18 Julho 2006
Literatura à Cabo
Em 1971, quando Michael Hart criou o Projeto Gutenberg, a Internet não existia, não se tinha idéia de que os dispositivos móveis tornariam portáveis centenas ou mesmo milhares de megabytes de informação e, mesmo assim, foi pioneiro em incentivar o uso do computador para a busca e acesso à informações culturais.
Inicialmente um repositório isolado de obras importantes, o Projeto Gutemberg estava irremediavelmente destinado a ser muito mais que isso. Se Michael Hart era um visionário ou profeta é menos importante que o fato de que sua iniciativa tornou possível que, hoje, mais de 18mil obras estejam no acervo do projeto, bem como que um pletora de projetos correlatos florescesse.
O solo fértil para empreendimentos com ou sem fins lucrativos, hoje, é óbvio e a quantidade de material escrito - e legalmente considerado de domínio público - não pode ser ignorada como sendo uma preciosa fonte de conhecimento.
Dentre tais empreendimentos está o importante Distributed Proofreaders, fundado por Charles Franks para apoiar a digitalização de livros de domínio público e que é, hoje, o maior fornecedor de títulos para o Projeto Gutemberg.
Fundado em 2000, o Distributed Proofreaders é uma iniciativa importante que tenta estabelecer um processo e critérios para revisão, digitalização e também para a transformação das imagens capturadas em arquivos texto - menos ricos, mas mais portáveis e menores - de forma a não serem perdidos os elementos gráficos mas garantindo a possibilidade de captura de trechos de texto.
Para ter-se uma idéia do esforço de integração das instituições envolvidas no esforço, é bom mencionar que a Biblioteca Nacional Digital é um dos maiores fornecedores de imagens de livros em língua portuguesa, o que demonstra que o Brasil não está assim tão por fora como poderíamos intuir.
Há ainda o DomínioPúblico.gov.br, do Governo Federal, totalmente desenvolvido em software livre e que aceita colaboração de voluntários, autores, parceiros e tradutores.
O World eBook Fair prevê que, até 2009, terá em seu acervo um milhão de eBooks e abriu seu acervo de acesso restrito de 4 de Julho até 4 de Agosto em celebração ao 35º aniversário do Projeto Gutemberg.
A proliferação de iniciativas, instituições e empresas voltadas para o atendimento a este mercado - que nem é tão novo assim - é notável e livrarias como a DPP Store vem conquistando seu espaço na oferta de conteúdo totalmente digital a preços competitivos.
A DPP Store, como a maior parte das iniciativas comerciais envolvidas com e-books, não deixa de ter uma visão pouco convencional do mercado e se prontificou a converter, sem custo, o material liberado pelo Projeto Gutemberg, de forma a poder ser facilmente lido em dispositivos de leitura digital. Sua iniciativa se manifesta também na parceria com autores e editores independentes para fornecer material de qualidade e na conscientização do público para as vantagens dos e-books sobre os livros convencionais.
Não é segredo que as florestas sofrem com a quantidade de papel que usamos e, apesar do glamour das prateleiras cheias de livros, o espaço ocupado pelos títulos acaba sendo pouco prático - sobretudo para quem não é colecionador.
A resistência ainda existe, sobretudo devido ao problema dos custos de dispositivos portáteis adequados e da falta de cultura de leitura em telas - mesmo em telas com backlight, como as dos celulares mais modernos.
A mesma resistência aconteceu com as câmeras digitais, na verdade, e não faltava quem dissesse que preferia ver as fotos nas mãos e não em telinhas pequenas que consomem tanta bateria e sem poder meter o dedo engordurado num papel fotográfico impecável… as telas aumentaram, as baterias são mais longevas e os dedos engordurados sairam de moda.
Existe, claro, glamour nos livros convencionais e, creio mesmo que vale a pena tê-los em casa, quando se trata de uma edição especial, como um “Don Quixote” ou o “Bhagavad Gita“, mas me parece que muitos dos livros que temos em casa ficam pegando poeira e ocupando espaço, sem jamais ser visitados pelos olhos de mais ninguém e sem que os revisitemos.
Estamos vivendo um momento muito interessante na história, em que estamos questionando as leis de propriedade intelectual e experimentando novas formas de produzir e consumir cultura. É o momento de revisitarmos cada meio, seja ele o cinema, a televisão, o rádio ou a literatura e brincar com novos meios de consumir - gratuitamente ou não - os tesouros da produção de subjetividade humana.
Os novos dispositivos que estão saindo no mercado, mais dedicados à atividade de leitura que os Palms, PDAs Windows - e certamente mais adequados que os celulares - disponibilizam os e-books em telas maiores, a baixos custos e sem amontoar funcionalidades desnecessárias. Até mesmo os leitores mais conservadores vão gostar das telas bi-estáveis, que apresentam as letras em telas que, dada sua flexibilidade e espessura mais parecem folhas de papel e que armazenam toda a informação em memórias de estado sólido como as de câmeras digitais e não consomem quase energia.
Contabilizando, vale a pena procurar saber mais sobre o que está acontecendo por aí, se isso significar pagar menos - ou nada - para adquirir obras literárias importantes, sobretudo quando se imagina que, com custo adicional razoável, os mesmos dispositivos móveis vão permitir ouvir músicas, ver filmes, entrar na Internet e toda sorte de outras coisas muito menos interessantes e perenes que ler um bom livro!
(Desculpem… mas foi inevitável este último comentário. Podem atirar pedras se quiserem…)
Gutenberg.org . webSite da organização
Wikipedia . O que é o Projeto Gutemberg?
Wikeipedia . O que é conteúdo de Domínio Público?
Distributer Proofreaders . webSite da organização
Biblioteca Nacional Digital . webSite da organização
DomínioPúblico.gov.br . Acervo digital online
DomínioPúblico.gov.br . Como colaborar para o acervo
WorldeBookFair.com . O maior acervo digital do mundo
DPPStore . Livraria dedicada a venda de media digital
RadarPop . Artigo sobre Creative Commons
RadarPop . PodCast (programa em áudio mp3) sobre Creative Commons
CreativeCommons.org . webSite da organização






Ih, caramba… nesse quesito ainda estou fora de moda… meu armário é entupido de livros e eu até concordo que é bem pouco prático…mas eu prefiro me desfazer deles do que ler qualquer coisa numa tela de computador. Mesmo sendo a mais moderna e bla bla bla. Por enquanto.