janeiro 31, 2005

"Pioneer 12"

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Diante da competência humana na construção de complexos tecnológicos e na idealização de metodologias magnificamente engendradas, fica difícil acreditar que algo inesperado possa acontecer. A realidade, contudo, como disse Arthur C.Clarke, é muito mais estranha.

Este conto, escrito por mim no dia de meu aniversário, teve profunda influência de um filme adorável, lançado pela Dysney em 1979: "O Buraco Negro".

Mais tarde, em Junho de 1995, comecei a trabalhar no conceito de um universo de RPGRole Playing Game: Trata-se um jogo orientado a representação de papeis. A estória é idealizada por um administrador do jogo e as decisões dos jogadores afetam profundamente o andamento da estória. com o nome de Phœbe, extremamente complexo e que pretendo publicar por aqui.

À época meu estilo se caracterizava por detalhada descrição do ambiente em torno dos personagens e da tecnologia, o que acaba dando uma idéia do conforto quase que opressivo que identificava no futuro.

Pioneer 12 - PDF
21 de Junho de 1990

Pioneer 12

Da janela panorâmica de Phœbe , outrora satélite de Marte, a visão era fantástica... Contra o tecido negro do espaço era possível divisar a Usina Cilíndrica, à cerca de trinta quilômetros de distância. Ela parecia um brinquedo, um brinquedo no qual haviamos trabalhado por mais de um ano. Na época em que Phœbe , equipado com toda sorte de equipamentos astronáuticos e potentes propulsores, saiu do Sistema Solar, provavelmente, o tempo que tivemos, parecesse muito curto para montar uma estrutura tão complexa como a Usina. Era um engenho experimental e, àquela distância, não parecia ter seus quinhentos metros de comprimento por trinta e cinco de raio, embora se mostrasse evidentemente grande. Tais medidas, eu acreditava, espantariam até mesmo os capazes técnicos do já longínquo planeta Terra.

Centenas de gerações haviam se passado, tantas que era possível que a própria Terra já não estivesse mais habitada. Toda minha vida eu havia passado no interior de Phœbe , bem como meus pais, avós, bisavós e boa parte de minha família ascendente. Este sempre fôra o problema com as viagens em velocidades relativísticas... Por isso, Phœbe era encarado por todos os seus habitantes como um mundo individual, seu planeta-mãe - assim como os povos da Terra encaravam o planeta em que nasceram. Era verdade que, por termos conseguido alcançar o potencial propulsor equivalente à pouco mais que dez porcento da velocidade da luz em certas viagens, os efeitos relativísticos causavam um retardo no fator tempo do interior da nave em relação ao resto do Universo. Tais efeitos eram já bastante mensuráveis, no entanto, poucas vezes alcançamos tais velocidades já que as manobras de frenagem eram um processo dispendioso em termos de recursos.

Nosso planeta - era como o encarávamos - era um asteróide, não mais que isso. Há muito ele orbitara um mundo que gritara em altos brados contra a decisão do resto do Sistema de despojá-lo de sua lua. A primeira missão do grande asteróide Phœbe , logo que deixara para trás o abraço gravitacional de seu planeta mãe - Marte - foi uma viagem até a estrela Procyon, símbolo da esperança humana de acertar nas primeiras tentativas. Procyon possuía um sistema planetário, era verdade, mas não vida, muito menos vida inteligente. Valeu a intenção, realmente, mas essa é a vigésima terceira missão de Phœbe , é nossa oitava passagem próxima à um sistema planetário, e não encontramos forma alguma de vida inteligente até muito tempo depois de começar nossa busca.

Isso tudo faz parte de uma história muito longa, a qual não estou apto a contar, já que escolhi como carreira a Engenharia Energética. Entretanto, como sempre, eu me perdia em elucubrações ao divisar a negritude do espaço e as redondezas do asteróide.

Dois pequenos ônibus espaciais, que cruzavam o caminho entre o “Seixo” - Phœbe - e a Usina, quase roçaram nos longos cabos de fribras-de-carbono, que se estendiam por milhares de quilômetros desde a construção cilíndrica. Os cabos eram o produto de máquinas sintetizadoras dedicadas a transformação de compostos orgânicos diversos - refugos das industrias de Phœbe - nos fortíssimos fios que se trançavam para formar as "cordas" que vinhamos carregando por centenas de anos. De umas dezenas de anos para cá, com uma melhor idéia de sua possível utilização, vinhamos reprocessando seu material para mesclar a ele uma série de elementos de dureza propositadamente maior.

