fevereiro 03, 2005

"Valeu a pena?"

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Em viagens espaciais relativísticas, nem mesmo todo o poder e velocidade dos motores garantem a falta de surpresas. Tão comum quanto possível, nas circunstâncias, o mais baixo cargo da Dædalus fica frente a frente com a futilidade e os limites do Homem e de suas máquinas maravilhosas.

Personagem comum nos filmes de ficção no século XXI, mas nem tanto à época em que escrevi o conto, o narrador tem um perfil com o qual o leitor pudesse se identificar com maior facilidade.

A "estética" e estilo deste conto influenciou profundamente o jogo de RPGRole Playing Game: Trata-se um jogo orientado a representação de papeis. A estória é idealizada por um administrador do jogo e as decisões dos jogadores afetam profundamente o andamento da estória. "Sistema: Sol", que foi jogado por cerca de dez jogadores ao longo de cinco anos, totalizando 120 aventuras.

Menos que me preocupar com o que é ou não previsível, concentrei-me no inevitável e na paródia intrínseca que é o valor que damos a suposta permanência das coisa.

Valeu a pena? - PDF
21 de Junho de 1990

Valeu a Pena?

Abri os olhos e fiquei um tanto assustado, até que recordei onde estava. As luzes aumentavam de intensidade lentamente, e a linha d’água vinha em direção à “máscara de mergulho”. O tanque de água superpesada, de baixíssimo ponto de congelamento, estava esvaziando. Ainda devia estar bastante frio, mas o macacão me protegia naquele momento. Comecei a sentir as lufadas de ar aquecido.

Levantei-me sentindo o peso do tempo e da falta de atividade, embora a maior parte de meus músculos tenham sido cautelosamente tratados com drogas especiais. O visor transparente da cápsula deslizou para o lado. Tirando a máscara esfreguei os olhos e procurei as outras cinco câmaras criogênicas. O comandante e os outros estavam acordando. Todos sabíamos o que aquilo significava...

Quando os cientistas, lá na Terra, receberam os primeiros sinais de rádio proveniente de Procyon, o mundo todo virou de ponta-cabeça. Tudo indicava que não estávamos sós no Universo. Infelizmente não pudemos manter um diálogo, devido a distância - já que uma sessão de perguntas e respostas com tal civilização demoraria mais de vinte e dois anos - mas soubemos que sua constituição era basicamente humana. A natureza arranja, ao que tudo indica, as mesmas soluções para os mesmos problemas.

Em sua mensagem, após um árduo período de decodificação, foi conseguido observar que eles diziam não possuir tecnologia para viagem inter-estelar, e que receberiam de braços abertos uma visita alienígena amistosa. Foram três anos antes que a mensagem fosse inteiramente recebida, e foi constatado que esta se repetiria indefinidamente.

Havia décadas, o mundo ouvia sobre viagens inter-estelares como coisa de ficção científica, e nem os vinte anos que se passaram desde o início da construção de uma variação da nave-sonda estelar Dædalus, projetada pela Sociedade Interplanetária Britânica, foram suficientes para fazer com que se acostumassem com a idéia. É certo que era uma expedição militar, contudo isso não retirava o mérito do projeto.

Desde que foram recebidos os sinais até o término do maior veículo espacial feito pelo Homem, transcorreram trinta anos. Os Procyonianos, como convencionou-se chamá-los, por certo não se incomodariam... Afinal sua mensagem fora lançada em todas as direções no espaço e, na verdade, eles nem tinham como dar-se conta de terem contatado “alguém”, mesmo porque os governos da Terra, em consenso, resolveram não emitir qualquer aviso, “nada além de um contato direto poderia ser mais apropriado”, argumentavam.

Não tínhamos tempo para olhar pelas “vigílias” ou telescópios para avistar o motivo pelo qual havíamos viajado por mais de cem trilhões de quilômetros por cerca de cento e sessenta anos. Na verdade só cento e cinqüenta e nove anos e alguns meses se passaram dentro da nave, conseqüência da dilatação relativística do tempo, mensurável quando em grandes velocidades. Estaríamos ocupados pelas próximas horas enquanto a nave adentrasse as órbitas exteriores do Sistema Procyon.

Eu não parava de pensar em quão diferentes eles seriam de nós. Embora fossem dotados de características humanóides, como descreveram genericamente, em termos científicos não seria possível que seu planeta impusesse à sua biologia as mesmas exigências que a Terra veio impondo a nós por milhões de anos. Como seriam? Qual seria a natureza de seus costumes?

