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novembro 21, 2004

Eu sou você amanhã (II)...

«"Agosto" | Principal | Sinal dos tempos...»



Cyrano de Bergerac; o Talento vs. o Nariz"Talento não é desculpa", eu ouvi um grande amigo dizer um dia e, a despeito do contexto e da intenção do autor da citação, fica muito claro que Talento não é mesmo desculpa para quase nada...

...e definitivamente, Talento NÃO é desculpa para DEIXAR de executar uma boa idéia, um sonho antigo ou uma obra que - independente de não ser vista por ninguém como arte - tem o valor intrínseco emprestado pelo simples fato de que foi levada a cabo!

O 5arcasmos |v|últiplos recebeu a ilustre visita, recentemente, do meu chará-de-nome-e-sobrenome Bruno Accioly e Haruki Kume, da A&K Filmes, que me acharam, provavelmente, graça ao Google - que foi o responsável por eu mesmo tê-los achado em Agosto passado.

Ambos são responsáveis pela execução de um número respeitável de filmes independentes dos quais, provavelmente, você nunca ouviu falar.

O comentário não foi nada pejorativo. Semana passada vi uma entrevista do Arnaldo Antunes na TV a cabo acerca de sua obra "Nome", de 1993, produção de subjetividade multimedia .

Na entrevista, Arnando Antunes se viu diante da pergunta: "Como você encarou o fracasso da sua obra 'Nome'?", ao que respondeu, sem dificuldade, algo como, "Não entendo 'Nome♫' como um fracasso artístico, mas como fracasso de crítica. Até mesmo o fracasso comercial é questionável, uma vez que a crítica tem profundo impacto no que o consumidor acha que deve comprar".

Goste você ou não de Arnaldo Antunes, ou de "Nome", não importa. Ele de fato fez alguma coisa. Esconder-se por detrás do ombro de gigantes para não fazer aquilo que seu potencial latente lhe permite, está muito aquém do que devia-se esperar de si mesmo.

Meu tio, certa vez me disse, "Escreva... mesmo que ninguém leia, escreva. Nunca se sabe nas mãos de quem isso acaba; não é uma questão de dinheiro, mas uma questão da importância que você tem no seu espaço. Tudo o que você fala e escreve, tudo que alguém escuta e lê, modifica o seu em torno". Ele disse isso pois soube que eu pretendia parar de escrever. Como resultado, não parei.

Apesar do que o senso comum alardeia, a produção de subjetividade - ou a obra de arte - que nunca é lida ou vista, tem importância. No mínimo tem importância para o autor, lhe permitindo refletir e fruir a essência de si mesmo, em meio ao processo de criação, o que acaba por verter-se para o mundo através de seu discurso e atitudes.

Bruno "Que-não-sou-eu" Accioly e Haruki Kume são pessoas especiais, que insistem em produzir filmes (veja só!), em um mundo onde para manter uma obra nos cinemas é necessário gastar, por baixo, 10 milhões de dólares em marketing. Para mim, quem faz filmes, de fato, são eles, e não essa indústria fria e orientada a resultados que, em última instância, passaria a vender Balas Juquinha se estas fossem mais lucrativas!

Revisitando o que vêm produzindo tive a oportunidade de perceber a sutileza e sensibilidade da direção que, com ar de troça e insuspeita humildade, invade o espectador com mensagens tocantes e cheias de significado.

Redimindo-me dos comentários acerca do elenco, tenho de admitir que há um belo trabalho sendo desenvolvido pelos atores, sobretudo em "Bate Papos de Outono" e "Dedicação". Não se trata, obviamente, de um material convencional ou conservador em sua execução, mas de um discurso cinematográfico próprio e íntegro.

No fim, aquele que não expõe as próprias poesias, dado o tamanho do nariz, subestima aquele de quem as esconde... Se as expusesse, afinal, talvez fosse possível, então, olhar para além da grotesca forma que a insegurança força o autor a acreditar que existe.

Eu? Eu vou seguir o conselho de Haruki Kume, deixar de temer ser menos que Orson Welles e filmar logo meu humilde "Indivisível"!

Bruno Accioly


Categoria: Cinema Independente

mais uma vez, agradeco pelas bonitas palavras e pelo dubio sentimento de sua surrealista identidade.
embora eu nunca tivesse parado pra pensar tanto nos 'porques', gostei da sua abordagem. no fundo, somos assim mesmo.. insistentes. mas nao no sentido competitivo e comercial da palavra, quando inserida nesse nicho cinematografico. gostamos de ser insistentes artisticamente. fazemos cinema na forma... e procuramos aprimorar e melhorar nossas tecnicas sempre. a melhor explicacao do, 'porque' fazemos como fazemos e simples: 'e porque nao??' fazer filme nao e dificil... dificil e nao ser tao vulgar ou limitado, a ponto de impedir com que as pessoas sejam levadas juntas nessa nossa viagem, sem preconceitos ou previsualizacoes impostas por nos mesmos.
o que nos impede de fazer mais filmes e o tempo. somos cineastas de final-de-semana... independentes no tempo, no espaco e na forma. utilizamos pouquissimos recursos, convidamos amigos e parentes pra atuar e tentamos, unicamente, desenvolver uma tecnica despretenciosa.. mas ao mesmo tempo, sincera.
mas sera que o cinema pode ser despretencioso?? um dia, saberemos....
mantenha contato... nos o manteremos atualizado com as futuras producoes :-)

Publicado por: bruno accioly em novembro 23, 2004 09:57 AM



EXATAMENTE!...

Publicado por: José Vasconcellos em novembro 29, 2004 04:11 PM




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