março 28, 2005

"Desta vez é diferente..."

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Diante de um horizonte escarlate, longe da mãe Terra, dois amigos discutem acerca da preservação da vida, das coisas e de tudo que existe... enquanto o mundo não para de mudar.

É difícil, para mim, falar acerca deste conto.

Não se trata de só mais um conto, mas de algo que me incomodou já desde os meus quinze anos.

Qual a relação que devemos estabelecer com nosso meio?

A resposta, aqui, é menos importante que a própria pergunta.

Há uma linha tênue entre a imprudência e a crença incondicional em qualquer doutrina filosófica.

Posso dizer o que este conto não é: ele não é uma apologia a forma pela qual viemos usando a Ciência como mais uma arma política de manobra de massa.

Desta vez é diferente... - PDF
21 de Setembro de 1990

Desta vez é diferente...

Era bem diferente de tudo que eu já havia visto. Meu traje de mergulho podia não ser tão flexível quanto eu gostaria, mas servia, até que meu próprio equipamento de mergulho chegasse de Gamow, de onde fui deportado. Não gostava de pensar naquelas coisas, embora, por vezes, fosse impossível. Estava quase chegando a margem, enquanto me deslumbrava com o escarlate das rochas submersas.

Eu não devia pesar mais de dois quilos, estando a dez metros da superfície, e me sentia bastante confortável, considerando que meu peso na Terra era de noventa quilos. Não era gordo, não... Eu até que me exercitava bastante para meus oitenta e dois anos. A verdade é que não havia quem dispensasse o prazer de nadar na gravidade de pouco mais de um terço.

Emergi diante de Dorian, o Sol por trás dele.

- Que lindo, não? - Já havia notado a expressão de irritação em seu rosto: nenhuma novidade... tentei ser paciente.

- Por que você entrou, Tadeu? Não sabe que eu não concordo com essa coisa toda? - Percebi que ele rangia os dentes.

- Desculpe-me, Dorian... - Comecei, saindo da água - ...é que não pude resistir. Por que, afinal, você resolveu comprar esta casa à beira-mar? - Dorian bufou - Vai me dizer que nunca deu um mergulho?

Ele usava um calção de banho azul e um grosso roupão aquecido eletricamente. Comecei a tirar meu traje - ...Não, eu nunca dei um mergulho e, como meu amigo, preferia que também não o fizesse. - Virou-se, quase entornando o líquido do copo cheio de Grendel - Quanto a casa, foi pedido de Sarah. - Falou enquanto subia as escadas para a grande varanda do segundo andar.

Talvez estivesse sendo um mau hóspede, afinal... Acabei de tirar o traje e peguei meu roupão térmico, sentindo o frio costumeiro. Olhei em volta. A paisagem era bastante avermelhada, e não havia outra casa visível. “Vão haver mais”, pensei em silêncio. Andei até a beirada da escada e fechei o roupão. Já sabia que Dorian precisava desabafar. Subi.

Ele estava deitado numa daquelas poltronas em estilo “pós-pós”, em fibra sintética, que eu tanto odiava, bebendo seu Grendel. Sorvia o líquido verde escuro com irritação. Eu gostava dele... Se parecia bastante comigo. Eramos ambos rebeldes em essência e, embora ele fosse ainda mais radical, o Luna Libre não era exatamente uma instituição religiosa. Depois da sabotagem no sistema abastecedor da Embaixada da Terra, fora Dorian que conseguira que eu fosse apenas deportado. O que, considerando o ódio do Diretor da Astropol por minha pessoa, fora uma verdadeira façanha. Dinheiro não era problema para Dorian... muito menos poder.

Sentei-me perto dele, em outra poltrona. A visão das águas calmas daquele mar jovem não me deixavam acreditar que Dorian podia ter problemas.

- Dorian...

- Qual o problema, Tadeu? Não posso olhar para essa maldita praia? Te incomodo? - Gritou e virou-se novamente para as leves ondulações.

- Calma, amiko. Estou do seu lado, lembra? Onde está Sarah?

Ele se mexeu na poltrona, ajeitando o roupão - Desculpe-me, Tadeu. Tenho estado um tanto nervoso. Sarah viajou hoje pela manhã. Pegou um dirigível para Hella.

- Vocês brigaram?

- Não, não se preocupe. Ela precisou ir pessoalmente até a sede do Departamento Arquitetônico... Geralmente as reuniões são feitas à distância, via Telepresença ou R.V.... A burocracia deve estar voltando a moda.

- O que te incomoda, Dorian?

- Você soube o que eles estão pensando em fazer agora?

- Quem? - Perguntei intrigado, em um sentimento de Dejà-Vu.

- Ora, eles... - O telefone tocou - Só um instante.

Ele tinha sempre que estar contra alguma coisa? Foi presidente de um dos mais poderosos grupos hiper-naturalistas do Eixo Terra-Lua-Marte, e isso aos vinte e... quantos? Vinte e cinco anos! Estava agora na casa dos noventa e, mesmo tendo vencido todas as outras causas pelas quais lutou, e algumas das quais apenas financiou, nunca se perdoou pela derrota na Corte Especial do Conselho do Eixo. Pessoalmente eu não tenho qualquer opinião formada sobre a decisão da época, mas até que não fez tanto mal quanto Dorian previra em sua juventude, talvez por isso ele odiasse tanto aquele mar.

- Tudo bem, querida, mais tarde faço isso. - Desligou o telefone - Era Sarah... Sobre o que estavamos...

- “Eles”. Você falava “Neles”.

- Ah, sim! - Estava mais calmo - A NSF!

