"Pensando bem..."
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"Que obra de arte é o homem; tão nobre no raciocínio, tão vário na capacidade; em forma e movimento, tão preciso e admirável, na ação é como um anjo, no entendimento é como um deus; a beleza do mundo, o exemplo dos animais."
O Senhor da fazenda chegava à casa grande depois de uma ida à cidade. Seguiam-no as carroças de café, já sem suas cargas mas apinhadas de negros cansados e pingando suor, tantas foram as sacas que haviam sido embarcadas no Porto de Santos.
Nada mais havia a fazer o resto do dia e poderia, orgulhoso, descer de sua bela montaria e apreciar-lhe o magnífico porte enquanto era escovado e limpo.
Já de cima da varanda da casa grande, sentado em sua cadeira predilecta, via sua excêntrica aquisição, o Cavalo Árabe que comprara de Assis Brasil.
Não havia outro fazendeiro que tivesse bem tão precioso e belo, mas tinha certeza que todos lhe invejavam ao saber-lhe a posse de tão grandioso animal.
O Sol lhe incomodava sobremaneira sem a brisa que lhe vinha ao rosto enquanto montava, e fez sinal para que um negro lhe viesse abanar.
Sem saber bem o que fazer, o escravo sacudia sem muita destreza o abanador de madeira e palha.
Era nessas horas que o Senhor tinha certeza da superioridade que Deus havia lhe dado sobre aquelas criaturas feias, preguiçosas e insubordinadas. Era nessas horas que lhe vinham filosofias à cabeça...
“Ah, como seria bom se tudo fosse tão perfeito quanto um Cavalo Árabe” – pensava – “As criaturas seriam menos suscetíveis e substituíveis, seriam mais importantes que são hoje.”
“Se assim fosse” – continuava – “tudo seria mais belo e durável, minhas vestes seriam as mais airosas e duradouras, a casa grande não teria de ser caiada tantas vezes por ano e as rodas das carroças seriam mais resistentes aos buracos do caminho.”
“Os compadres, por hombridade, já não precisariam cobrir as negrinhas para parecerem viris e sentir-se poderosos. E os casamentos seriam felizes por muito mais tempo.”
“E como a felicidade conjugal duraria mais, as gentes não iam precisar de tanto conforto para suprir a felicidade que lhes falta e acabariam adquirindo menos posses.”
“Todos teriam sorrisos nos rostos e não mais se fixariam no vazio dos dotes acumulados.”
“Por não precisar mais ganhar tanto dinheiro os Senhores do Café não iam precisar produzir tanto, necessitar de tantas mãos no campo e poderiam dividir suas posses entre aqueles que trabalham.”
“Todos poderiam ser iguais ainda que não o fossem e, cheios de dignidade, transformar o trabalho em algo edificante, nada penoso, podendo até receber um bom dinheiro, pois haveria muito!”
“As fazendas iriam ver os negros escravos como homens de bem, iguais, e precisariam produzir menos café, dando tempo aos pobres para ler, escrever e fazer arte!”
“Com o dinheiro dos fazendeiros fluindo por entre os não-mais-escravos iam todos ter o razoável e não a riqueza obscena que se tem para... espere um instante?!”
“Mas e eu? Eu ia acabar não tendo tanto... E se não tivesse tanto, ia acabar não podendo comprar meu Puro-Sangue...”
“...Pensando bem: que bom que nem tudo é tão perfeito quanto um Cavalo Árabe, não é?”
E se quiser saber do que estou falando, tenha um pouco de paciência e clique no link abaixo para ver um vídeo publicitário (5,11 Mbytes):
"Pensando bem..." - A nova campanha da Volkswagen
IDEC . Consumidor quer empresa responsável
Portal da Propaganda . AlmapBBDO cria nova campanha da Volkswagen
CMI Brasil . Pensando bem o comercial da Volkswagen
IDEC . Idec pede suspensão da campanha da Volkswagen
Radar pOp . O futuro monolítico que os outros querem para você
Caso não possua o plug-in do Shockwave Flash, clique aqui.
Bruno Accioly
Neste meio tempo tenho ouvido: “que propaganda absurda, que anúncio cretino! o que esses caras querem? acham que o mundo é isso?”
E eu penso cá com meus botões: “mas é só um comercial de carro, porquê o estardalhaço?”
Pergunto: porquê o estardalhaço?
Publicado por: Eduardo Rocha em março 28, 2005 04:04 PMA questão, Eduardo, é que não há de fato estardalhaço.
Se devia haver?
Vejamos...
Será que valores morais são relativos?
Será que a propaganda é formadora de opinião?
Será que ameaças tácitas em propaganda, ainda que bem humoradas, são producentes?
Será que a hermenêutica do "discurso social", hoje, tem consequências prejudiciais para o futuro?
Será que paralogismos super produzidos são responsáveis?
Todas estas perguntas são pertinentes e há mecanismos sociais para os quais se apelar para coibir comportamento considerado como contra-producente.
O post que aqui coloquei é um exemplo que discorre acerca de Cavalos Árabes. Poderia ser sobre qualquer coisa.
Não é como se a propaganda fosse uma obra literária de ficção... um "Código DaVinci".
Trata-se de uma propaganda.
A propaganda foi feita em nome da venda de um produto. Tenta fazê-lo através do estabelecimento de um discurso e de uma suspensão de descrença.
Haverá quem concorde e quem discorde desta e de outras propagandas.
A propagando "O que você faria com alguns quilos a menos?" ou aquela que mostra um homem que fica bonito quando entra no mais novo modelo de automóvel, são reflexo dos valores de uma sociedade - e perpetuam ou acentuam tais valores.
