O jovem que vê a menina no banco da condução e que passa a fazer dos dela os seus horários só para não se privar de vê-la.
Celebrando as paixões da juventude, escrevi esta poesia em um momento muito difícil e igualmente apaixonado.
Vale dizer que a menina da poesia tinha uns dez anos de idade e o rapaz uns dezesseis e que - ora, vejam - a história é real.
Lembro-me que a poesia me confortou bastante então, me sugerindo a impermanência de sentimentos e de tudo que em dado momento tomamos como importante
Recordo que à flor da idade, contava com a hora finda,
deixava passar aos montes os carros da condução...
Em cima da hora certa, entrava na jardineira,
fazia uma breve prece e apertava o meu coração.
Sequer eu olhava a rua, os carros e as pessoas,
ficava eu ali no aguardo... esperando minha visão.
Te olhava sem dizer nada,
platônico, te espiava pelos flancos,
sonhava ver seus olhos, seu sorriso,
e não te proteger por trás dos bancos.
Teu pejo de menina muito nova...
...e eu ali mudo em covardia...
“Se os bancos da vida não atrapalham
eu não escondia a galhardia”.
Ingenuidade fútil de menino,
confiante na beleza dessa história...
a jovem vira moça... a paixão?...
se perde no horizonte da memória.
Brasil pós apocaliptico... o que fazer quando tudo o que você ama desaparece e todos os seus referenciais mudam completamente?
O interessante deste conto, em minha opinião, está o ferramental que ele trás dentro dele. Aqueles que gostam de identificar subtextos vão encontrar, provavelmente, noções platônico-socráticas ali escondidas.
Coincidência feliz inspirada por absolutamente todos os livros e filmes de ficção científica que eu havia lido até então.
Livre arbítrio é o conto mais elogiado que já fiz. Pessoalmente não acho o melhor, mas fazer o que?
Havia mais de seis horas que meus homens não voltavam. Tentei não me preocupar tanto nas primeiras horas, mas todos sabíamos que não era prudente passar mais de trinta minutos fora da base, a não ser em missões de sabotagem contra os Verdugos. Não que a base fosse grande coisa - apenas um blindado militar, de um exército que já não mais existia, escondido nos destroços do edifício... o Marquês de Herval. Pelo menos tínhamos muitos livros para ler...
Não havia graça (joguei o livro ao chão). Só me aventurava no amontoado de livros do subsolo por cerca de dez minutos. Estava com medo de ir atrás deles. Nunca excurcionávamos sozinhos no centro da cidade. Éramos sempre em grupos de três, ou quatro, pois só assim conseguia-se subjugar um Verdugo (um ruído, e corri para o lado do blindado, abrindo a porta deslizante com um toque). As metralhadoras daqueles sólidos monstros de metal, e seus potentes membros hidráulicos, lhes conferiam uma força grande demais.
Infelizmente eu não sabia de onde eles haviam vindo, mas isso não fazia mais muita diferença. Algum maluco os montou com um propósito desconhecido. Só sabíamos o que víamos. Eles chegavam e diziam em tom monocórdio: “É favor vir em paz...”, e invariavelmente atiravam, prendendo o corpo da vítima ao seu. Em alguns segundos deixava cair o corpo sem cérebro ou coluna vertebral. Pela manhã encontrávamos a massa em decomposição ao lado dos ossos estilhaçados no asfalto, já esburacado, da Avenida Rio Branco. Queimávamos tudo...
Já havíamos tentado sair do Centro da Cidade, mas eles não nos deixavam. Eram muitos, e deviam ter se apossado dos armamentos pesados nas bases militares da área. No entanto, mesmo não podendo nos afastar muito daquele ponto, sabíamos que haviam outros grupos rebeldes, pelo menos na Zona Norte. Havíamos captado transmissões, entre dois grupos, no rádio do tanque. Foi desta forma que ouvimos pela primeira vez a palavra Verdugo. Agora, contudo, não ouviríamos nada mais... o rádio quebrara... um acidente estúpido.
Já olhava impaciente para os quatro monitores, ligados a câmeras de vídeo escondidas em protegidos pontos estratégicos do lado de fora do tanque. Estava escurecendo...
Quando atacaram pela primeira vez, a resistência oferecida pelas forças armadas fora ininteligivelmente ineficiente e pouco significativa. Os Verdugos dizimaram as Três Armas e, estranhamente, até os policiais conseguiram impingir-lhes maiores baixas - quem diria? Eles deviam ter toda uma infra-estrutura dedicada à queda da milícia. Perguntávamo-nos o porquê de as demais forças da União, ou mesmo outros países, não tentarem nos ajudar. Não era possível que houvessem tomado de assalto o país inteiro. Nem mesmo acreditávamos que tivessem tomado toda a cidade do Rio. Não toda!