Meu posto na Dædalus era de Controlador da Manutenção, e os responsáveis pelo recebimento dos sinais, do Sistema no qual mergulhávamos, haviam feito de tudo para manter em segredo o máximo de informações com respeito aos detalhes sobre seus habitantes. Quem faria contato de superfície seria o Comandante e o Cientista da Missão, além de uma infinidade de computadores e de uma série de equipamentos supersofisticados, e mais três tripulantes, que pilotariam a pequena nave de reconhecimento.

Poderia parecer estranho que estivéssemos entrando em seu Sistema e eles nem se dignassem a tentar entrar em contato conosco, mas não era de se surpreender que eles não permanecessem vigiando os arredores de seu sol e que tivessem coisas mais importantes para fazer... nós mesmos vimos o assunto desta forma por muito tempo. Só no final do século XX iniciou-se uma preocupação maior com a supervisão da periferia de nosso planeta.

Mesmo com relação a sinais de rádio nossa comunidade científica não fazia muito a respeito. Podíamos nunca ter recebido os sinais de Procyon, sem contar que nunca os receberíamos se fossem, por exemplo, emitidos no final do século XIX. Fora sem dúvida uma tremenda coincidência até que o alinhamento de nossos radiotelescópios permitissem o contato. Os cientistas na Terra, provavelmente, ainda estariam computando a probabilidade estatística de todos estes fatos inesperados coincidissem com o de que duas estrelas tão próximas detivessem tecnologia e cultura suficientemente parecidas para que fosse possível captar seus sinais e, inclusive, decifrá-los com razoável facilidade.

Nenhum de nós pôde se comunicar com palavras de mais de duas sílabas dentro da nave. Havia muito a fazer. Eu deveria verificar uma série de sistemas, inclusive o “Escudo Antierosão”, que protegia a nave de perigosas partículas de gás e poeira que colidiram continuamente com a nave durante o percurso. Na velocidade que alcançáramos, qualquer destas massas de partículas poderia pulverizar partes da fuselagem da Dædalus.

A nave vinha acelerando muito suavemente desde há muito tempo, e o Comandante pretendia roçar nas atmosferas dos maiores planetas e usar o campo gravitacional de Procyon para desacelerá-la ainda mais. Ele devia estar cuidando disso naquele momento.

Na verdade, um veículo de reconhecimento seria lançado da popa da Dædalus, logo que passássemos a uma distância razoável do planeta, o qual os procyonianos habitavam. Dentro dele iria toda a tripulação de nossa nave-mãe - Dædalus -, menos o membro responsável pela supervisão da integridade do funcionamento da mais cara nave inter-estelar construída pelo Homem: eu...

Nem preciso repetir a série de palavrões nos quais pensei desde despertar da animação suspensa, no entanto fiquei muito satisfeito quando tive tempo de resmungar um ensaio de reclamações para o Comandante. Não adiantou, ele logo me lembrou o quanto eu ganharia para permanecer na nave.

É claro que eu nem parei para pensar que só receberia o pagamento daqui a mais de trezentos e trinta anos, quando voltássemos à Terra, no segundo estágio da nave. Por outro lado, meu salário e o dos outros tripulantes, brincava eu, poderia ser expresso em notação científica para facilitar sua leitura.

Ficaríamos no Sistema Procyon por dez anos, era o previsto, e eu só poderia deixar a Dædalus depois do quarto ano, quando ela já pudesse estabelecer uma órbita “geo-estacionária” sobre o planeta-origem dos sinais. Eles viriam poucas vezes para a nave no durar desses anos, já que deveriam aprender muito e pesquisar toda a história, cultura e ciência procyoniana.

Era interessante imaginar uma futura Enciclopédia Galáctica cheia de raças catalogadas e com “zilhões” de volumes de livros agrupados que falariam sobre suas culturas e características. Seria difícil fazer valer nossos conceitos a respeito do Universo a civilizações que poderiam que ser até mais antigas e sábias que a nossa.

Todas essas reflexões me lembram de uma pergunta que li em algum livro, em nosso planeta natal: “Quem responde pela Terra?”. É uma boa pergunta, e como pude parar algum tempo de trabalhar, procurei, nos vastos arquivos literários da Dædalus, uma resposta que me fizesse ter mais esperança em nosso futuro.

Depositei essas dúvidas sobre os textos de Christian Huygens, de onde minha preferida passagem me comoveu bastante.

“Quão vastos devem ser estes Astros e quão inconsiderável é esta Terra, o Teatro no qual todos os nossos Desígnios, todas as nossas Navegações e todas as nossas Guerras são negociadas, quando comparada a eles. Uma consideração muito apropriada e matéria de Reflexão, para Reis e Príncipes que sacrificam as Vidas de tantas Pessoas, somente para exaltar sua Ambição em serem Senhores de alguma esquina lastimável deste pequeno porto.”

...Tudo isso nos coloca em nosso verdadeiro lugar neste gigantesco Universo.

