"Livre Arbítrio"
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Brasil pós apocaliptico... o que fazer quando tudo o que você ama desaparece e todos os seus referenciais mudam completamente?
O interessante deste conto, em minha opinião, está o ferramental que ele trás dentro dele. Aqueles que gostam de identificar subtextos vão encontrar, provavelmente, noções platônico-socráticas ali escondidas.
Coincidência feliz inspirada por absolutamente todos os livros e filmes de ficção científica que eu havia lido até então.
Livre arbítrio é o conto mais elogiado que já fiz. Pessoalmente não acho o melhor, mas fazer o que?
27 de Junho de 1990
Livre Arbítrio
Havia mais de seis horas que meus homens não voltavam. Tentei não me preocupar tanto nas primeiras horas, mas todos sabíamos que não era prudente passar mais de trinta minutos fora da base, a não ser em missões de sabotagem contra os Verdugos. Não que a base fosse grande coisa - apenas um blindado militar, de um exército que já não mais existia, escondido nos destroços do edifício... o Marquês de Herval. Pelo menos tínhamos muitos livros para ler...
Não havia graça (joguei o livro ao chão). Só me aventurava no amontoado de livros do subsolo por cerca de dez minutos. Estava com medo de ir atrás deles. Nunca excurcionávamos sozinhos no centro da cidade. Éramos sempre em grupos de três, ou quatro, pois só assim conseguia-se subjugar um Verdugo (um ruído, e corri para o lado do blindado, abrindo a porta deslizante com um toque). As metralhadoras daqueles sólidos monstros de metal, e seus potentes membros hidráulicos, lhes conferiam uma força grande demais.
Infelizmente eu não sabia de onde eles haviam vindo, mas isso não fazia mais muita diferença. Algum maluco os montou com um propósito desconhecido. Só sabíamos o que víamos. Eles chegavam e diziam em tom monocórdio: “É favor vir em paz...”, e invariavelmente atiravam, prendendo o corpo da vítima ao seu. Em alguns segundos deixava cair o corpo sem cérebro ou coluna vertebral. Pela manhã encontrávamos a massa em decomposição ao lado dos ossos estilhaçados no asfalto, já esburacado, da Avenida Rio Branco. Queimávamos tudo...
Já havíamos tentado sair do Centro da Cidade, mas eles não nos deixavam. Eram muitos, e deviam ter se apossado dos armamentos pesados nas bases militares da área. No entanto, mesmo não podendo nos afastar muito daquele ponto, sabíamos que haviam outros grupos rebeldes, pelo menos na Zona Norte. Havíamos captado transmissões, entre dois grupos, no rádio do tanque. Foi desta forma que ouvimos pela primeira vez a palavra Verdugo. Agora, contudo, não ouviríamos nada mais... o rádio quebrara... um acidente estúpido.
Já olhava impaciente para os quatro monitores, ligados a câmeras de vídeo escondidas em protegidos pontos estratégicos do lado de fora do tanque. Estava escurecendo...
Quando atacaram pela primeira vez, a resistência oferecida pelas forças armadas fora ininteligivelmente ineficiente e pouco significativa. Os Verdugos dizimaram as Três Armas e, estranhamente, até os policiais conseguiram impingir-lhes maiores baixas - quem diria? Eles deviam ter toda uma infra-estrutura dedicada à queda da milícia. Perguntávamo-nos o porquê de as demais forças da União, ou mesmo outros países, não tentarem nos ajudar. Não era possível que houvessem tomado de assalto o país inteiro. Nem mesmo acreditávamos que tivessem tomado toda a cidade do Rio. Não toda!
Cochilei...
Acordei sobressaltado de um pesadelo. Sabia que fora terrível, mas não podia recordar-me exatamente o que sonhara. Passava das vinte e duas horas e me dei conta da gravidade da situação. “Sete homens!”, pensei, colocando as mãos em frente ao rosto, “Deus. Onde estão eles?”
Armei-me com a pistola nove milímetros e verifiquei os pentes-de-bala extras e o percursor. Coloquei no coldre de tórax todo o conjunto. Do fuzil automático só sobrara um carregador, que felizmente estava cheio. Amarrava a bota de lona quando me recordei de embainhar a Balisong no coldre - “Ha, ha”, ri sozinho. Podia não adiantar nada... “uma lâmina contra sei lá quantos milímetros do metal dos Verdugos”, mas Débora me dera a arma, horas antes de morrer - alvejada por uma daquelas malditas máquinas - devia ter encontrado a lâmina numa das incursões, provavelmente no corpo de um dos pobre diabos que corriam sem esperança por aí.
