março 29, 2005

"As Atuantes"

As Atuantes surgem das perguntas:

a) “É possível existir algo indetectável?”; e

b) “É possível para algo não detectável afetar elementos detectáveis?”.

O termo “Atuantes” substitui o nome que eu tanto costumo usar – sdruvs – e representa não Deus ou alguma entidade, mas o elemento de ligação entre dois mundos paralelos ou superpostos.

Mundos paralelos – ou superpostos – por si só, dão um tópico a parte, entretanto creio que a abstração aqui exposta é suficiente para identificar sua plausibilidade.

As Atuantes dão fundamento à busca filosófica por um “Deus Cosmogônico”, onde se entende por Cosmogônico o corpo de doutrinas, princípios (religiosos, míticos, filosóficos ou científicos) que se ocupam em explicar a origem do Universo; qualquer fundamento teórico que busque explicar a formação do Universo a partir de um princípio primordial; e o conjunto de teorias que propõe uma explicação para o aparecimento e formação do Universo.

Por Deus entende-se, neste contexto, a causa de tudo que existe em Nosso Universo; entidade responsável pela criação de tudo que existe e à qual se atribui uma influência especial em fenômenos percebidos no Universo; e o objeto-ser não necessariamente semelhante, em natureza, com quaisquer das criaturas conseqüentes da criação do Universo em que existimos.

Uma vez mais lembro a todos que não se trata de uma questão de acreditar ou ter inclinação por este modelo, mas de uma questão de tal modelo ser filosoficamente viável e capaz de coexistir com os modelos e premissas aceitos pela Comunidade Científica.

Não se trata, tampouco, de um modelo desesperadamente interessado em, a qualquer custo, demonstrar a possibilidade da existência do Deus Bíblico ou de qualquer outra cultura (mesmo que tal modelo empreste fundamento à existência de um Deus Cosmogônico), sendo antes um exercício filosófico – e não fantasioso – com o objetivo de evidenciar a viabilidade da existência do indetectável, a despeito dos corolários aos postulados estabelecidos pelo Método Científico.

Dito isto vamos ao modelo.

As Atuantes - PDF
03 de Maio de 2004

As Atuantes

Depois de muito trabalho, uma prodigiosa equipe multidisciplinar desenvolve, por meios tecnológicos, uma vasta matriz tridimensional e codifica, mediante um sofisticado processo, regras e comportamentos implícitos de elementos que futuramente viriam a popular esta realidade artificialmente engendrada.

Toda sorte de regras e limites são codificados de forma a tornar previsíveis e coerentes os comportamentos deste exótico universo, embora intrincados e de difícil apreensão.

Dado o devido tempo, o codificador incauto poderia mesmo não ter todo o domínio de cada uma das partes daquele emaranhado de regras e limites, conseguindo, entretanto, observar aquele pequeno e vasto vazio... a complexa codificação do nada.

Até então não havia mesmo nada ali, naquele lugar que, por assim dizer, sequer existe na acepção mais familiar da palavra. E era, depois de muito trabalho, chegado o momento de inundar o tecido intangível do vazio tecnológico que haviam criado.

Os elementos que viriam a povoar aquela casta realidade seriam mais que meros pontos, mas partículas fundamentais com condições de variar atributos como forma, aparência, irradiações e toda sorte de características que, mesmo dessemelhantes das que conhecemos, perfilariam o futuro daquele fruto excêntrico do método, do sonho e da engenhosidade.

Todos estes “padas” – como podemos passar a chamar tais partículas – foram inseridos ao mesmo tempo na matriz, mediante um único comando, desencadeando uma avalanche de eventos e conseqüências imprevisíveis até mesmo para cada um dos envolvidos no projeto.

Reações “pádicas”, de naturezas plenamente conhecidas, começariam a gestar aquele universo e a traçar inexoravelmente as linhas que definiriam a realidade na qual aglomerados “pádicos” cujas propriedades combinadas dariam origem a corpúsculos e irradiações cada vez mais complexos e contra-intuitivos.

As capacidades de se recombinar e aglutinar de formas tão diversas, que foram tão cuidadosamente desenvolvidas pelos projetistas, bem poderiam gerar uma realidade estéril e cuja estabilidade se encontrasse na estagnação.

Não foi o que ocorreu...

Os “padas” fizeram bem seu trabalho, configurando um pequeno universo composto de gigantescas aglomerações de corpúsculos de dimensões e variedades surpreendentes e toda uma diversidade de condições. Um sem número de oásis para reações “pádicas” e corpusculares foram se tornando ocorrências cada vez mais comuns.

Comparando o tempo decorrido desde a incidência de condições propícias para seu próprio surgimento até o momento em que eles desenvolveram tal projeto, com o quanto tiveram de esperar para detectar a primeira polêmica incidência de algo que remotamente assemelhava-se com vida, eles concordaram ter esperado muito pouco.

Tratava-se de uma ocorrência bastante singela, quase inexpressiva, que tiveram a sorte de não ter deixado passar despercebida. Alguns chegaram mesmo a afirmar que sequer se tratava de algo remotamente comparável ao primeiro sinal de vida na terra; outros comentaram embevecidos que, provavelmente, semelhantes incidências já deviam estar ocorrendo havia muito em diversos outros pontos da matriz, sem que o percebessem.

Independente de todas as polêmicas quanto às semelhanças e dessemelhanças, entre o que se convencionou chamar nostalgicamente de “a primeira flor” e o conceito de vida, todos concordavam que o nível de complexidade apresentado por aquele embaraçoso aglomerado de corpúsculos “pádicos”, apresentava propriedades que diferiam de tudo que já haviam identificado na matriz.

Tudo que se podia foi feito para que “a primeira flor” desabrochasse mais rapidamente. Ocorrências muito menos interessantes e complexas, por um ou outro motivo, chamaram pouco a atenção dos projetistas que, absortos no fruto de seu trabalho, tentavam acelerar as condições para a evolução do que já se transformara, de uma modesta plantação em uma pequena floresta, com variantes de complexidade inequivocamente emparelhadas com o conceito de vida.

Vida... uma forma de vida de muitas formas diversa das que se faziam conhecer pelos projetistas em seu meio, mas que elencava suficientes qualidades que garantiam a analogia entre aquele aglomerado de corpúsculos “pádicos” e os organismos mais complexos do Universo do qual aquela matriz era subconjunto.

Não mais se tratava de um mero experimento, mas de um dos maiores e mais importantes projetos multidisciplinares já levados a cabo em toda sua história. Sentiam-se orgulhos e tempo suficiente se passara para que não se pudesse mais encarar o projeto como patrimônio de um grupo acadêmico ou instituição para se tornar o projeto de toda uma civilização.

Janelas para observação deram lugar a portais para visitação inofensiva e não interativa a todas as partes daquela matriz de colossais proporções, sobretudo no mais concorrido ponto turístico de todo aquele universo: Gaia, onde não apenas florestas podiam ser divisadas, como todas sorte de criaturas, que guardavam um mínimo de semelhança entre si e que, mais complexas, interagiam com seu meio de forma cada vez mais sofisticada e instigante.

O caráter pouco familiar e dessemelhante de Gaia era evidente e desnorteava a cada novo visitante que, invariavelmente, se via imerso em um desejo primitivo de jamais parar de tentar voltar. Quantas vezes lhe fosse possível voltaria, como se aquelas imagens desconfortavelmente indistintas guardassem um vínculo visceral consigo.

Talvez já se pudessem contar gerações de projetistas quando a centelha de algo parecido com um sistema neural, com considerável nível cognitivo, surgiu da união deliberada de criaturas. A procriação natural e as nuances emprestadas àquele mundo pelas regras e limites, pelos atributos e propriedades, davam finalmente lugar a um análogo de algo ainda mais valorizado pelos projetistas que a própria vida: surgira em Gaia a inteligência.

A polêmica, uma vez mais, era um hábito e uma conseqüência elementar inevitável, sendo fútil embora meritória diante de tamanha epifania. O Projeto reproduzira a “fisis”, alcançara a doxa e, para além de todas as expectativas vacilantes, consagrou o paradoxo derradeiro de replicar o ser.

