...que prende o meu pezinho
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"Era uma vez uma formiguinha que ficou com o pé preso num floco de neve."
Não sei se alguém se lembra disso, mas eu costumo lembrar de três a cinco vezes por ano.
Quando era pequeno (sim, eu já fui pequeno) tive a oportunidade de ler uma fábula muito bacaninha. Naquela época as fábulas eram só bacaninhas pra mim, nada mais que isso. Ok... talvez eu percebesse alguma profundidade até então inalcançável para mim em algumas das fábulas que minha mãe lia para mim ou nas que eu ia encontrando pelo meio dos livros que ia lendo com dificuldade.
O fato é que essa fábula deixou uma marca indelével na minha cachola e acabou que nunca mais consegui me livrar disso.
Nos dias de hoje, em que as fábulas são consideradas bobas por quase todas as crianças que têm a idade que eu tinha (e possivelmente mesmo pelas outras crianças de minha idade na época), minhas fábulas são outras. Fico com os filmes que falam de totalitarismo, com os livros que falam dos tempos que já passaram, com as poesias que pouca gente lê e com a vontade de escrever minhas fábulas com um pouco mais de regularidade.
Gostar de fábulas é um dom e uma maldição. Me lembro que, desde pequeno, me interessava pelas palavras e frases, pelos parágrafos e livros, de uma forma muito diferente de meus colegas. Lembro-me de amar ficar até tarde vendo filmes ruins na televisão e, permissivamente (diriam uns), identificar o que de bom havia ali, extraindo do tempo que eu gastava com aquilo algo que eu pudesse aprender.
As fábulas são tão ruins ou bobas quanto quem não as entende, e tão magníficas e surpreendentes quanto quem as entende. Há tanto numa frase quanto cabe dentro de você, muito mais do que cabe entre a primeira e a última palavra que a compõe.
Apreender, de alguns parágrafos aparentemente inocentes, signos que abram portais para novos universos, é ter a disposição um mundo maior... é encontrar, na pobreza aparente das coisas, a riqueza escondida em si mesmo.
Cada um vive como quer, claro; e viver como eu - que presunçosamente sofro de gostar de ser como sou - nem sempre é fácil.
Dói ser tão verbal e gostar de escrever e conversar... e quase sempre perceber que só um ou dois, de todos que se conhece, concordam com sua visão de mundo. É tão sôfrego isso quanto o era quando uma menininha do primário não gostava de mim por eu querer ser astronauta.
No final, ser diferente - ou pensar-se diferente - pode ser muito doído.
O curioso é o motivo que me levou a escrever esse pequeno texto: o fiz graças a ter visto ontem "Condenação Brutal", com Silvester Stallone - vai entender!
O enredo do filme incomoda a muitos dos adoradores de filmes de ação e pancadaria estrelados pelo astro, que encarna um sujeito íntegro e que faz de tudo para não se meter em confusões, apesar de estarem todos querendo que ele o faça.
Não que o filme, de um modo geral, tenha uma profundidade temática intencional evidente ou coisa que o valha, mas apesar de todos os obstáculos, cada filme, para mim, até hoje, é uma fábula, uma parábola, uma alegoria da qual é possível apreender mais do que a soma de suas partes mais óbvias.
Frank Leone, seu personagem no filme, ajuda os presos a reformar e botar para funcionar um Mustang antigo que acaba se tornando um símbolo do que aqueles pobres diabos conseguem construir juntos, apesar da opressão de seu entorno.
Depois de pronto, o carro fica belíssimo e funcionando como um relógio. O diretor da prisão, Drumgoole - vivido por Donald Shutterland - acaba por ordenar a destruição do veículo por alguns dos outros detentos.
Após sair da "solitária", Leone volta à oficina da prisão, onde estão todos revoltados por terem tido seu carro destruído. Eles dizem querer vingança. Leone, furioso, esbraveja algo como: "Vocês realmente acham que este carro é seu?! Estamos em uma prisão! Trabalhamos neste carro, nos divertimos com isso, foi incrível, mas é só! Esse carro não é de vocês! Esse carro é de Drumgoole!", e continua, "No momento em que começarem a acreditar que este carro é de vocês, vocês se tornam propriedade de Drumgoole também! Não entendem?!".
