BrunoAccioly

21 Abril 2006

“Kinsey - Vamos Falar de Sexo”

Tocante, engraçado e profundo, “Kinsey” – que no Brasil ganhou um adendo “Vamos Falar de Sexo” – consegue prender o público, que tem boa vontade e que não tem dificuldade em permanecer atento, com uma história quase heróica de resgate do sexo de seu obscurantismo do meio do século passado.

Alfred Charles Kinsey, talvez como todos nós, era um sujeito incomum, e incomum de uma forma muito incomum. Sua capacidade em abraçar suas causas e as pesquisas em que se engajava foram uma marca registrada. Seu comprometimento com o que acreditava e com o que achava correto, era de uma turronice tão absoluta que supunha-se capaz de “obliterar sua Natureza” em função do que acreditava correto.

Nascido em 23 de Junho de 1894, Kinsey graduou-se magna cum laude em Biologia e Psicologia pelo Bowdoin College, doutorando-se em Biologia por Harvard e lá ministrando aulas de Zoologia a partir de 1920. Quando em 1938 assumiu o “Curso de Casamentos” na Universidade de Indiana, Kinsey identificou um problema que todos tentavam ignorar – na mais famosa postura “mas como poderia ser diferente?”.

Indisposto com aquela realidade, Kinsey começou uma pesquisa doe comportamento sexual entre cerca de cem voluntários que, embora inicialmente modesta, foi tomando proporções cada vez maiores.

A pesquisa, começada em 1940, se estendeu até 1948 e coletou mais de 18 mil depoimentos de Homens e Mulheres em todos os EUA – sob fartas pressões políticas e sociais da época – o que resultou em dois livros, hoje, profundamente respeitados: “O Comportamento Sexual do Macho Humano” e “O Comportamento Sexual da Fêmea Humana”.

Com Liam Neeson como Kimsey e a bela e versátil Laura Linney no papel de sua esposa, temos a oportunidade de ver um filme maravilhosamente encenado pelos dois e dirigido por Bill Condom – sem nos esquecermos das notáveis presenças de John Lithgow, Oliver Platt e Tim Curry.

As virtudes do filme e integridade do personagem, contudo, são o que mais chamaram minha atenção.

Diferente dessa preconceituosa e reducionista noção de empirismo leigo que diz fazer uso da Lógica e, em algum nível, de “informações científicas” e “provas por A mais B”, Kinsey não se contenta em generalizar comportamentos usando o mínimo de tempo possível e somente seu objetivo (e ridiculamente reduzido) espaço amostral.

Ele entende – por não ser mero leigo entusiasta científico e auto-indulgente – que seu pífio espaço amostral jamais poderia ser representativo. E mais que buscar decidir se a população de Homens e Mulheres de seu país é isso ou aquilo, tenta buscar a construção de uma taxonomia – buscar identificar e elencar arquétipos – de forma a enriquecer sua noção da realidade e corrigí-la, no lugar de acentuar os próprios preconceitos e reforçar falsos conceitos para satisfazer um ego improdutivo.

Podemos rir de tempos passados e reforçar nossa noção atual da realidade, ou podemos tomar o caminho mais pedregoso e desconhecido de identificar nossos próprios defeitos e nossa inépcia em entender que, todos os dias, nos permitimos levianamente analisar a realidade e usar nossa medíocre experiência para fundamentar postulados acerca de indivíduos, graças às nossas observações acerca de grupos mal formulados nos quais nós mesmos os colocamos.

Que tenha vergonha aquele que acredita não fazê-lo e que tenha mais vergonha ainda aquele que está satisfeito – e CONFORMADO – com o montante de tempo que gasta em questionar a si mesmo e as suas análises incompetentes de indivíduos, grupos, definições e conceitos – sobretudo se o faz em nome de “ser feliz”!

O Kinsey cinematográfico, ainda que jamais tenha sido o monstro de virtude retratado (e tudo indica que o foi), em sendo capaz de tamanho auto-controle, se apercebe tão disfuncional quanto quaisquer de suas cobaias. Auto-controle é sua perversão, sua perversão do senso comum e do comportamento tradicional, sua perversão da linha mestra que ele mesmo acreditara poder existir - e no entanto é o que torna humano.

Mesmo percebendo sua inadequação – da mesma forma que entender o vírus do resfriado não nos livra dos sintomas indesejados – ele perpetua essa inadequação como qualquerde nós, tentando, dentro de suas limitações, melhorar enquanto pessoa. E não o faz meramente para ser feliz, mas porque é o melhor que pode fazer.

Magnífico pela brutal sutileza, o filme nos carrega à força pelos cabelos – depois de uns bons golpes de clava na moleira – a Contemplar o fato de que a Ciência é uma magnífica ferramenta para quantificação, catálogo e referência, mas que, para além do comportamento fisiológico do coito, há as nuances de toda uma intrincada gama de sentimentos, a complexidade de uma miríade de valores morais e a sofisticação de algo muito especial que chamamos de Amor – detalhes para os quais a suprema Ciência, a soberana Lógica e a pragmática objetividade falham em ter talento!

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