E foi solitário e sonolento, que contemplando o fruto indireto de sua criação, encarou aquele adorável desatino, no que de mais parecido com olhos possuía. A criatura, aguardando a luz violeta de algo semelhante a uma nuvem – que esperava sempre ansiosamente àquela altura – esboçava o que o criador por experiência podia avaliar como curiosidade e, com muito mais dificuldade, Consciência!

Ainda solitário, um breve lampejo de percepção passou pela mente do próprio criador antes de ser completamente esquecido. Um lampejo que, como o limiar entre o sono e o despertar, se faz perceber mais tarde como um mero absurdo sem sentido... algo acerca das funções que atuavam, não só para a observação e visitação da criatura, mas para manipulação e indução de reações. Por breve momento lhe ocorreu que a criatura, jamais estaria aparelhada para identificar tais Atuantes e, entretanto, poderia perceber as manifestações de sua atuação.

De súbito até mesmo lhe pareceu possível, em seu devaneio quase onírico, que naquele momento ele não mais fosse que personagem, que criatura observada de fora, talvez lida nas páginas de um livro.

Talvez fosse trivial joguete de um autor qualquer que dele fazia uso temporário para provar um ponto de vista que jamais seria capaz de apreender.

Impiedosa, contudo, ao invés de deixá-lo despertar, lembrando-se da singela revelação que lhe fora concedida, sua natureza lhe impôs o sono...

Bruno Accioly
03.05.2004
04:10 am

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Todo o trabalho de suspensão de descrença não resolve, é claro, uma série de problemas ainda sem solução, como a real possibilidade de construir uma Inteligência Artificial, por exemplo.

O objetivo do texto é fazer o leitor identificar – em todos aqueles revoluteios – a complexidade inerente na realidade virtual criada por... quem? Não importa. Seja quem for, de qualquer modo, tudo se passa num mundo imaginário.

De fato, tanto faz se os projetistas do texto representam seres humanos aqui na Terra, hipotéticos marcianos de outrora, criaturas que nós mesmos criamos em computador ou mesmo personagens em um conto de ficção científica.

O que importa de fato são as tais das Atuantes. Afinal, se desejavam manipular a matriz eles precisavam de meios para tanto. Criar os “padas” com apenas um comando seria resultado do trabalho de funções projetadas especificamente para este fim. É a estas funções que dou o nome de Atuantes.

As Atuantes, apesar de bastante reais para os projetistas, seriam para sempre inatingíveis para aqueles seres que, um dia, talvez viessem a desenvolver um pensamento crítico acerca do meio a sua volta, metodologias para estudá-lo e equipamentos para perscrutar seus segredos.

De uma forma ou de outra, em um mundo onde eles poderiam estudar os corpúsculos, reações, irradiações e interações “pádicas”, eles acabariam acreditando que só mesmo estas categorias de granularidade se faziam presentes em seu Universo, finalmente tendendo a tirar conclusões acerca do que de fato existe e do que de fato inexiste.

O fato, neste modelo, é que a realidade externa a matriz transcende o entendimento dos seres que nela vivem. Se eles, portanto, optarem por um método restritivo de análise da realidade, com certeza estarão extraindo o que há de melhor do que tal realidade pode lhes oferecer, entretanto jamais conseguirão sequer imaginar o que mais pode haver para além de suas inclinações pessoais e percepções de seu universo.

Alexandre Maron chegou a alertar-nos que todos temos condições de pensar modelos como estes, entretanto não me parece em absoluto que assim seja.

As crenças, inclinações e certezas se interpõem entre a Realidade e a percepção da realidade, obscurecendo seus contornos e até obstruindo completamente nossa capacidade de perceber a possibilidade de algo que transcenda nosso conhecimento do Universo.

Parece-me que afirmar que não há uma miopia cognitiva ocasionada pela certeza absoluta é como afirmar que a propaganda não afeta nosso dia-a-dia e nossa percepção das coisas... é afirmar que estamos descontextualizados de nosso momento histórico-político-social.

Se você se sente, inspirado por tal modelo e já pensou em tantas outras conseqüências dele, provavelmente já está raciocinando em cima de variantes e implicações de tais variantes.

Diante do fato que qualquer um de nós pode imaginar tal modelo com um mínimo de trabalho ao longo de algumas horas, não será possível que modelos mais arrojados e ainda mais desconcertantes e instigantes possam nos convencer de forma efetiva da possibilidade real da existência de algo como as Atuantes?

Não mude de opinião... por favor. Não é para tanto. Este modelo é interessante, mas me parece não muito melhor do que tantos outros modelos mecanicistas.

Independente dos inúmeros contos de ficção científica ou de qualquer outro gênero que são colocados no mercado todos os dias a realidade é o que a realidade é.

Esta parábola, ou “Tema”, como gosto de chamar modelos viáveis na linhagem filosófica na qual venho trabalhando há doze anos, não retrata a Realidade mas um modelo viável de realidade.

O importante, a meu ver, é que o leitor tenha em mente que, independente de sua percepção do Universo, ou da percepção do Universo de tantos homens brilhantes – cada qual a sua maneira – ao longo de dez mil anos de história, a Realidade é o que a Realidade é.

Se for nosso objetivo Saber qual é a Verdade, devemos encará-la da melhor forma que pudermos apreendendo-a da melhor maneira possível, sem preconceitos e com um ferramental tão vasto e diversificado quanto possível.

03 de Maio de 2004

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Postado por baccioly em 10:13 AM | Comentários (0)

março 28, 2005

"Desta vez é diferente..."

Diante de um horizonte escarlate, longe da mãe Terra, dois amigos discutem acerca da preservação da vida, das coisas e de tudo que existe... enquanto o mundo não para de mudar.

É difícil, para mim, falar acerca deste conto.

Não se trata de só mais um conto, mas de algo que me incomodou já desde os meus quinze anos.

Qual a relação que devemos estabelecer com nosso meio?

A resposta, aqui, é menos importante que a própria pergunta.

Há uma linha tênue entre a imprudência e a crença incondicional em qualquer doutrina filosófica.

Posso dizer o que este conto não é: ele não é uma apologia a forma pela qual viemos usando a Ciência como mais uma arma política de manobra de massa.

Desta vez é diferente... - PDF
21 de Setembro de 1990

Desta vez é diferente...

Era bem diferente de tudo que eu já havia visto. Meu traje de mergulho podia não ser tão flexível quanto eu gostaria, mas servia, até que meu próprio equipamento de mergulho chegasse de Gamow, de onde fui deportado. Não gostava de pensar naquelas coisas, embora, por vezes, fosse impossível. Estava quase chegando a margem, enquanto me deslumbrava com o escarlate das rochas submersas.

Eu não devia pesar mais de dois quilos, estando a dez metros da superfície, e me sentia bastante confortável, considerando que meu peso na Terra era de noventa quilos. Não era gordo, não... Eu até que me exercitava bastante para meus oitenta e dois anos. A verdade é que não havia quem dispensasse o prazer de nadar na gravidade de pouco mais de um terço.

Emergi diante de Dorian, o Sol por trás dele.

- Que lindo, não? - Já havia notado a expressão de irritação em seu rosto: nenhuma novidade... tentei ser paciente.

- Por que você entrou, Tadeu? Não sabe que eu não concordo com essa coisa toda? - Percebi que ele rangia os dentes.

- Desculpe-me, Dorian... - Comecei, saindo da água - ...é que não pude resistir. Por que, afinal, você resolveu comprar esta casa à beira-mar? - Dorian bufou - Vai me dizer que nunca deu um mergulho?

Ele usava um calção de banho azul e um grosso roupão aquecido eletricamente. Comecei a tirar meu traje - ...Não, eu nunca dei um mergulho e, como meu amigo, preferia que também não o fizesse. - Virou-se, quase entornando o líquido do copo cheio de Grendel - Quanto a casa, foi pedido de Sarah. - Falou enquanto subia as escadas para a grande varanda do segundo andar.

Talvez estivesse sendo um mau hóspede, afinal... Acabei de tirar o traje e peguei meu roupão térmico, sentindo o frio costumeiro. Olhei em volta. A paisagem era bastante avermelhada, e não havia outra casa visível. “Vão haver mais”, pensei em silêncio. Andei até a beirada da escada e fechei o roupão. Já sabia que Dorian precisava desabafar. Subi.

Ele estava deitado numa daquelas poltronas em estilo “pós-pós”, em fibra sintética, que eu tanto odiava, bebendo seu Grendel. Sorvia o líquido verde escuro com irritação. Eu gostava dele... Se parecia bastante comigo. Eramos ambos rebeldes em essência e, embora ele fosse ainda mais radical, o Luna Libre não era exatamente uma instituição religiosa. Depois da sabotagem no sistema abastecedor da Embaixada da Terra, fora Dorian que conseguira que eu fosse apenas deportado. O que, considerando o ódio do Diretor da Astropol por minha pessoa, fora uma verdadeira façanha. Dinheiro não era problema para Dorian... muito menos poder.

Sentei-me perto dele, em outra poltrona. A visão das águas calmas daquele mar jovem não me deixavam acreditar que Dorian podia ter problemas.

- Dorian...

- Qual o problema, Tadeu? Não posso olhar para essa maldita praia? Te incomodo? - Gritou e virou-se novamente para as leves ondulações.

- Calma, amiko. Estou do seu lado, lembra? Onde está Sarah?

Ele se mexeu na poltrona, ajeitando o roupão - Desculpe-me, Tadeu. Tenho estado um tanto nervoso. Sarah viajou hoje pela manhã. Pegou um dirigível para Hella.

- Vocês brigaram?

- Não, não se preocupe. Ela precisou ir pessoalmente até a sede do Departamento Arquitetônico... Geralmente as reuniões são feitas à distância, via Telepresença ou R.V.... A burocracia deve estar voltando a moda.

- O que te incomoda, Dorian?

- Você soube o que eles estão pensando em fazer agora?

- Quem? - Perguntei intrigado, em um sentimento de Dejà-Vu.

- Ora, eles... - O telefone tocou - Só um instante.

Ele tinha sempre que estar contra alguma coisa? Foi presidente de um dos mais poderosos grupos hiper-naturalistas do Eixo Terra-Lua-Marte, e isso aos vinte e... quantos? Vinte e cinco anos! Estava agora na casa dos noventa e, mesmo tendo vencido todas as outras causas pelas quais lutou, e algumas das quais apenas financiou, nunca se perdoou pela derrota na Corte Especial do Conselho do Eixo. Pessoalmente eu não tenho qualquer opinião formada sobre a decisão da época, mas até que não fez tanto mal quanto Dorian previra em sua juventude, talvez por isso ele odiasse tanto aquele mar.

- Tudo bem, querida, mais tarde faço isso. - Desligou o telefone - Era Sarah... Sobre o que estavamos...

- “Eles”. Você falava “Neles”.

- Ah, sim! - Estava mais calmo - A NSF!

- O que tem ela? - Interroguei-o, servindo-me de uma taça de Grendel que acabara de encontrar sob a poltrona. Dorian não exitava na escolha de seus inimigos, eu já supunha que a NASA Star Fleet ainda passaria por poucas e boas se ele decidisse investir contra ela.

Sua expressão começou a mudar - Os idiotas estão planejando trabalhar a porcaria do... Merda! - O Grendel acabara de derramar em cima um PDA flexível. Felizmente estava fechado.

- Você está muito tenso, Dorian.

- Certo, certo. - Limpou o Grendel no roupão - Dê uma olhada nisso.

Peguei o PDA, um pouco grudento, e abri. O aparelho automaticamente exibiu uma revista. Dorian, era assinante do serviço de notícias, e recebia revistas e jornais em seu PDA onde estivesse. Na capa uma foto de Phobos, o satélite de Marte, provavelmente modificada por computador. De Stickney, a maior cratera daquela massa rochosa, que mais parecia uma batata cinzenta, fluia uma luminosidade branca, tal qual um propulsor. Por detrás de Phobos via-se um sol por demais vermelho para ser o nosso e, na parte debaixo, um planeta - que não era Marte - emanava estanha luz azulada.

- O que acha? - perguntou-me, claramente nervoso.

- Não sei. O que isso quer dizer?

- Leia, homem! - Vociferou.

Estava em francês, e não sabia muito da língua. Estendi o PDA para ele. - Não sei francês, Dorian.

Suspirou nervosamente - Querem perfurar Phobos como um queijo suiço e encher a pobre lua de equipamentos astronáuticos. E aí, sabe o que vão fazer? - Sacudiu a mão direita com força - Vão tirá-lo da órbita de Marte. Quebrar a harmonia gravitacional entre os dois astros, só para transformar essa lua em uma nave estelar!!!

Abaixei a cabeça. Estava começando denovo... Eu sabia que ele iria até o fim com aquilo. Phobos, uma nave estelar! Deus! Seria fantástico!

- E então? - Seus olhos estavam em fogo - O que acha?

- Bom... eu...

- Tenho que fazer algo. Tenho que impedir que o façam!

Olhei para ele. Suspirei... - Dorian... Por que?

- “Por que”?!? “Por que”?!? Não acredito! Não é possível que você seja tão idiota assim!!!

- Dorian...

- Tadeu, você acredita em Deus! Como pode permitir que eles façam tal coisa? Estão modificando a obra de Deus, porra! Você não sabe o que isso quer dizer? Os caras vão acabar com o mundo! Estão depredando a natureza!

Suspirei novamente - Doria, conheço sua teoria sobre a harmonia entre todas as cois, pá-pá-pá... Mas creio que estava enganado... Olhe, nós não nos vemos há algum tempo, mas pensei que, com a idade, você começasse a notar que fizemos... muito barulho por nada.

- Que?!? Enganado?!? - Fuzilou-me com os olhos - Não é uma questão científica ou filosófica, Tadeu! A questão é Deus!!! - Bateu com os punhos no braço da poltrona - Eles me venceram da primeira vez, e tivemos que extinguir o Le Immutable Mars, mas agora tenho minha fortuna a meu favor e boa parte dos políticos marcianos sob meu comando. Não vou permitir isso! - Pegou o telefone e colocou sobre o colo. Começou a escrever, com o indicador, alguns números sobre o vídeo do aparelho.

Talvez ele mude de idéia... Não, caí em mim. Ele iria realmente usar de todos os recursos que lhe eram acessíveis para prejudicar o projeto. Provavelmente conseguiria. Seu recalque quanto à causa perdida na juventude era maior que seus escrúpulos, e isso iria alimentar o ódio pelo projeto da NSF.

O Le Immutable Mars defendeu que Marte deveria permanecer exatamente como o encontramos, há cento e trinta anos. Baseavam-se na teoria de que acabaríamos com o equilíbrio da natureza marciana e, possivelmente, com o de todo Sistema Solar. Na época eu concordava co a teoria - que fora proposta, inicialmente, por Dorian, no auge da febre mística da década de noventa. É claro que a Comunidade Científica jamais aceitou a teoria, formulada por “leigos alarmistas”...

Mas não... Dorian estava errado. Nada havia acontecido após tantos anos e, embora seu grupo tivesse apoio do Green Peace e do Gea, da Terra, os responsáveis pelo projeto afirmavam que não havia base científica para as teorias hiper-naturalistas de Dorian.

Na verdade me sinto desconfortável em decidir se Dorian estaria certo ou não. Realmente me parecia traumático arrancar uma lua de nove trilhões de quilos da órbita de Marte e transformá-la em uma nave estelar de vinte e três quilômetros de diâmetro, mas desde que resolveram semear líquens escuros sobre as calotas polares de Marte, para derretê-las e assim libertar a antiga atmosfera do planeta de seu longo cativeiro, não houve nenhum problema... Nenhuma das professias feitas por Dorian haviam sucedido. No fim pareceu que a decisão do Conselho do Eixo foi benéfica para a comunidade marciana.

Eu admirava o Mar Marineris até onde podia vê-lo naquele horizonte mais próximo que o da Terra. Um azul ligeiramente avermelhado, complementado pela coloração escarlate da orla marciana.