Cochilei...
Acordei sobressaltado de um pesadelo. Sabia que fora terrível, mas não podia recordar-me exatamente o que sonhara. Passava das vinte e duas horas e me dei conta da gravidade da situação. “Sete homens!”, pensei, colocando as mãos em frente ao rosto, “Deus. Onde estão eles?”
Armei-me com a pistola nove milímetros e verifiquei os pentes-de-bala extras e o percursor. Coloquei no coldre de tórax todo o conjunto. Do fuzil automático só sobrara um carregador, que felizmente estava cheio. Amarrava a bota de lona quando me recordei de embainhar a Balisong no coldre - “Ha, ha”, ri sozinho. Podia não adiantar nada... “uma lâmina contra sei lá quantos milímetros do metal dos Verdugos”, mas Débora me dera a arma, horas antes de morrer - alvejada por uma daquelas malditas máquinas - devia ter encontrado a lâmina numa das incursões, provavelmente no corpo de um dos pobre diabos que corriam sem esperança por aí.
Até que não estávamos tão mal equipados. Nosso blindado chegava a funcionar - e seria a primeira vez, em dois meses, que o usávamos... quer dizer... eu usava. Eu tinha que encontrá-los. O tanque estava munido de uma boa gama de sensores, quase tantos quanto nós supúnhamos que os Verdugos alojassem dentro de suas carcaças metálicas.
Resolvi não me preocupar e destruir a porta de madeira camuflada, em frente do edifício, saindo com a maior velocidade que consegui. Parei diante do prédio. As luzes estavam apagadas. “Estranho”, eles pareciam ter preferido abastecer a cidade de energia elétrica, pelo menos até então. Virei à direita e acelerei a quarenta por hora, olhando pelo monitor dois, a destruição causada no Edifício Central. Acelerei. O barulho do motor me incomodava - a hiper-sensibilidade do medo...
No monitor um, só era possível ver até cerca de trinta metros, aí me lembrei do holofote externo que não havia ligado. “Merda, esqueci de instalar o interruptor!”, pensei, irritado comigo mesmo pela estupidez, “Cretino! Idiota! Imbecil!”, continuei enquanto me dirigia para a escotilha superior e o blindado rangia, prosseguindo na contra-mão. “Talvez eu seja multado...”
Abri a escotilha em quinze centímetros, ainda em movimento, suando feito um porco numa sauna. “Antigamente minhas analogias fediam menos...” Esgueirei uma das mãos rapidamente para o interruptor holofote e empurrei-o para frente.
O novo alcance visual, de cerca de trezentos metros, encheu meus olhos com objetos demais para quem está com adrenalina até os testículos. Distinguindo melhor as imagens, pude ver o luminoso do McDonalds caído no meio da rua, em frente a um Verdugo...
“Ahn!?!?!”, seus fortes refletores se acenderam, cegando-me por um segundo.
Comecei a ouvir tiros e me dei conta de que havia entrado automaticamente no tanque. O veículo tremia enquanto os projéteis espocavam na blindagem. Os monitores um e três não funcionavam mais. Avancei para o fuzil, ao lado da poltrona e abracei-o com força. Uma rajada de tiros à esquerda e à direita do tanque. “As lagartas!”, ele devia estar tentando diminuir a velocidade do veículo atirando nas lagartas. Os Verdugos, já havíamos notado, pareciam raciocinar. Puxei a alavanca de aceleração, aumentando a velocidade, corri para a porta traseira. Mais uma seqüência de disparos e o blindado sacolejou feito uma mula chucra. Abri a porta e saltei, rolando pelo asfalto.
Senti-me como um banhista alcançado por um vagalhão inesperado. A areia no calção bem podia ser uma bela analogia dos hematomas nas costas e nos joelhos. Esforcei-me para olhar para o Verdugo, mas a silhueta do tanque, contra as luzes da massa metálica super-armada, explodiu em chamas. Nova explosão e pareceu que aquele Verdugo não mais me incomodaria.
Uma lágrima rolou enquanto um sentimento irracional de perda me afligia devido à destruição do blindado. Aquele era o décimo nono Verdugo que eu destruíra - a idade de Débora quando a tomaram de mim.
