"Não sendo o que sou..."
Sou louco pela cidade e lá nunca estive...
finjo que a visitei e apaixonei-me.
Talvez nem tenha me pressentido.
Talvez até saiba que eu era o certo, mas não me deixou ficar.
O cidadão da cidade não sou eu, e só comporta ela um por vez.
Em seu seio eu morri sem lá estar,
deixou-me fenecer depois de tão pouco e a falta que sinto é tanta.
Ah, se pudesse eu voltar a sonhar viver na cidade serena!
Deixai-me voltar, cidade linda... Como eu queria...
A temperatura, o olor do teu perfume, tua geografia,
as madeixas cuja cor dissimulada escondia a verdade de você.
Nunca fui nada, mas tentaste ter-me para si.
Sou grato pelo pouco que hospedei-me em ti sem saber que nunca lá estive.
A cor da tez de teus caminhos não mais esquecerei.
O pálido cinza de tudo que a tua volta existe me abriga agora.
Ah, se tivesse eu como escolher voltar à luta em tua arena!
As luzes d’outras cidades não sorriem mais pra mim depois das tuas.
Às vozes fugidias não escuto como a tua eu escutava.
A pátria que escolhi não me queria por amá-la mais que ela podia ser amada.
O charco em que me encontro, em teus, limites aprecio,
enquanto não defines se me acolhe novamente em teu terreno.
Atrás de mim diviso que o cinza taciturno me espera
e o que quero repudia meu olhar como se fosse nada.
Ah, se houvesse meios de mostrar que valho a pena!
Aguardo às portas cerradas duma pátria desconhecida
sem medo de fazer-me força para não ir embora.
Se existe um casebre pobre como havia outrora
me deixa aplacar a dor que me é desmerecida.
Mas sente a falta do aldeão do qual não sente pena
notando a devoção ainda que se cale;
nos olhos do cidadão note que a pena vale
abraça essa minha alma que não é pequena.
Te juro, não sei se estive por tuas paragens,
por certo que tens razão, fui por demais entregue.
Se existe uma alegação pra que eu seja expulso
me diz como devo andar mas não me renegue.
Me mostra as tuas sendas que eu ando nelas
desculpa do meu passado o entrevero
não ligo acostumar-me às tuas mazelas
se o que sou não sendo tenho o que quero.
Bruno Accioly
