BrunoAccioly

26 Julho 2005

Síndrome de Gabriela

“Eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo assim… vou ser sempre assim!”, é dos mantras mais cotidianamente entoados nos dias de hoje - de uma forma ou de outra - mas qual a moral da história?

A moral da história? Ninguém mais sabe!

Perdeu-se a noção do que é Moral, Moralidade, Moralismo e, sobretudo, do que e Questionamento Moral. E isto vem ocorrendo há muito tempo.

Não é difícil sustentar, inclusive, que estas noções, em nenhum momento, foram lá tão conhecidas. Talvez, entre o século XVIII e XIX, com sorte, a elite cultural e econômica da sociedade ocidental - e alguns acadêmicos da área de Ciências Humanas - fossem os únicos que, de fato, tiveram tais conceitos como parte de sua vida.

Apesar da Ética ser o estudo sistemático da Moralidade, entende-se ética, em círculos leigos, como um conceito vago que acaba sendo não mais que um mero sinônimo de “conjunto de valores”.

É pouco.

Mas começo o texto falando do que batizo de “Síndrome de Gabriela”, não é?

Em conversas mais sérias, normalmente daquelas em que falamos “do mundo e das coisas”, é muito comum surgir aquele comentário que esbarra no limite que, cada um de nós, estabelece para o Ser: “Mas esta é a natureza humana!”.

Escrevi sobre isso em “A Tal da Natureza Humana”, há algum tempo, e tentava demonstrar que nos satisfazemos com o senso que fazemos do Homem e, levianamente, nos bastamos neste modelo intuído da realidade.

No que concerne a relacionamentos e comportamento, me parece, existe outro destes aforismos banais que, deterministicamente, acaba por pontuar tanto um fim de discussão quanto a manha de uma criança chata que diz “não quero”!

Quantas vezes já não ouvimos, em discussões e situações tensas, respostas como: “Eu sou assim!”, como se isto fosse suficiente e determinante para estabelecer um argumento irrefutável, independente de quaisquer julgamentos ou conjuntos de princípios.

“Sei que soa incoerente, mas eu sou assim”; “Sei que é injusto, mas sou assim”; “Sei que não tenho traquejo social, mas sou assim”; “Sei que isto não é certo, mas eu sou assim”; “Eu sinto muito, mas eu sou assim”; “Ninguém me muda, você pode não gostar, mas eu sou assim!”.

Estas frases são uma só, são imobilistas e auto-destrutivas… são uma forma de morte de alguém que é esmagado pela sua suposta incapacidade e pela preguiça em lutar contra suas certezas equivocadas e convenientes.

A crescente utilização deste aforismo, entendo eu, tem suas raízes evidenciadas em uma parábola conhecida como “O Insensato”, onde Nietzsche sustenta algo bastante relevante para o entendimento dos porquês de tanto sermos indulgentes com nossas faltas e tentarmos justificá-las.

O Insensato
Conforme escrito em “A Gaia Ciência”

“Nunca ouviram falar do louco que, em pleno dia, acendeu uma lanterna, correu ao mercado e pôs-se a gritar sem parar:

- ‘Procuro Deus! Procuro Deus!’.

Como lá se encontravam muitos que em Deus não acreditavam, provocou muitas risadas.

– ‘Será que ele se perdeu?’ – disse alguém – ‘Perdeu-se tal qual uma criança?’ – falou outro – ‘Ou será que está bem escondido? Tem medo de nós? Será que foi embora? Ou emigrou?’ – gritavam e riam em grande algazarra.

O louco pulou no meio deles e transpassou-os com o olhar:

– ‘Para onde foi Deus?’ – bradou – ‘Vou dizer-lhes para onde foi! Nós o matamos: vocês e eu! Nós todos somos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como pudemos esvaziar o mar bebendo-o até a última gota? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos quando desprendemos a corrente que ligava a Terra ao Sol? Para onde vai agora? Para onde vamos nós? […]’

Após pronunciar estas palavras, o insensato calou-se e dirigiu novamente o olhar a seus ouvintes; também eles se calavam como ele e o fitavam com espanto. Finalmente, atirou a lanterna ao chão de tal modo que se espatifou, apagando-se.

– ‘Venho muito cedo’ – prosseguiu –, ‘meu tempo ainda não chegou. Esse evento enorme está a caminho, aproxima-se e não chegou ainda aos ouvidos dos homens. É preciso tempo para o relâmpago e o raio, é preciso tempo para a luz dos astros, é preciso tempo para as ações, mesmo depois de concluídas, para serem vistas e entendidas.

Sobretudo fora do meio acadêmico, a compreensão da máxima “Deus está morto” é bastante limitada. Muito mais que acerca de um Deus criador, a parábola de Nietzsche falava de tudo aquilo que é sutil demais para ser quantificado, qualificado e facilmente referenciado.

Em sua profecia acerca do que estaria por vir – o modus vivendi dos dias de hoje – o filósofo sustentava repetidamente que o Homem, após dominar tantos campos do conhecimento e da técnica, começou a não ver necessidade objetiva na existência não só de Deus, mas de qualquer outra coisa que não fosse objetiva e imediatamente identificável.

