"THX 1138"
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Baseado em um projeto de faculdade de George Lucas, escrito em 1967 e com o auxílio de produção de Francis Ford Coppola, THX 1138 é uma obra prima do gênero e a frente de seu tempo tecnicamente.
Há algum tempo quero escrever acerca desta refilmagem do anônimo “THX 1138:4EB”, escrito e dirigido por Lucas na University of Southern Califórnia. Resultante deste trabalho final de faculdade, "THX 1138" foi para mim um desses filmes que - antes da TV a cabo - ao ligar o aparelho na Rede Globo, acabei encontrando algo que o Departamento de Perpetuação da Decadência Televisiva deixou passar.
Muita gente gosta de cinema. Pessoalmente, gosto de ver filmes mas, ultimamente, me parece mais que isso... parece-me que gosto de ter contato com as histórias que as pessoas contam. Em quanto mais níveis estas histórias funcionarem melhor para mim. A cada frase adicional viajo por significados cuja autoria oscila entre a intenção do autor e minha interpretação daquela realidade que diante de mim se dispõe.
“THX 1138” pode bem ser um filme de ação econômico e denso, sendo capaz, contudo, de ser muito mais do que isso. Como seu primo mais velho, “1984” - de outro George - o filme de Lucas pode ser fruído com superficialidade sem, entretanto, deixar de ser flexível e subjetivo o suficiente para que o espectador mergulhe em toda sua profundidade temática.
O personagem principal, incentivado pelo construto social do qual desfruta, ingere substâncias que o ajudam a ser “um ser humano melhor” sob muitos aspectos. A escolha é dele, como tantas outras. É ele também, que escolhe o holo-canal que vai assistir, dentre uma vasta programação cuidadosamente desenvolvida que contém o sexo proibido pelo Estado, a violência coibida pelos sedativos e a dança, que não parece guardar qualquer relação com o ambiente acético e inexpressivo no qual ele existe.
Para a comodidade de todos, cada armário controla a ingestão de substâncias de forma a impedir que um cidadão seja prejudicado pelas drogas ingeridas, o que prejudicaria o sistema como um todo.
Já havia visto o filme algumas vezes, o que acabou mesmo sendo responsável por tê-lo adquirido em DVD. Valeu a pena. O produto final de Lucas - a versão adulterada pelo diretor, claro - surge timidamente nas prateleiras como um filme moderadamente desconhecido mas profundamente importante, que entraria fácil para o gênero “filme-chato” segundo muita gente, como quase todo filme importante.
O que posso dizer é que este é um daqueles filmes que você pode contar inteiro e que não fará lá muita diferença, pois o impacto da experiência pessoal com o filme supera qualquer narrativa fornecida previamente.
Para quem se interessa por saber mais sobre a história e sobre minha visão acerca dos subtextos que a permitem funcionar em tantos níveis, vale clicar no link abaixo:
ATENÇÃO: O texto a seguir comenta a história do filme!
“Que obra de arte é o homem”, disse o grande-mestre... e eu concordo. O senso comum é uma forma de demanda e o Sistema supre essa demanda de forma progressivamente mais eficiente – ou ao menos é o que o filme advoga (e o que ando ouvindo por aí).
Em qualquer cadeira medíocre de marketing, entretanto, a gente aprende que a demanda é criada por quem vende o produto.
No filme, Robert Duvall - no papel de THX 1138 - é um operário cujo trabalho é construir os mecanismos mais óbvios de controle do Estado: sentinelas andróides cuja inteligência duvidosa e criteriosa polidez ficam claras desde o início.
O trabalho, extremamente valorizado, nesta sociedade orientada a resultados, tem um perfil técnico profundamente dependente de tecnologia e de uma precisão de execução quase inumana.
Em meio a uma rotina que, para nós, seria esmagadora e por si só entorpecente, LUH 3417, companheira de THX, deliberadamente passa a adulterar seu estoque de sedativos, trocando-os por estimulantes.
Não fica clara a forma pela qual, antes dele, sua companheira conseguiu escapar ao efeito das drogas, mas fica evidente que nada os impede de parar de ingerir as substâncias senão o condicionamento e um complexo e burocrático sistema de câmeras acopladas ao fundo dos armários de remédio.
Perdendo os referenciais mais básicos de seu entorno, devido a privação daquilo que apenas achava que precisava, THX procura uma das muitas "UniCapelasDo original UniChapels, onde um sistema especialista TespianMecanismo de inteligência artificial dedicado a conversação, o OHM 0000, recebe sua confissão, incentivando-o com um discurso tautológico e inexpressivo.
O amor e luxúria que se ocupam de THX atraem a atenção de SEN 5241 - vivido por Donald Pleasent – que, como LUH, trabalha tendo acesso as telas que supervisionam outros cidadãos.
Um excêntrico e doentio triângulo amoroso toma a narrativa quando SEN consegue afastar LUH, tornando-se companheiro de THX. Como resultado da confusão, que começara quando LUH repudiara o sistema, mudando o estado mental do companheiro, os três são detidos, julgados e condenados a ser confinados do lado de fora daquela sociedade “paradisíaca”.
A prisão, sem muros intransponíveis ou paredes distintas, não conserva seus prisioneiros senão pelo medo e condicionamento, o que não é muito diferente da realidade anterior vivida por cada um deles.
Torturado e perseguido, nesta prisão sem paredes, pelos mecanismos que ele mesmo construiu, THX é julgado irrecuperável, dadas as seqüelas causadas pelos estimulantes ingeridos e por não mais guardar referencial com o Estabelecido.