Aquele rompante sentimental devia ter me distraído. O bastante para eu não ter ouvido o bastardo... Uma forte luz, às minhas costas, encheu-me de calor. Um estalo seco, e a luz diminuiu de intensidade. A voz, monocórdia, gelou-me as vísceras.
- É favor vir em... - Eu já esperava o tiro e, se sobrevivesse, a maior agonia que sentira até então. Mas a voz me congelara... sua hesitação colocou-me em pedaços. Eu esperava um algoz, não um cretino sadicamente condescendente.
Naqueles breves segundos senti como se toda minha vida estivesse sob sua mira, diante daquela máquina estática, inescrutável. Falei, se bem me lembro... - E então? Quem atira primeiro? - Nunca saberia de onde viera aquilo, mas o fiz displicentemente, passando a segurar o fuzil com firmeza.
O Verdugo não emitiu nenhum som por alguns longos segundos, e cheguei a pensar em fugir. Não... meu orgulho crescera, com sua hesitação, e ainda não havia caído por terra.
- Como é? O que vai ser? - Pensei ouvir sons baixos e inarticulados.
- Tão errados, Marcelo - Disse a voz feminina. E quando eu notava que vinha do Verdugo, o rifle foi ao chão, deixei-me cair de joelhos... - É Débora...
Minha mente imergiu num lapso de compreensão, aquela sensação estranha nos primeiros momentos do despertar de um sonho - Débora... - O disparo me atingiu no plexo, e o autômato de dois metros voltou a agir energicamente. Segurou-me com duas enormes mãos de três dedos e me pôs sob seu tronco. Senti duas faixas flexíveis de metal me envolvendo. Um ranger agudo se espalhou ao redor de minha cabeça e não senti mais nada.
Acordei com uma leve dor de cabeça, que passou em poucos segundos, mas não me levantei. Abri os olhos devagar. O Sol - algum sol - despontava à noroeste - era o que dizia minha bússola, uma leve brisa morna afagava meu corpo enquanto a bússola e toda minha roupa eram substituídas por um tecido leve e balouçante. Sentei-me naquele gramado de um verde displicentemente vivo. A certa distância eu via árvores como não via desde muito tempo atrás. Levantei-me. Verde, azul, amarelo, tudo tão perfeito! Água? “Sim!” O barulho de um rio me chamou a atenção. Fui andando na direção do ruído e acabei encontrando um monte de pedras e uma cachoeira. Tudo tão fantástico...
Tirei minha túnica (?) e entrei instintivamente naquela irresistível fonte, de um frescor inexplicável, tentando não me lembrar de mais nada. Banhei-me por alguns minutos naquela água a procura de alguma impureza, nela ou na branquíssima areia. Estaria louco? Vivera eu ali por toda minha vida?
- Não, Marcelo... - Era ela, Débora. Levantei-me rápido, esperando que a visão impossível se desfizesse. Não se desfez - Vem...
Andei com ela, as mãos dadas, por algum tempo, no bosque que ladeava a clareira, em silêncio, até que pude notar um senhor sentado sobre uma pedra. Parei.
Débora se voltou para mim e sorriu. Foi embora. Era um sonho, então eu tive certeza (?). Devagar me aproximei dele e sentei no chão gramado. Ele olhou para cima por longo período e depois para mim.
- Onde estou? - Comecei afobado - No Céu?! É o Apocalipse? O que é tudo isso? - Estendi os braços para os lados.
Ele me tocou nos ombros e toda minha aflição e ansiedade desapareceu.
- Marcelo. Não se preocupe... Tem sede, fome, dores?
- Como..? - E percebi - Na-não... Nada...
- Beba isso. - Ele era calmo. Mas de onde viera o copo que me estendia? Sorvi a bebida e não pude me conter, fechando os olhos - Meu Deus, como é bom. É a coisa mais saborosa que... - A realidade do que eu dizia me encheu de terror... Era realmente a coisa mais gostosa que se poderia conceber. Sabia disso...
- Para isso os... Como os chamava? Verdugos? - Sorriu um belo sorriso - Para isso foram concebidos... Não nos entenda mal. Sabíamos que isto tudo era bem melhor que o mundo lá de fora. Tínhamos de trazê-los para cá. É a Causa... E todos sabem que aqui é bem melhor que lá fora. Um paraíso. O paraíso. Quem pode negar isso? - Deu uma pausa para encher-me o copo com um movimento das mãos - Sua mente, agora, Marcelo, é praticamente imortal. Seus pensamentos e desejos estão acondicionados em resistentes circuitos holográficos de memória, a certa profundidade da superfície de sua cidade. - Sorriu - Mas esses são detalhes... Débora, leve-o para conhecer a vila... Aposto que ele a apreciará...
Visitei várias vilas e descobri infinitas outras que estavam sendo erigidas naquele mundo sem mistérios. Descobri também, com pesar, que meus homens, meus amigos, não estavam lá. Fiquei muito triste. Senti-me mal apenas por imaginar quantas pessoas ainda não estavam lá conosco, e estavam fugindo, relutando em aceitar a salvação de seus corações pelos Servos - não pelos Verdugos, como os chamávamos outrora.
Foi então que perguntei ao Mestre se poderia ajudar em alguma coisa para trazê-los.
É uma honra para mim, hoje, poder passear pelas ruas de Singapura para juntar cada ovelha do imenso rebanho Humano. O estranho corpo, que agora me comporta, não me incomoda. Já recuperei para a Causa, com orgulho, um bom número de pessoas da resistência. É até engraçado vê-los correr de um futuro tão sensacionalmente lindo como o perseguido pela Causa, mas tenho fé em que todos estarão lá um dia. Trabalhamos em turnos, eu e meus amigos já “resgatados”.
Quanto a Débora, eu e ela temos sido muito felizes, e pretendemos casar na próxima primavera...
“As portas do Céu e do Inferno são adjacentes e Idênticas...”
- Nikos Kazntzakis, "A Última Tentação de Cristo"
...E vice-versa...

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
A delícia do amor platônico que só o amante perseverante compreende, a despeito de toda a descrença dos que dele riem ou têm pena.
A idéia, na verdade, veio do filme "O Horizonte Perdido", onde um breve comentário é proferido por um dos personagens, logo no início do filme.
Robert Conway, o personagem vivido por Ronal Colman, em certo ponto, descreve como a sombra do avião em que estão sobe montanhas e se afasta para vales abaixo, sempre, no entanto, voltando a tocar os trens de pouso quando este aterrissa.
Tema constante e rico, me delicio ao explorar cada ângulo dessa dor que, com o tempo, vira experiência.
Conjugando o tema ao absurdo comovente da forma que as crianças vêem as coisas e as relações entre elas, resolvi pegar o bloquinho e rabiscar essa poesia singela.
Das asas tuas faço céu de estrelas
que tu bloqueias tão indiferente;
me aconchego às formas de teu corpo,
me delineia a Lua displicente.
Se o dia sobe, o Sol me acha ausente,
as nuvens passam, me faço de morto;
tu nem me viste e eu aqui tão perto,
aqui prostrado à pista do aeroporto.
Ninguém te olha e contigo flerto,
Nariz em riste faz que me ignoras.
Faz tanto tempo que estás na pista,
e te admiro por tantas auroras.
E quando vêm e tiram as escoras
e teus motores a ligar arriscam,
te sigo ainda, já em desespero
e em tuas asas belos lumes piscam.
Estás contente, noto enquanto dista,
sem mesmo ver o que está defronte.
Tomo coragem, corro em teu encalço,
não me importando o que há no horizonte.
Por terra eu sigo e escalo monte,
enquanto partes em teu sonho alado.
Por matas, rios, mares, me aventuro,
Só por estar de ti enamorado.
Por sóis e luas, e já fatigado,
sem desistir eu vou em meu enduro.
Posso estar louco, mesmo equivocado,
mas não me rendo a esse meu apuro.
As léguas passam e no céu escuro
quase me perco desse meu estado.
Me pego em prantos e me perguntando
Se seu amor foi mal interpretado.
O Sol nascente mais que consternado,
atrás de nós me diz que vens seguindo.
Eu sinto muito por ter duvidado,
nós nos amamos e isso tudo é lindo!
Mesmo que finjas – com o Sol a pino –
o teu sorriso verte em tua ronda.
Desces em mim como se eu fosse a pista...
...tu és mia vida e eu a tua sombra.
Em viagens espaciais relativísticas, nem mesmo todo o poder e velocidade dos motores garantem a falta de surpresas. Tão comum quanto possível, nas circunstâncias, o mais baixo cargo da Dædalus fica frente a frente com a futilidade e os limites do Homem e de suas máquinas maravilhosas.
Personagem comum nos filmes de ficção no século XXI, mas nem tanto à época em que escrevi o conto, o narrador tem um perfil com o qual o leitor pudesse se identificar com maior facilidade.
A "estética" e estilo deste conto influenciou profundamente o jogo de RPGRole Playing Game: Trata-se um jogo orientado a representação de papeis. A estória é idealizada por um administrador do jogo e as decisões dos jogadores afetam profundamente o andamento da estória. "Sistema: Sol", que foi jogado por cerca de dez jogadores ao longo de cinco anos, totalizando 120 aventuras.
Menos que me preocupar com o que é ou não previsível, concentrei-me no inevitável e na paródia intrínseca que é o valor que damos a suposta permanência das coisa.
Abri os olhos e fiquei um tanto assustado, até que recordei onde estava. As luzes aumentavam de intensidade lentamente, e a linha d’água vinha em direção à “máscara de mergulho”. O tanque de água superpesada, de baixíssimo ponto de congelamento, estava esvaziando. Ainda devia estar bastante frio, mas o macacão me protegia naquele momento. Comecei a sentir as lufadas de ar aquecido.
Levantei-me sentindo o peso do tempo e da falta de atividade, embora a maior parte de meus músculos tenham sido cautelosamente tratados com drogas especiais. O visor transparente da cápsula deslizou para o lado. Tirando a máscara esfreguei os olhos e procurei as outras cinco câmaras criogênicas. O comandante e os outros estavam acordando. Todos sabíamos o que aquilo significava...
Quando os cientistas, lá na Terra, receberam os primeiros sinais de rádio proveniente de Procyon, o mundo todo virou de ponta-cabeça. Tudo indicava que não estávamos sós no Universo. Infelizmente não pudemos manter um diálogo, devido a distância - já que uma sessão de perguntas e respostas com tal civilização demoraria mais de vinte e dois anos - mas soubemos que sua constituição era basicamente humana. A natureza arranja, ao que tudo indica, as mesmas soluções para os mesmos problemas.
Em sua mensagem, após um árduo período de decodificação, foi conseguido observar que eles diziam não possuir tecnologia para viagem inter-estelar, e que receberiam de braços abertos uma visita alienígena amistosa. Foram três anos antes que a mensagem fosse inteiramente recebida, e foi constatado que esta se repetiria indefinidamente.
Havia décadas, o mundo ouvia sobre viagens inter-estelares como coisa de ficção científica, e nem os vinte anos que se passaram desde o início da construção de uma variação da nave-sonda estelar Dædalus, projetada pela Sociedade Interplanetária Britânica, foram suficientes para fazer com que se acostumassem com a idéia. É certo que era uma expedição militar, contudo isso não retirava o mérito do projeto.
Desde que foram recebidos os sinais até o término do maior veículo espacial feito pelo Homem, transcorreram trinta anos. Os Procyonianos, como convencionou-se chamá-los, por certo não se incomodariam... Afinal sua mensagem fora lançada em todas as direções no espaço e, na verdade, eles nem tinham como dar-se conta de terem contatado “alguém”, mesmo porque os governos da Terra, em consenso, resolveram não emitir qualquer aviso, “nada além de um contato direto poderia ser mais apropriado”, argumentavam.
Não tínhamos tempo para olhar pelas “vigílias” ou telescópios para avistar o motivo pelo qual havíamos viajado por mais de cem trilhões de quilômetros por cerca de cento e sessenta anos. Na verdade só cento e cinqüenta e nove anos e alguns meses se passaram dentro da nave, conseqüência da dilatação relativística do tempo, mensurável quando em grandes velocidades. Estaríamos ocupados pelas próximas horas enquanto a nave adentrasse as órbitas exteriores do Sistema Procyon.
Eu não parava de pensar em quão diferentes eles seriam de nós. Embora fossem dotados de características humanóides, como descreveram genericamente, em termos científicos não seria possível que seu planeta impusesse à sua biologia as mesmas exigências que a Terra veio impondo a nós por milhões de anos. Como seriam? Qual seria a natureza de seus costumes?
Meu posto na Dædalus era de Controlador da Manutenção, e os responsáveis pelo recebimento dos sinais, do Sistema no qual mergulhávamos, haviam feito de tudo para manter em segredo o máximo de informações com respeito aos detalhes sobre seus habitantes. Quem faria contato de superfície seria o Comandante e o Cientista da Missão, além de uma infinidade de computadores e de uma série de equipamentos supersofisticados, e mais três tripulantes, que pilotariam a pequena nave de reconhecimento.