Alguns recursos energéticos essenciais haviam sido debatidos por muito tempo antes de ser concedida a permissão do uso de diamantes hiper-puros, gerados a partir de crescimento epitaxial - com a mesma orientação cristalina. Com certeza os estudos efetuados por nossos cientístas e engenheiros da Divisão de Materiais estavam certos quanto ao providencial aumento da força e coesão dentro dos cabos. Havia pouco mais de dois séculos que nossos cientistas tinham desenvolvido um projeto para o uso dos cabos. Era uma idéia ousada, mas seu brilhantismo foi reconhecido de imediato, e o Conselho de Phœbe resolveu implementá-lo.

Havia tempo que não aplicávamos nossas sofisticadas técnicas de engenharia, e o projeto deixou a todos muito excitados. Toda a Phœbe esperou ansiosa desde que o empreendimento foi divulgado e vinha acompanhando com atenção todas as etapas da construção da Usina. O projeto sugeria a necessidade de relativa e inédita proximidade de um Buraco Negro, uma estrela que houvesse desabado sobre si mesma devido a sua incapacidade estrutural de sustentar sua própria massa.

Demorou, mas lá estava a Usina, sobre fortíssimas marés gravitacionais que convergiam para um disco de acresção, um redemoinho de detritos e poeira cósmica, um abismo negro paradoxalmente claro e definido... Toda a estrutura estava distante o suficiente do colossal fenda no espaço para permanecer estacionária e estável. A imagem era deveras fantástica.

As pequenas naves, que naquele momento atracavam na Usina, deviam estar “desovando” dúzias de engenheiros e técnicos na câmara de compressão. Os homens mais brilhantes de Phœbe estavam participando do experimento, e deviam estar maravilhados com os ameaçadores braços leitosos que se estendiam para todos os lados e eram, sonolenta e quase imperceptivelmente tragados para o centro do abismo.

Bem mais atrás dos transportadores que abordavam a Usina, um dos guindastes espaciais passava, desajeitadamente, por dentro de um círculo formado por um dos grossos cabos que, junto aos outros, se espalhavam na popa da estrutura cilíndrica. Era um dos rotineiros transportes de vigas, feitos continuamente, e que objetivavam a armazenagem de material não aproveitado. Tínhamos sempre o cuidado de limpar bem a periferia de Phœbe . Como sempre, devido a distância, as cenas de naves se locomovendo pareciam se dar em câmera lenta. Invariavelmente as vigas carregadas pelos guindastes eram muito desproporcionais ao seu tamanho, o que os fazia ter aspecto infantil, frágil.

Dentro da Usina um dos mais novos frutos da tecnologia de Inteligência Artificial de Phœbe descansava dentro de um ovóide com ráio médio de oito metros. Era uma obra prima em termos de Engenharia Cognitiva, um Sistema Cognitivo - era como chamavamos - e muito superior às dúzias de mentes que iriam supervisioná-la no cilíndro da Usina, ou a todos os outros cérebros computadorizados já desenvolvidos. Dendral era único em sua espécie.

Essa mente titânica, que controlava todo o cilindro, estaria encarregada de dosar a tensão de uma infinidade de campos eletromagnéticos dispostos em volta do centro oco da gigantesca estrutura. Os magnetos, que seriam alimentados por um reator de fusão, cuidariam para que a energia conseguida pelo movimento dos longos cabos de fibras-de-carbono fosse transformada em eletricidade - e emitida, por uma antena de concentração de micro-ondas, até Phœbe , onde o feixe de ondas novamente se transformaria em energia utilizável. Nunca haviamos gerado campos magnéticos tão poderosos, todo o mecanismo era experimental, e estavamos preocupados com a resistência da estrutura. Por outro lado nossos Sistemas Cognitivos convencionais nos tranquilizavam constantemente com estatísticas favoráveis. De qualquer forma era por demais proibitiva a execução de um teste, tal a energia necessária para o mesmo.

A idéia geral era mandar sondas, atadas aos cabos fibrosos, em direção ao abismo, e então aproveitar sua eneria cinética, transformando-a em uma forma manipulável de energia. Muitas medições seriam feitas e, futuramente, poderiamos criar uma Usina mais funcional e menos improvisada. Além disso, tínhamos mesmo que nos livrar dos cabos, que representavam um excedente em termos de compostos orgânicos e, é claro, massa.

Faltavam cerca de vinte minutos para a ignição das sondas. Eu começava a ficar impaciente. Depois que dez mísseis-sonda entrassem nas correntes gravitacionais, não tardaria para que os cabos começassem a percorrer o centro da Usina, que os manteria - por intermédio de hiper-potentes campos magnéticos - distante das paredes internas do cilindro. Se o puxão das marés gravitacionais se tornasse muito irregular, o computador de Inteligência Artificial, o controlador da Usina, usaria de seus reduzidos propulsores corretivos para ajustar a posição da estrutura.

