BrunoAccioly

25 Julho 2005

“Guerra dos Mundos”

Uma raça alienígena enterrara há muito, debaixo de nossos pés, os alicerces para seu plano de ocupação global, chacina, escravidão, transformação e obtenção da paz em seus termos.

Mais de sessenta anos se passaram desde que um prodígio do rádio, Orson Welles, assustou um considerável número de cidadãos americanos, ao adaptar e narrar a invasão descrita por H.G.Wells.

Em 1953, uma adaptação para o cinema viria a fazer grande sucesso, ainda que Welles tivesse se negado a evolver-se, em qualquer nível, no projeto.

Stephen Spielberg, possuidor de uma das raras cópias do manuscrito, usado por Welles, para sua transmissão de rádio em 1938, fez questão de que Morgan Freeman lê-se uma versão, o mais próxima possível, do texto de abertura e fechamento extraído do original.

“Guerra dos Mundos” tem um texto conhecido, que alguns podem até achar desgastado… como os leitores do 5arcasmos |v|últiplos já devem ter entendido, eu não só discordo como igualmente não acho que “Alice no País das Maravilhas”, “O Mágico de Oz” ou “O Pássaro Azul” estejam desgastados.

O frescor com que a obra, já tão conhecida por mim, foi percebida e interpretada, me fez muito feliz. No fim, é maravilhoso como, independente de efeitos especiais excessívos, ausência de necessidade de grandes interpretações e de uma indústria orientada à mera diversão, ainda é possível embutir significado em obras cinematográficas.

Seja ou não intenção de Spielberg, o filme que vi foi muito maior que a clássica história para qual sempre dei uma interpretação tão literal. Uma sinópse, por exemplo, descreve: “um devastador ataque alienígena à Terra faz com que um pai tente proteger seus filhos, com quem não tem uma grande ligação”.

Minha leitura do filme é uma teoria… independe das intenções do autor original ou de quaisquer adaptações posteriores. é parte da minha teoria de que arte, produção de subjetividade e expressão cultural tem significados intrínsecos muito maiores - e isso me permite uma deliciosa denúncia do que, para tantos de nós, é tão óbvio.

Se você quiser continuar lendo agora, basta clicar no link abaixo, do contrário, veja o filme e, depois, dê uma lida - só pra matar a curiosidade.

Clique aqui para continuar a leitura…



Pax Marciana

Sem aviso, mas premeditadamente, raios que jamais cairam duas vezes no mesmo lugar começam a fazê-lo… coincidências que não mais podiam ser consideradas coincidências passam a ser parte do dia-a-dia e, em pouco tempo, a verdade vem à tona na forma de monstros tecnológicos. Manifestações de um poder supremo sem igual em parte alguma

Impávidos, os monstros quixotescos, nada parecidos com moinhos, mostraram a que vieram e que, apesar de toda crença reinante, nunca estivemos seguros. O inimigo - muito mais esperto - deixou que construíssemos nossos sonhos tendo nas fundações o instrumento de nossa destruição.

Libertos e descobertos, as monstruosidades destroem o homem e suas construções, sem motivo aparente ou propósito identificável, não fazendo distinção de nenhum tipo e exterminando só o suficiente para tornar claro que se trata de um poder absoluto.

Estabelecida a hegemonia, definida a superioridade daqueles instrumentos da destruição, começa a caça e nada fica no caminho das criaturas, que fazem a colheita. O Homem, assustado, sequer tenta revidar.

Só então começa a ficar claro porque as criaturas evitam matar os sobreviventes… fica claro que as criaturas buscam a essência da vida humana em toda sua diversidade para criar um simulacro de vida… uma abominação.

A tecnologia busca o sangue do Homem para tornar todos os Homens iguais, para totalitarizar a vida do Homem, para Globalizar o Ser, fazendo com que todos sejamos não mais que vegetais, dos quais, da criatura original, só sobraria a cor.

A “Pax Marciana” - a paz segundo os termos destes alienígenas - não é nada menos que a perda da dimensão do humano, é a perversão do Homem até transformá-lo em vegetal, é conseguir reduzir uma civilização cheia de diversidade em uma papa disforme e globalizada… nomalizada… normatizada.

Creio que me fiz entender… e esta fábula está não só no filme de Spielberg, mas no de Byron Haskin - de 1953 -, no texto de Welles e no original de H.G.Wells.

Mas em todas as adaptações da obra há uma visão de esperança, pois é diante do sangue do próprio Homem e diante da própria Natureza - da qual ele faz parte - que a abominação cai de joelhos.

A diversidade inerente ao Homem e seu entorno terminam por deter o crescimento do devir de normatização imposta pelo inimigo. Mesmo com todo seu poder de destruição, a natureza intrínseca do projeto totalitário não se sustenta em si mesma… e a vida acha sempre uma saída.

“Guerra dos Mundos” é uma história de esperança, de coragem e que mostra valer a pena dar o melhor de si em nome do bem comum, enquanto o pior passa e é combatido por aqueles que se propõe a tanto.

Ray Ferrier - vivido por Tom Cruise - é um homem normal. Embora não tenha força para combater a invasão como um todo, faz a sua parte - em nome do bem dos seus, sim - mas com a têmpera de um herói viável, com a têmpera que um indivíduo ordinário pode demonstrar em situações extraordinárias.

One Comment currently posted.

Luana Vianna says:

Como já haviamos conversado, concordo que a mensagem é muito rica e que os efeitos especiais também me deixaram enlouquecida!! Mas continuo achando que poderia ter sido melhor! Detalhes, pequenos detalhes fariam a diferença p/ mim.
Grande bj…
Luana.

Post a comment on this entry: