“Código 46”
«Gardenal dos tempos... | Principal | EXTRA: Overdose tecnológica»
Numa narrativa corajosa, com um discurso denso e expressivo, o filme nos leva a uma jornada míope e alienada em um mundo no qual só os que o são conseguem sobreviver.
Sério e familiarmente sombrio, “Código 46” já chega aos cinemas condenado ao descaso, ao desgosto e ao esquecimento.
Diante das opiniões que venho colhendo, que condenam o filme com termos duros que vão desde mau executado, passando por pretensioso, lento ou simplesmente chato, muito pouco sobra para elogiar.
Do que sobra, contudo, o que me chegou aos ouvidos se referia a “Universo” imaginado pelos autores e que, assim mesmo, só nos deixa com gosto de quero mais.
Com tanta insatisfação no ar, pode-se dizer que o quadro geral está tão condenado quanto os primeiros trabalhos de Jackson Pollock.
Pollock desenvolveu um discurso artístico próprio, tenaz, marcante e arrojado que, em sua época, foi descrito pela revista Life como mais parecendo um “prato de macarrão com molho”.
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Rejeitar o inusitado a primeira vista é comum, rotineiro e humano, não deixando, contudo de ser precipitado. Por vezes chega a parecer uma forma de defesa contra o desconhecido.
Para além do tal do resultado – leia-se “faturamento na praça” – não devíamos jamais esquecer do fato de que os filmes que passam pelos cinemas, acabam nas prateleiras das locadores e, o que é mais importante, na história do cinema.
Mais do que um sucesso de bilheteria, de público e de crítica, um filme é uma obra de arte – e se você é um dos que não entende o cinema como arte, é produção de subjetividade e relevante forma de expressão humana.
Quantas obras cinematográficas foram repelidas no passado e, no entanto, são hoje consideradas profundamente importantes? Sobre a pintura de Pollock, por exemplo, posso informar que a revista Life, mais tarde, se retratou e dela passou a falar muito bem, obrigado.
”Código 46” discorre sobre uma realidade distópica na qual as divisões sociais são muito claras e se dão pelo mérito individual, medido por uma corporação denominada Sphynx.
Trata-se de um universo integrado, globalizado e pasteurizado, no qual “in vitros”, clones e toda sorte de quimera “tecnumana” coexiste em relativa harmonia e sem aparentemente nutrir qualquer preconceito.
A língua, que aos olhos de uns teria se democratizado, por outros seria descrita como mais uma colcha-de-retalhos, tão sem raiz ou identidade quanto os que as utilizam em toda parte do mundo – ou ao menos nas partes do mundo para onde a Sphynx lhes permite ir.
Totalmente controlado e protegido até de si mesmo, o Homem criou artifícios que o tornam melhor, mais adequado, mais eficiente e uma estrutura social orientada a almejar estar “dentro” e não estar “fora”, seja lá o que isso signifique para este bicho sem identidade no qual o Homem de Código 46 se transformou.
Com uma direção sensível e uma narrativa rica de interpretações, Michael Winterbottom nos permite ver não mais que o necessánecessário, concentrando-se na janela estreita de um caso de amor impossível tão menos árido que o aparentemente rico ambiente entorno dos personagens.
Tergiversando livre e sensualmente acerca do fator humano através dos personagens de Tim Robbins e Samantha Morton, a película converge com o título de forma cruel e shakespeareana. O filme não deixa nunca de evidenciar o brilho eterno das mentes que, mesmo sem a lembrança do que é ser humana, permanece em seu fulgor a despeito do ambiente inóspito no qual se insere.
A tragédia de “Código 46” alerta discreta mas inexoravelmente para as conseqüências de nossos atos enquanto espécie, mostrando em quanto podemos nos transformar em escravos de um complexo emaranhado de códigos pelos quais nós mesmos somos responsáveis.
Não é difícil perceber que entendo este como um filme importante, daqueles para os quais acho muito pouco relevante se alguém gostou ou não.
A super-exposição a um conjunto reduzido de narrativas e discursos cinematográficos nos tornou preguiçosos e mal acostumados, opinativos demais e pouco competentes na arte de contemplar a arte. Nos tornamos intolerantes e muito rápidos em condenar algo a parecer um prato de macarrão com molho.
Mas hoje em dia é assim que os “livros” são queimados... sem alarde.
A personagem de Samantha Morton nos pergunta algo no filme: “Se você tivesse informações suficientes e pudéssemos prever as conseqüências de seus atos. Você iria querer saber? Se beijasse aquela garota, falasse com aquele sujeito, assumisse aquele cargo ou casasse com aquela mulher, se soubéssemos o que aconteceria seríamos capazes de dar o primeiro passo? Seríamos capazes de tomar aquela iniciativa?”
Censuramos e condenamos, sem maiores julgamentos, livros, quadros e filmes simplesmente por deles não gostarmos, deixando de lado seu mérito intrínseco, sem entretanto questionarmos numerosos aspectos do mundo moderno, como nossa relação com a tecnologia e tantos preconceitos individuais.
O filme preconiza um futuro possível, nos mostra como este mundo perpassa a vida de pessoas comuns nele inseridas e clama por atenção a tais questões, pedindo discernimento e ponderação.
Oferecendo-nos boas vindas ao deserto do real, a película nos propõe uma charada e, se ao longo de “Código 46” escutamos a todo momento que “A Sphynx sabe o que faz”, sugiro que nos lembremos de uma outra esfinge, que em dada parábola nos disse: “Decifra-me ou te devoro!”
Bruno Accioly
A coisa funciona mais ou menos assim... Eu vou ver um filme e temos duas opções (com gradações de cinza no meio): gostei ou não gostei.
Se eu não gostei não vou ficar me dando ao trabalho de "ver um filme por um ângulo que não tinha pensado originalmente". De repente eu faço isso um belo dia se vir o filme de novo.
Sim, o mesmo vale para artes plásticas. Se vejo um quadro o resultado imediato é: gostei/não gostei. Sinceramente não estou preocupado com a intenção da obra do artista assim como esse artista não estava preocupado se eu ia gostar ou não. Sacou? Eu não devo mais "respeito" ao artista e sua obra do que ele teve a mim. É uma troca justa.
No caso eu gosto dos trabalhos do Pollock mas não gosto de boa parte da arte abstrata por aí. Porque gosto e bunda cada um tem o seu.
De repente um dia eu leio algo mais sobre o artista, entendo o contexto e posso vir a gostar mais da obra. Faz parte, é como ver um filme de novo.
E é assim que a coisa funciona.
Publicado por: Cristiano Dias em dezembro 29, 2004 10:38 PMAcho que cada um deve fruir a arte como quer, como pode e como se sente a vontade.
É tão válido experimentar uma obra através de um único aspecto quanto através de uma infinidade de aspectos.
Se a fruição da obra é a obra do espectador, afinal, ela tem mérito intrínseco.
O que coloco no texto é apenas que existem consequências à forma de experimentar a arte.
Estas consequências reforçam modelos e conceitos... daí minha alusão à queima de livros.
A obra enquanto entretenimento é uma obra. A mesma obra enquanto experiência é outra obra.
A fruição pode se dar em muitos níveis e de diversas formas.
A minha forma é só mais uma.
E é assim que a coisa pode funcionar.
Publicado por: Bruno Accioly em dezembro 30, 2004 12:05 PMOu vocês podem ir ver Meu tio matou um cara, se divertir por alguns minutos e depois esquecer.
Publicado por: Fernanda Rena em janeiro 3, 2005 11:01 PMParticularmente, eu acho que esse filme tem dois lados.
Um lado, o filme conseguiu reunir: "Brilho Eterno de uma mente sem lembranças", mais "Encontros e desencontros" e um pouco de Edipo rei.