O movimento, segundo ele, provocaria uma cataclísmica degradação dos valores aceitos em função de novos valores. Tais valores seriam largos o suficiente para tornar a própria noção de valores relativa demais para ser pensada ou entendida, abstrata demais para ser tangenciada pelo pensamento, subjetiva demais para que qualquer pessoa objetiva gaste tempo com ela.

Com isso, os sentimentos, as virtudes, a ética, tudo que não tem uma manifestação intuitiva, objetiva e facilmente compreendida, passa a ser secundário, sem valor prático e, o que é pior, insignificante.

E, uma vez que o Homem vê como insignificante o subjetivo ele abre mão do significado, posto que há muito mais riqueza de significado na subjetividade do que na objetividade – esta última um devir de Todo, uma redução medíocre do Real.

Em um mundo com cada vez menos produção de subjetividade, a desqualificação do subjetivo é implícita, o que é belo vira piegas, o que é atencioso vira meloso e o perdão vira fraqueza. A poesia morre e é vista como inocente e boba, a conotação deixa de existir e sobra apenas uma casca do que antes chamávamos conteúdo; a arte vira produto – e produto é a maior diversão.

A obsessão pelo eficiente, pelo direto e pelo pragmático, não deixa qualquer chance para o refletido, o complexo e o elaborado. E, para ilustrar de forma clara: em uma realidade como esta, os livros são julgados pela capa, pois ler dá muito trabalho.

As pessoas são julgadas por tudo de mais óbvio que elas detém, com ou sem mérito de tê-las conquistado, pois a falta de conteúdo se alastra das coisas que fazemos para as pessoas que somos.

Julgar-se distante do problema – descontextualizado desta realidade, isento dos preconceitos, dos princípios da ausência de princípios, do relativismo moral, do cinismo exacerbado, do sarcasmo incondicional e de todos os demais sintomas do idealista frustrado – é não entender-se doente… é estar já desenganado.

O cânone Protagoriano: “O homem é a única medida de si mesmo”, usado fora de contexto e ignorando as ressalvas Socráticas e Platônicas, é usado como só mais uma desculpa. Uma desculpa que torna apenas o Eu importante, retro-alimentando o individualismo crescente ao qual todos sabemos que aderimos cada vez mais.

Sendo importante somente o Eu, este Eu alquebrado e vazio de conteúdo, no qual nos transformamos, tornamo-nos cada vez menos sensíveis, cada vez mais intolerantes, cada vez mais ineptos em termos compaixão e amor – passamos mesmo a ser incapazes de entender qualquer modelo, que não o nosso, como válido. O único esforço que nos resta é tentar concordar com nossas próprias opiniões.

Numa jornada com arreios, sem olhar para os lados e só sendo capazes de olhar um simulacro de objetivo – este para além do horizonte – nem aproveitamos a jornada nem, apesar de queremos crer, temos a certeza de que o destino desejado será alcançado.

Não há mais sentido em nada, a não no que é destituído de conteúdo; não há mais conteúdo em nada, nem em nós mesmos; não há mais modelo satisfatório que não o modelo do próprio indivíduo; e, definitivamente, não há mais sentido na vida alheia, posto que não é a nossa e que, portanto, não pode ser tolerada como exemplo.

O Homem ficou do tamanho que ele entende, pois se acostumou a não ter paciência para entender mais do que o nada. Só a diversão é tolerada, pois ela é um mecanismo diversionista – que nos tira da direção – que nos aliena da realidade cinza da prisão que nós mesmos construímos.

”EU SOU ASSIM, nada vai me mudar. Sou velho demais para mudar; empedernido demais para mudar; não estou disposto a mudar; e não quero mudar. Posso parecer uma criança chata, mas eu sou assim!”

O maior triunfo do Homem foi alcançar o que definiu como perfeição, resolvendo esquecer o que está além da ficção na qual quis acreditar; foi matar a condição de sonhar em ser melhor do que é, posto que jamais foi melhor do que agora acredita que é; foi destruir completamente todos os caminhos para fora da cidade do Eu; foi matar tudo que está além do que pode perceber, que pode sentir; foi matar Deus.

Foi matar não o Deus denotativo, mas o Deus conotativo, uma metáfora que se transubstancia para significar tudo aquilo que existe para além do que o mundo dos sentidos nos permite identificar. É a isso que matamos.

E ao matá-lo, o Homem não tem nada maior a almejar, nada que lhe pareça perfeito e que lhe possa servir de modelo… o Homem está satisfeito na sua condição de carcaça.

Acabou a coragem para trilhar novos caminhos, a inteligência para compreender o que se percebe e a paixão para ser-se mais do que se é.

Ao matar “Deus”, o Homem mata a si mesmo.

E aí não mais importa que se diga “sou assim”… neste altura, simplesmente não se é mais nada!

7 Comments currently posted.

José Vasconcellos Dias Jr. says:

Sei lá!…

Eu sempre achei que “matar Deus” ou acreditá-Lo morto é coisa de quem quer se ver acima das gentes, embora não possa, como qualquer outro, conseguí-lo.

