"Tolerância Zero"
Sonho, desde muito sempre,
com alguma espécie de eternização.
Alguma forma de existência póstuma
mas que seja de uma honradez única.
Pois bem sei que o pó ao qual voltarei
quando deixar por fim de existir, de ser;
continuará, por sua vez, sendo; ainda que pó.
E cada minha parte estará assim eternizada.
Tão separada, disjunta, incôngrua
cada eu-partícula alcançará assim
uma infinitude espacial harmônica.
Mas é a honradez que me escraviza.
E é por conta desta feitora que vivo
buscando, errando, estabelecendo
arrumando, votando, esperando
por uma ordem, só uma ordem.
E assim que a encontro, perco-a,
como um ato reflexo. E desespero.
E quase desanimo. Mas alguém sorri.
Uma folha cai da árvore descrevendo
perfeita espiral projetada intencional.
E corro para alcançá-la ainda no ar.
E já me esqueci da perda.
03 de Abril de 2002
Bruno Accioly