Dorian continuava fazendo suas ligações.

- Doria. - Eu tentava, cauteloso - Por que a “harmonia” não foi quebrada quando renovaram a atmosfera de Marte? Você estava errado?

Ele colocou a mão sobre o fone do aparelho e voltou-se para mim - os olhos vermelhos, insanos.

- Desta vez é diferente, Tad. Sei que é...

21 de Setembro de 1990

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Postado por baccioly em 09:56 AM | Comentários (0)

março 01, 2005

"Incandescente"

Sentimentos dormentes e a iminente ressurgência vêm à tona nessa alegoria inquieta e lúbrica.

Para mim há uma beleza toda peculiar no rubro das brasas numa lareira, que se permitem queimar na pouco auspiciosa ausência de combustível ou chama.

Há tanto sentimento e poesia na espera perseverante e paciente do que antes queimara com tanto vigor, que não pude deixar de ver na natureza morta o fulgor da aspiração viva.


Incandescente

Tão bom o crepitar das brasas que não cedem;
o vil devir da chama que de vir se furta.
O frio que não ama a lareira em brasa;
mas traz em sua brisa uma anuência curta.

Ao pé da extinta chama que acalenta o corpo;
resguardo-me do frio em tudo que acoberta.
A mente se lumia, os olhos no teu corpo;
aos pés da poesia, que contigo flerta.

Da laje empedernida da lareira antiga,
na qual repousa a brasa que a manter-se teima,
a vida eu vou levando mesmo que com frio,
à luz da quase-pedra que ‘inda me queima.

28 de Fevereiro de 2005

Postado por baccioly em 07:22 AM | Comentários (0)

"Crise de Identidade"

Aspectos morais e aspectos práticos se confundem na tecnologia de Teletransporte, enquanto a vida de um homem se degenera diante de quem acompanha sua jornada.

Percival Corianow representa a banalisação da tecnologia de ponta pelo tempo, nesta estória que tenta dar um panorama um pouco diferente acerca do Teletransporte.

A fábula em forma de diário, que escrevi rapidamente e sem pensar muito, é um belo reflexo do que eu já pensava acerca da possível extensão e natureza do Ser e da repercussão da tecnologia - apesar de, à época, ser eu um grande entusiasta de seu desenvolvimento.

Crise de Identidade - PDF
13 de Dezembro de 1990

Crise de Identidade

Diário de Percival F.Corianow,
21 de Junho, 09:50 MCM (Meridiano Central de Marte), 2116.

“Agora estou mais conformado... Andei pensando muito no que aconteceu e acho que eles tiveram um fundo de razão. O problema é que andei pensando por dois anos, e já estou ficando meio de saco cheio. Por isso comecei a escrever essa merda de diário. Imagino vocês pensando, antes de eu começar, que se o Pentágono resolveu mandar um ‘calo’ para o Cárcere de Alta Segurança de Noctis Maze, em Marte, é porque, provavelmente, estava muito puto com ele... Nada! Eu não passo de um bundão! Do contrário não teria me metido numa porcaria dessas.

“A cela é um tanto fria, mas posso observar os canais tubulares de Lowell 5, que abastecem o canyon de Vallis Marineris para saciar o desejo do Homem de ter um mar feito por ele mesmo. Lá embaixo, os poucos homens que se faziam ver, não usavam os antigos trajes espaciais, já que a rarefeita mas não inesistente nova atmosfera de Marte era suficiente para que usassem apenas máscaras de oxigênio. Por vezes eu via um ou outro trabalhador usando bermudas! Quem diria...

“Já estou de saco cheio de bancar o escritor, e o pior é que não paro de pensar em Rachel, minha esposa, vocês sabem... Não sabem, certo? Acontece que ela não aparece há duas semanas, e tinha ficado de vir me visitar sempre.

“Vocês não podem me culpar. Imaginem-se em sua bela casa, com sua bela mulher, assistindo a um belo documentário holográfico em seu novo (e belo) projetor, comprado com o resto do dinheiro que ganhara por serviços prestados ao seu contratante - como astronauta. Agora imaginem que, no meio da melhor parte, aquela na qual você e ela já nem estão mais prestando atenção ao documentário e estão quase fazendo amor, um trio de ‘belos’ homens de terno entrem em sua casa mandado pelo mesmo maldito contratante daquela, também maldita, missão que você julgara fracassada havia oito anos.

“Não, a missão não fracassara por minha causa, mas por problemas de ordem técnica. Problema deles! Pelo menos foi o que disseram a mim e aos outros quatro homens que comigo participaram da missão. eu seria um reles personagem secundário dentro da nave, que se ocuparia apenas da manutenção e limpesa (Ops! Estou apressando as coisas. Tenho de deixar o melhor para o final, não tenho?).

“Enquanto os outros eram típicos especialistas de formação acadêmica: exogeólogos, xenobiólogos, e outras coisas do tipo - alternando prefixos inusitados - vocês poderiam me chamar, só para não romper o padrão, de exopau-pra-toda-xeno-obra.

“Talvez vocês estejam achando toda essa baboseira bastante enigmática. Não é não, sou eu que tô enrolando mesmo (Ha, ha!). Quando as coisas no mundo começam a chegar ao ponto em que chegaram é que eu começo a pensar se aquele tal de Cresto estava certo ou não. Não sou religioso e não acredito em Deus, ou qualquer outro florismo subjetivista usado para tornar situações bizarras como essa algo mais aceitável. Bah!

“Acontece que, certo dia, a NASA me convocou para uma missão encomendada pelo Pentágono. Isso foi há vinte e quatro anos, três anos depois de eu me casar com Rachel e no ano em que completei trinta. Até aquela data eu nunca tinha saído da órbita da Lua, onde trabalhava, uma vez por semana, para remendar defeitos na Estação Orbital Luna, que apresentava defeitos constantes e era uma dor de cabeça para os E.U.As. Não! Esse negócio de prisão, três gorilas e de projetor holográfico faz só oito anos, não tem nada a ver... Estamos em cento e dezesseis, não estamos? Então! O início deste parágrafo se situa apenas em noventa e dois...

“Eles nos treinaram, os cinco, dentro de um gêmeo da nave Orion por oito anos. Para nosso espanto, no entanto, no sétimo ano de treinamento fomos informados de que ela partira sem nós, e que essa sempre fora sua intenção. Em princípio nos pareceu que as antas do Pentágono haviam cometido mais um erro imbecil, mas quando soubemos de seu intento... Gelamos.

- “Senhores - começou o babaca do Tenente-Coronel. Karl daVilla era seu nome - Vocês serão os primeiros homens a usar o transporte que revolucionará os transportes espaciais de longas distâncias. - Abriu um sorriso tão branco que fez com que um de meus colegas falasse algo sobre as teclas do piano de sua avó - Silêncio, por favor... Não têm idéia de quão importante será esta sua fabulosa jornada.

- “Acredito - Continuou - que esperassem ser postos na Orion original em cerca de um ano e que acreditassem ter de fazer uma viagem de dez anos até a estrela a qual estiveram sendo treinados para estudar: a tripla Rigel Kentaurus. - Começavamos a achar que ele nos julgava imbecis, repetindo todas as diretrizes da missão em um arremedo de narrador de filme bê, ou tentava explicar o fiasco daquele polígono miserável lá na Terra.

- “Vocês terão uma grande surpresa, meus bons homens, pois daqui a sete anos serão emitidos à Orion, para encontrá-la em Rigel K.. - Nos entreolhamos, compartilhando o pensamento de que, mesmo que o coroa não tivesse um parafuso a menos, o restantes deveriam estar todos frouxos - Calma, calma... - Emendou - Os cinco serão teletransportados para a Orion, enviados para Rigel K. a velocidade da luz pela fantástica tecnologia dos Estados Unidos das Américas.