Mas aí vem aquela velha história (é com “H” mesmo) de quem é Deus? Cadê Ele? Ele existe?

Ou então:

O Deus está em nós! Nós somos o Deus que fazemos!

Etc… Etc… Etc…

Eu não nasci assim, por mais que me esforce, não conseguirei ser sempre assim. Amanhã serei outro tanto pelo tempo, quanto pelas experiências ou simplesmente pelas decepções, mas a visão de um “deus”, ao menos até esse momento, só muda sempre para uma certeza maior, à medida que passo a vê-Lo cada vez mais com uma menor dependência de crenças, religiões e coisas assim.

Bruno Accioly says:

Salve!
Como eu tentei deixar claro, Deus, no texto, não passa de uma alegoria do que está para além da percepção humana mais imediata.
O texto sustenta que o Absolutismo Metodológico ao qual temos nos sujeitado vem desembocando no Relativismo Moral ao qual estamos nos acostumando.
Esse “Deus”, conotativo e que simboliza o mundo supra-sensível existe sim e não há como negá-lo sem negar o próprio Homem.
É disto que somos feitos, apesar da carne e das partes… pois o Todo é maior do que a soma de todas elas.

Eduardo Augusto says:

E meus comentários acerca do texto do filme do diretor são exatamente nesta linha.
“Em um mundo com cada vez menos produção de subjetividade, a desqualificação do subjetivo é implícita, o que é belo vira piegas, o que é atencioso vira meloso e o perdão vira fraqueza. A poesia morre e é vista como inocente e boba, a conotação deixa de existir e sobra apenas uma casca do que antes chamávamos conteúdo; a arte vira produto – e produto é a maior diversão”
Parece-me exatamente o contrário. Nunca houve mais produção de subjetividade que neste mundo. Nunca nossos valores valorizaram tanto as subjetividades-produtos. Nunca uma camisa teve tanto valor subjetivo imediatamente atribuído por uma etiqueta subjetiva. E uma marca de cigarro, ou droga, ou carro, ou partido político, ou religião. Sociedade de consumo infere que consumamos e há que haver o que consumir. Não é que a poesia seja inocente e boba. É que é difícil consumi-la. O cinema de arte, o papo-cabeça, a literatura assim como relacionamentos não são ocasionalmente recusados. São banidos. São banidos pois são de difícil consumo. São lentos de digerir. Recentemente pude ver (pela primeira vez em tela grande) o Teorema do Pasolini. E caiu-me em mãos a revista do jornal onde o crítico (?) falava do filme. Ele dizia claramente que não entendera. E não gostara. Protestava dizendo querer mais barulhos em um filme que tem como trilha o Réquiem de Mozart. Como se fosse possível. Mas não é destes tempos. Ignorância e presunção sempre acompanharam a humanidade. Como diz o Tom Zé, o curioso é que a burrice nunca foi servida em tantas cores e sabores.

Bruno Accioly says:

Já conversamos sobre isso: “Parece-me exatamente o contrário. Nunca houve mais produção de subjetividade que neste mundo. Nunca nossos valores valorizaram tanto as subjetividades-produtos”.

O que eu te respondi, Edu, é que produção de subjetividade não é necessariamente Arte e que a produção estética está em decadência já há tempo suficiente para irritar qualquer aprecisador de arte.

Mas até aí você concorda. O que eu coloquei também é que grande parte da produção de subjetividade humana no século passado e neste está travestida de objetividade - o novo nome da produção de subjetividade que leva o selo do praxismo e do que eu chamo de Unijetividade.

Isso me lembra aquela parábola de Sísifo que discutíamos. Sísifo tinha de carregar uma pedra pesadíssima sobre a cabeça até o topo da montanha e depois voltar. Fazia isso o tempo todo pois era o que os deuses queriam… mas ele sabia que os deuses queriam isso dele, e isso fazia toda diferença!

Veja… não adiante que entendamos que nunca o mundo valorou tanto o subjetivo se ele sequer sabe que a tal da objetividade, tão venerada, sequer existe - é ela mesma uma das mais elaboradas mentiras auto-sustentáveis já produzidas pelo Homem.

E a pior parte, a meu ver, é que esta noção Unijetiva do mundo vem em detrimento - e nem somando-se - ao subjetivo, tentando despir o Homem da capacidade de produzir subjetividade de forma livre.

Cria-se uma forma de escravizar a forma, um dogma inconspícuo para dirimir a criação senão segundo os cânones do Unijetivismo.

Talvez tenha ficado mais claro agora… Provavelmente vá postar algo parecido em breve, quando eu chegar na parábola de Sísifo.

Como sabe, eu tenho um plano… rs

Sempre bom ler seus comentários!

camila says:

oi

Da.Lourdinha says:

Eu não nasci assim, nem cresci assim. Talvez eu seja a mais velha “blogueira” que”posta” comentários no seu “site”. De qualquer forma, viver cansa, crescer doi, mas não temos outra alternativa.

Maria Lucia says:

Mae olha o nome que voce me deu!!
rsrsrsrs
Te amo muitooooooooo

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