O subtexto, por exemplo, identificado por você na figura da Jessica, não foi intenção minha e é apenas uma das leituras das quais você é capaz - a não ser que já tenha estabelecido uma relação afetiva com esta elegante explicação.

O próprio entendimento do texto, por parte de cada leitor, passa pelo filtro de seus valores individuais, o que perverte o conteúdo, interfere no entendimento e inclina tal entendimento para onde o vento da razão lhe permitir.

Da mesma forma que a preguiça de ler textos longos e rebuscados existe, a preguiça em identificar originalidade onde aparentemente não há é uma forma de comodismo.

É importante, inclusive, lembrar que, apesar de minha preocupação, o entendimento que tenho da questão pode ser meramente alarmista… pode ser apenas uma teoria imprecisa acerca da realidade.

Lazaro says:

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