janeiro 31, 2005

"O Homem e a Lua"

Para além do pessimismo e do otimismo e de qualquer outra postura tendenciosa, resignar-se no fato de que as coisas são como elas são ao invés de como gostaríamos que elas fossem, pode ser muito especial

De longe uma das coisas mais belas que já escrevi, esta poesia vai, em movimentos pendulares, da lágrima ao sorriso.

A falta de rigor métrico acaba ficando em segundo plano, creio, quando a forma de expressão é tão franca.


O Homem e a Lua

Da Lua que se entristece por não se ver entre os prédios
ao homem que tem a saudade por se sentir tão sozinho,
a alma já quase se aquece, faz das lembranças remédios,
enquanto que ao chão da Lua num pranto longo eu caminho.

Vivendo dessas lembranças o homem procura entre os prédios
caçando a tão bela Lua, apática, forte... mesquinha
não sabe qu´ela é inocente, que não lhe alcança o assédio,
que aguarda os velhos olhares e os prédios lhe fazem sozinha.

Por um desdobrar do destino, de chances, escolhas e prédios,
enquanto se acerca um do outro nas sendas da busca vazia,
se acham - em vez de por sorte – no Largo dos Sonhos Vadios,
nos bancos de praça onde a prata da luz dessa Lua é poesia.

Se banha na luz dessa Lua, o homem que olhava entre os prédios,
sabendo que a prata em qu´imerge vai se afastar fugidia.
Mas hoje conhece-lhe os ciclos, vontades, mazelas e tédios
reluta mas sabe que vai-se... mas que vai voltar outro dia.

Oh, bela história essa deles, da luz da amizade entre os prédios...
das ruas e praças da vida que formam tal biografia.
Amiga tão bel´alva Lua, da qual el´espera este nédio,
amor do intrépido homem, que sabe que a luz não é fria.

Se o Sol é pra Lua sua luz - serendipidade entre os prédios...
e o amor de um olhar invisível, de dia lhe faz Lua “fria”,
Recolhe-se o homem ao Sol, pois tão radiante ilumia.
Aguarda de novo o Luar, pois só lhe precede um dia.

23 de Maio de 2003 - 13:39

Postado por baccioly em 12:13 PM | Comentários (2)

"Pioneer 12"

Diante da competência humana na construção de complexos tecnológicos e na idealização de metodologias magnificamente engendradas, fica difícil acreditar que algo inesperado possa acontecer. A realidade, contudo, como disse Arthur C.Clarke, é muito mais estranha.

Este conto, escrito por mim no dia de meu aniversário, teve profunda influência de um filme adorável, lançado pela Dysney em 1979: "O Buraco Negro".

Mais tarde, em Junho de 1995, comecei a trabalhar no conceito de um universo de RPGRole Playing Game: Trata-se um jogo orientado a representação de papeis. A estória é idealizada por um administrador do jogo e as decisões dos jogadores afetam profundamente o andamento da estória. com o nome de Phœbe, extremamente complexo e que pretendo publicar por aqui.

À época meu estilo se caracterizava por detalhada descrição do ambiente em torno dos personagens e da tecnologia, o que acaba dando uma idéia do conforto quase que opressivo que identificava no futuro.

Pioneer 12 - PDF
21 de Junho de 1990

Pioneer 12

Da janela panorâmica de Phœbe , outrora satélite de Marte, a visão era fantástica... Contra o tecido negro do espaço era possível divisar a Usina Cilíndrica, à cerca de trinta quilômetros de distância. Ela parecia um brinquedo, um brinquedo no qual haviamos trabalhado por mais de um ano. Na época em que Phœbe , equipado com toda sorte de equipamentos astronáuticos e potentes propulsores, saiu do Sistema Solar, provavelmente, o tempo que tivemos, parecesse muito curto para montar uma estrutura tão complexa como a Usina. Era um engenho experimental e, àquela distância, não parecia ter seus quinhentos metros de comprimento por trinta e cinco de raio, embora se mostrasse evidentemente grande. Tais medidas, eu acreditava, espantariam até mesmo os capazes técnicos do já longínquo planeta Terra.

Centenas de gerações haviam se passado, tantas que era possível que a própria Terra já não estivesse mais habitada. Toda minha vida eu havia passado no interior de Phœbe , bem como meus pais, avós, bisavós e boa parte de minha família ascendente. Este sempre fôra o problema com as viagens em velocidades relativísticas... Por isso, Phœbe era encarado por todos os seus habitantes como um mundo individual, seu planeta-mãe - assim como os povos da Terra encaravam o planeta em que nasceram. Era verdade que, por termos conseguido alcançar o potencial propulsor equivalente à pouco mais que dez porcento da velocidade da luz em certas viagens, os efeitos relativísticos causavam um retardo no fator tempo do interior da nave em relação ao resto do Universo. Tais efeitos eram já bastante mensuráveis, no entanto, poucas vezes alcançamos tais velocidades já que as manobras de frenagem eram um processo dispendioso em termos de recursos.

Nosso planeta - era como o encarávamos - era um asteróide, não mais que isso. Há muito ele orbitara um mundo que gritara em altos brados contra a decisão do resto do Sistema de despojá-lo de sua lua. A primeira missão do grande asteróide Phœbe , logo que deixara para trás o abraço gravitacional de seu planeta mãe - Marte - foi uma viagem até a estrela Procyon, símbolo da esperança humana de acertar nas primeiras tentativas. Procyon possuía um sistema planetário, era verdade, mas não vida, muito menos vida inteligente. Valeu a intenção, realmente, mas essa é a vigésima terceira missão de Phœbe , é nossa oitava passagem próxima à um sistema planetário, e não encontramos forma alguma de vida inteligente até muito tempo depois de começar nossa busca.

Isso tudo faz parte de uma história muito longa, a qual não estou apto a contar, já que escolhi como carreira a Engenharia Energética. Entretanto, como sempre, eu me perdia em elucubrações ao divisar a negritude do espaço e as redondezas do asteróide.

Dois pequenos ônibus espaciais, que cruzavam o caminho entre o “Seixo” - Phœbe - e a Usina, quase roçaram nos longos cabos de fribras-de-carbono, que se estendiam por milhares de quilômetros desde a construção cilíndrica. Os cabos eram o produto de máquinas sintetizadoras dedicadas a transformação de compostos orgânicos diversos - refugos das industrias de Phœbe - nos fortíssimos fios que se trançavam para formar as "cordas" que vinhamos carregando por centenas de anos. De umas dezenas de anos para cá, com uma melhor idéia de sua possível utilização, vinhamos reprocessando seu material para mesclar a ele uma série de elementos de dureza propositadamente maior.

Alguns recursos energéticos essenciais haviam sido debatidos por muito tempo antes de ser concedida a permissão do uso de diamantes hiper-puros, gerados a partir de crescimento epitaxial - com a mesma orientação cristalina. Com certeza os estudos efetuados por nossos cientístas e engenheiros da Divisão de Materiais estavam certos quanto ao providencial aumento da força e coesão dentro dos cabos. Havia pouco mais de dois séculos que nossos cientistas tinham desenvolvido um projeto para o uso dos cabos. Era uma idéia ousada, mas seu brilhantismo foi reconhecido de imediato, e o Conselho de Phœbe resolveu implementá-lo.

Havia tempo que não aplicávamos nossas sofisticadas técnicas de engenharia, e o projeto deixou a todos muito excitados. Toda a Phœbe esperou ansiosa desde que o empreendimento foi divulgado e vinha acompanhando com atenção todas as etapas da construção da Usina. O projeto sugeria a necessidade de relativa e inédita proximidade de um Buraco Negro, uma estrela que houvesse desabado sobre si mesma devido a sua incapacidade estrutural de sustentar sua própria massa.

Demorou, mas lá estava a Usina, sobre fortíssimas marés gravitacionais que convergiam para um disco de acresção, um redemoinho de detritos e poeira cósmica, um abismo negro paradoxalmente claro e definido... Toda a estrutura estava distante o suficiente do colossal fenda no espaço para permanecer estacionária e estável. A imagem era deveras fantástica.

As pequenas naves, que naquele momento atracavam na Usina, deviam estar “desovando” dúzias de engenheiros e técnicos na câmara de compressão. Os homens mais brilhantes de Phœbe estavam participando do experimento, e deviam estar maravilhados com os ameaçadores braços leitosos que se estendiam para todos os lados e eram, sonolenta e quase imperceptivelmente tragados para o centro do abismo.

Bem mais atrás dos transportadores que abordavam a Usina, um dos guindastes espaciais passava, desajeitadamente, por dentro de um círculo formado por um dos grossos cabos que, junto aos outros, se espalhavam na popa da estrutura cilíndrica. Era um dos rotineiros transportes de vigas, feitos continuamente, e que objetivavam a armazenagem de material não aproveitado. Tínhamos sempre o cuidado de limpar bem a periferia de Phœbe . Como sempre, devido a distância, as cenas de naves se locomovendo pareciam se dar em câmera lenta. Invariavelmente as vigas carregadas pelos guindastes eram muito desproporcionais ao seu tamanho, o que os fazia ter aspecto infantil, frágil.

Dentro da Usina um dos mais novos frutos da tecnologia de Inteligência Artificial de Phœbe descansava dentro de um ovóide com ráio médio de oito metros. Era uma obra prima em termos de Engenharia Cognitiva, um Sistema Cognitivo - era como chamavamos - e muito superior às dúzias de mentes que iriam supervisioná-la no cilíndro da Usina, ou a todos os outros cérebros computadorizados já desenvolvidos. Dendral era único em sua espécie.

Essa mente titânica, que controlava todo o cilindro, estaria encarregada de dosar a tensão de uma infinidade de campos eletromagnéticos dispostos em volta do centro oco da gigantesca estrutura. Os magnetos, que seriam alimentados por um reator de fusão, cuidariam para que a energia conseguida pelo movimento dos longos cabos de fibras-de-carbono fosse transformada em eletricidade - e emitida, por uma antena de concentração de micro-ondas, até Phœbe , onde o feixe de ondas novamente se transformaria em energia utilizável. Nunca haviamos gerado campos magnéticos tão poderosos, todo o mecanismo era experimental, e estavamos preocupados com a resistência da estrutura. Por outro lado nossos Sistemas Cognitivos convencionais nos tranquilizavam constantemente com estatísticas favoráveis. De qualquer forma era por demais proibitiva a execução de um teste, tal a energia necessária para o mesmo.

A idéia geral era mandar sondas, atadas aos cabos fibrosos, em direção ao abismo, e então aproveitar sua eneria cinética, transformando-a em uma forma manipulável de energia. Muitas medições seriam feitas e, futuramente, poderiamos criar uma Usina mais funcional e menos improvisada. Além disso, tínhamos mesmo que nos livrar dos cabos, que representavam um excedente em termos de compostos orgânicos e, é claro, massa.

Faltavam cerca de vinte minutos para a ignição das sondas. Eu começava a ficar impaciente. Depois que dez mísseis-sonda entrassem nas correntes gravitacionais, não tardaria para que os cabos começassem a percorrer o centro da Usina, que os manteria - por intermédio de hiper-potentes campos magnéticos - distante das paredes internas do cilindro. Se o puxão das marés gravitacionais se tornasse muito irregular, o computador de Inteligência Artificial, o controlador da Usina, usaria de seus reduzidos propulsores corretivos para ajustar a posição da estrutura.

Os guindastes diminuiram rapidamente em número, enquanto o tempo passava. Por precaução eles deveriam sair de perto dos cabos de fibras carbônicas, no entanto isso não nos preocupava muito. seria difícil que algum deles chegasse próximo o suficiente das “cordas” para causar problemas. O controle dos guindastes era autônomo, o que queria dizer que não careciam de supervisão humana, no entanto era padrão que os equipamentos autônomos fossem subordinados a ordens externas, que teriam prioridade no comportamento dos pilotos automáticos. Eles haviam sido instruídos a afastar-se da área, mas que o fizessem em ritmo normal.

Pela primeira vez olhei ao redor. Mais três curiosos haviam se unido a mim na janela panorâmica. A luz era mortiça, e as telas dos terminais-monitores flutuavam fantasmagoricamente, acima de seus respectivos projetores holográficos, em um ângulo confortável ao usuário. Os gráficos indicavam que a Usina se preparava para a entrada da fantástica carga de energia.

Não havia perigo da estrutura ser arrastada de seu ponto de estabilidade para a garganta do abismo, eu sabia disso, mas gostava de me imaginar dentro da Usina enquanto esta fosse puxada em direção ao enigma negro, que ainda reservava muitos mistérios para a ciência humana. Na verdade era um tanto infantil de minha parte. Se a Usina sequer se aproximasse além do previsto seria destroçada completamente e transformada numa pasta de matéria disforme antes que eu pudesse aproveitar o “passeio”.

Estava eu hipnotizado pelo rodopio da poeira cósmica, gases fruto da contração da estrela outrora existente alí, e quase não pude notar o brilho alvo da traseira do primeiro míssil-sonda. Não houve o espetáculo pirotécnico que poderia ser esperado na Terra, no início da era espacial. O propulsor emitia pouca luz no espectro visível. Outras sondas, também atadas a cabos de fibra-de-carbono, logo se pronunciaram à frente do cilindro, as restantes, poucos segundos mais tarde, seguiram-nas. Em algum tempo adentraram as tempestades gravitacionais invisíveis provocadas pelo abismo negro, que os astrônomos e astrofísicos costumavam a chamar de Collapsar, uma forma compacta para “Estrela em Colapso”. Ouvi os três rapazes ao meu lado discutindo algo sobre ir até um dos terminais computadorizados de observação telescópica. “Besteira”, pensei. Preferia uma imagem real, e não algo ampliado por computador.

Eu imaginava poder ver o abalo causado na trajetória dos já pequenos pontos de luz. Os cabos - esses eu já não conseguia divisar com clareza - eram arrastados pelos “arautos” na direção do vórtice gravitacional, e só se via sua extensão a frente do cilindro e os segmentos enroscados da parte de trás, que quase alcançavam Phœbe.

Minutos depois, devido a velocidade indicada pelos gráficos dos holo-monitores daquela sala, ponderava sobre a tensão dos cabos que, com pouca divergência angular, “desciam” em desabalada carreira na direção do abismo. O bolo formado pelos cabos de carbono, que haviam sido organizados de modo a não prejudicar o funcionamento da Usina, se desenrolavam violenta e freneticamente. A velocidade com que isso acontecia era cada vez maior, e provocava um movimento mais incerto dos cabos dentro da Usina, o que era compensado pelos potentes geradores de campos eletro-magnéticos. Em Phœbe, toda a tripulação devia estar observando a Usina naquele momento, ou procurando enxergar as sondas, fosse pelos mirantes ou pelos telescópios computadorizados, acompanhando-as à grande distância.

Por algum motivo que desconhecia, eu lançava, constantemente, rápidos olhares para o complexo desenho formado pelos cabos em revolução. A esta altura os mísseis-sonda já deviam estar em frangalhos, e me arrependi de não ter estado em frente a um dos poderosíssimos telescópios computadorizados para ver aquilo. Os mísseis não eram mais necessários, pois a aceleração gravitacional se encarregava de atrair, com força fantástica, os resistentes cabos fibrosos, que eram destruídos no processo, mas que não conseguiam se livrar da “queda”. Todos provavelmente focalisavam apenas a Usina e a periferia do Collapsar. Eu ainda não sabia quão providencial havia sido que eu houvesse permanecido em frente a janela panorâmica.

Mais uma vez eu havia olhado brevemente para o desenrolar dos cabos. Té minha mente processar o que vira já haviam se passado alguns segundos. Olhei novamente para os cabos na parte detrás da Usina: dois guindastes, de algum modo, se chocaram e se enroscaram em uma das parábolas formadas pelos cabos. Um deles provavelmente carregava uma viga... sim! A viga, após o choque ficara um pouco retorcida, formando um vê.

Não me recordo exatamente do que aconteceu depois. Devo ter alcançado um dos comunicadores e avisado o que ocorrera, não sei ao certo. Lembro apenas de estar informando apaticamente o acontecido ao controle da missão quando voltei para a grande janela, deixando o controlador a vociferar freneticamente frases ininteligíveis. Em pouco tempo quatro ônibos espaciais, carregados com nossos engenheiros e cientistas se afastavam velozmente da Usina; mérito da organização do Departamento de Segurança. Os guindaste, no entanto, seguiam, rapidamente, sua tragetória até a estrutura cilíndrica enquanto descreviam amplos arcos, arrastados pelos cabos. Toda a estrutura, sabíamos, estava fadada à destruição. Os veículos poderiam até passar pelo canal magnético, entretanto não se podia dizer o mesmo da viga, que rasgaria parte da parede interna da Usina e, pouco depois, arrastaria-a para seu derradeiro fim.

Pelo comunicador, outrora vociferante, pude ouvir controladas sugestões dos maiores cérebros de Phœbe, inclusive de dois dos nossos mais brilhantes Sistemas Cognitivos. Não havia esperança, em menos de um minuto o impacto se faria presente, e um dos mais gloriosos experimentos idealizados pelo homem teria um trágico óbito.

As tentativas de comunicação com os controles automáticos de emergência dos guindastes, na esperança de que estes pudessem cortar as vigas, foram vãs, eles haviam sido muito avariados.

Veio o impacto. No comunicador o silêncio era tudo que havia. Sentia como se não estivesse realmente presenciando a cena. O escapismo sempre fora uma característica humana, quando sob pressão.

Acho que me dirigí até a sala projetora do telescópio esférico, que havia sido colocado do lado de fora para supervisionar as operações. A Usina era arrastada pela infinita massa daquele maldito monstro.

Acompanhamos sua “queda” até que sua estrutura começou a se despedaçar e até que, ironicamente, só o ovóide, que encapsulava o Sistema Cognitivo, permaneceu intacto. À volta do ovóide se espalhavam destroços, indutores de campos eletromagnético, baterias concentradoras de energia e o poderoso reator de fusão.