- O que tem ela? - Interroguei-o, servindo-me de uma taça de Grendel que acabara de encontrar sob a poltrona. Dorian não exitava na escolha de seus inimigos, eu já supunha que a NASA Star Fleet ainda passaria por poucas e boas se ele decidisse investir contra ela.

Sua expressão começou a mudar - Os idiotas estão planejando trabalhar a porcaria do... Merda! - O Grendel acabara de derramar em cima um PDA flexível. Felizmente estava fechado.

- Você está muito tenso, Dorian.

- Certo, certo. - Limpou o Grendel no roupão - Dê uma olhada nisso.

Peguei o PDA, um pouco grudento, e abri. O aparelho automaticamente exibiu uma revista. Dorian, era assinante do serviço de notícias, e recebia revistas e jornais em seu PDA onde estivesse. Na capa uma foto de Phobos, o satélite de Marte, provavelmente modificada por computador. De Stickney, a maior cratera daquela massa rochosa, que mais parecia uma batata cinzenta, fluia uma luminosidade branca, tal qual um propulsor. Por detrás de Phobos via-se um sol por demais vermelho para ser o nosso e, na parte debaixo, um planeta - que não era Marte - emanava estanha luz azulada.

- O que acha? - perguntou-me, claramente nervoso.

- Não sei. O que isso quer dizer?

- Leia, homem! - Vociferou.

Estava em francês, e não sabia muito da língua. Estendi o PDA para ele. - Não sei francês, Dorian.

Suspirou nervosamente - Querem perfurar Phobos como um queijo suiço e encher a pobre lua de equipamentos astronáuticos. E aí, sabe o que vão fazer? - Sacudiu a mão direita com força - Vão tirá-lo da órbita de Marte. Quebrar a harmonia gravitacional entre os dois astros, só para transformar essa lua em uma nave estelar!!!

Abaixei a cabeça. Estava começando denovo... Eu sabia que ele iria até o fim com aquilo. Phobos, uma nave estelar! Deus! Seria fantástico!

- E então? - Seus olhos estavam em fogo - O que acha?

- Bom... eu...

- Tenho que fazer algo. Tenho que impedir que o façam!

Olhei para ele. Suspirei... - Dorian... Por que?

- “Por que”?!? “Por que”?!? Não acredito! Não é possível que você seja tão idiota assim!!!

- Dorian...

- Tadeu, você acredita em Deus! Como pode permitir que eles façam tal coisa? Estão modificando a obra de Deus, porra! Você não sabe o que isso quer dizer? Os caras vão acabar com o mundo! Estão depredando a natureza!

Suspirei novamente - Doria, conheço sua teoria sobre a harmonia entre todas as cois, pá-pá-pá... Mas creio que estava enganado... Olhe, nós não nos vemos há algum tempo, mas pensei que, com a idade, você começasse a notar que fizemos... muito barulho por nada.

- Que?!? Enganado?!? - Fuzilou-me com os olhos - Não é uma questão científica ou filosófica, Tadeu! A questão é Deus!!! - Bateu com os punhos no braço da poltrona - Eles me venceram da primeira vez, e tivemos que extinguir o Le Immutable Mars, mas agora tenho minha fortuna a meu favor e boa parte dos políticos marcianos sob meu comando. Não vou permitir isso! - Pegou o telefone e colocou sobre o colo. Começou a escrever, com o indicador, alguns números sobre o vídeo do aparelho.

Talvez ele mude de idéia... Não, caí em mim. Ele iria realmente usar de todos os recursos que lhe eram acessíveis para prejudicar o projeto. Provavelmente conseguiria. Seu recalque quanto à causa perdida na juventude era maior que seus escrúpulos, e isso iria alimentar o ódio pelo projeto da NSF.

O Le Immutable Mars defendeu que Marte deveria permanecer exatamente como o encontramos, há cento e trinta anos. Baseavam-se na teoria de que acabaríamos com o equilíbrio da natureza marciana e, possivelmente, com o de todo Sistema Solar. Na época eu concordava co a teoria - que fora proposta, inicialmente, por Dorian, no auge da febre mística da década de noventa. É claro que a Comunidade Científica jamais aceitou a teoria, formulada por “leigos alarmistas”...

Mas não... Dorian estava errado. Nada havia acontecido após tantos anos e, embora seu grupo tivesse apoio do Green Peace e do Gea, da Terra, os responsáveis pelo projeto afirmavam que não havia base científica para as teorias hiper-naturalistas de Dorian.

Na verdade me sinto desconfortável em decidir se Dorian estaria certo ou não. Realmente me parecia traumático arrancar uma lua de nove trilhões de quilos da órbita de Marte e transformá-la em uma nave estelar de vinte e três quilômetros de diâmetro, mas desde que resolveram semear líquens escuros sobre as calotas polares de Marte, para derretê-las e assim libertar a antiga atmosfera do planeta de seu longo cativeiro, não houve nenhum problema... Nenhuma das professias feitas por Dorian haviam sucedido. No fim pareceu que a decisão do Conselho do Eixo foi benéfica para a comunidade marciana.

Eu admirava o Mar Marineris até onde podia vê-lo naquele horizonte mais próximo que o da Terra. Um azul ligeiramente avermelhado, complementado pela coloração escarlate da orla marciana.

Dorian continuava fazendo suas ligações.

- Doria. - Eu tentava, cauteloso - Por que a “harmonia” não foi quebrada quando renovaram a atmosfera de Marte? Você estava errado?

Ele colocou a mão sobre o fone do aparelho e voltou-se para mim - os olhos vermelhos, insanos.

- Desta vez é diferente, Tad. Sei que é...

21 de Setembro de 1990

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Bruno Accioly


Categoria: Contos

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