“O discurso não terminou exatamente daquele jeito, mas foi o suficiente para me lembrar, então, de algo que li em um livro digitalizado de um famoso autor de ficção científica de dois séculos atrás. Estava escrito que, no planeta Terra, existiam três formas fundamentais de inteligência: a Humana, a Animal e a Militar... Nessa ordem e, embora eu julgue que falar em Inteligência Militar seja uma contradição, é justamente esta terceira que vem escondendo essa porra de tecnologia até os dias de hoje. Mas percebam...

“No último ano de treinamento eu tinha trinta e oito e era o final do glamuroso vigésimo primeiro século. Rachel sugeriu que comemorássemos isso dando a oportunidade de mais um ser humano surgir no Eixo Terra-Lua-Marte. É claro que contornei a situação do modo mais cauteloso que pude, pois não contara a ela nada do que havia acontecido até ali. Nesta época já havíamos nos mudado para as instalações do Laboratório de Jatopropulsão Lunar, o MJPL - o que foi feito no terceiro ano de treino, já que o projeto se tornara importante e secreto demais.

“Rachel nunca fora idiota e sabia que eu me metera em algo grande, principalmente pela quantidade de grana que eu passara a dar-lhe para as compras, mas nada perguntava. Era sensível, minha esposa. Sinto falta dela...

“Tínhamos seis anos para passar juntos depois que acabou a época dos treinos, e já nem nos incomodávamos tanto com os dois gorilas que nos acompanhavam em nossos passeios em locais públicos. Só encrenquei com eles uma vez, quando tiveram a fantástica idéia de se hospedar em um quarto conjugado ao nosso, quando levei Rachel a um motel.

“O que tinham em mente com o projeto era muito complexo, mas talvez eu possa sintetizar um pouco do que entendi de todo aquele pouco que nos disseram. Espero que não achem pouco compreensível, já que sei muito pouco e pouco entendo de... Ah, vamos aos fatos!

“Deixando o sarcasmo de lado, a idéia deles era bem mais fundamentada e cheia de estratégias que podíamos sequer imaginar. Sabíamos que todos os astronautas comumente chamados à missões longas no espaço eram solteiros - era uma questão ética. Não que astronautas casados não fossem aceitar o trabalho (ainda mais se fosse levado em conta o salário). Nada daquilo nos havia passado pela cabeça, mas eles queriam testar e provar algumas interessantes teorias.

“Como eu havia dito, o treino começara em noventa e dois, quero dizer, dois mil e noventa e dois. O final da fase estava prevista para o fim do século, oito anos depois, prazo que foi respeitado, com a variante de que não embarcamos na Orion, que partiu no sétimo ano. Dali em diante tínhamos seis anos até sermos ‘emitidos’ para nossa nave. O intrigante é que a viagem da Orion levaria dez anos, ou seja, ela chegaria em Rigel Kentaurus em dois mil cento e nove, três anos depois da saída de nossa ‘emissão’! Esse é o problema da Física Intuitiva, nós por vezes cometemos erros imbecis, como pensar que a luz tem velocidade infinita. O barato de toda essa joça é que a ‘emissão’ só se encontraria com a nave quatro anos depois da saída, em dois mil cento e dez.

“Agora, voltando ao sarcasmo, é bom mencionar que fiz um esqueminha logo aqui ao lado para os menos capacitados intelectualmente... Não que eu entenda muito bem toda essa porra aí em cima...”

* * *

Na escuridão minha mente rodopiava. Tentava entender fragmentos imponderáveis de pensamentos difusos. Sentia a totalidade e a substância quase excitante da pura não existência. Fazia parte da própria estrutura do Universo, tal qual David Bowman.

David Bowman?!?!?

Tendo pensado isso, tentei abrir os olhos, sacudir a cabeça, mas meus músculos pareciam entorpecidos e não consegui nem respirar. Mas realmente parecia que eu respir...

* * *

Acordei novamente. Eu já pensava no que poderia ter dado errado. “Teleporte! Bah!”. Sabia que não tinha me movido da Grande Sala de Cacarecos Eletrônicos do Laboratório de Jatopropulsão Lunar.

Estava enganado, e percebi isso junto com a notícia de que meu cérebro transmitia, de que todo o meu corpo formigava e de que eu já conseguia abrir os olhos. Olhos turvos, que insistiam em comparar minha visão perfeita com a de um hipermétrope. Com algum esforço - com um esforço enorme, na verdade - consegui que os destroços de minha pupila voltassem para o lugar. Ainda pude ver a tampa do “esquife” (era como chamávamos as Cápsulas de Teleporte), com todos os seus tubos, luzes, e pequenos engenhos cirúrgicos automatizados, se afastando de meu corpo (no qual nada parecia estar fora de lugar ou faltando).

Levei com dificuldade minhas mãos um palmo abaixo da cintura, só para me certificar... Pensei em Rachel e sorri encabulado em minha solidão.

Agora que havia chegado, sabia que não veria Rachel por dois anos, período que usaríamos para estudar Rigel Kentaurus. Isto em minha concepção. Afinal, eu não estive realmente vivo naquele faixo emitido do MJPL para cá, fui construído, após uma viagem de, aproximadamente, quatro anos, por um processo que só Deus sabe como funciona.

Eu sabia que não tinha real garantia de nada, mesmo tendo ela feito, repetidamente, promessas de amor e fidelidade. Choramos muito nessa época... Nosso casamento parecia jovem, mesmo depois de dezessete anos.

Rachel aceitou bem que, quando eu voltasse, ela seria oito anos mais velha que eu. Enquanto para ela se passassem dez anos, entre a “emissão” de meu corpo, do MJPL, e meu retorno, para mim só se passariam dois, devido a minha inexistência, inerente ao processo de teleportação.

Por um mês estive sendo montado dentro do esquife, e imaginei o que aconteceria se eu abrisse um dos outros esquifes prematuramente... Que nojeira!

O motivo de eu ter sido o primeiro a sair dos Telepods era simples. Como Faxineiro-Mor da Nave Estelar Orion - realmente importante, não? - eu tinha de preparar o recinto para a chegada dos nobres técnicos do MJPL. Vocês sabem... Uma espanadinha aqui, uma polidinha alí. Hi, hi... Tá, sei que ganhei o bastante, não precisa repetir. Desculpem-me, estava falando com meu inconsciente. E quem é que não ganha o suficiente trabalhando em missões piloto da NASA?

Era engraçado... Estive pensando. Com um transporte tão rápido e avançado como o teleporte, nós ainda tínhamos de mandar um bagulho daquele tamanho para servir de estação receptora. Era como se construíssemos toda uma estação de Maglev na Antártida para só então construir os trilhos. Era paradoxal a idéia, se bem que, em pesquisas que andei fazendo, na biblioteca da nave, acabei descobrindo que foi exatamente desta forma que a construíram.

Pensando nisso me lembrei do utópico - e impossível - teleporte de uma antiga, mas profética, série do século vinte, no qual um tal de Capitão James T. Kirk usava constantemente, em todo um incrível número de filmes. Seria muito bom se fosse daquele jeito. A partir da metade do século vinte e um o gênero literário de ficção científica passou a ser super-valorizado, já que suas previsões haviam se concluído tão barbaramente. Era então uma mania para os jovens e uma surpresa para os adultos. Eu mesmo gostava mais de ler o clássicos. Clarke, Asimov, Sagan...

Eu teria um mês inteiro até que meus amigos técnicos acabassem de ser reconstruídos nos esquifes. Um mês trabalhando, lendo, assistindo, e ouvindo toda a biblioteca digitalizada da nave, o que equivalia a mais de trinta séculos de cultura e - por que não? - sub-cultura. Já na primeira semana pude observar que não havia tanto trabalho assim, e que este não podia competir com o número de horas de divertimento que a leitura me proporcionava. Ri muito com o Tratado Clake-Asimov, de Sagan, com Azazel, com um absurdo conto de Connie Willis, fiquei abismado com a capacidade criativa de David Gerrold, nostálgico com a coletânea “Verde”, de um dos países anexados aos E.U.As., tudo material do final do século vinte.