Sentíamo-nos como que no espaço, cercados pela tela de trezentos e sessenta graus e pelo silêncio assombroso. Tanto que foi quase insólito ouvir a voz que vinha dos comunicadores. Mais isólita ainda era a mensagem... que dizia que um estranho padrão de atividade eletromagnética ocorria em torno do que restara da Usina.

Vimos com igual espanto o movimento impossível que era executado pelas peças soltas em torno do ovóide. Os cabos condutores dos magnetos formavam, naquele momento uma esfera em torno da cápsula do reator e das baterias.

Até onde oudemos acompanhar, já que, nas proximidades do abismo até a luz se curvava ante o Collapsar e era engolida, o ovoide permaneceu estranha e incompreensivelmente incólume.

Há alguns anos nossos cientistas vêm tentando entender, junto aos nossos Sistemas Cognitivos convencionais, como o Hiper-Computador conseguira abastecer aquele incomensurável campo eletromagnético, sem chegar à uma conclusão razoável, mas não deixaram de ficar orgulhosos de ter criado um ser tão brilhante ao ponto de conseguir idealizar tão fantástico aparato para se manter ileso nas proximidades de algo tão poderoso como um Collapsar.

Foi veiculado com orgulho, em Phœbe, que Dendral, o referido Sistema Cognitivo, se encarregou de nos mostrar quão descomunal é o potencial da raça humana e que, mesmo tendo o fim fatal que teve, não se curvou às circunstâncias e ao que poderia ser um fracasso total.

Quanto a mim, não acho tão improvavel que Den - se me permitem a intimidade - tenha conseguido atravessar, ileso, aquele abismo gravitacional. E, se passou, não creio que pudessemos esperar melhor embaixador que ele.

Talvez seja Dendral o primeiro de um conjunto de sondas que irão de encontro a Collapsars como aquele. Um pioneiro... O que me lembra as primeiras sondas a sair do nosso Sistema Solar, já distante, nos primórdios da era espacial. Talvez um dia meus netos ou bisnetos encontrem Den, à centenas, milhares, ou milhões de anos-luz daqui, e lhe dêem o nome, ou título, de Pioner 12.

21 de Junho de 1990
Sistema: Sol (Phœbe)

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Postado por baccioly em 11:23 AM | Comentários (1)

janeiro 30, 2005

"Amargo Nitrir"

A inspiração dista quase sempre do que imagina o leitor. Por vezes memórias, por vezes o que se vê e se escreve... no fim, o que importa para o leitor é sua leitura do que ali está.

Lúbrica, a poesia ganha na força das imagens que desvela para o leitor enquanto o embala no ondular das rimas.

Singela mas bem humorada, aprecio a poesia que escrevo em minutos... parece mais real


Amargo Nitrir

Estava no campo a fitar a égua nua,
do pálido dorso até a crina escura...
e vê-la à luz de tão grand´e alva lua
doía-me o corpo em desejo impuro.

Ouvir seu respiro, assim forte e raro,
debaixo da lua que a beleza acura,
só faz-me sofrer, pois me falta o amparo,
do corpo da aneia que causa-me apuro.

Perdão não teria não fosse o porte
altivo e ausente da vil criatura,
“já que sou um potro me alteras o norte...
...já que tu existes eu não tenho cura.”

03 de Janeiro de 2005 11:55am
Postado por baccioly em 03:25 PM | Comentários (1)

"Urbe"

Isto foi escrito no intervalo de uma reunião de trabalho na belíssima - a seu modo - mas por vezes opressiva cidade de São Paulo.

Muito do que escrevo, em termos de poesia, pode ser encarado como uma forma pessimismo. Discordo profundamente desta noção, embora compreenda plenamente o porquê de já ter ouvido isso tantas vezes.

Seja como for, posso garantir que nas entrelinhas do texto há muito mais que o que é meramente óbvio.

Urbe

Aqui o mundo é cinza e desanima
num caldo de luz fria que me esquenta.
Ternos de um preto escuro sem luz alguma,
falas que tanto dizem mas nada rima.

Assim qual a bela estrofe que só se pensa
o que não se diz só há nessa minha cisma.
E o cinza dessa cidade em disfasia
desfaz o que resta desta poesia tensa.

Viola meus pensamentos a angustia estranha
do cinza maldito e farto que contamina.
Só sobra da vida bela de outros dias,
sosobra a vida em torno da vida ganha.