Tive de continuar meus afazeres depois desta pausa. Já estávamos chegando perto de nosso objetivo e pude ver quão agitados e amedrontados estavam meus companheiros. Talvez fosse difícil para eles se adaptarem a uma idéia tão fantástica quanto a de encontrar seres de inteligência alienígena.

O Comandante mantinha uma postura altiva e não permitia que seus sentimentos aflorassem, o que era como que um combustível moral para os outros tripulantes. Dentro em pouco eles estariam na nave de reconhecimento que iria fazer a primeira viagem de contato.

Eu estava muito deprimido com tudo aquilo. A nave, sabia eu, possuía um sistema automático de supervisão e manutenção, mas não tinha coragem de me lamentar novamente com os tripulantes sobre a possibilidade de eu descer com eles para o primeiro contato. De qualquer modo não estava disposto a receber a resposta de que eu estava ganhando o bastante para tanto.

Os preparativos para o lançamento da pequena nave de reconhecimento eram o centro das atenções do resto da tripulação. Mais tarde eles poderiam se preocupar com a primeira tentativa de contato pelo rádio, que deveria ser feita a meio caminho entre a Dædalus e seu planeta-objetivo. A comunicação seria estabelecida na língua a qual os procyonianos usaram para mandar sua mensagem de três anos de extensão. Acreditávamos que seria uma grande surpresa para eles, que nem deveriam ter nos detectado ainda.

Constatei que o “Escudo Antierosão” estava bastante avariado às três horas - segundo a linguagem posicional que usávamos. Na velocidade em que estávamos a colisão com uma partícula qualquer provocava considerável destruição, levando-se em conta o tamanho da nave. A dez porcento da velocidade da luz - quase trinta mil quilômetros por segundo - tinha-se de tomar certas precauções: para começar, os engenheiros da Terra perderam muitas noites de sono só na idealização de alguma espécie de “freio” que desacelerasse Dædalus, para que ela não passasse direto pelo Sistema Procyon e continuasse em direção ao infinito.

O estágio que havia nos levado àquela fantástica velocidade, pelo esmagamento magnético de pelotas de deutério, havia ficado pelo meio do caminho, como previsto. O tamanho da nave, que fora de duzentos e cinquenta metros, se reduzira a dois quintos do original.

Enquanto fazia as avaliações com respeito ao que seria necessário para a manutenção do “Escudo Antierosão”, ouvi as primeiras quatro sondas, que executariam as primeiras medições e pesquisas sobre a Estrela Procyon e seus planetas. Elas eram expelidas de pontos diametralmente opostos da frente circular achatada de Dædalus.

Não parecia nada boa a situação do escudo frontal, mas seria bastante provável que o planeta o qual visitaríamos contivesse os materiais necessários para o conserto, e era difícil imaginar que nossos “amigos” lá embaixo se recusassem a nos ceder os meios para tanto. Precisaríamos também de combustível suficiente para alcançar uma velocidade de, pelo menos, cinco porcento da velocidade da luz, metade da que alcançáramos para chegar ao sistema.

Seria impossível alcançar os mesmos dez porcento anteriores, já que o estágio que alojava o motor principal fora deixado para trás. Por isso a viagem de volta levaria mais de duas vezes o tempo anterior.

Pelo menos, na viagem de volta, como na vinda, teríamos o desconto relativístico de um ano - ou pouco menos - dentro da nave. Não era muito, mas o bastante para levantar a moral, quando pensávamos no longo tempo de volta. De qualquer modo não sentiríamos a passagem do tempo congelados nos “hibernáculuns’.

Nós todos havíamos sido escolhidos devido a nossa condição de vida essencialmente solitária. Afinal, quando voltássemos à Terra, haveriam passado cerca de quatrocentos e oitenta anos, e seriamos pouco mais que idiotas, se comparados à super-raça na qual os seres humanos teriam, provavelmente, se transformado. Preferíamos não pensar nisso... Afinal, seríamos pouco mais que idiotas, mas célebres idiotas! Os primeiros idiotas a pisar em um planeta alienígena!

Nem reparei quando eles foram expelidos, pelo lançador eletromagnético, montado no centro de gravidade da nave, em direção oposta ao movimento da Dædalus, com o objetivo de reduzir sua velocidade relativa. Sofri um profundo sentimento de solidão e abandono. Dentro em pouco eles deveriam ligar seu propulsores para “anular” mais uma parte da fantástica velocidade na qual Dædalus, apesar de tornado cento e oitenta graus para atenuá-la com os combustores, insistia em desenvolver. Então fariam a aproximação na atmosfera da grande lua dos procyonianos, como previamente determinado, para frenagem gravito-atmosférica, antes da esperada interseção com a órbita do planeta natal dos procyonianos.

