Alexandre Maron
Especial para O GLOBO da Revista Monet, Editora Globo
Se todos os filmes fossem comédias, todos os livros fossem historinhas açucaradas e todas as músicas fossem boleros, o mundo seria chato de doer. Então por que muitas pessoas insistem em achar que histórias em quadrinhos só servem para falar de aventuras infanto-juvenis? De modo geral, esse é um dos pontos que o excelente “Desvendando os quadrinhos” (M.Books, 266 pgs, R$ 39), de Scott McCloud, toca com inegável habilidade. O livro é uma das mais brilhantes obras sobre as HQs e acaba de ser relançado no Brasil, depois de quase dez anos esgotado.
Livro é modo de dizer. “Desvendando” é um gibi que explica o que são as histórias em quadrinhos, suas origens e disseca a linguagem desse meio. A obra de McCloud é tão boa que foi considerada por muitos mais completa do que o clássico “Quadrinhos e arte seqüencial” (Martins Fontes, 154 pgs, R$ 47,50) do mestre Will Eisner, que morreu em janeiro deste ano.
— Comecei a fazer quadrinhos em 1984 e, por anos, escrevia artigos sobre o assunto. Um dia, notei que tinha dez centímetros de folhas de papel empilhadas e pensei em transformá-las em livro — diz McCloud, por telefone à Megazine, de sua casa em Los Angeles.
McCloud achava que quadrinhos eram uma bobagem até que um amigo o convenceu a ler algumas revistas. Foi fisgado a ponto de ficar obcecado por super-heróis. Scott virou uma espécie de guru dos quadrinhos.
Antes de Scott McCloud lançar seu livro nos EUA em 1993, classificar os quadrinhos era uma tarefa difícil. Como um cientista que descobre uma fórmula simples para algo complexo, o artista conseguiu equacionar a essência de uma HQ: tempo demonstrado em espaço, um mapa do tempo. Ou seja, nos milímetros entre um quadrinho e outro, podem se passar dois segundos ou 10 mil anos. Modesto, ele diz que sua definição nem é tão precisa.
— É algo que eu criei como uma forma de excitar a imaginação do leitor. Acho importante pensar em quadrinhos como algo que pode ser feito em qualquer meio. Podem ser gravados no tronco de uma árvore, pintados nas paredes com um spray. É uma arte milenar, anterior ao papel e à impressão.
É claro que o livro não surgiu do nada. Scott começou a trabalhar na área, no início dos anos 80, justamente quando alguns dos mais significativos trabalhos estavam sendo lançados. “Batman — O Cavaleiro das Trevas”, “Watchmen” e “Maus”. Na década de 90, veio o movimento independente, com nomes como Joe Sacco, cujas HQs eram verdadeiras reportagens ilustradas.
Em 2000, McCloud deu seqüência ao seu trabalho de reflexão sobre quadrinhos com o polêmico “Reinventing comics” (que deve chegar aqui pela M.Books como “Reinventando os quadrinhos”) e praticamente conseguiu irritar pessoas em todos os cantos desta indústria. O livro fala da forma como os computadores e a internet podem mudar completamente os quadrinhos como forma de expressão e como negócio.
Para provar seu ponto, McCloud tornou seu website Scottmccloud.com uma espécie de expansão de “Reinventing”, com atualizações de capítulos e exemplos do que ele queria dizer. Como uma de suas principais idéias era a de que os criadores poderiam, no futuro, produzir e vender seus trabalhos sem intermediários. Em 2003, ele foi o pioneiro no lançamento de uma HQ digital comprada por um sistema simples: bastava gastar US$ 0,25, com cartão de crédito, para ler uma história feita especialmente para o computador. E o melhor, a história era boa.
Nestes 12 anos desde o lançamento do livro, ele se transformou em um conferencista, dando palestras em lugares como o Massachusetts Institute of Technology (MIT). Agora, além de fazer uma graphic novel do Super-Homem para a DC Comics, ele produz um livro que explicará o bê-á-bá da produção de quadrinhos. Ele brinca que tudo que faz é parte de um grande plano.
— Quando comecei a estruturar meu site, descobri o emprego perfeito. Mas entendi que ele não existia porque a indústria de quadrinhos via internet ainda não estava formada. Então, resolvi ajudar a criá-la. Faço isso para poder um dia trabalhar nela.