Até que não estávamos tão mal equipados. Nosso blindado chegava a funcionar - e seria a primeira vez, em dois meses, que o usávamos... quer dizer... eu usava. Eu tinha que encontrá-los. O tanque estava munido de uma boa gama de sensores, quase tantos quanto nós supúnhamos que os Verdugos alojassem dentro de suas carcaças metálicas.
Resolvi não me preocupar e destruir a porta de madeira camuflada, em frente do edifício, saindo com a maior velocidade que consegui. Parei diante do prédio. As luzes estavam apagadas. “Estranho”, eles pareciam ter preferido abastecer a cidade de energia elétrica, pelo menos até então. Virei à direita e acelerei a quarenta por hora, olhando pelo monitor dois, a destruição causada no Edifício Central. Acelerei. O barulho do motor me incomodava - a hiper-sensibilidade do medo...
No monitor um, só era possível ver até cerca de trinta metros, aí me lembrei do holofote externo que não havia ligado. “Merda, esqueci de instalar o interruptor!”, pensei, irritado comigo mesmo pela estupidez, “Cretino! Idiota! Imbecil!”, continuei enquanto me dirigia para a escotilha superior e o blindado rangia, prosseguindo na contra-mão. “Talvez eu seja multado...”
Abri a escotilha em quinze centímetros, ainda em movimento, suando feito um porco numa sauna. “Antigamente minhas analogias fediam menos...” Esgueirei uma das mãos rapidamente para o interruptor holofote e empurrei-o para frente.
O novo alcance visual, de cerca de trezentos metros, encheu meus olhos com objetos demais para quem está com adrenalina até os testículos. Distinguindo melhor as imagens, pude ver o luminoso do McDonalds caído no meio da rua, em frente a um Verdugo...
“Ahn!?!?!”, seus fortes refletores se acenderam, cegando-me por um segundo.
Comecei a ouvir tiros e me dei conta de que havia entrado automaticamente no tanque. O veículo tremia enquanto os projéteis espocavam na blindagem. Os monitores um e três não funcionavam mais. Avancei para o fuzil, ao lado da poltrona e abracei-o com força. Uma rajada de tiros à esquerda e à direita do tanque. “As lagartas!”, ele devia estar tentando diminuir a velocidade do veículo atirando nas lagartas. Os Verdugos, já havíamos notado, pareciam raciocinar. Puxei a alavanca de aceleração, aumentando a velocidade, corri para a porta traseira. Mais uma seqüência de disparos e o blindado sacolejou feito uma mula chucra. Abri a porta e saltei, rolando pelo asfalto.
Senti-me como um banhista alcançado por um vagalhão inesperado. A areia no calção bem podia ser uma bela analogia dos hematomas nas costas e nos joelhos. Esforcei-me para olhar para o Verdugo, mas a silhueta do tanque, contra as luzes da massa metálica super-armada, explodiu em chamas. Nova explosão e pareceu que aquele Verdugo não mais me incomodaria.
Uma lágrima rolou enquanto um sentimento irracional de perda me afligia devido à destruição do blindado. Aquele era o décimo nono Verdugo que eu destruíra - a idade de Débora quando a tomaram de mim.
Aquele rompante sentimental devia ter me distraído. O bastante para eu não ter ouvido o bastardo... Uma forte luz, às minhas costas, encheu-me de calor. Um estalo seco, e a luz diminuiu de intensidade. A voz, monocórdia, gelou-me as vísceras.
- É favor vir em... - Eu já esperava o tiro e, se sobrevivesse, a maior agonia que sentira até então. Mas a voz me congelara... sua hesitação colocou-me em pedaços. Eu esperava um algoz, não um cretino sadicamente condescendente.
Naqueles breves segundos senti como se toda minha vida estivesse sob sua mira, diante daquela máquina estática, inescrutável. Falei, se bem me lembro... - E então? Quem atira primeiro? - Nunca saberia de onde viera aquilo, mas o fiz displicentemente, passando a segurar o fuzil com firmeza.
O Verdugo não emitiu nenhum som por alguns longos segundos, e cheguei a pensar em fugir. Não... meu orgulho crescera, com sua hesitação, e ainda não havia caído por terra.
- Como é? O que vai ser? - Pensei ouvir sons baixos e inarticulados.
- Tão errados, Marcelo - Disse a voz feminina. E quando eu notava que vinha do Verdugo, o rifle foi ao chão, deixei-me cair de joelhos... - É Débora...