Um logro de ganho inócuo da plata verde
se pensa ter na carteira pela labuta;
engodo que todos vivem e não reclamam,
mentira desta cidade que as cores perde.

Mas sobram as cores que da cidade distam
no fundo de minha mente que é fugidia,
forçando-me a poesia por dedos mortos
do cinza que me sufoca no dia-a-dia.

18 de Novembro de 2003
12:46
Postado por baccioly em 03:06 PM | Comentários (1)

"Sensatez versus Relatividade"

A relatividade moral dos dias de hoje colocada diante de uma lente crítica.

Após uma longa fase de Ceticismo Científico Mecaniscista, algumas das perguntas que não calavam acabaram por me fazer procurar outras disciplinas, que fossem mais adequadas para ajudar-me a responder a tais questões.

A Filosofia, em conjunto com um ferramental que comecei a desenvolver em meados de 1992, provocou profundas mudanças na minha forma de perceber as coisas.

Este é um dos primeiros textos que escrevi acerca destas questões e que resgatei recentemente


Sensatez versus Relatividade

Sensatez, segundo muitos, é um conceito relativo, seja lá o que isso quer dizer.

Parece conveniente que a cultura humana nos tenha colocado em posição de achar tudo tão relativo e intangível de forma que nos fosse impossível discorrer a respeito. É como se fôssemos eternos agnósticos no que se refere a qualquer conceito minimamente complexo.

Não Saber é Sensato. Longe de mim dizer que não. Mas Não Querer Saber não tem nada de racional.

É perigoso Não Querer Saber. Perigoso para você, para os outros e para a sobrevivência de nossa cultura e ideais. É, entretanto, conveniente e desejável para alguns grupos - organizados ou não - que façamos confusão entre Não Saber e Não Querer Saber.

O caminho para a compreensão desta questão e de sua importância inerente é longo e empedernido para alguns e breve e auspicioso para outros, como nossa experiência do mundo nos faz intuir.

A Doutrina Sensata oferece uma nova visão de mundo através da Sensatez, forçando a atenção para as beiradas da realidade e levando o neófito à zona limítrofe entre o que se quer acreditar que seja e o que realmente é.

A verdade inconfessável é que o Homem de hoje é um acomodado que usa de centenas de anos de programação e evolução da retórica do conformismo e da dialética do absurdo para justificar para si e para os demais sua passividade em um mundo supostamente complexo demais, injusto demais e, sobretudo, relativo demais.

Postado por baccioly em 01:33 PM | Comentários (0)

"Ponto de Vista"

A discussão filosófica de ex-namorados acerca da natureza da realidade é colocada em perspectiva neste conto de ficção científica que eu e Alexandre Maron pensamos em adaptar para a tela.

Já bem cedo, aos treze anos, quando estudava Inteligência Artificial por conta própria, eu havia identificado que, dada a dificuldade tecnológica em se construir peças, sensores e toda sorte de aparelhos, a melhor forma de agregar sentimento de corpo a uma máquina seria a criação de uma matriz (!!!) tridimensional em memória que contivesse representações tridimensionais do mundo real.

Eu e Alexandre Maron conversávamos muito acerca de modelos tridimensionais dentro do computador, na época, e não havia um conceito formal de Realidade Virtual. Meu irmão, Paulo Albuquerque, inclusive, foi o primeiro a falar de CyberSpace para mim, numa torrente entusiasmada de frases que nem explicavam muito bem o que era, mas que já parecia muito interessante.

Tanto eu quanto Maron escrevemos muitos contos acerca do tema, que eu denominava Realidade Artificial e que ele, pioneiro, já chamava de Realidade Virtual.

Foi em um antigo programa da Mtv, chamado Buzz, que ouvimos o termo pela primeira vez.

O conto a seguir foi escrito após uma discussão que de fato aconteceu, com uma ex-namorada chamada Ana Cláudia, e que defendia com unhas e dentes a idéia de que a discussão acerca de Realidade Virtual ou mesmo da natureza da realidade, era sacrílega e irrelevante, uma espécie de torre de babel tecnológica.

"Ponto de Vista" - PDF
03 de Setembro de 1990

Ponto de Vista

"Lembro de nove mundos."
- Edda Islandesa de Snorri Sturluson, 1200 D.C.

"Existem muitos mundos ou haverá um só? Esta é uma das perguntas mais nobres e elevadas no estudo da natureza."
- Albertus Magnus, século XIII

"...e mesmo que não tenhamos visto, é claro que Deus soprou o hálito da vida nas narinas do Homem, por inúmeras vezes, e continuará fazendo-o por outras inúmeras vezes, em inúmeros outros Universos..."
- Prabhu Kâla Candraloka, Saga Doktrino, 2061 D.C.

