abril 09, 2005

"Não há muito..."

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Há dias em que não acordamos muito bem... que tudo parece meio sem sentido, que as coisas acontecem de forma quase que planejada para que a gente se ache menos que se é.

Isso acontece com muita gente que conheço e a sensação não é mesmo das melhores.

Joguei o pranto em forma de tinta sobre o papel e as manchas formaram o que podem ler abaixo - sem métrica, proposta objetiva.

Não há muito...

...embora pudesse;
Nem há demais, embora se supusesse;
Nada de excesso, embora até devesse...
À disposição do nada me coloco então, posto que do nada tu apareceste.
A vida que apreciava então, não vejo como que me reste.

(Existe um rio n’algum lugar... um rio no qual se pode banhar sem se molhar.
Mas fazê-lo sem acontecê-lo é tornar sonho em pesadelo...
...é emergir de olhos fechados só pra não banhar-se ao luar.)

Comédia cáustica de protagonista renitente.
De indistinto à notável tudo que se precisa é tentar-se ser feliz... e a tentativa acaba em chiste.
D’onde estou não vejo platéia ou luzes, escondo-me por detrás das cortinas da vida sem querer.
E não quero, é fato... mas boato não pode ver ouvidos gente. A gente então aceita e não insiste.
O que faço eu comigo mesmo depois que nasço?
Vivo, sofro... amo. Insisto até. Até que me chega o cansaço.

A vida por trás das cortinas tem seu glamour, afinal.
Parece covarde, torpe, indecente e coisa e tal. Mas bem se paga, embora um pouco marginal.
Enquanto sonho parece que me olham... parece ter platéia em meu quintal.
Qual peça abominável, a minha decorre em sono, descortinada, sem sentido e anormal.
Distante dos olhos de gente - como a rosa dada a quem não pode ostentá-la, e que a guarda num bornal.

Hoje, como quem acorda do sonho e vai banhar-se ao rio... noto que não molha.
Entrego-me à correnteza e essa não leva... e ainda é frio!
Imerso fico... volto à tona. Olho pra Lua... e de volta ela não olha.
Não desespero nem critico, só percebo a cor da rosa enquanto desfolha.

Ah, claro! Não há palco, platéia, teatro ou sonho... sou eu que sofistico.
O rio, entretanto, ora, vamos! Com essa analogia insisto e fico!
Envolto nas cortinas que me escondem eu me banho nesse rio seco...
e pensando na paixão e no que a mim concedo, um futuro de repente sacrifico.

Mas que me classifiquem ao menos pelo que fiz e não pelo que tentei,
pois sem platéia ou com platéia fui ao rio e mergulhei,
estando seco ou em transbordo àquelas margens não só me debrucei...
E fiz um tudo e nem felicidade eu esperei.
Foi só da Lua que por um sorriso apaixonado suspirei.

12 de Abril de 2005 - 14:00

Bruno Accioly


Categoria: Prosa

Muito lindo e profundo, Bruno...
Vou dar parabéns, não...vou dizer ...boa sorte pra vc...
beijooo

Publicado por: Sandra em janeiro 17, 2006 02:45 AM




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