Há coisas que é preciso fazer e viver antes que a oportunidade passe. Dar o primeiro passo pra dentro da água é um choque, mas vale a pena só pra não se arrepender de não tê-lo feito.
A poesia hipócrita me aborrece, daí escrever o que eu sinto. Qualquer coisa diferente disso é perda de tempo.
Eu hoje li uma bela poesia
que dizia tanto tanto com tão pouco.
Das rimas não saía hipocrisia,
mas era um tanto cheia de “entretanto”.
Nas linhas que eu lia e refletia
o meu momento louco e seu encanto,
respostas procurava... e havia?
Não sei, mas era quase um antecanto.
Dizia... “escutei da voz sua sentença:
a iminência de um dizer não-dito adjudicando
a insurgência de tudo que se pensa
de um não-dizível-dito se ditando”
A vida fácil pode ser bem mais difícil que a infância difícil que leva à ela. Monstros estão em todo lugar...
Este conto foi experimental em sua essência. Foi preciso conversar com algumas pessoas que passaram por experiências traumáticas e outras que vivem o dia-a-dia de uma profissão bem complicada.
Fazer pesquisa foi necessário (exercitem sua imaginação na direção que quiserem) e, talvez por isso, fontes confiáveis, depois de ler, pediram cópia, afirmando que por várias vezes se sentiam como a personagem descrita.
Sugiro apenas que tirem as crianças da sala quando forem ler...
Era sua vida, afinal... jamais deixara que alguém a controlasse. Sua mãe saíra chorando do apartamento que dividia com a amiga... Não era agradável vê-la daquele jeito, mas não pudera se conter, fora quase desumana com aquela que não soube dar crédito a própria filha. Nunca a perdoaria por ter se omitido enquanto o padrasto visitava seu quarto toda a noite.
“Cê ainda é virgem, menina, se preocupa não... Não é amor o que fazemos, tô só te currando mesmo” - era o que ouvia quando a mãe voltava tarde do trabalho. Descobrira a sós que não havia monstros, só homens e maldade...
Preferia, contudo, deixar de lado o passado... Até que estava bem de vida. Ela e a amiga dividiam um bom apartamento de frente para o mar, e clientes não faltavam. Fora difícil chegar ao topo, mas nesse negócio tudo que era preciso era ser bonita, ser submissa e gostar - ao menos um pouco - do que fazia...
Estava a caminho do motel em seu próprio carro, comprado havia menos de um mês, pensando que, se não fossem os tarados, até que seria fácil. Acabara de receber o telefonema de um cliente novo. Nesses tempos não era tão bom variar... Costumava guardar os nomes e preferências dos clientes em computador e tudo mais, dando prioridade aos que há muito conhecia. A voz desse último, porém, lhe passara certa segurança.
Era um belo lugar. Não tinha estado lá antes, mesmo porque, até os mais sofisticados clientes acreditavam não dever a ela grandes regalias. Sem dúvida um motel e tanto... lugar para dois carros na garagem do quarto... Imaginava que o preço do período de doze horas - agendado pelo cliente - não deveria estar muito longe de seu próprio cachê.
Subira as escadas um pouco intrigada com a ostentação. Felizmente viera com um belo vestidinho preto em plush. Sorrira de si para si ao pensar que deviam mesmo ter checado se ela estava de saltos altos e meias de seda para deixá-la entrar...
O quarto era belíssimo, o tapete quase tão macio quanto a cama. Não ligou luzes adicionais, contentando-se com a luz indireta deixada acesa pelo cliente. Sabia que alguns deles se sentiam mais seguros daquele modo.
Quando o felino se enroscou em suas pernas quase deu um salto de onde estava. Arrepiara-se toda logo que se recuperou. Levou as mãos ao belo animal de pelagem rajada em cinza e preto e acariciou-o, levando-o ao colo. Ele pouco lhe deu atenção, contudo, logo saltando de cima dela para correr pelo tapete até a ante-sala que dava para o corredor do motel.
Era uma visão, aquele homem... Saíra da ante-sala logo que o felino entrou. Alto, largo, as pernas fortes sob o belo corte do robe de lã. Não a beijou... trazia champanhe para ambos numa das mãos e deixou o balde de gelo com a garrafa sobre o criado-mudo. Ela já estava de pé, lúbricos devaneios lhe diziam que seria um daqueles clientes inesquecíveis que, provavelmente, jamais a chamaria outra vez.
Sorveu o líquido - champanhe que nunca provara antes: doce, suave... Ouviram música, dançando e bebendo, dois corpos perfeitos colidindo devagar e gentilmente. Ela soube -”um dia” - que lá ficaria por doze horas, mas não se incomodava se ele a forçasse a ficar lá para sempre. Embriagada mais pela presença que pela bebida, mais por seu toque que pela música, arriscou as mãos por entre o robe e o corpo poderoso e imponente... suas línguas se tocaram...
