janeiro 30, 2005

"Ponto de Vista"

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A discussão filosófica de ex-namorados acerca da natureza da realidade é colocada em perspectiva neste conto de ficção científica que eu e Alexandre Maron pensamos em adaptar para a tela.

Já bem cedo, aos treze anos, quando estudava Inteligência Artificial por conta própria, eu havia identificado que, dada a dificuldade tecnológica em se construir peças, sensores e toda sorte de aparelhos, a melhor forma de agregar sentimento de corpo a uma máquina seria a criação de uma matriz (!!!) tridimensional em memória que contivesse representações tridimensionais do mundo real.

Eu e Alexandre Maron conversávamos muito acerca de modelos tridimensionais dentro do computador, na época, e não havia um conceito formal de Realidade Virtual. Meu irmão, Paulo Albuquerque, inclusive, foi o primeiro a falar de CyberSpace para mim, numa torrente entusiasmada de frases que nem explicavam muito bem o que era, mas que já parecia muito interessante.

Tanto eu quanto Maron escrevemos muitos contos acerca do tema, que eu denominava Realidade Artificial e que ele, pioneiro, já chamava de Realidade Virtual.

Foi em um antigo programa da Mtv, chamado Buzz, que ouvimos o termo pela primeira vez.

O conto a seguir foi escrito após uma discussão que de fato aconteceu, com uma ex-namorada chamada Ana Cláudia, e que defendia com unhas e dentes a idéia de que a discussão acerca de Realidade Virtual ou mesmo da natureza da realidade, era sacrílega e irrelevante, uma espécie de torre de babel tecnológica.

"Ponto de Vista" - PDF
03 de Setembro de 1990

Ponto de Vista

"Lembro de nove mundos."
- Edda Islandesa de Snorri Sturluson, 1200 D.C.

"Existem muitos mundos ou haverá um só? Esta é uma das perguntas mais nobres e elevadas no estudo da natureza."
- Albertus Magnus, século XIII

"...e mesmo que não tenhamos visto, é claro que Deus soprou o hálito da vida nas narinas do Homem, por inúmeras vezes, e continuará fazendo-o por outras inúmeras vezes, em inúmeros outros Universos..."
- Prabhu Kâla Candraloka, Saga Doktrino, 2061 D.C.

Alan não sabia mais o quanto poderia aturar daquela discussão. Não que não gostasse de Paola, ela o interessava bastante, mas acontecia que era uma leiga no assunto, e ele odiava ter de discutir com pessoas desinformadas. Geralmente estas acreditavam saber mais que especialistas. Teve de abrir mão dessa filosofia depois do quinto copo de whisky, mas conservava-se consciente de que estava certo. "Afinal ela é evangélica" - Não gostava de pensar daquele modo, procurava ser uma pessoa sem preconceitos e sabia que havia grande diferença entre as religiões e os religiosos.

- Não, Alan. Isso tudo é uma grande besteira - Paola sacudia uma das mãos ao lado do copo de Lemon Coke em cima da mesa - Não faz sentido e, além do mais (e nem tente dar um de seus sorrisos sarcásticos) Ele vai chegar antes disso acontecer!

Alan quase engasgou com o whisky (voluntariamente) ao ouvir a referência ao hipotético filho de Deus na mitologia cristã - Paola! Sabe que não gosto de conversar nesses termos. A própria Saga Doktrino renega esse tipo de comentário.

- Ah, claro! Esse bando de panacas, com suas togas cor de abóbora, que não sabem fazer outra coisa senão peregrinar pelas Planitias equatoriais de Marte. Sinceramente...

Ele levantou a mão direita e começou a falar - Está bem. Okay. Sei que você não aceita esse tipo de argumento. - Parou e olhou para o prato de batatas fritas no centro da mesa - Há mais de três mil anos que os evangélicos, perdão, os cristãos vêm dizendo a mesma pasmaceira, perdão, coisa, quanto à cada uma das descobertas tecnológicas e à cada uma das coisas que não compreende. Não seria estranho que, mais uma vez...

- Alan! É completamente diferente! Imagine, que blasfêmia! Você está dizendo coisas absurdas. Essa história de R.V. é que é pasmaceira. Você vem falando disso desde a faculdade, e até agora não vi nada diferente daquelas patéticas tentativas de simulação do mundo que nos rodeia. Nunca reproduzirão um pôr-de-Sol, o mar, a vida. - Paola deu mais um gole na Lemon Coke e pegou uma batata frita.

- A questão não é essa. O que importa é a percepção do usuário! Não é preciso que se simule bit a bit um pôr-de-Sol no computador para que um usuário hipotético, lá dentro, ache que tal fenômeno esteja ocorrendo. Basta que se simule o conceito. - Pegou um guardanapo, tirou a caneta do bolso e rabiscou alguns garranchos impacientemente - "Pôr-de-Sol"! Entendeu? - Elevou o guardanapo escrito, com as duas mãos, em frente dos olhos dela.

Paola arrancou-lhe o guardanapo das mãos.

- Quer dizer que você não vai precisar botar o diabo, perdão, do pôr-de-Sol lá, né?

- É. - Disse ele, dando de ombros.

- Então essa porcaria de teoria não passa disso... - Rasgou o guardanapo e jogou, teatralmente, dentro do cinzeiro - ...Lixo!

- Como assim? - Alan arregalou os olhos.

- Lá não vai ter pôr-de-Sol Real, e aqui vai!

Alan sorriu e abaixou a cabeça. Mirou novamente em seus olhos.

- Quem te garante que você realmente vê um pôr-de-Sol?

- Ora, eu vejo, pombas! Ele está lá e eu olho para ele. - Gesticulou, batendo em seu copo, que virou, derrubando a Lemon Coke - Droga!