Tinha de imaginar tudo, pois não lhe era permitido, nem seria prudente, cessar os trabalhos exaustivos que eram de minha obrigação. Quanto eu não daria, de meu salário “astronômico”, para dar uma olhada no telescópio? Foi naquele ponto que me lembrei que estava sozinho dentro da nave, e de que, como dizia meu finado pai, “só se vive uma vez!”

A passos largos, em meio a gravidade quase nula que me envolvia, me dirigi para a sala do observatório. Decidido, abri a porta corrediça e entrei. A visão do planeta, a partir da Dædalus era então privilegiada, pois acabara de sair detrás da sombra da grande lua que orbitava o mundo-alvo. A nave dos outros tripulantes nada veria em menos de uma hora.

Qual não foi meu espanto ao direcionar o poderoso telescópio externo para o planeta e, após alguns minutos de observação de proximidade, ver uma nave, aparentemente gigantesca - o que verifiquei devido a riqueza de seus detalhes - orbitando o mundo pouco maior que a Terra.

Afastei-me da tela, na qual era projetada a imagem até encontrar uma poltrona em meu caminho. Sentei desajeitadamente e tentei me acalmar. Precisava raciocinar... Tinha de haver uma resposta razoável para aquilo. Pelo que sabíamos os procyonianos não haviam alcançado aquele estágio de tecnologia aero-espacial. Fiquei remoendo por breves segundos sobre eles terem agido de má fé por algum motivo obscuro. A nave mais parecia uma estação espacial de grande porte, pelo que verificava pelos instrumentos!

Mas passamos quase cento e sessenta anos no espaço... e não havíamos pensado nisso. Fiquei imaginando o porquê de não nos terem prevenido a respeito.

Quando Julio Verne escreveu seu livro sobre a primeira viagem espacial, em mil oitocentos e sessenta e cinco, não se imaginava que, cem anos depois, sua profecia se tornaria uma realidade com a ida do Homem à Lua. Muito menos que, cinquenta anos depois disso, teríamos tecnologia para criar uma nave que viajaria até Procyon!

Cento e sessenta anos seria tempo suficiente para que os procyonianos já houvessem desenvolvido uma apreciável tecnologia espacial. Deviam até estar tentando construir uma nave estelar, para poder acompanhar a volta de possíveis visitantes de outros mundos. Se assim fosse, podia-se dizer que eram entusiastas da idéia de não estarem sozinhos no Universo. E, considerando as aparências, seu desenvolvimento no campo de viagens espaciais poderia até ter sido mais rápido que o da Terra.

Preferi não pegar o comunicador para avisar o Comandante e os demais tripulantes da pequena nave de reconhecimento. Além de provavelmente ser repreendido por ter saído de meu posto e ido ao observatório, seria morbidamente divertido ouvir as demonstrações de espanto que penetrariam pelos autofalantes quando eles descobrissem o que acontecera.

Aproximei-me novamente do terminal de controle do telescópio e dedilhei alguns comandos relativos à ampliação, para que pudesse examinar mais detalhadamente aquele artefato alienígena.

Definitivamente sua estética era, no mínimo, bastante similar a nossa, bem como as noções de engenharia! As linhas, as curvas... Devia ser uma característica intrínseca às raças humanóides.

Reparei em uma inscrição razoavelmente grande na fuselagem daquele objeto que, calculava com ajuda dos instrumentos da Dædalus, deveria ter cerca de trezentos metros de extensão. Efetuei mais uma seqüência de comandos de manutenção do foco para o computador, sem a esperança de conseguir lê-la e esperei até a correção da imagem do telescópio. Talvez a mensagem mandada à Terra tivesse sido “escrita” em uma linguagem preparada especialmente, algo lógico demais para ter se desenvolvido aleatoriamente ao longo do tempo pela sociedade procyoniana...

...Hoje me pergunto se tudo aquilo valeu a pena. Lembro que, com a mente abalada, tateei por sobre a mesa do telescópio até identificar o comunicador. Toquei levemente o comando de contato e me lembro de ter dito: “Comandante, acho que chegamos tarde...”

Não respondi às perguntas que meu superior vociferava do outro lado. Só podia pensar no absurdo da situação. Sabia que não precisaria mais esperar tanto para receber meu pagamento.

Na inscrição da fuzelagem da gigantesca nave lia-se em um bom inglês, com letras garrafais: “Grumman Space Crafts”, e mais abaixo, “NASA Star Fleet”.

21 de Junho de 1990
MegaParsecs

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Bruno Accioly


Categoria: Contos

nice site!!!

Publicado por: penis exercise em novembro 15, 2005 01:07 PM




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