Quanto a Toliman, ou Rigel Kentaurus, como vocês quiserem... Bom... Vou lhes dizer que era realmente fantástico ver aqueles três corpos incandescentes de chama e luz flutuando, a distância, na imponderabilidade. Como já sabíamos, não havia planetas, habitáveis ou não, no Sistema Toliman, como acostumei a pensar nele - devido às excursões à biblioteca. Acostumei-me mesmo a Toliman, fazia parte... Era realmente bonito, mas após uma semana, qualquer ser humano se adapta ao extraordinário, ainda mais sozinho, impaciente, e lendo ficção científica ininterruptamente.

Eu já havia chegado ao ponto de caminhar por toda parte da nave no passar de duas semanas. Descobri locais que não havia notado nos planos da nave ou no gêmeo da Orion - no qual treinamos, lá na Lua - não que a nave fosse grande em termos de espaço útil. Caminhei - ou rastejei - por dutos e pequenas galerias de ventilação, câmaras forradas de equipamentos multitrônicos, e passei por portas lacradas, as quais levavam, certamente, ao equipamento automatizado, ao qual não precisávamos ter acesso.

Todo dia eu voltava para a sala dos Telepods. Eles e aqueles tubos, de um azul metálico ofuscante - que saíam dos esquifes e se espalhavam por todos os cantos, penetrando nas paredes - pareciam estar, constantemente, me encarando, indagando sobre algo. Pareciam querer me dizer alguma coisa, esclarecer um fato que eu não desejava saber apenas para manter minhas faculdades mentais.

Na terceira semana eu já sabia o porquê de termos assinado contratos de responsabilidade que garantiam que continuássemos trabalhando mesmo no caso de algo inesperado ou traumático, como a morte de um de nossos companheiros ou, simplesmente o peso massacrante de se sentir longe de casa. Seriam longos dois anos os que se seguiram. Pessoalmente eu já não agüentava mais a pressão de estar só dentro daquele colosso metálico que era Orion. Não conseguia me lembrar do número de vezes nas quais levei minhas refeições para a sala dos esquifes e comi ao som borbulhante das máquinas cirúrgicas. Não sentia mais náuseas diante daqueles sons, que pareciam com os que ecoavam no ventre de um obeso que acabara de saborear uma feijoada.

Não pensem que àquela altura eu não questionava minha sanidade mental. Já não tinha idéia se era ou não uma missão ou um cárcere. Sonhava com o momento em que meus companheiros saíssem dos esquifes. Assisti a dois filmes antigos a respeito da possibilidade de teleportação de objetos e moscas com cabeças brancas. Naquela noite fui dormir na sala dos Telepods. Os sonhos haviam se tornado pesadelos e acordei em uma poça de vômito.

Diário de Percival F.Corianow,
23 de Junho, 01:00 MCM, 2116.

“Eu não tinha porque me preocupar com Rachel. Quando ela fez os testes acadêmicos acabou ganhando uma bolsa de estudos em Voj Lucto. Em suma, ela bate pra cacete... Infelizmente saudade não tem nada a ver com preocupação. Nem estive conseguindo manter meu sarcasmo ao escrever essa porcaria.

“Não gosto muito de pensar nisso, mas sei exatamente quantos dias se passam no decorrer de dois anos e sei também que o Pentágono pode bem ter jogado a chave dessa porra dessa sala em algum bueiro lá na Terra. Rachel é uma mulher e eu não sou mais apenas um homem. Agora eu sou um maldito homem preso!

“Tudo que sobrou de mim foi um punhado de fotos e um gordo cheque de seguro no final do mês - cedido pelo generoso Governo dos E.U.As.. O amor tem de ser alimentado. Não existem moto-contínuos, se é que a segunda lei da termo-dinâmica se aplica aos sentimentos humanos.

“Tô chateado sim... Mas o que esperavam?

“Passamos tão perto da felicidade.

“A história toda acabou saindo pior que o previsto. Afinal, eu já havia até me acostumado à idéia de “viver” dez anos fora de casa — se é que fosse possível se acostumar a uma coisa dessas, dadas as circunstâncias.

“Sem demagogia ! Eu tava mesmo esperando pra ver aqueles troços lá fora. Quem sabe chutar o rabo de um ou dois alienígenas, dizendo “0 que há, velhinho ?“, e oferecer-lhe uma bela cenoura - cor de abóbora - enquanto ele arrumasse seu elmo e o saiote de estilo romano... Esse tipo de coisa.

“Me preparei pra ficar preso por dois anos dentro daquela caçamba de lixo que eles chamavam de Orion. Que?! Rancor? Porra! Aquela merda de nave é o motivo de toda essa porcaria e o diabo do meu inconsciente fica tentando encher o que resta do meu cérebro (e do meu saco) de sentimento de culpa. Bah!

“A verdade é que eu ia ficar preso lá por dois anos, e que eu até preferia isso à ficar preso aqui, nesse buraco, em Marte. Será que ninguém vai entender que eu tô desesperado, dentro dessa cela com cheiro de esterco, enquanto a mulher que eu amo pode estar saindo com um filho da puta que eu posso até conhecer? Será que alguém já pensou que ela pode até estar gostando?!“

Diário de Percival F.Corianow,
23 de Junho, 06:35 MCM, 2116.

“Perdoe-me... Tudo isso têm me privado de uma decência da qual não tenho mais sinal. Creio que cinco horas de lágrimas me fizeram lembrar de mim mesmo. Talvez Rachei não me reconhecesse mais... Sua curiosidade, entretanto, é algo que me anima, sabe? Aliás, o maior motivo pelo qual escrevo este diário. Quem vai ler isso afinal, heim? Posso imaginá-lo no canto de um depósito, ou espalhado pelo solo de Marte — pedaços de plastipel indecifráveis, aos quais ninguém daria atenção. Com certeza que ele não será aproveitado por alguma editora, mas eu posso fantasiar... não posso?

“Havia dito que passamos perto da felicidade, não? E é verdade... Rachel pulou de alegria. Foi lindo vê-la feliz. Quando eu esperava não vê-la por dez anos, o destino interceptou o futuro. Todo o kharma pregado pelos Hare Krishna acabaram me atingindo, naquele momento. Enxugando meu rosto com esses cobertores sujos, eu me lembro de quanto eu me alegrei, incrédulo, perante o que parecia ser a maior sorte de minha vida.

“Parece estranho, para vocês, tudo isso, não é? Não fico admirado. Tudo o que aconteceu... É difícil fazer com que vocês percebam a extensão de toda essa situação.

“Não quero falar disso hoje...”

* * *

Eu tentei limpar o uniforme, mas não deu pra tirar a mancha. Vocês acreditam? A porra da mancha de vômito não saiu! Gastam-se milhões de dólares para mandar a gente e a nave pra cá pra esse fim-de-mundo... E o uniforme? É lavável? Nãããão...

Agora não tenho outra escolha, senão usar apenas a roupa de baixo. Tenho suado muito... Até que é boa idéia. Claro que existem outros macacões no armário da nave, mas eu sei que não devo. Seria errado. Aquele era o meu uniforme. Não posso usar outro. Não me importa o que os outros vão dizer quando acordar. Quero outro uniforme. “Quero outro uniforme !“, gritei para a Orion. A metida não me respondeu...

Mas eu já sei - eu sei sim - o que eles vão dizer. Eles vão dizer que não é importante e que sempre podemos etiquetar um dos uniformes de reserva com o meu nome. Não é verdade. Nenhum deles é especialista em uniformes. Eles até podem sacar de Astronomia, exo-antropologia, xeno-biologia, sei lá. Nas ninguém entende mais de uniformes nessa nave do que eu. Li todos os arquivos sobre a confecção de uniformes - eu tinha que tirar aquela mancha. Aí adivinha o que eu fiz... Apaguei tudinho. Apaguei os malditos arquivos, e agora sou o maior especialista em uniformes de toda essa maldita nave.

Eles jamais vão me convencer! Estão me espionando, eu sei. Através das portas opacas dos esquifes eles estão, de algum modo, me observando. Posso ouvir seus olhos se movendo quando entro na sala dos caixões. Tenho um plano... Vou me esconder na sala de comunicações e, quando eles acordarem vou mandar uma mensagem, um pedido, para a NASA, lá na Terra. Vou pedir para me mandarem um uniforme novo. É! Um uniforme com meu nome em letras bem grandes... E tem que ser verde... Quero que seja verde. Verde. Que nem nos contos.