Poderia parecer estranho que estivéssemos entrando em seu Sistema e eles nem se dignassem a tentar entrar em contato conosco, mas não era de se surpreender que eles não permanecessem vigiando os arredores de seu sol e que tivessem coisas mais importantes para fazer... nós mesmos vimos o assunto desta forma por muito tempo. Só no final do século XX iniciou-se uma preocupação maior com a supervisão da periferia de nosso planeta.
Mesmo com relação a sinais de rádio nossa comunidade científica não fazia muito a respeito. Podíamos nunca ter recebido os sinais de Procyon, sem contar que nunca os receberíamos se fossem, por exemplo, emitidos no final do século XIX. Fora sem dúvida uma tremenda coincidência até que o alinhamento de nossos radiotelescópios permitissem o contato. Os cientistas na Terra, provavelmente, ainda estariam computando a probabilidade estatística de todos estes fatos inesperados coincidissem com o de que duas estrelas tão próximas detivessem tecnologia e cultura suficientemente parecidas para que fosse possível captar seus sinais e, inclusive, decifrá-los com razoável facilidade.
Nenhum de nós pôde se comunicar com palavras de mais de duas sílabas dentro da nave. Havia muito a fazer. Eu deveria verificar uma série de sistemas, inclusive o “Escudo Antierosão”, que protegia a nave de perigosas partículas de gás e poeira que colidiram continuamente com a nave durante o percurso. Na velocidade que alcançáramos, qualquer destas massas de partículas poderia pulverizar partes da fuselagem da Dædalus.
A nave vinha acelerando muito suavemente desde há muito tempo, e o Comandante pretendia roçar nas atmosferas dos maiores planetas e usar o campo gravitacional de Procyon para desacelerá-la ainda mais. Ele devia estar cuidando disso naquele momento.
Na verdade, um veículo de reconhecimento seria lançado da popa da Dædalus, logo que passássemos a uma distância razoável do planeta, o qual os procyonianos habitavam. Dentro dele iria toda a tripulação de nossa nave-mãe - Dædalus -, menos o membro responsável pela supervisão da integridade do funcionamento da mais cara nave inter-estelar construída pelo Homem: eu...
Nem preciso repetir a série de palavrões nos quais pensei desde despertar da animação suspensa, no entanto fiquei muito satisfeito quando tive tempo de resmungar um ensaio de reclamações para o Comandante. Não adiantou, ele logo me lembrou o quanto eu ganharia para permanecer na nave.
É claro que eu nem parei para pensar que só receberia o pagamento daqui a mais de trezentos e trinta anos, quando voltássemos à Terra, no segundo estágio da nave. Por outro lado, meu salário e o dos outros tripulantes, brincava eu, poderia ser expresso em notação científica para facilitar sua leitura.
Ficaríamos no Sistema Procyon por dez anos, era o previsto, e eu só poderia deixar a Dædalus depois do quarto ano, quando ela já pudesse estabelecer uma órbita “geo-estacionária” sobre o planeta-origem dos sinais. Eles viriam poucas vezes para a nave no durar desses anos, já que deveriam aprender muito e pesquisar toda a história, cultura e ciência procyoniana.
Era interessante imaginar uma futura Enciclopédia Galáctica cheia de raças catalogadas e com “zilhões” de volumes de livros agrupados que falariam sobre suas culturas e características. Seria difícil fazer valer nossos conceitos a respeito do Universo a civilizações que poderiam que ser até mais antigas e sábias que a nossa.
Todas essas reflexões me lembram de uma pergunta que li em algum livro, em nosso planeta natal: “Quem responde pela Terra?”. É uma boa pergunta, e como pude parar algum tempo de trabalhar, procurei, nos vastos arquivos literários da Dædalus, uma resposta que me fizesse ter mais esperança em nosso futuro.
Depositei essas dúvidas sobre os textos de Christian Huygens, de onde minha preferida passagem me comoveu bastante.
“Quão vastos devem ser estes Astros e quão inconsiderável é esta Terra, o Teatro no qual todos os nossos Desígnios, todas as nossas Navegações e todas as nossas Guerras são negociadas, quando comparada a eles. Uma consideração muito apropriada e matéria de Reflexão, para Reis e Príncipes que sacrificam as Vidas de tantas Pessoas, somente para exaltar sua Ambição em serem Senhores de alguma esquina lastimável deste pequeno porto.”
...Tudo isso nos coloca em nosso verdadeiro lugar neste gigantesco Universo.
Tive de continuar meus afazeres depois desta pausa. Já estávamos chegando perto de nosso objetivo e pude ver quão agitados e amedrontados estavam meus companheiros. Talvez fosse difícil para eles se adaptarem a uma idéia tão fantástica quanto a de encontrar seres de inteligência alienígena.