Alan não sabia mais o quanto poderia aturar daquela discussão. Não que não gostasse de Paola, ela o interessava bastante, mas acontecia que era uma leiga no assunto, e ele odiava ter de discutir com pessoas desinformadas. Geralmente estas acreditavam saber mais que especialistas. Teve de abrir mão dessa filosofia depois do quinto copo de whisky, mas conservava-se consciente de que estava certo. "Afinal ela é evangélica" - Não gostava de pensar daquele modo, procurava ser uma pessoa sem preconceitos e sabia que havia grande diferença entre as religiões e os religiosos.

- Não, Alan. Isso tudo é uma grande besteira - Paola sacudia uma das mãos ao lado do copo de Lemon Coke em cima da mesa - Não faz sentido e, além do mais (e nem tente dar um de seus sorrisos sarcásticos) Ele vai chegar antes disso acontecer!

Alan quase engasgou com o whisky (voluntariamente) ao ouvir a referência ao hipotético filho de Deus na mitologia cristã - Paola! Sabe que não gosto de conversar nesses termos. A própria Saga Doktrino renega esse tipo de comentário.

- Ah, claro! Esse bando de panacas, com suas togas cor de abóbora, que não sabem fazer outra coisa senão peregrinar pelas Planitias equatoriais de Marte. Sinceramente...

Ele levantou a mão direita e começou a falar - Está bem. Okay. Sei que você não aceita esse tipo de argumento. - Parou e olhou para o prato de batatas fritas no centro da mesa - Há mais de três mil anos que os evangélicos, perdão, os cristãos vêm dizendo a mesma pasmaceira, perdão, coisa, quanto à cada uma das descobertas tecnológicas e à cada uma das coisas que não compreende. Não seria estranho que, mais uma vez...

- Alan! É completamente diferente! Imagine, que blasfêmia! Você está dizendo coisas absurdas. Essa história de R.V. é que é pasmaceira. Você vem falando disso desde a faculdade, e até agora não vi nada diferente daquelas patéticas tentativas de simulação do mundo que nos rodeia. Nunca reproduzirão um pôr-de-Sol, o mar, a vida. - Paola deu mais um gole na Lemon Coke e pegou uma batata frita.

- A questão não é essa. O que importa é a percepção do usuário! Não é preciso que se simule bit a bit um pôr-de-Sol no computador para que um usuário hipotético, lá dentro, ache que tal fenômeno esteja ocorrendo. Basta que se simule o conceito. - Pegou um guardanapo, tirou a caneta do bolso e rabiscou alguns garranchos impacientemente - "Pôr-de-Sol"! Entendeu? - Elevou o guardanapo escrito, com as duas mãos, em frente dos olhos dela.

Paola arrancou-lhe o guardanapo das mãos.

- Quer dizer que você não vai precisar botar o diabo, perdão, do pôr-de-Sol lá, né?

- É. - Disse ele, dando de ombros.

- Então essa porcaria de teoria não passa disso... - Rasgou o guardanapo e jogou, teatralmente, dentro do cinzeiro - ...Lixo!

- Como assim? - Alan arregalou os olhos.

- Lá não vai ter pôr-de-Sol Real, e aqui vai!

Alan sorriu e abaixou a cabeça. Mirou novamente em seus olhos.

- Quem te garante que você realmente vê um pôr-de-Sol?

- Ora, eu vejo, pombas! Ele está lá e eu olho para ele. - Gesticulou, batendo em seu copo, que virou, derrubando a Lemon Coke - Droga!

Olhando para a mesa e balançando a cabeça, Alan chamou o garçom e pediu um pano. Tocou o braço de Paola e continuou.

- A Realidade Virtual é uma realidade! - Piscou um olho, insatisfeito tanto com a frase quanto com seu efeito - Isso não foi uma redundância, foi? - Olhou desconfiado para o copo de whisky, quase vazio. - Bom, veja se me entende... Um gajo que estivesse de frente a um conceito de pôr-de-Sol (dentro de um universo moldado no interior de um computador) acharia estar realmente vendo um pôr-de-Sol. Em um mundo de espaço conceitual não seria possível notar a diferença... Se eu a pusesse em um mundo deste tipo enquanto você estivesse dormindo, você nem perceberia a diferença ao acordar. Tudo que eu teria de fazer seria ligar um indutor de impressões sensoriais em seu sistema nervoso.

Paola balançou nervosamente a cabeça - Mas é aí que está a diferença! Eu sei o que vejo, e já vi um monte de "pôres-de-Sol", tanto na terra quanto na Lua, e eu sei que vi. Eu vi!