Um espelho... Ah, não! Cacete, eu tô verde

Acho que não estou me sentindo bem. Preciso de alguns calmantes. Eu...

Diário de Percivall F. Corianow
24 de Junho, 10:40 MCM, 2116

“...E. Parece que tenho novidades para vocês, caras... Mas não vou lhes contar antes de narrar aquela história que lhes prometi. Aquela sobre kharrna etc... Lembram? Claro.

“Estava chegando o grande dia e eu e Rachel já nem saíamos do quarto, com medo de perdermos um ao outro. Não nos amávamos todo o tempo. Ficávamos nos olhando por horas a fio, decorando cada traço de nossos rostos e corpos. Rachel quase não segurava mais as lágrimas e tinha os olhos vermelhos e marejados. Nunca deixava de ser linda.

“Rachel me martirizava cada vez que me fitava com aqueles belos olhos. Podia bem entender o porque de eu ter me casado com ela. Não... la muito além de seus olhos, além de seu corpo, ou mesmo de sua mente... Estaria eu sendo místico demais? E mais. Precisávamos um do outro, naqueles últimos dias, como nunca voltaríamos a precisar. Nos amávamos...

“0 dia chegou e não permitiram que ela me visse partir. Afinal, indo de avião, ela não poderia me acompanhar até a porta mesmo... Soube que iria um mês antes dos outros tripulantes, apenas para arrumar a casa... Para que os especialistas da missão se sentissem a vontade em seu novo lar. Isso me foi dito dois meses antes, quando assinei mais um papel com respeito a aceitação ao que eles chamavam de “Contrato de Responsabilidade”.

“Aqueles mesmos dois gorilas, que vinham me acompanhando, não quebraram a rotina, até chegarmos na sala de emissão. No caminho encontrei com os outros rapazes, também acompanhados por algumas daquelas enormidades, mas não nos deixaram falar.

“Entrando na sala. fiquei assombrado, tal era a quantidade de equipamento eletrônico. A sala fazia juz ao seu apelido. Um Cray 35-q dava à sala, não muito grande - já em contradição com sua alcunha - um aspecto excessivamente futurista. Eles, os Hiper-Computadores da linha Cray, ainda mantinham o formato, e seu tamanho não diminuíra, em relação aos antigos modelos de Super-Computadores, Entretanto sua tecnologia se desenvolvera muito. Seus processadores foram esculpidos na própria estrutura da matéria. Eles estavam jogando alto naquele brinquedinho, sem contar na tecnologia absurda que deveriam ter gasto naquele teleporte.

“De fato eu me sentia corno alguém que fosse para a forca. Vacilei um pouco, quando me pediram para sentar numa confortável poltrona, perto de um equipamento cheio de luzes. ‘Ei! fique calmo...’ disse a aranha para a mosca. Já deitado, me vi coberto por uma malha de eletrôdos, e cercado por cinco cientistas, que pareciam canibais querendo me cozinhar em seu novo forno de microondas.

“Depois de alguns goles em cinco soluções diferentes, me convidaram a deitar em uma ‘cama’ corrediça que ladeava um túnel escuro de um metro de diâmetro. Quando me deitei, com a cabeça voltada para ele, percebi que se iluminou com urna mortiça luz azul. A cama se recolheu, Junto comigo, dentro do túnel. Ouvi um murmúrio de boa sorte, enquanto uma porta deslizante se fechava aos meus pés.

“Pode parecer estranho, mas só me dei conta do que estava acontecendo quando o túnel começou a girar lentamente. Não sabia quanto ia demorar o processo. ‘Será que vai funcionar?’, pensei. ‘Na NASA, nada funciona antes de, pelo menos, cinco falhas’. Hi, hi. Cosmic Joke do Pravda... Não que isso fosse verdade. Eu estava muito nervoso.

“Um zumbido começou a se fazer audível no tubo, e comecei a me preocupar. ‘Há quanto tempo estou aqui?’, me perguntava... Havia entrado no tubo como um filhote de rato e nem me deixaram o relógio! O zumbido aumentava exponencialmente, em relação a minha preocupação, forçando um desagradável círculo vicioso.

“E não parava de aumentar...

“Eu não conseguia nem pensar direito. Queria bater nos lados ao tubo que, sonolento, girava ao meu redor, mas não conseguia mover um músculo. O zumbido se tornava um rugido e eu suava frio, até que o chiado da porta, e o vento aos meus pés, me trouxeram à realidade. ‘Já cheguei ?“

“A cana corrediça começou a deslizar. Pude ver os rostos decepcionados, de cinco cientistas, sobre mim. Talvez algo tivesse dado errado e alguma parte de mim pudesse ter sido emitida para a nave... Eu bem que queria ver minha cara, enquanto procurava minhas ‘coisas’ freneticamente, com os olhos.

- De volta à prancheta de desenho. - Disse um deles.

“Não fomos para a Orion e, provavelmente não iríamos mais, era o que pensara, naquele momento... e realmente não fomos. Não nos chamaram para outra missão... E, felizmente, não suspenderam o pagamento.

“O teleporte não funcionou...

“Nas eu tenho mais para contar... Tenho sim.”

* * *

Depois de tomar alguns calmantes me senti melhor, mas eu realmente queria muito um uniforme verde...

Faltavam poucos minutos para que meus amigos chegassem. E em homenagem a sua chegada resolvi colocar um dos uniformes de reserva - me recusando, no entanto a etiquetá-lo com meu nome. Estava em minha cabine de cinco por cinco, me arrumando para o grande momento. Lutava contra as gotas de suor que escorriam pelas têmporas. Alias desisti de impedi-las de molhar a gola do macacão. Talvez devesse pedir ao computador para abaixar a temperatura. Não sei porque a NASA optou por instalar, na Orion, um computador com nível tão baixo de consciência.

Não podia esperar pelo momento era que eles saíssem dos esquifes com aquela cara de ressaca, que eu bem conhecia, procurando os bagos como alguém que acabara de levar uma chute. Ha, ha, ha!

Saí sorridente do meu quarto para vê-los na sala dos telepods. Eles chegariam - ou acabariam de ser construídos - dentro de apenas... Seis. Seis minutos ! Tinha que correr. Eles precisavam ser bem recebidos. Afinal, viajaram por quatro anos. Peguei seus uniformes devidamente etiquetados - e coloquei-os dentro de uma maleta que levei comigo.

Passei ao lado dos dutos de ventilação, aqueles que davam nos “locais secretos”, pelos quais eu teria de passar para cortar caminho em direção a sala de comunicação, quando eu pediria o uniforme verde... Droga, estava começando de novo, e eu precisava de mais calmantes. Bom... é urna ocasião especial. Eu não ia conseguir que o uniforme chegasse em menos de oito anos mesmo. Mas bem que seria gostoso usar meu uniforme verde...

Sentei em frente do console do computador que controlava o sistema de reconstrução do teleporte. Multidões de brilhantes telas de alta definição em cristal líquido, me mostravam gráficos e informações as quais eu nunca iria entender. Faltavam só dois minutos, era o que dizia o pouco que consegui entender das coisas que piscavam naqueles monitores. Um som estranho vinha dos esquifes. Não. O som vinha de outro lugar... Fiquei preocupado. Devia ser minha imaginação, ou então deve ser assim mesmo... Trinta segundos. Tenho certeza de que, se eu quisesse, poderia ter jogado duas partidas inteiras de R.P.G., tal era a demora entre um segundo e outro, mas eu nem tinha companhia para tanto.

Dez segundos... Eu não ruía as unhas desde os meus dezenove anos. O som não parecia normal. Algo como...

Os dez segundos haviam se passado. Nos monitores de LCD, pude ver uma movimentação constante, o computador estava fazendo alguma coisa. Uma voz. “Quem ?“

“Defeito no sistema de injeção do duto quatro – efe-seis. Perda de pressão na galeria nove. Correção da avaria Prevista para daqui a dez minutos. Não se alarmem, tripulantes, toco correra bem”.