O Comandante mantinha uma postura altiva e não permitia que seus sentimentos aflorassem, o que era como que um combustível moral para os outros tripulantes. Dentro em pouco eles estariam na nave de reconhecimento que iria fazer a primeira viagem de contato.
Eu estava muito deprimido com tudo aquilo. A nave, sabia eu, possuía um sistema automático de supervisão e manutenção, mas não tinha coragem de me lamentar novamente com os tripulantes sobre a possibilidade de eu descer com eles para o primeiro contato. De qualquer modo não estava disposto a receber a resposta de que eu estava ganhando o bastante para tanto.
Os preparativos para o lançamento da pequena nave de reconhecimento eram o centro das atenções do resto da tripulação. Mais tarde eles poderiam se preocupar com a primeira tentativa de contato pelo rádio, que deveria ser feita a meio caminho entre a Dædalus e seu planeta-objetivo. A comunicação seria estabelecida na língua a qual os procyonianos usaram para mandar sua mensagem de três anos de extensão. Acreditávamos que seria uma grande surpresa para eles, que nem deveriam ter nos detectado ainda.
Constatei que o “Escudo Antierosão” estava bastante avariado às três horas - segundo a linguagem posicional que usávamos. Na velocidade em que estávamos a colisão com uma partícula qualquer provocava considerável destruição, levando-se em conta o tamanho da nave. A dez porcento da velocidade da luz - quase trinta mil quilômetros por segundo - tinha-se de tomar certas precauções: para começar, os engenheiros da Terra perderam muitas noites de sono só na idealização de alguma espécie de “freio” que desacelerasse Dædalus, para que ela não passasse direto pelo Sistema Procyon e continuasse em direção ao infinito.
O estágio que havia nos levado àquela fantástica velocidade, pelo esmagamento magnético de pelotas de deutério, havia ficado pelo meio do caminho, como previsto. O tamanho da nave, que fora de duzentos e cinquenta metros, se reduzira a dois quintos do original.
Enquanto fazia as avaliações com respeito ao que seria necessário para a manutenção do “Escudo Antierosão”, ouvi as primeiras quatro sondas, que executariam as primeiras medições e pesquisas sobre a Estrela Procyon e seus planetas. Elas eram expelidas de pontos diametralmente opostos da frente circular achatada de Dædalus.
Não parecia nada boa a situação do escudo frontal, mas seria bastante provável que o planeta o qual visitaríamos contivesse os materiais necessários para o conserto, e era difícil imaginar que nossos “amigos” lá embaixo se recusassem a nos ceder os meios para tanto. Precisaríamos também de combustível suficiente para alcançar uma velocidade de, pelo menos, cinco porcento da velocidade da luz, metade da que alcançáramos para chegar ao sistema.
Seria impossível alcançar os mesmos dez porcento anteriores, já que o estágio que alojava o motor principal fora deixado para trás. Por isso a viagem de volta levaria mais de duas vezes o tempo anterior.
Pelo menos, na viagem de volta, como na vinda, teríamos o desconto relativístico de um ano - ou pouco menos - dentro da nave. Não era muito, mas o bastante para levantar a moral, quando pensávamos no longo tempo de volta. De qualquer modo não sentiríamos a passagem do tempo congelados nos “hibernáculuns’.
Nós todos havíamos sido escolhidos devido a nossa condição de vida essencialmente solitária. Afinal, quando voltássemos à Terra, haveriam passado cerca de quatrocentos e oitenta anos, e seriamos pouco mais que idiotas, se comparados à super-raça na qual os seres humanos teriam, provavelmente, se transformado. Preferíamos não pensar nisso... Afinal, seríamos pouco mais que idiotas, mas célebres idiotas! Os primeiros idiotas a pisar em um planeta alienígena!
Nem reparei quando eles foram expelidos, pelo lançador eletromagnético, montado no centro de gravidade da nave, em direção oposta ao movimento da Dædalus, com o objetivo de reduzir sua velocidade relativa. Sofri um profundo sentimento de solidão e abandono. Dentro em pouco eles deveriam ligar seu propulsores para “anular” mais uma parte da fantástica velocidade na qual Dædalus, apesar de tornado cento e oitenta graus para atenuá-la com os combustores, insistia em desenvolver. Então fariam a aproximação na atmosfera da grande lua dos procyonianos, como previamente determinado, para frenagem gravito-atmosférica, antes da esperada interseção com a órbita do planeta natal dos procyonianos.
