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fevereiro 12, 2005

A tal da Natureza Humana

«"Gosto Superior" | Principal | Festa da Carne sem Carne»



Em mais um presunçoso debate acerca do Homem, do mundo e das coisas, eu, Cristiano Dias e Eduardo Gouveia, passeávamos por Tecnologia, Ciência, Filosofia e tudo mais sobre o que o construímos nossa realidade...

Foi à forma determinista pela qual abraçamos um ou outro aspecto desta disciplina que chamei de “remendos na barragem”... um comportamento que me parece crônico nos dia de hoje, em que não costumamos questionar as premissas do que fazemos, seguindo na construção de coisas por sobre fundamentos crescentemente duvidosos.

Minha preocupação não é meramente prática. Não me importa tanto se as coisas “poderiam ser piores”, mas se as coisas poderiam ser melhores!

Entendo o questionamento como uma atividade legitimada em si mesma e a reflexão pura como algo que não deve ser desqualificado de ante-mão, sob o preço de reduzirmos questões a meros resultados práticos de curto e médio prazo.

Cristiano Dias levantou o fato de que, historicamente, uma espécie de Darwinismo Social – uma hipotética curva antropológica – forçasse o Homem a evoluir sempre a passos pequenos, até um momento de ruptura, quando uma nova realidade se sobrepõe a anterior.

Trata-se de uma magnificamente elaborada racionalização em cima de algo que de fato ocorreu e vem ocorrendo ao longo de toda a história humana e, talvez, a melhor forma que eu já tenha visto de se dizer: “É a Natureza Humana... o que se há de fazer?”

O mérito da teoria é inequívoca, como o mérito do próprio Darwinismo, do Lamarquismo e (por que não dizer?) do Criacionismo – e aqui, provavelmente, só os Protestantes e Evangélicos iriam concordar.

Parece-me haver estreita relação entre nossa insegurança em não ter controle sobre as coisas, as pessoas e os acontecimentos e nossa obsessão em conseguir respostas, no lugar de continuamente investigar a VerdadeAqui expressa como a diferença entre a realidade que é percebida pelo Homem e o Real, que talvez exista para além da percepção do Homem..

Esta insegurança e obsessão por controle me parece impelir-nos a, após fazer sensoAqui colocado no sentido de teorizar explicações em cima de evidências empiricamente coletadas ou intuídas. das coisas, independente da qualidade das evidências em favor de nossas impressões, concentramo-nos em perpetuar, a todo custo, tais opiniões, construindo castelos de novas opiniões cada vez mais altos sobre estes alicerces de confiabilidade duvidosa.

Seguindo esta linha de raciocínio, procuramos algo que justifique a realidade percebida, segundo nossos termos, para então defender esta justificativa com unhas e dentes, tentando identificar uma ponderabilidade que talvez sequer exista.

No processo, acabamos não questionando nossos conceitos – ou preconceitos – preferindo as nossas confortáveis justificativas à trabalhosa busca por respostas alternativas.

Antes que, novamente, alguém puxe a carta da “Natureza Humana” para justificar tal comportamento e ir de encontro ao que coloquei na mesa, vale perguntarmo-nos se isso não é um reflexo do nosso tempo, de nossos meios de produção e da forma que demos a nossa civilização – entendendo aí, possivelmente, até 3000 anos de evolução ocidental.

Vivemos em um mundo onde as pessoas têm pouco ou nenhum tempo para o crescimento pessoal, para o questionamento moral ou aquisição de conhecimento; um mundo onde a formação acadêmica e profissional é altamente especializada e orientada à resultados, à eficiência e à objetividade; um mundo onde cada indivíduo tem formação tão diversa da de seus semelhantes que sequer é capaz de compreender o que fazem, o que os move e o porquê de pensarem de determinada forma.

Há ainda uma profunda estratificação cultural e social, uma preocupante concentração de renda e uma conseqüente indiferença com os porquês do que ocorre em lugares diferentes daqueles em que se vive.

Somando essa realidade à noção de que a GlobalizaçãoEm Política: Política nacional que vê no mundo inteiro uma esfera propícia de influência política; internacionalismo, imperialismo (Houaiss) e a Convergência CulturalTendência para aproximação cultural do indivíduo, grupo ou povo para fins comuns ou não, se adaptando a uma cultura predominante ou às culturas envolvidas retirando traços significativos – sejam eles lingüísticos, artísticos, ideológicos etc. é intrinsecamente benéfica, se não necessária, um pesadelo OrwellianoRefere-se a George Orwell – autor de “1984”. se descortina.

Só pensamos no futuro impelidos pela necessidade de adquirir melhores resultados, com a maior eficiência possível, com um tempo para reflexão tão menor quanto conseguirmos, sacrificando a qualidade de nossas decisões.

Olhando para trás, então, identificamos decisões de qualidade, na melhor das hipóteses, sofríveis, sem jamais questionar as premissas que nos levaram a conseguir tão lamentável resultado, até porque não devemos gastar nosso precioso tempo com o que já passou.

O controle foi perdido no momento em que nos comprometemos, a todo custo, com tais premissas, entretanto nos agarramos a este cânonePor extensão de sentido: Maneira de agir; modelo, padrão. sócio-cultural como nos agarramos às tais respostas às quais chegamos de forma tão leviana. E tudo isso para não perdermos um controle que nunca tivemos.

É uma relação neurótica com um construtoConstrução puramente mental, criada a partir de elementos mais simples, para ser parte de uma teoria. frágil, que evoluiu em cima de um alicerce comprometido ao longo do tempo que permitimos que evoluísse.

Tentamos defender nosso modus vivendiModo de viver, de conviver, de sobreviver. a todo momento, como alguém recém desperto de um sonho bom e que passa feliz o resto do dia sem bem saber o porquê... ou como um animal de corte, feliz por comer uma farta refeição, ignorante da morte iminente.

”A lei da natureza era o Caos: O Homem sonhou com a Ordem”, disse o historiador americano Henry Brooks Adams (1838-1918), e talvez isso ajude a elucidar a essência do questionamento proposto.

Criamos insistentemente racionalizações elaboradas para justificar nossos defeitos e os defeitos de nossos pequenos modelos. Douramos a pílula amarga pela qual somos responsáveis e fazemos isso não apenas para justificarmo-nos diante dos outros, mas diante de nós mesmos.

Todas as teorias, filosofias e ciências são exemplos clássicos desta necessidade humana em fazer senso do Universo. O que bem pode ser nossa maior qualidade pode igualmente ser nosso maior defeito, se insistirmos defender quaisquer destes cânones de forma absoluta, em detrimento do direito a Não Saber e Continuar Tentando.

A diversidade, em suma, não precisa existir apenas no âmbito social - através da diferença ou divergência entre indivíduos - mas também pode ser expressa na tolerância individual para com os demais cânones.

Mais que tolerância, a busca de um entendimento pode ser conseguida através do questionamento constante das próprias premissas, do questionamento sistemático do alicerce dos castelos que construímos em redor de nós mesmos.

O Sol, visto das janelas de outros castelos, erigidos sobre diferentes fundações, têm uma beleza própria. Aprender a bater nos portões sem tentar colocá-los abaixo pode ser um exercício edificante por si só.

Bruno Accioly


Categoria: Como vejo o mundo...

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