Algo me ocorreu: “Dutos de injeção...” Levantei-me e fui até um dos esquifes. Com um dos pés na dobradiça do telepod, dei um impulso para alcançar os canos azul-metálicos, a uns dois metros do chão. Não havia, realmente, motivo para alarme. “Calmamente estendi uma das mãos por trás dos canos. Lá estava.

Eu não estava errado. Olhei pela fresta que os canos faziam com a parede. Três-efe-seis, dois-efe-seis, um-efe-seis. Era um deles.

Vocês não entendem, ainda não...

Corri dali para o corredor principal, e de lá para os dutos de ventilação. Algo horrível me ocorrera. Eu tinha de estar errado! A adrenalina ardia em todos os meus vasos sangüíneos.

Me arrastei pelos dutos e cheguei a uma das galerias de ventilação. Deparei-me com um numero sete, do tamanho do meu braço. Como eu não havia notado antes?! Depois de três ou quatro câmaras de equipamentos eletrônicos, me vi diante da galeria nove. Um cano azul-metálico do teto despejava um esguicho da grossura de um dedo no chão da pequena sala. Poderia ser nitrogênio, hidrogênio, oxigênio, qualquer coisa. O esguicho ficava mais fraco, mas não esperei que o jato parasse, e me queimei, protegendo os olhos, nas gotas, que ricocheteavam no chão e flutuavam em todas as direções, devido a falta de gravidade.

Lá estava uma das portas lacradas, às quais não tínhamos acesso. E adivinhem... os feixes de canos azul-metálicos entravam na parede acima da porta. Firmei uma das botas fásicas na porta de metalplas e comecei a desferir golpes, com o calcanhar da outra bota, na tranca eletrônica, ao seu lado, O campo eletromagnético da bota, e os golpes que apliquei à tranca, acabaram por fazê-la abrir.

Com mais raiva que medo, abri com força a porta de metalplas.

Para minha desgraça, todas as minhas perguntas, com respeito ao funcionamento dos teleportes, foram respondidas por aqueles tanques...

Desmaiei.

* * *

...Despertei sabendo o que devia fazer. Não deixaria que a vida dos outros se desgraçasse como a minha. Aqueles filhos-da-puta não iam sair dessa com tanta facilidade. Portanto fiz o que ninguém mais teria coragem. Ninguém.

Abri os telepods. Abri todos eles e despedacei aqueles corpos mal-formados com minhas próprias mãos, e com as mãos sujas de sangue fui até a sala de comunicações e emiti uma mensagem no em todas as direções que pude. Eles não iam sair dessa. Não. Não sem me entregarem o uniforme. O uniforme verde... Eu não podia deixar que o uniforme sujasse. Ele não... Rachel... E, ela bem podia limpar tudo pra mim... Era só urna mancha, querida. Mas você deve estar ocupada, né? Como eu estou? Eu estou bem? Aqui eu não estou... As. Os calmantes acabaram, sabe? Eu não sei, mas acho que você não gosta de mim aqui. Você gosta é desse impostor, né? Mas sou eu que sou seu marido, sabia? Sou eu! Eu-eu sei quem sou eu. Eu sou eu, e ninguém vai me tirar isso. Eles... Eles... Ele não sou eu, sabe ?

Não sou eu não...

Diário de Percivall F. Corianow
25 de Junho, 14:20 MCM, 2116.

“Desculpem a demora, mas estou, neste instante resolvendo uns problemas com um certo advogado. Não apressemos as coisas, gente. Ainda não acabou. Eu tinha dito pra vocês que aquela belezinha de teleporte não tinha funcionado, certo? Não é bem assim... é só que eu não fui emitido para a Oriom. A máquina até que funcionou muito bem. Só não funcionou do jeito que eu e os outros astronautas imaginávamos. Os conceitos de teleporte é que vão ter de mudar um pouco, graças ao batalhão de cientistas que realizou a tal proeza.

...Eles até que tiveram uma certa razão. Afinal de contas es havia assinado urna declaração de aceitação do contrato de responsabilidade. E não é que os cretinos acabaram me contando o que aconteceu desde o início?... Os babaquaras não tiveram nem a decência de me deixar na ignorância.

“Tudo isso se junta numa história muito doida... Fui preso pelo assassinato de toda a tripulação da Orion. E eu que nem sabia que tinha viajado pra lá... muito menos que tinha feito isso. Não aceitei, a princípio, na história que me relataram, o que nada mudou muito a opinião deles, mas hoje nem sei mais se fui eu ou não o autor daquela atrocidade. E tudo bastante ‘simples’...

“O teleporte era apenas um... Bem, até que é una boa comparação... Um FAX que copia a folha original e emite os dados pela linha telefônica. Aquele troço leu todos os dados a respeito dos meus órgãos, tecidos, células, moléculas, átomos, elétrons, e transformou aquela bosta toda em um feixe de luz codificado. Logo fiquei aqui, e um desenho super-detalhado de todo o meu corpo e cérebro foram emitidos daqui para lá, na velocidade da luz, O detalhe é que um outro otário, que nem eu, foi construído naquela maldita nave, quando os dados chegaram, e eu imagino como ele ficou puto da vida ao descobrir os tanques cheios de elementos químicos que forravam a nave, e que foram a matéria prima para a construção do corpo dele e... dos caras que ele trucidou...

“O fato é que o cérebro dele era exatamente igual ao meu, o que quer dizer que, se eu passasse por aquela merda toda que ele passou, teria feito exatamente a mesma coisa. Era o que eles não paravam de afirmar. O pior é que eu mesmo não sei como agiria em tal situação. Ele era minha cópia exata, pombas!

“Nem pensem que eu sou um idiota, que não pensei em apelar para mais de um bilhão de argumentos, mas isso de pouco adiantou. Eles eram menos idiotas que eu, e ai a situação engrossou. Este não era o tipo de processo que rolava na justiça normal e fui a corte marcial. O melhor argumento que usei foi o de que talvez a precisão de reprodução do equipamento deles não fosse tão eficaz como esperavam, mas a resposta que obtive foi de que a precisão do analisador alcançava um picometro, cerca de dez elevado a menos doze metros.

“O mais infeliz dos argumentos foi o que apresentei afirmando que, se eu estava aqui ria Terra, não se podia dizer que aquele ’lá em cima”, era realmente eu. A isso eles responderam, com sinceridade, que tinham certeza de que eu, em qualquer outra condição, não tomaria o tipo de atitude que tomei – ou tomou, dependendo (com certeza) do ponto de vista - mas que isso era irrelevante, pois se eu realmente houvesse sido emitido para lá, certamente agiria da mesma maneira, o que ia de encontro ao que eu tinha me comprometido, assinando o contrato para a missão.

“Ah, mas a história não acaba aqui.

“Hoje, pela manhã, recebi urna visitinha de um advogado. Ele me informou, com todo o seu linguajar polido e seu Esperanto impecável, que há algum tempo que não permitem mais visitas para minha pessoa, e que sua cara bem barbeada seria a última que eu veria – algo assim...

“Mas claro que não era só isso... Ele fala comigo aqui... e eu escrevo. Alias ele está justamente reclamando neste instante, e eu estou sorrindo. Sabe o que diz enquanto meu sorriso desaparece?... Rachel. A minha Rachel quer o divórcio...

“Foi fácil esmagar-lhe a traquéia. Forçar a mão esquerda para dentro de sua garganta, a procura das cordas vocais, foi mais difícil.

“Continuo a escrever com a direita. Arranco as malditas e as jogo no chão. Agora pretendo levantar, pisando nas tripas desse verme e chamar um dos guardas. O sangue está em todo o canto. Acabei sujando o meu uniforme...

“...Ótimo. O guarda me atendeu meio pálido, mas disse que já voltava com o que pedi. Pedi um novo uniforme! Etiquetado com o meu nome! Ele pareceu bastante solícito. Saiu correndo e tudo!

“Droga! Esqueci...”

- Será que poderia ser verde?

13 de Dezembro de 1990

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Postado por baccioly em 07:09 AM | Comentários (1)