Olhando para a mesa e balançando a cabeça, Alan chamou o garçom e pediu um pano. Tocou o braço de Paola e continuou.

- A Realidade Virtual é uma realidade! - Piscou um olho, insatisfeito tanto com a frase quanto com seu efeito - Isso não foi uma redundância, foi? - Olhou desconfiado para o copo de whisky, quase vazio. - Bom, veja se me entende... Um gajo que estivesse de frente a um conceito de pôr-de-Sol (dentro de um universo moldado no interior de um computador) acharia estar realmente vendo um pôr-de-Sol. Em um mundo de espaço conceitual não seria possível notar a diferença... Se eu a pusesse em um mundo deste tipo enquanto você estivesse dormindo, você nem perceberia a diferença ao acordar. Tudo que eu teria de fazer seria ligar um indutor de impressões sensoriais em seu sistema nervoso.

Paola balançou nervosamente a cabeça - Mas é aí que está a diferença! Eu sei o que vejo, e já vi um monte de "pôres-de-Sol", tanto na terra quanto na Lua, e eu sei que vi. Eu vi!

- Garota, acontece que tudo o que você vê pode ser só um conceito que está sendo posto em sua frente!

- Lá vem você de novo. Eu sei que não sou um chip de computador. Essa teoria é absurda! Sabe o que eu acho? Acho que você leu demais e viveu de menos nesses seus vinte e...

- Seis...

- Vinte e seis anos. Você é um miserável de um ateu!

- Paola!

Ela levantou da mesa. Alan segurou seu braço - Senta aí, Paola. - Olhou para os lados - Isso não é justo! Deus não tem nada à ver com isso.

- Quê?! Claro que tem!

- Espera! - Alan bateu na mesa. - Gaita!! Eu acredito em Deus, Paola, e você sabe disso.

O sorriso se pronunciou no rosto dela - Saga Doktrino... - Molhou os lábios e sentou-se - Isso é bem diferente, Alan.

Ele baixou a cabeça.

- Tá bom. Vamos parar de falar dessas coisas. - Respirou fundo e tentou mudar de assunto - Como vai seu pai?... Ah, obrigado - Era o garçom.

Sempre foi assim. Eles nunca conversaram mais de dez minutos sem discutir. Na faculdade, Paola e ele já discutiam sobre Realidade Virtual. Até que se entendia que fosse difícil compreender o básico de se construir um mundo com leis físicas, seres vivos e inteligentes no computador, ainda mais quando se falava do Reductio ad Absurdum, o Paradoxo de Braiburn, onde se questionava o existir, pelo menos do modo como nós o conhecemos.

O problema de certas pessoas em descobrir um paralelo entre Deus e a Ciência era bastante compreensível, mas de modo algum provinha da filosofia de alguma religião. Era mais uma defesa contra algo que lhes parecia ofender todo o seu conceito de um mundo maravilhoso e por demais fantástico, onde países inteiros, que estivessem em guerra, pediriam à Deus por um mesmo milagre, ambos tendo a certeza de que Ele estava do lado certo, o deles.

Geralmente era difícil fugir do assunto - talvez porque o comportamento padrão do Homem fosse não sacrificar um relacionamento em função de um assunto, por mais importante que esse pudesse parecer.

Mais oito pessoas no Sistema Solar falavam da mesma coisa naquele momento. Nenhuma da discussões persistiram por muito mais tempo que aquela. Nenhuma das oito pessoas, bem como nenhum dos outros "seres vivos" daquele mundo perceberam quando a energia decaiu e tudo em seu Universo entrou em colapso.

* * *

- Perdemos! - Gritou o técnico de azul, olhando desolado para o grande módulo que sustinha os tórulos de Realidade Virtual.

- Putz! Que porcaria!! - Exclamou o estagiário ao seu lado.

O técnico, com macacão branco, saiu de trás do módulo armazenador, que mais parecia um grande armário - Não, não se preocupem. Consegui salvar o módulo principal. Foi nos últimos três segundos. - Suspirou.

- Ótimo! Felizmente não precisamos nos preocupar com as mentes. Os módulos de memória delas não são voláteis. - Disse o primeiro técnico - De qualquer modo é melhor não reportarmos isso nos relatórios. O senhor Hammock viria chutar nossos traseiros pessoalmente.

- Quando vocês vão poder colocar tudo para funcionar de novo? - Perguntou o estagiário.

O primeiro técnico levou uma das mãos ao queixo - Cerca de três horas... Foi uma grande coincidência, na verdade. Dois geradores pararam de funcionar em seqüência. Se nosso amigo aqui não tivesse salvo o módulo principal estaríamos em uma bela enrascada. Uma enrascada de alguns milhões de dólares em pesquisa. Só o que temos de fazer é efetuar alguns reparos nos circuitos danificados, se houver algum.

- E eles nem vão desconfiar do que aconteceu, certo? - Disse o estagiário.

- Correto. Todas aquelas mentes, todas aquelas crenças, aquelas preocupações, tudo funcionando, e nenhum segundo será perdido na Realidade Virtual. E pensar que o mundo deles acabou há pouco e eles nem sabem disso.

- O garoto está aprendendo, não é?... - Falou o de azul.

E em três horas o Universo Virtual C-12 voltaria a existir.

- Graças a Deus...

* * *

- E então, como vai seu pai? - Perguntou Alan.

- Bem. - Paola respondeu, observando o pôr-do-Sol pela janela do restaurante.



...Graças a Deus...

3 de Setembro de 1990
Sistema: Sol (Hammock)

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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

Bruno Accioly


Categoria: Contos

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Publicado por: penis enlargement pills em outubro 24, 2005 10:58 PM




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