"As Atuantes"
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As Atuantes surgem das perguntas:
a) “É possível existir algo indetectável?”; e
b) “É possível para algo não detectável afetar elementos detectáveis?”.
O termo “Atuantes” substitui o nome que eu tanto costumo usar – sdruvs – e representa não Deus ou alguma entidade, mas o elemento de ligação entre dois mundos paralelos ou superpostos.
Mundos paralelos – ou superpostos – por si só, dão um tópico a parte, entretanto creio que a abstração aqui exposta é suficiente para identificar sua plausibilidade.
As Atuantes dão fundamento à busca filosófica por um “Deus Cosmogônico”, onde se entende por Cosmogônico o corpo de doutrinas, princípios (religiosos, míticos, filosóficos ou científicos) que se ocupam em explicar a origem do Universo; qualquer fundamento teórico que busque explicar a formação do Universo a partir de um princípio primordial; e o conjunto de teorias que propõe uma explicação para o aparecimento e formação do Universo.
Por Deus entende-se, neste contexto, a causa de tudo que existe em Nosso Universo; entidade responsável pela criação de tudo que existe e à qual se atribui uma influência especial em fenômenos percebidos no Universo; e o objeto-ser não necessariamente semelhante, em natureza, com quaisquer das criaturas conseqüentes da criação do Universo em que existimos.
Uma vez mais lembro a todos que não se trata de uma questão de acreditar ou ter inclinação por este modelo, mas de uma questão de tal modelo ser filosoficamente viável e capaz de coexistir com os modelos e premissas aceitos pela Comunidade Científica.
Não se trata, tampouco, de um modelo desesperadamente interessado em, a qualquer custo, demonstrar a possibilidade da existência do Deus Bíblico ou de qualquer outra cultura (mesmo que tal modelo empreste fundamento à existência de um Deus Cosmogônico), sendo antes um exercício filosófico – e não fantasioso – com o objetivo de evidenciar a viabilidade da existência do indetectável, a despeito dos corolários aos postulados estabelecidos pelo Método Científico.
Dito isto vamos ao modelo.
03 de Maio de 2004
As Atuantes
Depois de muito trabalho, uma prodigiosa equipe multidisciplinar desenvolve, por meios tecnológicos, uma vasta matriz tridimensional e codifica, mediante um sofisticado processo, regras e comportamentos implícitos de elementos que futuramente viriam a popular esta realidade artificialmente engendrada.
Toda sorte de regras e limites são codificados de forma a tornar previsíveis e coerentes os comportamentos deste exótico universo, embora intrincados e de difícil apreensão.
Dado o devido tempo, o codificador incauto poderia mesmo não ter todo o domínio de cada uma das partes daquele emaranhado de regras e limites, conseguindo, entretanto, observar aquele pequeno e vasto vazio... a complexa codificação do nada.
Até então não havia mesmo nada ali, naquele lugar que, por assim dizer, sequer existe na acepção mais familiar da palavra. E era, depois de muito trabalho, chegado o momento de inundar o tecido intangível do vazio tecnológico que haviam criado.
Os elementos que viriam a povoar aquela casta realidade seriam mais que meros pontos, mas partículas fundamentais com condições de variar atributos como forma, aparência, irradiações e toda sorte de características que, mesmo dessemelhantes das que conhecemos, perfilariam o futuro daquele fruto excêntrico do método, do sonho e da engenhosidade.
Todos estes “padas” – como podemos passar a chamar tais partículas – foram inseridos ao mesmo tempo na matriz, mediante um único comando, desencadeando uma avalanche de eventos e conseqüências imprevisíveis até mesmo para cada um dos envolvidos no projeto.
Reações “pádicas”, de naturezas plenamente conhecidas, começariam a gestar aquele universo e a traçar inexoravelmente as linhas que definiriam a realidade na qual aglomerados “pádicos” cujas propriedades combinadas dariam origem a corpúsculos e irradiações cada vez mais complexos e contra-intuitivos.
As capacidades de se recombinar e aglutinar de formas tão diversas, que foram tão cuidadosamente desenvolvidas pelos projetistas, bem poderiam gerar uma realidade estéril e cuja estabilidade se encontrasse na estagnação.
Não foi o que ocorreu...
Os “padas” fizeram bem seu trabalho, configurando um pequeno universo composto de gigantescas aglomerações de corpúsculos de dimensões e variedades surpreendentes e toda uma diversidade de condições. Um sem número de oásis para reações “pádicas” e corpusculares foram se tornando ocorrências cada vez mais comuns.