Constantemente exposto a indivíduos ensandecidos e comportamentos excêntricos, THX resolve uma vez mais se rebelar contra a situação que lhe é imposta e foge em direção ao nada, sem se importar sequer com sua ração ou necessidades, levando em seu encalço SEN, que as carrega o tempo todo preocupado em levar toda comida que pode.
Quando conseguem escapar da alvura de sua prisão de paredes indistintas, só o fazem graças ao único negro que aparece em todo o filme, que se diz - ou acredita ser - um holograma, e que no entanto se diz faminto. Sem guardar a mesma relação com seu em torno, só ele consegue identificar a saída.
Em contato com a sociedade, já do lado de fora da prisão em que estavam e do lado de dentro da prisão comum a todos os cidadãos, os três se deparam com uma multidão em turbilhão, todos indo numa mesma direção, da qual só o holograma e THX conseguem escapar e a qual SEN se apega irremediavelmente e por ela é levado.

Por mais que tente, SEN jamais consegue escapar, mesmo tendo todas as chances e recursos para tanto. Por medo, condicionamento, apego e conformismo, permanece no perímetro e é detido, sendo recuperado pelos sentinelas.
Tendo descoberto que LUH fora já reciclada como reprodutora e sequer existia mais, THX finalmente rompe todas as amarras com o Estabelecido e, com a ajuda do holograma - que acaba perecendo - consegue alcançar o caminho para a liberdade.
Prestes a alcançá-lo, os sentinelas e o sistema mostram o fundamentalismo de sua maior qualidade e o tamanho de seu maior defeito: orientados a resultados práticos e orçamentos inflexíveis, uma vez que o projeto de busca ao fugitivo tem seu orçamento máximo alcançado, a poucos metros de alcançar seu objetivo o sistema não mais os permitem continuar.
No fim tudo se resume a isso: “O sistema não permite”, e mesmo assim... “Que obra de arte é o homem!”

THX-1138.org . Site dedicado ao universo THX 1138
THX-1138.org . Roteiro do filme na íntegra
THX-1138.org . Alterações efetuadas na versão do diretor em DVD
The Digital Bits . Versão do Diretor em DVD
THX-1138:4EB . Sub-site dedicado a projeto de faculdade de Lucas
THX-1138:4EB . Trecho em vídeo de 4EB
Imagens das alterações na versão do Diretor em DVD
Bruno Accioly
Ah esses mundos utópicos donde não se quer ver senão a saída. Queremos vê-los saírem todos de 1984, Brazil, Admirável mundo novo, THX 1138, ...
Mas, dera-me Deus, fosse o real tão plano e incolor e desinteressante que não me sedasse pelo simples viver e respirar. Fugiria eu com muito mais convicção e força. O preto e branco é mais realista mas a realidade é colorida, multicolor, muitimídia e muitisenso. Penetra-nos, para muito além do corpo: n'alma. Machuca nosso mais autêntico ser e já nada sabemos se não sê-lo. Queria a realidade incolor, branco cinzenta. Mas há comitês que decidem quais cores veremos para daqui a dois anos. Há comitês para quase tudo e somos nada com tanta força que esquecemos de tudo que queríamos ser.
"A liberdade da vontade consiste em não se poder saber agora quais serão as ações futuras. Só poderíamos sabê-lo se a causalidade fosse uma necessidade interna, como a da inferência lógica. O vínculo entre o saber e o que se sabe é o da necessidade lógica." (Luis Wittgenstein (1889-1951))
"Na vida quem perde o telhado em troca recebe as estrelas pra rimar até se afogar e de soluço em soluço esperar o sol que sobe na cama e acende o lençol, só lhe chamando, solicitando..." (Tom Zé)
Publicado por: Eduardo Augusto em abril 18, 2005 07:17 PMThat was a very nice post, I'm proud of you!:
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