Minha mente imergiu num lapso de compreensão, aquela sensação estranha nos primeiros momentos do despertar de um sonho - Débora... - O disparo me atingiu no plexo, e o autômato de dois metros voltou a agir energicamente. Segurou-me com duas enormes mãos de três dedos e me pôs sob seu tronco. Senti duas faixas flexíveis de metal me envolvendo. Um ranger agudo se espalhou ao redor de minha cabeça e não senti mais nada.
Acordei com uma leve dor de cabeça, que passou em poucos segundos, mas não me levantei. Abri os olhos devagar. O Sol - algum sol - despontava à noroeste - era o que dizia minha bússola, uma leve brisa morna afagava meu corpo enquanto a bússola e toda minha roupa eram substituídas por um tecido leve e balouçante. Sentei-me naquele gramado de um verde displicentemente vivo. A certa distância eu via árvores como não via desde muito tempo atrás. Levantei-me. Verde, azul, amarelo, tudo tão perfeito! Água? “Sim!” O barulho de um rio me chamou a atenção. Fui andando na direção do ruído e acabei encontrando um monte de pedras e uma cachoeira. Tudo tão fantástico...
Tirei minha túnica (?) e entrei instintivamente naquela irresistível fonte, de um frescor inexplicável, tentando não me lembrar de mais nada. Banhei-me por alguns minutos naquela água a procura de alguma impureza, nela ou na branquíssima areia. Estaria louco? Vivera eu ali por toda minha vida?
- Não, Marcelo... - Era ela, Débora. Levantei-me rápido, esperando que a visão impossível se desfizesse. Não se desfez - Vem...
Andei com ela, as mãos dadas, por algum tempo, no bosque que ladeava a clareira, em silêncio, até que pude notar um senhor sentado sobre uma pedra. Parei.
Débora se voltou para mim e sorriu. Foi embora. Era um sonho, então eu tive certeza (?). Devagar me aproximei dele e sentei no chão gramado. Ele olhou para cima por longo período e depois para mim.
- Onde estou? - Comecei afobado - No Céu?! É o Apocalipse? O que é tudo isso? - Estendi os braços para os lados.
Ele me tocou nos ombros e toda minha aflição e ansiedade desapareceu.
- Marcelo. Não se preocupe... Tem sede, fome, dores?
- Como..? - E percebi - Na-não... Nada...
- Beba isso. - Ele era calmo. Mas de onde viera o copo que me estendia? Sorvi a bebida e não pude me conter, fechando os olhos - Meu Deus, como é bom. É a coisa mais saborosa que... - A realidade do que eu dizia me encheu de terror... Era realmente a coisa mais gostosa que se poderia conceber. Sabia disso...
- Para isso os... Como os chamava? Verdugos? - Sorriu um belo sorriso - Para isso foram concebidos... Não nos entenda mal. Sabíamos que isto tudo era bem melhor que o mundo lá de fora. Tínhamos de trazê-los para cá. É a Causa... E todos sabem que aqui é bem melhor que lá fora. Um paraíso. O paraíso. Quem pode negar isso? - Deu uma pausa para encher-me o copo com um movimento das mãos - Sua mente, agora, Marcelo, é praticamente imortal. Seus pensamentos e desejos estão acondicionados em resistentes circuitos holográficos de memória, a certa profundidade da superfície de sua cidade. - Sorriu - Mas esses são detalhes... Débora, leve-o para conhecer a vila... Aposto que ele a apreciará...
Visitei várias vilas e descobri infinitas outras que estavam sendo erigidas naquele mundo sem mistérios. Descobri também, com pesar, que meus homens, meus amigos, não estavam lá. Fiquei muito triste. Senti-me mal apenas por imaginar quantas pessoas ainda não estavam lá conosco, e estavam fugindo, relutando em aceitar a salvação de seus corações pelos Servos - não pelos Verdugos, como os chamávamos outrora.
Foi então que perguntei ao Mestre se poderia ajudar em alguma coisa para trazê-los.
É uma honra para mim, hoje, poder passear pelas ruas de Singapura para juntar cada ovelha do imenso rebanho Humano. O estranho corpo, que agora me comporta, não me incomoda. Já recuperei para a Causa, com orgulho, um bom número de pessoas da resistência. É até engraçado vê-los correr de um futuro tão sensacionalmente lindo como o perseguido pela Causa, mas tenho fé em que todos estarão lá um dia. Trabalhamos em turnos, eu e meus amigos já “resgatados”.
Quanto a Débora, eu e ela temos sido muito felizes, e pretendemos casar na próxima primavera...
“As portas do Céu e do Inferno são adjacentes e Idênticas...”
- Nikos Kazntzakis, "A Última Tentação de Cristo"
...E vice-versa...

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Bruno Accioly