4 Março 2005
“Poema em Linha Reta”
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Fernando Pessoa
(Poesias de Álvaro de Campos)
Projeto Releituras
Projeto Releituras . “Poema em Linha Reta”
Jornal de Poesias . Fernando Pessoa
Instituto Camões . Fernando Pessoa
Fernando Pessoa . Obra Poética
Pessoa Revisitado . Textos e Poesias
Casa Fernando Pessoa . Espaço Cultural
Comments are locked.
Leonel Teixeira says:
Fernanda Rena says:
Sempre me emociono quando leio isso. É meu preferido, de todos os poemas do mundo.
José Vasconcellos Dias Jr says:
Muito prazer, Leonel. Meu nome é José Vasconcellos ![]()
A primeira vez que li esse texto, décadas atrás, realmente levei uma porrada, um soco na boca do estômago do orgulho juvenil que, por pura sorte, passava por um lapso de reflexão. Dei sorte, coincidiu (ô palavrinha vil!) e ficou bem difícil encarar a “empáfia genética” da nossa espécie por algum tempo, mas só o tempo suficiente para redescobrir o humor e encarar esse defeito genético que a grande maioria de nós tem como um exemplo de desenvoltura no picadeiro.
Mas, como bem sabe o Bruno, em relação à nós eu ainda sou “aquele que espera que lhe abram a porta, ao pé de uma parede sem portas”, embora “sejam todos uns príncipes”.
PS.: A propósito, já levei porrada sim! E olha que doeu, viu?! Mas não quebrou!
José Vasconcellos Dias Jr. says:
“tia” Fernanda Rena, que tal a “porrada” de ter um sobrinho?
De algum jeito muito legal mexe com a gente, não é?!
Ainda não?!…
Então aguarde, aguarde!
Vivien says:
Li quando era adolescente e fiquei feliz, por não ser a única a me sentir assim…rs…ando frequentando seu blog, gosto dos textos.
Fernanda Rena says:
Zé, além de sobrinha, é minha afilhada, tá? Desculpa aer : )
Eu já sou a tia e madrinha mais babona do universo. E isso é só o começo.
Melindra says:
Parece que eu li no momento certo para mim.
Cilene e Sérgio says:
Lindo texto!
Sincero e profundo!




Nunca conheci ninguém que tivesse levado porrada