Os guindastes diminuiram rapidamente em número, enquanto o tempo passava. Por precaução eles deveriam sair de perto dos cabos de fibras carbônicas, no entanto isso não nos preocupava muito. seria difícil que algum deles chegasse próximo o suficiente das “cordas” para causar problemas. O controle dos guindastes era autônomo, o que queria dizer que não careciam de supervisão humana, no entanto era padrão que os equipamentos autônomos fossem subordinados a ordens externas, que teriam prioridade no comportamento dos pilotos automáticos. Eles haviam sido instruídos a afastar-se da área, mas que o fizessem em ritmo normal.

Pela primeira vez olhei ao redor. Mais três curiosos haviam se unido a mim na janela panorâmica. A luz era mortiça, e as telas dos terminais-monitores flutuavam fantasmagoricamente, acima de seus respectivos projetores holográficos, em um ângulo confortável ao usuário. Os gráficos indicavam que a Usina se preparava para a entrada da fantástica carga de energia.

Não havia perigo da estrutura ser arrastada de seu ponto de estabilidade para a garganta do abismo, eu sabia disso, mas gostava de me imaginar dentro da Usina enquanto esta fosse puxada em direção ao enigma negro, que ainda reservava muitos mistérios para a ciência humana. Na verdade era um tanto infantil de minha parte. Se a Usina sequer se aproximasse além do previsto seria destroçada completamente e transformada numa pasta de matéria disforme antes que eu pudesse aproveitar o “passeio”.

Estava eu hipnotizado pelo rodopio da poeira cósmica, gases fruto da contração da estrela outrora existente alí, e quase não pude notar o brilho alvo da traseira do primeiro míssil-sonda. Não houve o espetáculo pirotécnico que poderia ser esperado na Terra, no início da era espacial. O propulsor emitia pouca luz no espectro visível. Outras sondas, também atadas a cabos de fibra-de-carbono, logo se pronunciaram à frente do cilindro, as restantes, poucos segundos mais tarde, seguiram-nas. Em algum tempo adentraram as tempestades gravitacionais invisíveis provocadas pelo abismo negro, que os astrônomos e astrofísicos costumavam a chamar de Collapsar, uma forma compacta para “Estrela em Colapso”. Ouvi os três rapazes ao meu lado discutindo algo sobre ir até um dos terminais computadorizados de observação telescópica. “Besteira”, pensei. Preferia uma imagem real, e não algo ampliado por computador.

Eu imaginava poder ver o abalo causado na trajetória dos já pequenos pontos de luz. Os cabos - esses eu já não conseguia divisar com clareza - eram arrastados pelos “arautos” na direção do vórtice gravitacional, e só se via sua extensão a frente do cilindro e os segmentos enroscados da parte de trás, que quase alcançavam Phœbe.

Minutos depois, devido a velocidade indicada pelos gráficos dos holo-monitores daquela sala, ponderava sobre a tensão dos cabos que, com pouca divergência angular, “desciam” em desabalada carreira na direção do abismo. O bolo formado pelos cabos de carbono, que haviam sido organizados de modo a não prejudicar o funcionamento da Usina, se desenrolavam violenta e freneticamente. A velocidade com que isso acontecia era cada vez maior, e provocava um movimento mais incerto dos cabos dentro da Usina, o que era compensado pelos potentes geradores de campos eletro-magnéticos. Em Phœbe, toda a tripulação devia estar observando a Usina naquele momento, ou procurando enxergar as sondas, fosse pelos mirantes ou pelos telescópios computadorizados, acompanhando-as à grande distância.

Por algum motivo que desconhecia, eu lançava, constantemente, rápidos olhares para o complexo desenho formado pelos cabos em revolução. A esta altura os mísseis-sonda já deviam estar em frangalhos, e me arrependi de não ter estado em frente a um dos poderosíssimos telescópios computadorizados para ver aquilo. Os mísseis não eram mais necessários, pois a aceleração gravitacional se encarregava de atrair, com força fantástica, os resistentes cabos fibrosos, que eram destruídos no processo, mas que não conseguiam se livrar da “queda”. Todos provavelmente focalisavam apenas a Usina e a periferia do Collapsar. Eu ainda não sabia quão providencial havia sido que eu houvesse permanecido em frente a janela panorâmica.

Mais uma vez eu havia olhado brevemente para o desenrolar dos cabos. Té minha mente processar o que vira já haviam se passado alguns segundos. Olhei novamente para os cabos na parte detrás da Usina: dois guindastes, de algum modo, se chocaram e se enroscaram em uma das parábolas formadas pelos cabos. Um deles provavelmente carregava uma viga... sim! A viga, após o choque ficara um pouco retorcida, formando um vê.