Comparando o tempo decorrido desde a incidência de condições propícias para seu próprio surgimento até o momento em que eles desenvolveram tal projeto, com o quanto tiveram de esperar para detectar a primeira polêmica incidência de algo que remotamente assemelhava-se com vida, eles concordaram ter esperado muito pouco.
Tratava-se de uma ocorrência bastante singela, quase inexpressiva, que tiveram a sorte de não ter deixado passar despercebida. Alguns chegaram mesmo a afirmar que sequer se tratava de algo remotamente comparável ao primeiro sinal de vida na terra; outros comentaram embevecidos que, provavelmente, semelhantes incidências já deviam estar ocorrendo havia muito em diversos outros pontos da matriz, sem que o percebessem.
Independente de todas as polêmicas quanto às semelhanças e dessemelhanças, entre o que se convencionou chamar nostalgicamente de “a primeira flor” e o conceito de vida, todos concordavam que o nível de complexidade apresentado por aquele embaraçoso aglomerado de corpúsculos “pádicos”, apresentava propriedades que diferiam de tudo que já haviam identificado na matriz.
Tudo que se podia foi feito para que “a primeira flor” desabrochasse mais rapidamente. Ocorrências muito menos interessantes e complexas, por um ou outro motivo, chamaram pouco a atenção dos projetistas que, absortos no fruto de seu trabalho, tentavam acelerar as condições para a evolução do que já se transformara, de uma modesta plantação em uma pequena floresta, com variantes de complexidade inequivocamente emparelhadas com o conceito de vida.
Vida... uma forma de vida de muitas formas diversa das que se faziam conhecer pelos projetistas em seu meio, mas que elencava suficientes qualidades que garantiam a analogia entre aquele aglomerado de corpúsculos “pádicos” e os organismos mais complexos do Universo do qual aquela matriz era subconjunto.
Não mais se tratava de um mero experimento, mas de um dos maiores e mais importantes projetos multidisciplinares já levados a cabo em toda sua história. Sentiam-se orgulhos e tempo suficiente se passara para que não se pudesse mais encarar o projeto como patrimônio de um grupo acadêmico ou instituição para se tornar o projeto de toda uma civilização.
Janelas para observação deram lugar a portais para visitação inofensiva e não interativa a todas as partes daquela matriz de colossais proporções, sobretudo no mais concorrido ponto turístico de todo aquele universo: Gaia, onde não apenas florestas podiam ser divisadas, como todas sorte de criaturas, que guardavam um mínimo de semelhança entre si e que, mais complexas, interagiam com seu meio de forma cada vez mais sofisticada e instigante.
O caráter pouco familiar e dessemelhante de Gaia era evidente e desnorteava a cada novo visitante que, invariavelmente, se via imerso em um desejo primitivo de jamais parar de tentar voltar. Quantas vezes lhe fosse possível voltaria, como se aquelas imagens desconfortavelmente indistintas guardassem um vínculo visceral consigo.
Talvez já se pudessem contar gerações de projetistas quando a centelha de algo parecido com um sistema neural, com considerável nível cognitivo, surgiu da união deliberada de criaturas. A procriação natural e as nuances emprestadas àquele mundo pelas regras e limites, pelos atributos e propriedades, davam finalmente lugar a um análogo de algo ainda mais valorizado pelos projetistas que a própria vida: surgira em Gaia a inteligência.
A polêmica, uma vez mais, era um hábito e uma conseqüência elementar inevitável, sendo fútil embora meritória diante de tamanha epifania. O Projeto reproduzira a “fisis”, alcançara a doxa e, para além de todas as expectativas vacilantes, consagrou o paradoxo derradeiro de replicar o ser.
E foi solitário e sonolento, que contemplando o fruto indireto de sua criação, encarou aquele adorável desatino, no que de mais parecido com olhos possuía. A criatura, aguardando a luz violeta de algo semelhante a uma nuvem – que esperava sempre ansiosamente àquela altura – esboçava o que o criador por experiência podia avaliar como curiosidade e, com muito mais dificuldade, Consciência!
Ainda solitário, um breve lampejo de percepção passou pela mente do próprio criador antes de ser completamente esquecido. Um lampejo que, como o limiar entre o sono e o despertar, se faz perceber mais tarde como um mero absurdo sem sentido... algo acerca das funções que atuavam, não só para a observação e visitação da criatura, mas para manipulação e indução de reações. Por breve momento lhe ocorreu que a criatura, jamais estaria aparelhada para identificar tais Atuantes e, entretanto, poderia perceber as manifestações de sua atuação.