Essa parte eu não gostei do filme. Ele reune uma historinha boba romantica.
Mas se você perceber o nome do filme, lembrar da primeira cena, que diz o que representa Codigo 46, vai ver que o filme quase não fala sobre isso.
Achei que o assunto deveria ter sido mais abordado.
Depois que ele descobre que a guria tem o msm DNA que o da mãe, pronto, acabou, ele foge, e UHU são felizes para sempre.
Transcendendo a idéia do filme enquanto produto e dando a ele a chance de ser uma obra, costumo ter muito receio em identificar más escolhas de roteiro, direção e até atuação.
Existem muitas réguas pelas quais podemos medir uma obra e estas réguas passam, por exemplo, por não gostar do filme ser preto-e-branco, não gostar dele ser colorido, não gostar da quantidade de tons de verde presentes na tela etc.
Parece-me que uma mesma história, lida por diferentes indivíduos, pode facilmente ser interpretada como magnífica, estúpida, gloriosa ou bobinha - adjetivos antagônicos mas que são os únicos que os espectadores conseguem ter para entregar ao fim da "leitura".
O fato é que uma história boba hoje pode vir a ser entendida como magnífica amanhã... e se não o for, ainda assim o valor intrínseco da obra permanece.
Seu comentário me remete a um papo que tive com a Anna Paula Maron outro dia (http://www.annamaron.com.br/blog/).
Falávamos de gostar e não gostar de filmes, de livros etc e eu disse o seguinte para ela: "Por vezes me parece que não aceitamos a obra pela obra... a obra como ela é. A impressão que me dá é que, por vezes, afirmamos que 'Guernica', de Pablo Picasso, seria muito melhor se as linhas que o compõe fossem meia polegada mais finas".
http://www3.baylor.edu/~Jesse_Airaudi/guernica.jpg
Compreendo plenamente a crítica, claro, e vejo a forma pela qual a fazemos hoje como parte da fruição que nos permitimos da realidade a nossa volta.
Busco, contudo, o questionamento da forma de fruição que nos impomos ou que meramente desejamos nos impor...
Particularmente gostei da história de amor romântica naquela realidade distópica. Para mim é justamente esta porção do filme que o redime de ser apenas mais um thriller de ficção científica.
De fato, como descrevo no post, identifico estreita relação entre a primeira cena e o restante do filme.
A diversidade de opiniões e impressões, daqueles que têm a experiência com a obra, corrobora, por si mesma, com a noção de que a opinião individual é irrelevante diante da importância intrínseca da obra.
Não falo da intenção do autor aqui, mas da importância da obra enquanto fenômeno modificador do meio.
Sob muitos aspectos, a obra é tão importante para o espectador quanto ele se permite que ela seja ou quanto ele pode se permitir que ela seja - ao menos naquele momento.
Publicado por: Bruno Accioly em janeiro 26, 2005 04:55 PMCódigo 46 é clássico desde já. Tão interessante quanto, menos belo que e mais denso do Gattaca. Sensacional, perfeitamente executado, Tim Robbins excelente pra variar… é um filme complicado de degustar, mas se por ventura formos sem economizar a energia pra volta, dá pra ir até lá e gostar muito. Na minha estante: clássico.
Publicado por: Eduardo Rocha em março 7, 2005 07:08 PM"Row, row, row your boat,
Gently down the stream.
Merrily, merrily, merrily, merrily,
Life is but a dream."
A chave do filme é cantada por uma criança - a inocência - que, ao contrário da protagonista do filme, sabe cantar.
Ela, apesar de não saber cantar e de não ter a chave, é livre, presa do lado de fora... e sente saudade dele.
Ele, contudo, não tem como sentir saudades dela - deve continuar remando - e sua ignorância é o que preserva sua felicidade.
...A vida é somente um sonho.
Poético.
Publicado por: Bruno Accioly em abril 15, 2006 01:54 AM