Não me recordo exatamente do que aconteceu depois. Devo ter alcançado um dos comunicadores e avisado o que ocorrera, não sei ao certo. Lembro apenas de estar informando apaticamente o acontecido ao controle da missão quando voltei para a grande janela, deixando o controlador a vociferar freneticamente frases ininteligíveis. Em pouco tempo quatro ônibos espaciais, carregados com nossos engenheiros e cientistas se afastavam velozmente da Usina; mérito da organização do Departamento de Segurança. Os guindaste, no entanto, seguiam, rapidamente, sua tragetória até a estrutura cilíndrica enquanto descreviam amplos arcos, arrastados pelos cabos. Toda a estrutura, sabíamos, estava fadada à destruição. Os veículos poderiam até passar pelo canal magnético, entretanto não se podia dizer o mesmo da viga, que rasgaria parte da parede interna da Usina e, pouco depois, arrastaria-a para seu derradeiro fim.

Pelo comunicador, outrora vociferante, pude ouvir controladas sugestões dos maiores cérebros de Phœbe, inclusive de dois dos nossos mais brilhantes Sistemas Cognitivos. Não havia esperança, em menos de um minuto o impacto se faria presente, e um dos mais gloriosos experimentos idealizados pelo homem teria um trágico óbito.

As tentativas de comunicação com os controles automáticos de emergência dos guindastes, na esperança de que estes pudessem cortar as vigas, foram vãs, eles haviam sido muito avariados.

Veio o impacto. No comunicador o silêncio era tudo que havia. Sentia como se não estivesse realmente presenciando a cena. O escapismo sempre fora uma característica humana, quando sob pressão.

Acho que me dirigí até a sala projetora do telescópio esférico, que havia sido colocado do lado de fora para supervisionar as operações. A Usina era arrastada pela infinita massa daquele maldito monstro.

Acompanhamos sua “queda” até que sua estrutura começou a se despedaçar e até que, ironicamente, só o ovóide, que encapsulava o Sistema Cognitivo, permaneceu intacto. À volta do ovóide se espalhavam destroços, indutores de campos eletromagnético, baterias concentradoras de energia e o poderoso reator de fusão.

Sentíamo-nos como que no espaço, cercados pela tela de trezentos e sessenta graus e pelo silêncio assombroso. Tanto que foi quase insólito ouvir a voz que vinha dos comunicadores. Mais isólita ainda era a mensagem... que dizia que um estranho padrão de atividade eletromagnética ocorria em torno do que restara da Usina.

Vimos com igual espanto o movimento impossível que era executado pelas peças soltas em torno do ovóide. Os cabos condutores dos magnetos formavam, naquele momento uma esfera em torno da cápsula do reator e das baterias.

Até onde oudemos acompanhar, já que, nas proximidades do abismo até a luz se curvava ante o Collapsar e era engolida, o ovoide permaneceu estranha e incompreensivelmente incólume.

Há alguns anos nossos cientistas vêm tentando entender, junto aos nossos Sistemas Cognitivos convencionais, como o Hiper-Computador conseguira abastecer aquele incomensurável campo eletromagnético, sem chegar à uma conclusão razoável, mas não deixaram de ficar orgulhosos de ter criado um ser tão brilhante ao ponto de conseguir idealizar tão fantástico aparato para se manter ileso nas proximidades de algo tão poderoso como um Collapsar.

Foi veiculado com orgulho, em Phœbe, que Dendral, o referido Sistema Cognitivo, se encarregou de nos mostrar quão descomunal é o potencial da raça humana e que, mesmo tendo o fim fatal que teve, não se curvou às circunstâncias e ao que poderia ser um fracasso total.

Quanto a mim, não acho tão improvavel que Den - se me permitem a intimidade - tenha conseguido atravessar, ileso, aquele abismo gravitacional. E, se passou, não creio que pudessemos esperar melhor embaixador que ele.

Talvez seja Dendral o primeiro de um conjunto de sondas que irão de encontro a Collapsars como aquele. Um pioneiro... O que me lembra as primeiras sondas a sair do nosso Sistema Solar, já distante, nos primórdios da era espacial. Talvez um dia meus netos ou bisnetos encontrem Den, à centenas, milhares, ou milhões de anos-luz daqui, e lhe dêem o nome, ou título, de Pioner 12.

21 de Junho de 1990
Sistema: Sol (Phœbe)

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Bruno Accioly


Categoria: Contos

nice site!!!!

Publicado por: penis enlargement em outubro 30, 2005 07:31 PM




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