Não é incomum nos perdermos de nós mesmos diante de decepções. O curioso é que nos conformamos, não em culpar a nós mesmos, mas em punir cada um dos dias que virão com uma sentença triste de não mais acreditar em ninguém.
Injusto com o outro, injusto com nós mesmos e sem condição de impôr conseqüências a quem de direito, não raro nos tornamos o que não queríamos ser e a isso nos sentimos condenados.
É possível, contudo, que alguém se acerque de nós para resgatar-nos do prescipício de nós mesmos e, relutantes e rabugentos, façamos de tudo para que essa pessoa de boa vontade desista de seu intento.
Sobre isso discorre a poesia... ou pelo menos era essa minha intenção.
Mas sempre pode ser só uma história de fundo de quintal...
As pedras da rua curta em que a menina brinca
nem sempre são seguras correndo ao pique
as moças, que quase nunca ouvem zombarias,
se arriscam e se aventuram se houver debique.
O pranto que fez-se à face quando da mossa –
ralados os joelhinhos das pernas jovens –
desfez-se a inocência no torvelinho,
da queda, em provocada por seus algozes.
A pobre se aconchega em seu quintalzinho,
brincando com as bonecas em seu sossego,
já não vai à rua, ao pique, brinca sozinha.
Faz não mais gostar daquilo e nega o medo.
Mas chega um menininho naquela vila,
não sabe do tudo um nada – é diferente –
de suas paragens moças não são comédia,
são flores e o tratamento é condizente.
Aos outros não lhes dá bola, mas é sozinho,
e vê a singela flor ali isolada.
Estica-se e mira a porta do seu vizinho,
e nota a bela moça abandonada.
Lhe diz: “Saia do quintal, vem brincar comigo!”
A moça, ouvidos moucos, nem é com ela.
Repete: “Não faz assim, eu tô tão sozinho!”
E ela nem dá de ombros! Nem olhadela!
Procura saber então o que aconteceu.
As moças lhe dizem tudo, ele fica triste.
Não pode tão bela flor ficar lá ao léu,
tão jovem e tão sozinha... é inconteste!
O jovem lhe diz: “Vem cá, eu sei o que houve!”
E ela, desconfiada, nem lhe responde.
Insiste: “Eu sei de tudo, vem cá me ouve!”
E ela lhe olha os olhos: “Ouvir da onde?”
“Moleque obstinado e inclemente!” –
pensava a bela jovem ao levantar-se –
“O que queres cá comigo, ô indecente?!”
E fez-se uma cara feia, sem muita classe.
“Eu sei que te machucaram”, foi o que disse,
“Mas eu sou somente eu e não mais que isso.
Só quero te ver brincando. Acorda, Alice!
Assume contigo mesma esse compromisso!”
A pobre ‘inda vacilante abre o portão,
e diz: “Olha de outra feita eu já relego!
Eu brinco, mas só aqui, nesse calçadão...”
E ele: “Se cê cair deixa que eu te pego.”