Combinava violência, força e ternura, aquele homem, enquanto a penetrava, de pé. Ela as mãos no espelho, debruçada sobre o sofá, os joelhos nas almofadas, os saltos pendentes, as meias presas pela liga. Tomava-o para si por trás - como mais apreciava - o vestido abatido havia muito, testemunha da força daquilo tudo. Molhada demais... as mãos dele hora em seu quadril, hora deslizando por suas costas. Ela levava as mãos por baixo do próprio corpo, tocando a si e ao parceiro, segurando o membro, incrédula... a grossura, a força, a demora. Suas mãos voltavam ao espelho, arrebitava-se, gemendo de prazer. Sentia o gozo, finalmente, visitando-lhes no mesmo compasso e ritmo. Precisava tê-lo em si, mas tirou-o e virou de frente.
Tocava-lhe agora o flanco e as pernas, de joelhos, o rosto para o membro, os olhos fechados de prazer e a boca aberta, procurando... Levou as mãos ao falo, finalmente, uma por baixo, outra ao talo grosso. Enfiou-o na boca sem cerimônia, o volume desconhecido e penoso... Sentia-o gozar ainda mais - inequívoca viscosidade - o sêmen escorrendo pelos lados de seu rosto. Delírio - prazer na felação não era algo tão comum - era especial aquele momento. Abriu parcialmente os olhos procurando os dele, notando findo o orgasmo. Algo rubro porém lhe cobria o colo, olhou para si... em tudo estava a cor...
Era sangue, “mas de quem”... E a ignorância subitamente desapareceu quando o amante a suspendeu pelos cabelos, sem dor, só prazer e força... Tantas histórias, tantas fábulas... não sabia mais porque diziam as crianças que monstros não existiam... Ele afundava as presas em seu colo sorvendo-lhe o sangue, as mãos em sua nuca e nos cabelos, os olhos flamejantes, e ela não sabia o que sentia... prazer, dor lancinante... em pouco isso não importaria, o corpo, belo... de rijo à entregue... balouçante... e só ele restava... menos uma amante...

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Há dias em que não acordamos muito bem... que tudo parece meio sem sentido, que as coisas acontecem de forma quase que planejada para que a gente se ache menos que se é.
Isso acontece com muita gente que conheço e a sensação não é mesmo das melhores.
Joguei o pranto em forma de tinta sobre o papel e as manchas formaram o que podem ler abaixo - sem métrica, proposta objetiva.
...embora pudesse;
Nem há demais, embora se supusesse;
Nada de excesso, embora até devesse...
À disposição do nada me coloco então, posto que do nada tu apareceste.
A vida que apreciava então, não vejo como que me reste.
(Existe um rio n’algum lugar... um rio no qual se pode banhar sem se molhar.
Mas fazê-lo sem acontecê-lo é tornar sonho em pesadelo...
...é emergir de olhos fechados só pra não banhar-se ao luar.)
Comédia cáustica de protagonista renitente.
De indistinto à notável tudo que se precisa é tentar-se ser feliz... e a tentativa acaba em chiste.
D’onde estou não vejo platéia ou luzes, escondo-me por detrás das cortinas da vida sem querer.
E não quero, é fato... mas boato não pode ver ouvidos gente. A gente então aceita e não insiste.
O que faço eu comigo mesmo depois que nasço?
Vivo, sofro... amo. Insisto até. Até que me chega o cansaço.
A vida por trás das cortinas tem seu glamour, afinal.
Parece covarde, torpe, indecente e coisa e tal. Mas bem se paga, embora um pouco marginal.
Enquanto sonho parece que me olham... parece ter platéia em meu quintal.
Qual peça abominável, a minha decorre em sono, descortinada, sem sentido e anormal.
Distante dos olhos de gente - como a rosa dada a quem não pode ostentá-la, e que a guarda num bornal.
Hoje, como quem acorda do sonho e vai banhar-se ao rio... noto que não molha.
Entrego-me à correnteza e essa não leva... e ainda é frio!
Imerso fico... volto à tona. Olho pra Lua... e de volta ela não olha.
Não desespero nem critico, só percebo a cor da rosa enquanto desfolha.
Ah, claro! Não há palco, platéia, teatro ou sonho... sou eu que sofistico.
O rio, entretanto, ora, vamos! Com essa analogia insisto e fico!
Envolto nas cortinas que me escondem eu me banho nesse rio seco...
e pensando na paixão e no que a mim concedo, um futuro de repente sacrifico.
Mas que me classifiquem ao menos pelo que fiz e não pelo que tentei,
pois sem platéia ou com platéia fui ao rio e mergulhei,
estando seco ou em transbordo àquelas margens não só me debrucei...
E fiz um tudo e nem felicidade eu esperei.
Foi só da Lua que por um sorriso apaixonado suspirei.