- Garota, acontece que tudo o que você vê pode ser só um conceito que está sendo posto em sua frente!

- Lá vem você de novo. Eu sei que não sou um chip de computador. Essa teoria é absurda! Sabe o que eu acho? Acho que você leu demais e viveu de menos nesses seus vinte e...

- Seis...

- Vinte e seis anos. Você é um miserável de um ateu!

- Paola!

Ela levantou da mesa. Alan segurou seu braço - Senta aí, Paola. - Olhou para os lados - Isso não é justo! Deus não tem nada à ver com isso.

- Quê?! Claro que tem!

- Espera! - Alan bateu na mesa. - Gaita!! Eu acredito em Deus, Paola, e você sabe disso.

O sorriso se pronunciou no rosto dela - Saga Doktrino... - Molhou os lábios e sentou-se - Isso é bem diferente, Alan.

Ele baixou a cabeça.

- Tá bom. Vamos parar de falar dessas coisas. - Respirou fundo e tentou mudar de assunto - Como vai seu pai?... Ah, obrigado - Era o garçom.

Sempre foi assim. Eles nunca conversaram mais de dez minutos sem discutir. Na faculdade, Paola e ele já discutiam sobre Realidade Virtual. Até que se entendia que fosse difícil compreender o básico de se construir um mundo com leis físicas, seres vivos e inteligentes no computador, ainda mais quando se falava do Reductio ad Absurdum, o Paradoxo de Braiburn, onde se questionava o existir, pelo menos do modo como nós o conhecemos.

O problema de certas pessoas em descobrir um paralelo entre Deus e a Ciência era bastante compreensível, mas de modo algum provinha da filosofia de alguma religião. Era mais uma defesa contra algo que lhes parecia ofender todo o seu conceito de um mundo maravilhoso e por demais fantástico, onde países inteiros, que estivessem em guerra, pediriam à Deus por um mesmo milagre, ambos tendo a certeza de que Ele estava do lado certo, o deles.

Geralmente era difícil fugir do assunto - talvez porque o comportamento padrão do Homem fosse não sacrificar um relacionamento em função de um assunto, por mais importante que esse pudesse parecer.

Mais oito pessoas no Sistema Solar falavam da mesma coisa naquele momento. Nenhuma da discussões persistiram por muito mais tempo que aquela. Nenhuma das oito pessoas, bem como nenhum dos outros "seres vivos" daquele mundo perceberam quando a energia decaiu e tudo em seu Universo entrou em colapso.

* * *

- Perdemos! - Gritou o técnico de azul, olhando desolado para o grande módulo que sustinha os tórulos de Realidade Virtual.

- Putz! Que porcaria!! - Exclamou o estagiário ao seu lado.

O técnico, com macacão branco, saiu de trás do módulo armazenador, que mais parecia um grande armário - Não, não se preocupem. Consegui salvar o módulo principal. Foi nos últimos três segundos. - Suspirou.

- Ótimo! Felizmente não precisamos nos preocupar com as mentes. Os módulos de memória delas não são voláteis. - Disse o primeiro técnico - De qualquer modo é melhor não reportarmos isso nos relatórios. O senhor Hammock viria chutar nossos traseiros pessoalmente.

- Quando vocês vão poder colocar tudo para funcionar de novo? - Perguntou o estagiário.

O primeiro técnico levou uma das mãos ao queixo - Cerca de três horas... Foi uma grande coincidência, na verdade. Dois geradores pararam de funcionar em seqüência. Se nosso amigo aqui não tivesse salvo o módulo principal estaríamos em uma bela enrascada. Uma enrascada de alguns milhões de dólares em pesquisa. Só o que temos de fazer é efetuar alguns reparos nos circuitos danificados, se houver algum.

- E eles nem vão desconfiar do que aconteceu, certo? - Disse o estagiário.

- Correto. Todas aquelas mentes, todas aquelas crenças, aquelas preocupações, tudo funcionando, e nenhum segundo será perdido na Realidade Virtual. E pensar que o mundo deles acabou há pouco e eles nem sabem disso.

- O garoto está aprendendo, não é?... - Falou o de azul.

E em três horas o Universo Virtual C-12 voltaria a existir.

- Graças a Deus...

* * *

- E então, como vai seu pai? - Perguntou Alan.

- Bem. - Paola respondeu, observando o pôr-do-Sol pela janela do restaurante.



...Graças a Deus...

3 de Setembro de 1990
Sistema: Sol (Hammock)

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Postado por baccioly em 01:10 PM | Comentários (1)