Tinha de imaginar tudo, pois não lhe era permitido, nem seria prudente, cessar os trabalhos exaustivos que eram de minha obrigação. Quanto eu não daria, de meu salário “astronômico”, para dar uma olhada no telescópio? Foi naquele ponto que me lembrei que estava sozinho dentro da nave, e de que, como dizia meu finado pai, “só se vive uma vez!”
A passos largos, em meio a gravidade quase nula que me envolvia, me dirigi para a sala do observatório. Decidido, abri a porta corrediça e entrei. A visão do planeta, a partir da Dædalus era então privilegiada, pois acabara de sair detrás da sombra da grande lua que orbitava o mundo-alvo. A nave dos outros tripulantes nada veria em menos de uma hora.
Qual não foi meu espanto ao direcionar o poderoso telescópio externo para o planeta e, após alguns minutos de observação de proximidade, ver uma nave, aparentemente gigantesca - o que verifiquei devido a riqueza de seus detalhes - orbitando o mundo pouco maior que a Terra.
Afastei-me da tela, na qual era projetada a imagem até encontrar uma poltrona em meu caminho. Sentei desajeitadamente e tentei me acalmar. Precisava raciocinar... Tinha de haver uma resposta razoável para aquilo. Pelo que sabíamos os procyonianos não haviam alcançado aquele estágio de tecnologia aero-espacial. Fiquei remoendo por breves segundos sobre eles terem agido de má fé por algum motivo obscuro. A nave mais parecia uma estação espacial de grande porte, pelo que verificava pelos instrumentos!
Mas passamos quase cento e sessenta anos no espaço... e não havíamos pensado nisso. Fiquei imaginando o porquê de não nos terem prevenido a respeito.
Quando Julio Verne escreveu seu livro sobre a primeira viagem espacial, em mil oitocentos e sessenta e cinco, não se imaginava que, cem anos depois, sua profecia se tornaria uma realidade com a ida do Homem à Lua. Muito menos que, cinquenta anos depois disso, teríamos tecnologia para criar uma nave que viajaria até Procyon!
Cento e sessenta anos seria tempo suficiente para que os procyonianos já houvessem desenvolvido uma apreciável tecnologia espacial. Deviam até estar tentando construir uma nave estelar, para poder acompanhar a volta de possíveis visitantes de outros mundos. Se assim fosse, podia-se dizer que eram entusiastas da idéia de não estarem sozinhos no Universo. E, considerando as aparências, seu desenvolvimento no campo de viagens espaciais poderia até ter sido mais rápido que o da Terra.
Preferi não pegar o comunicador para avisar o Comandante e os demais tripulantes da pequena nave de reconhecimento. Além de provavelmente ser repreendido por ter saído de meu posto e ido ao observatório, seria morbidamente divertido ouvir as demonstrações de espanto que penetrariam pelos autofalantes quando eles descobrissem o que acontecera.
Aproximei-me novamente do terminal de controle do telescópio e dedilhei alguns comandos relativos à ampliação, para que pudesse examinar mais detalhadamente aquele artefato alienígena.
Definitivamente sua estética era, no mínimo, bastante similar a nossa, bem como as noções de engenharia! As linhas, as curvas... Devia ser uma característica intrínseca às raças humanóides.
Reparei em uma inscrição razoavelmente grande na fuselagem daquele objeto que, calculava com ajuda dos instrumentos da Dædalus, deveria ter cerca de trezentos metros de extensão. Efetuei mais uma seqüência de comandos de manutenção do foco para o computador, sem a esperança de conseguir lê-la e esperei até a correção da imagem do telescópio. Talvez a mensagem mandada à Terra tivesse sido “escrita” em uma linguagem preparada especialmente, algo lógico demais para ter se desenvolvido aleatoriamente ao longo do tempo pela sociedade procyoniana...
...Hoje me pergunto se tudo aquilo valeu a pena. Lembro que, com a mente abalada, tateei por sobre a mesa do telescópio até identificar o comunicador. Toquei levemente o comando de contato e me lembro de ter dito: “Comandante, acho que chegamos tarde...”
Não respondi às perguntas que meu superior vociferava do outro lado. Só podia pensar no absurdo da situação. Sabia que não precisaria mais esperar tanto para receber meu pagamento.
Na inscrição da fuzelagem da gigantesca nave lia-se em um bom inglês, com letras garrafais: “Grumman Space Crafts”, e mais abaixo, “NASA Star Fleet”.

Esta obra está licenciado sob uma Licença Creative Commons.