De súbito até mesmo lhe pareceu possível, em seu devaneio quase onírico, que naquele momento ele não mais fosse que personagem, que criatura observada de fora, talvez lida nas páginas de um livro.
Talvez fosse trivial joguete de um autor qualquer que dele fazia uso temporário para provar um ponto de vista que jamais seria capaz de apreender.
Impiedosa, contudo, ao invés de deixá-lo despertar, lembrando-se da singela revelação que lhe fora concedida, sua natureza lhe impôs o sono...
Bruno Accioly
03.05.2004
04:10 am
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Todo o trabalho de suspensão de descrença não resolve, é claro, uma série de problemas ainda sem solução, como a real possibilidade de construir uma Inteligência Artificial, por exemplo.
O objetivo do texto é fazer o leitor identificar – em todos aqueles revoluteios – a complexidade inerente na realidade virtual criada por... quem? Não importa. Seja quem for, de qualquer modo, tudo se passa num mundo imaginário.
De fato, tanto faz se os projetistas do texto representam seres humanos aqui na Terra, hipotéticos marcianos de outrora, criaturas que nós mesmos criamos em computador ou mesmo personagens em um conto de ficção científica.
O que importa de fato são as tais das Atuantes. Afinal, se desejavam manipular a matriz eles precisavam de meios para tanto. Criar os “padas” com apenas um comando seria resultado do trabalho de funções projetadas especificamente para este fim. É a estas funções que dou o nome de Atuantes.
As Atuantes, apesar de bastante reais para os projetistas, seriam para sempre inatingíveis para aqueles seres que, um dia, talvez viessem a desenvolver um pensamento crítico acerca do meio a sua volta, metodologias para estudá-lo e equipamentos para perscrutar seus segredos.
De uma forma ou de outra, em um mundo onde eles poderiam estudar os corpúsculos, reações, irradiações e interações “pádicas”, eles acabariam acreditando que só mesmo estas categorias de granularidade se faziam presentes em seu Universo, finalmente tendendo a tirar conclusões acerca do que de fato existe e do que de fato inexiste.
O fato, neste modelo, é que a realidade externa a matriz transcende o entendimento dos seres que nela vivem. Se eles, portanto, optarem por um método restritivo de análise da realidade, com certeza estarão extraindo o que há de melhor do que tal realidade pode lhes oferecer, entretanto jamais conseguirão sequer imaginar o que mais pode haver para além de suas inclinações pessoais e percepções de seu universo.
Alexandre Maron chegou a alertar-nos que todos temos condições de pensar modelos como estes, entretanto não me parece em absoluto que assim seja.
As crenças, inclinações e certezas se interpõem entre a Realidade e a percepção da realidade, obscurecendo seus contornos e até obstruindo completamente nossa capacidade de perceber a possibilidade de algo que transcenda nosso conhecimento do Universo.
Parece-me que afirmar que não há uma miopia cognitiva ocasionada pela certeza absoluta é como afirmar que a propaganda não afeta nosso dia-a-dia e nossa percepção das coisas... é afirmar que estamos descontextualizados de nosso momento histórico-político-social.
Se você se sente, inspirado por tal modelo e já pensou em tantas outras conseqüências dele, provavelmente já está raciocinando em cima de variantes e implicações de tais variantes.
Diante do fato que qualquer um de nós pode imaginar tal modelo com um mínimo de trabalho ao longo de algumas horas, não será possível que modelos mais arrojados e ainda mais desconcertantes e instigantes possam nos convencer de forma efetiva da possibilidade real da existência de algo como as Atuantes?
Não mude de opinião... por favor. Não é para tanto. Este modelo é interessante, mas me parece não muito melhor do que tantos outros modelos mecanicistas.
Independente dos inúmeros contos de ficção científica ou de qualquer outro gênero que são colocados no mercado todos os dias a realidade é o que a realidade é.
Esta parábola, ou “Tema”, como gosto de chamar modelos viáveis na linhagem filosófica na qual venho trabalhando há doze anos, não retrata a Realidade mas um modelo viável de realidade.
O importante, a meu ver, é que o leitor tenha em mente que, independente de sua percepção do Universo, ou da percepção do Universo de tantos homens brilhantes – cada qual a sua maneira – ao longo de dez mil anos de história, a Realidade é o que a Realidade é.
Se for nosso objetivo Saber qual é a Verdade, devemos encará-la da melhor forma que pudermos apreendendo-a da melhor maneira possível, sem preconceitos e com um ferramental tão vasto e diversificado quanto possível.

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Bruno Accioly