O Cinismo é marca do Idealista Frustrado. É uma postura eminentemente decadente. O Cinismo é a resposta anoréxica à percepção equivocada do próprio excesso de cultura. Não se trata de uma reação a escassez do próximo, mas uma resposta a abundância de recursos em conluio com a própria preguiça.

Uma vez que se é Cínico acerca do comportamento alheio e às aspirações da humanidade não se sobra mais do que o Hedonismo, o Niilismo e o Tédio de colocar a si mesmo em um estado infantilóide e auto-contido que sequer sabe este tanto de si.

O Cínico se acha um Cético acerca da Vida, do Mundo e das Coisas. Eu sou Cético acerca da Inépcia, Covardia e Preguiça que prevalece no Cinismo, que não consegue acreditar na boa intenção do outro porque nele mesmo não resta mais intenção alguma, um Dorian Gray que esqueceu onde escondeu a grotesca imagem que teria de si mesmo se lhe restasse alguma consciência.

Inconsciente por ignorância auto-impingida, o Cínico está em posição mais que confortável. O Cinismo tem a característica de perdoar tudo o que se faz e o que se deixa de fazer, sem esquecer de permitir que o Cínico sequer discuta sua posição, pois tem certeza de sua própria certeza e, portanto, concorda consigo mesmo.

A Reflexão lhe escapa. Ao Refletir, no lugar de colocar questões em perspectiva, o Cínico reflete apenas a si mesmo e nem a si enxerga, inebriado pela estupidez da própria imagem em uma viagem curta pelo próprio ego. Um Ícaro-Narcisístico que voa perto demais da Verdade sem se aperceber dela, feliz com a proximidade crescente da própria imagem na superfície do espelho d’água que rapidamente se aproxima.

O Cínico moderno ou entendeu mal o Cinismo Clássico de Antístenes, Diógenes e Crates ou – o que é mais provável – sequer tem idéia do que se trata e, em sua vasta cultura acerca do nada, acredita não precisar saber mais do que o pouco que já sabe.

Bruno Accioly