abril 13, 2005

"A noite e as fábulas"

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A vida fácil pode ser bem mais difícil que a infância difícil que leva à ela. Monstros estão em todo lugar...

Este conto foi experimental em sua essência. Foi preciso conversar com algumas pessoas que passaram por experiências traumáticas e outras que vivem o dia-a-dia de uma profissão bem complicada.

Fazer pesquisa foi necessário (exercitem sua imaginação na direção que quiserem) e, talvez por isso, fontes confiáveis, depois de ler, pediram cópia, afirmando que por várias vezes se sentiam como a personagem descrita.

Sugiro apenas que tirem as crianças da sala quando forem ler...

A noite e as fábulas - PDF
16 de Novembro de 1996

A noite e as fábulas

Era sua vida, afinal... jamais deixara que alguém a controlasse. Sua mãe saíra chorando do apartamento que dividia com a amiga... Não era agradável vê-la daquele jeito, mas não pudera se conter, fora quase desumana com aquela que não soube dar crédito a própria filha. Nunca a perdoaria por ter se omitido enquanto o padrasto visitava seu quarto toda a noite.

“Cê ainda é virgem, menina, se preocupa não... Não é amor o que fazemos, tô só te currando mesmo” - era o que ouvia quando a mãe voltava tarde do trabalho. Descobrira a sós que não havia monstros, só homens e maldade...

Preferia, contudo, deixar de lado o passado... Até que estava bem de vida. Ela e a amiga dividiam um bom apartamento de frente para o mar, e clientes não faltavam. Fora difícil chegar ao topo, mas nesse negócio tudo que era preciso era ser bonita, ser submissa e gostar - ao menos um pouco - do que fazia...

Estava a caminho do motel em seu próprio carro, comprado havia menos de um mês, pensando que, se não fossem os tarados, até que seria fácil. Acabara de receber o telefonema de um cliente novo. Nesses tempos não era tão bom variar... Costumava guardar os nomes e preferências dos clientes em computador e tudo mais, dando prioridade aos que há muito conhecia. A voz desse último, porém, lhe passara certa segurança.

Era um belo lugar. Não tinha estado lá antes, mesmo porque, até os mais sofisticados clientes acreditavam não dever a ela grandes regalias. Sem dúvida um motel e tanto... lugar para dois carros na garagem do quarto... Imaginava que o preço do período de doze horas - agendado pelo cliente - não deveria estar muito longe de seu próprio cachê.

Subira as escadas um pouco intrigada com a ostentação. Felizmente viera com um belo vestidinho preto em plush. Sorrira de si para si ao pensar que deviam mesmo ter checado se ela estava de saltos altos e meias de seda para deixá-la entrar...

O quarto era belíssimo, o tapete quase tão macio quanto a cama. Não ligou luzes adicionais, contentando-se com a luz indireta deixada acesa pelo cliente. Sabia que alguns deles se sentiam mais seguros daquele modo.

Quando o felino se enroscou em suas pernas quase deu um salto de onde estava. Arrepiara-se toda logo que se recuperou. Levou as mãos ao belo animal de pelagem rajada em cinza e preto e acariciou-o, levando-o ao colo. Ele pouco lhe deu atenção, contudo, logo saltando de cima dela para correr pelo tapete até a ante-sala que dava para o corredor do motel.

Era uma visão, aquele homem... Saíra da ante-sala logo que o felino entrou. Alto, largo, as pernas fortes sob o belo corte do robe de lã. Não a beijou... trazia champanhe para ambos numa das mãos e deixou o balde de gelo com a garrafa sobre o criado-mudo. Ela já estava de pé, lúbricos devaneios lhe diziam que seria um daqueles clientes inesquecíveis que, provavelmente, jamais a chamaria outra vez.

Sorveu o líquido - champanhe que nunca provara antes: doce, suave... Ouviram música, dançando e bebendo, dois corpos perfeitos colidindo devagar e gentilmente. Ela soube -”um dia” - que lá ficaria por doze horas, mas não se incomodava se ele a forçasse a ficar lá para sempre. Embriagada mais pela presença que pela bebida, mais por seu toque que pela música, arriscou as mãos por entre o robe e o corpo poderoso e imponente... suas línguas se tocaram...

Combinava violência, força e ternura, aquele homem, enquanto a penetrava, de pé. Ela as mãos no espelho, debruçada sobre o sofá, os joelhos nas almofadas, os saltos pendentes, as meias presas pela liga. Tomava-o para si por trás - como mais apreciava - o vestido abatido havia muito, testemunha da força daquilo tudo. Molhada demais... as mãos dele hora em seu quadril, hora deslizando por suas costas. Ela levava as mãos por baixo do próprio corpo, tocando a si e ao parceiro, segurando o membro, incrédula... a grossura, a força, a demora. Suas mãos voltavam ao espelho, arrebitava-se, gemendo de prazer. Sentia o gozo, finalmente, visitando-lhes no mesmo compasso e ritmo. Precisava tê-lo em si, mas tirou-o e virou de frente.

Tocava-lhe agora o flanco e as pernas, de joelhos, o rosto para o membro, os olhos fechados de prazer e a boca aberta, procurando... Levou as mãos ao falo, finalmente, uma por baixo, outra ao talo grosso. Enfiou-o na boca sem cerimônia, o volume desconhecido e penoso... Sentia-o gozar ainda mais - inequívoca viscosidade - o sêmen escorrendo pelos lados de seu rosto. Delírio - prazer na felação não era algo tão comum - era especial aquele momento. Abriu parcialmente os olhos procurando os dele, notando findo o orgasmo. Algo rubro porém lhe cobria o colo, olhou para si... em tudo estava a cor...

Era sangue, “mas de quem”... E a ignorância subitamente desapareceu quando o amante a suspendeu pelos cabelos, sem dor, só prazer e força... Tantas histórias, tantas fábulas... não sabia mais porque diziam as crianças que monstros não existiam... Ele afundava as presas em seu colo sorvendo-lhe o sangue, as mãos em sua nuca e nos cabelos, os olhos flamejantes, e ela não sabia o que sentia... prazer, dor lancinante... em pouco isso não importaria, o corpo, belo... de rijo à entregue... balouçante... e só ele restava... menos uma amante...

16 de Novembro de 1996

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Bruno Accioly


Categoria: Contos

para ler e passar para a lisi

Publicado por: Mariana em janeiro 22, 2006 02:52 PM




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