BrunoAccioly

23 Abril 2006

“As Raízes de Todo Mal?”

Sem título, na verdade, em português, “Roots of all evil?” é um magnífico tratado ateísta, comprometido com ideais mecaniscistas que invocam uma Moral independente de Religião, não se furtando a atacar todas as formas de Religião (ou ao menos as poucas formas abordadas no documentário) e oferecer uma alternativa para o que se convencionou chamar nos últimos séculos de “O Sentido da Vida”.

Profundamente bem editado, produzido, escrito e dirigido, o documentário “Roots of all evil” é um achado para qualquer leigo crente no ideal Mecaniscista Científico, que abraça uma vida ateísta sem culpas e que tenta justificar a existência de uma Moral para além da tradição religiosa.

O documentário avança sobre a tradição Cristã de forma nunca vista por mim e é um deleite para os espectadores que não suportam a idéia da religiosidade nos tempos modernos.

Feliz na tentativa de mostrar que a Moral independe do pensamento religioso, o documentário instiga o questionamento de postulados milenares e da realidade “opressiva” criada pela Igreja Católica, Protestante e Evangélica.

Como encarnação de Carl Sagan - autor de “Cosmos” - contudo, Richard Dawkins, em minha modesta opinião, deixa muito a desejar, largando de lado o Humanismo e tolerância de Sagan para assumir o Método Científico e as conquistas da Ciência como forma única, determinista e absoluta de entender o Universo, sob o pretexto de que “o conhecimento científico progride e o conhecimento Religioso sequer evolúi”.

Sem desejar estragar muito das surpresas e dos incisivos argumentos de Dawkins, posso dizer o seguinte: Se você deseja assumir uma posição, este vídeo pode te ajudar, mas se você quer saber a verdade, sugiro que veja este vídeo com outros olhos.

A verdade é que o que deve ser ensinado nos colégios não é a verdade acerca das coisas, mas a história e os detalhes acerca dos diferentes modelos criados por homens e mulheres - estejam estes modelos na moda ou não.

A Ciência não deveria ter precedência sobre qualquer outro modelo, concebido a partide de qualquer outra Metodologia - Religiosa, Filosófica ou Científica - e, portanto, aprender sobre o postulado Cristão (litúrgico) do Design Inteligente é tão importante quanto aprender sobre a teoria Científica (falsificacionistas) da Evolução.

O que me preocupa, nisso tudo, é que digladiamos acerca de se deve ser ensinada uma ou outra, quando devíamos ensinar ambas e, mais que isso, devíamos ensinar, adicionalmente, Teologia e Filosofia para as próximas gerações - e não apenas Cristianismo ou Ciência.

Afinal, Cristianismo não é a única forma de Religião (muito menos o Catolicismo, Protestantismo ou o Evangelismo) e Ciência não é a única Escola Filosófica!

Sim, porque a Ciência é só mais uma Escola Filosófica! E há muitas outras por aí. Talvez não tão populares mas, com certeza, algumas delas são até muito mais influentes - ainda que o leigo em Filosofia jamais tenha ouvido falar delas.

O “Cientismo”, inclusive, foi uma forma muito eficiente de transformar a Filosofia não em sua Mãe-Ideológica, mas em uma filha postiça, através do ato de tornar a Filosofia em parte das chamadas “Ciências Humanas”, o que é quase “sacrílego”, uma vez que a Filosofia não faz uso do Método Científico!

Richard Dawkins, em seu brutal ataque à Religião, menciona que a Fé - a Crença na Inexistência de Evidência - é uma ameaça ao futuro de nossa civilização, mas ele mesmo menciona que, para uma criança, é importante acreditar nas figuras de autoridade que lhe são apresentadas no início de sua vida.

O Ceticismo, no princípio da infância, pode levar à morte. E isto é um fato interessante, pois aponta para uma questão cuja raíz filosófica é mais profunda do que se imagina: “Questionar a autoridade é importante?”, e o interessante desta pergunta é que ela não tem uma resposta simples - ainda que eu sinta um forte impulso em responder que sim (o que é um impulso Liberal de bases Anarquistas herdado da mesma civilização onde você, eu e Richard Dawkins nascemos).