Pode parecer curioso que este pequeno discurso tenha desencadeado este texto mas, para mim, a relação entre os detentos e "A Formiguinha" é deliciosamente óbvia.
Vale a pena procurar o filme na locadora ou TV a cabo... é um bom filme, afinal. Mas mais que isso, vale a pena questionar se a locação, a fatura da NET ou mesmo o enriquecimento pessoal, não ficam mais valorizados ao admitir que o trabalho de apreender todo um universo de interpretações e possibilidades, pode ser muito mais interessante do que a atitude passiva de compreender o filme como a soma dos minutos que perfazem suas duas horas.
Frank Leone, em “Condenação Brutal”, passa o filme todo tentando se afastar de problemas e se concentra em levar sua vidinha Zen dentro dos muros da prisão, engolindo cada um dos sapos que Drumgoole coloca em sua frente.
A pobre formiguinha vai ficar para sempre presa na neve se não tomar uma atitude e descobrir como se livrar do que está entre ela e a liberdade.
Por mais inexpressivo e inócuo que tenha sido este texto para alguns, quero crer que outros, ao lê-lo, consigam se livrar de todos os obstáculos entre si mesmos e a descoberta de que o senso comum não é senão uma idéia e que há muito mais entre as linhas de um texto e os minutos de um filme, que a soma de suas partes.
Segue a fábula "A Formiguinha e a Neve"
A Formiguinha e a Neve
Certa manhã de inverno,
uma formiguinha saiu
para seu trabalho diário.
Já ia muito longe,
à procura de alimento,
quando um floco de neve caiu
- pim! - e prendeu o seu pezinho!
Aflita, vendo que não podia
livrar-se da neve
e iria assim
morrer de fome e de frio,
voltou-se para o Sol e disse:
- Oh, Sol, tu que és tão forte,
derrete a neve
e desprende meu pezinho...
E o Sol, indiferente nas alturas,
falou:
- Mais forte do que eu
é o muro que me tapa!
Olhando então para o muro,
a formiguinha pediu:
- Oh, muro, tu que és tão forte,
que tapas o Sol,
que derrete a neve,
desprende meu pezinho...
E o muro que nada vê
e muito pouco fala
respondeu apenas:
- Mais forte do que eu
é o rato que me rói!
Voltando-se então para um ratinho
que passava apressado,
a formiguinha suplicou:
- Oh, rato, tu que és tão forte,
que róis o muro,
que tapa o Sol,
que derrete a neve,
desprende meu pezinho...
Mas o rato,
que também ia fugindo do frio,
gritou de longe:
- Mais forte do que eu
é o gato que me come!
Já cansada, a formiguinha pediu ao gato:
- Oh, gato, tu que és tão forte,
que comes o rato,
que rói o muro,
que tapa o Sol,
que derrete a neve,
desprende meu pezinho...
E o gato, sempre preguiçoso,
disse bocejando:
- Mais forte do que eu
é o cão que me persegue!
Aflita e chorosa,
a pobre formiguinha pediu ao cão:
- Oh, cão, tu que és tão forte,
que persegues o gato,
que come o rato,
que rói o muro,
que tapa o Sol,
que derrete a neve,
desprende meu pezinho...
E o cão, que ia correndo
atrás de uma raposa,
respondeu sem parar:
- Mais forte do que eu
é o homem que me bate!
Já quase sem forças,
sentindo o coração gelado de frio,
a formiguinha implorou ao homem:
- Oh, homem, tu que és tão forte,
que bates no cão,
que persegue o gato,
que come o rato,
que rói o muro,
que tapa o Sol,
que derrete a neve,
desprende meu pezinho...
E o homem,
sempre preocupado com seu trabalho,
Respondeu apenas:
- Mais forte do que eu
é a morte que me mata!