Será, portanto, que é tão imperativo que tentemos suprimir politicamente a Religião? Não seria isso tão inadequado quanto suprimir a Ciência ou, vamos lá, afinal, já suprimimos a Filosofia faz tempo, como coisa arcáica…

O que me parece é que, depois de se acostumar às ferramentas que inventou, o Homem esqueceu-se de como usar as mãos e coisas mais fundamentais como a Filosofia - sua capacidade de fazer senso de seu meio - cairam no esquecimento.

É este o futuro que queremos pra nós? Um reducionismo induzido pelos resultados alcançados por uma única metodologia? Um único pensamento?

Queremos que seja ensinado apenas o que é considerado absolutamente certo, sob as lentes azúis do microscópio que nos tinge o branco de azul?

Uma cultura mais ecumênica, liberal e tolerante perde em mérito para uma cultura absolutista, reacionária e determinista?

Dawkins declara ACREDITAR que a inclinação para um comportamento Moral está embutido em nosso Genoma - claro, sempre ante a citação das suas misteriosas (ou nem tanto) evidências, que também são interpretações do que a Ciência observa em seu entorno, embora nem todos os cientistas concordem - e, em “Roots of all evil?”, seu interlocutor, Oliver Curry (London School of Economycs), menciona que a Moral (ou uma Proto-Moral) é anterior à Religião, uma afirmação ousada e instigante, que sugere que há Moral em criaturas “menos evoluídas” que o Ser Humano, como os Chimpanzés.

Talvez, a Religião tome para si - ou para Deus, ou para as Escrituras - a obrigação (ou faça uma tentativa) de codificar a Moral contextual da época através da expressão da Palavra de Deus.

Seja como for, as perguntas estão aí e, a meu ver, são muito mais interessantes que as respostas!

Procure encontrar “Roots of all evils?”, veja com seus olhos, interprete com sua mente e tire suas conclusões… se possível, tente tirar mais de uma conclusão, do contrário, você só estará sendo um preguiçoso com pouca imaginação e com a não-rara habilidade de concordar consigo mesmo!

4 Comments currently posted.

Hades says:

Texto extremamente antropocentrico… O homem nunca vai ser mais do que realmente é, não existe mais ou menos evoluido, mesmo que entre aspas… Somos primatas, assim como tantos outros por vezes mais inteligentes do que nós.

Bruno Accioly says:

Fiquei em dúvida se seu comentário é acerca do meu texto, do texto do documentário de Dawkins ou somente sobre o parágrafo que fala de primatas.

Mais que isso, não sei realmente se é possível descartar o conceito de Evolução. Afinal, tanto o cérebro humano quanto o cérebro dos macacos têm tecido reptileano, mas os répteis não têm tecido humano. hmmmm

Seja como for, quando coloquei “menos evoluído” entre aspas, fui irônico, uma vez que o conceito pode sim ser, por extensão de sentido, encarado como medida de progresso - coisa que é bastante questionável.

Quanto ao Homem poder ser mais do que realmente é, seria interessante descobrir o que é ser mais do que se é. Depois de definido isso, podemos decidir se o Homem pode ou não pode.

O fato de sermos primatas, aliás, não nos coloca em pé de igualdade, mas de similaridade, com os demais primatas.

Dentre o conjunto de pessoas que lêem blogs, por exemplo, somos humanos, assim como tantos outros, por vezes mais inteligentes do que nós… mas somos muito diferentes uns dos outros. Profundamente, eu diria.

Somos também feitos de carbono, o que não nos coloca em pé de igualdade, mas de relativa similaridade com uma pulga.

A relativização é uma ferramenta, mas à que ela está se prestando nesta sua colocação eu não entendi bem.

Obrigado pelo comentário.

Hades says:

Retificando: Dawkins anda antropocentrico demais… Uma pena ele andar tão reacionário.
Vou tentar ver o documentário.

Abraços.

Givaldo Matos says:

A visão de Dawkins acerca da religião comporta um reducionismo desnecessário. Interpretar o que a religião é e o que ela pode ser a partir apenas das manifestações de grupos selecionados é uma escolha arbitrária. Podemos perceber nele também pressupostos de fé, filosófica, que ainda não podem ser provadas cientificamente. Mas acima de tudo, acreditar que o real se esgota debaixo da lupa ou sobre o macroscópio é um engano acerca do qual de longe a filosofia já declarou inaceitável. Parabéns ao primeiro comentarista deste texto. Givaldo Matos

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