Trêmula de medo,
olhando a morte que se aproximava,
a pobre formiguinha suplicou:
- Oh, morte, tu que és tão forte,
que matas o homem,
que bate no cão,
que persegue o gato,
que come o rato,
que rói o muro,
que tapa o Sol,
que derrete a neve,
desprende meu pezinho...
E a morte, impassível, respondeu:
- Mais forte do que eu
é Deus que me governa!
Quase morrendo,
a formiguinha
rezou baixinho:
- Meu Deus, tu que és tão forte,
que governas a morte,
que mata o homem,
que bate no cão,
que persegue o gato,
que come o rato,
que rói o muro,
que tapa o Sol,
que derrete a neve,
desprende meu pezinho...
E Deus, então,
que ouve todas as preces, sorriu.
Estendeu a mão por cima das montanhas
e ordenou que viesse a primavera!
No mesmo instante,
a primavera desceu sobre a Terra,
enchendo de flores os campos,
enchendo de luz os caminhos!
E, vendo a formiguinha quase morta, gelada pelo frio,
tomou-a carinhosamente entre as mãos
e levou-a para seu reino encantado,
onde não há inverno, onde o Sol brilha sempre
e onde os campos estão sempre cobertos de flores!
Bruno Accioly
Eu acho inédito a forma como você chega a um determinado assunto e explora o mesmo de uma maneira inusitada!!
Depois que eu acabo de ler alguma matéria que você descreve, eu percebo que eu tenho que explorar mais meu universo externo e também interno.
Obrigada por ter partilhado esta história.
Hoje mesmo procurei o livro na livraria e como não encontrei resolvi fazer uma pesquisa na net.
Encontrei várias versões até encontrar a que conhecia de criança, ou seja, a que transcreve.
Viajei no tempo ao lêr a história.
Obrigada!
Ana
Publicado por: Ana em agosto 13, 2005 12:47 PMeu gostaria de mandar para mim mesmo.
Publicado por: alex moreira de andrade em abril 6, 2006 02:55 PMAté o dia de hoje, eu achava que essa fábula se encontrava só na minha memória. É bom saber que não sou a única e que certas coisas não morrem, ficam apenas adormecidas.
Publicado por: Adriana Rocha dos Reis em julho 13, 2006 01:57 PMChorei ao relembrar esta fábula da Formiga, que linda!
Estava procurando por ela para contar para as crianças da minha escola, pois sou prfessor de música. Agradeço muito por esse momento de terna emoção que vivi a poucos momentos atrás.
gostaria de receber a fabula a formiguinha e a neve. e se possivel uma breve analise de modalização(manipulação)ela e maravilhosa eu a adorooo...
Publicado por: laura lima em setembro 13, 2006 12:08 PMNão costumo escrever textos sob encomenda, desculpe-me.
A fábula é mesmo muito interessante.
Boa sorte em sua busca.
Bruno Accioly
Publicado por: Bruno Accioly em setembro 13, 2006 01:43 PMola, Bruno obrigada fiquei feliz que vc foi agil na resposta. outra fabula muito interessante "o lobo e o cordeiro"se voce tiver coloque-a. A analise que referi é estudos semioticos,as modalizaçoes(manipulação) sao tentação, sedução, intimidação e provocação. obrigada até....
Publicado por: laura lima em setembro 22, 2006 12:06 PMFábula
Publicado por: Marta klein em março 19, 2007 07:39 PMAcabei de assistir Free Zone e ouvindo Had Gadia, lembrei da fábula da formiguinha que minha irmã lia para mim. Saí a procura e achei o teu texto. Amei a referência ao Pequeno Principe, e este filme do Stallone eu já assisti há muito tempo, é bem legal. Cumprimentos!!
Publicado por: Herminia em setembro 17, 2007 09:03 PMObrigada! Adorei conhecer vc! Estou desenvolvendo um trabalho na minha escola com a história da Formiguinha e a Neve! Vc foi mais um estímulo!
Publicado por: Maria Viana em outubro 4, 2007 09:29 PM