Acreditar que a propaganda não interfere em nossas vidas é não acreditar em propaganda... é não acreditar que nossas opiniões são estimuladas pelo que vemos, pelo nosso meio.
Seja como for, Eduardo, não acho tão dessemelhante o meu "Pense bem" do "Pense bem" da Volks.
A discussão moral é pertinente e a analogia que fiz é a expressão do que penso.
Propaganda, filme, livro, camiseta, afirmações, opiniões, moda, jornais, revistas... é tudo produção de subjetividade.
A minha pergunta é: É neste mundo que queremos viver?
Estardalhaço? Não vi em lugar nenhum... nem aqui.
Publicado por: Bruno Accioly em março 28, 2005 04:31 PMA meu ver vc faz uma paródia (muito bem feita por sinal) na qual traz em seu bojo um quê de crítica moral ao conceito do filme publicitário. A meu ver, e posso estar completamente equivocado, este filme cai na mesma categoria de crítica em que se enquadram quadrinhos, cinema ou qualquer tipo de “produção de subjetividade” que seja, artístico ou não. Ao fim do último domingo vi uma reportagem na qual mostrava que um assassino (dito “marginal”) havia gravado o hediondo fim de sua vítima (um garoto de classe média) via o mecanismo de vídeo de um telefone celular (aliás, de longe, o modo mais criativo que vi desta engenhoca até hoje, imagino que anúncio poderia dar!) e me perguntei se eu tinha de ter visto aquilo, talvez eu gostasse de ser avisado antes, talvez o aviso em si gerasse ainda mais atração mórbida, será mórbida realmente, mas ter visto parte do tal vídeo não me fez nada bem? sem querer me perder, se o filme publicitário deve passar por um crivo moral, aí temos censura, e isto seria um retrocesso ou não? que encrusilhada fantástica esta a qual estamos não? Não sei, eu agora quero menos do queria antes, seja isto o que for, comprar um VW, ainda mais o Fox. Não detestei o comercial, pelo ao contrário, mas discordo de modo absoluto do conceito, até porquê existem ainda 1.000.000 de saídas para filmes publicitários para automóveis do que usar mulheres seminuas ou conceitos de poder. Mas afinal, você quis criticar a moral do anúncio? e se a resposta foi “sim”, porquê?
Abração.
Publicado por: Eduardo Rocha em março 28, 2005 05:02 PMRealmente esta propaganda é de um mal gosto inacreditável. A humanidade, na escala Jardim das delícias, está em algum ponto entre o segundo e o terceiro quadro... e quando eu vejo uma peça dessas eu quase torço para ver o terceiro quadro virar realidade... Tomara que eu não seja aquele cara de onde saem passaros pretos pela bunda...
Publicado por: Mairus em março 28, 2005 05:07 PMParece-me que há um tremendo equívoco aqui, Eduardo.
Existe uma enorme diferença entre a Moral, a discussão acerca da Moral e o Moralismo. São questões dissociadas a não ser pela raiz da palavra.
O liberalismo exacerbado, o fazer o que se quer, o hedonismo absoluto, o individualismo total, nada disso está absolutamente qualificado, deterministicamente mapeado e totalmente digerido.
A discussão acerca da Moral, do Modus Vivendi e das consequências da forma que escolhemos nos relacionar uns com os outros e com o nosso meio está aí para ser discutida... e não é.
Mais que isso, há quem sugira que nada seja questionado, que quem tenta questionar está apenas sendo fatalista ou pessimista.
Entendo que você não veja mais que estardalhaço no que eu ou outros poucos sites dissemos acerca do comercial da Volks.
A meu ver, contudo, o que escrevi foi muito menos uma paródia que algo profundamente similar ao comercial da Volkes - embora ambientado em uma realidade/tempo/universo distante daquele em que vivemos hoje.
Não há dúvida que, enquanto alguns vêem em "1984", "Admirável Mundo Novo" e "Código 46", uma mera alegoria de nossa realidade, eu vejo uma relação direta, um reflexo de nós mesmos que não identificamos por pura miopia cognitiva e falta de auto-crítica.
Ambos os lados... todos os lados, usam os instrumentos sociais disponíveis para coibir a manobra de massa.
Não afirmo que comerciais de televisão sejam menos produção cultural que livros ou filmes, mas que se trata de material criado com o objetivo definido e utilitário de vender produtos, a qualquer custo e não necessariamente levando em conta a responsabilidade que existe na formação de opinião.
Se há ou não má fé ou conspiração pouco me importa - ao menos neste post - entretanto me importa muito identificar o que identifiquei como estando imbuído neste discurso (seja a mensagem intencional ou não).
Liminares para cá e liminares para lá, o comercial vai voltar ao ar e sair do ar. A censura sempre existiu. A proibição é censura, mas a crítica também é. O fato é que os instrumentos legais estão aí, bem como o ferramental de formação de opinião.
Exerço o papel que, segundo penso, me cabe.
Não sei se já reparou nos quadros ao fim dos meus posts, nos quais está escrito "Você quer saber mais?". Mas aquilo está ali por um motivo.
No meu entender, vivemos, todos os dias, uma realidade que em nada deixa a desejar aos filmes citados.
A frase "Você quer saber mais?" foi tirada diretamente de "StarShip Troopers"... e por muitos motivos.
Tente lembrar das propagandas nas telas de TV do futuro de "StarShip Troopers", tente lembrar do que sentiu ao vê-las e se pergunte se é naquele mundo que você deseja viver.
É o que faço todos os dias, ao olhar a tela de minha TV. Não me acomodo nesta realidade, não me sinto a vontade e não me furto a mostrar em quanto vejo semprodução de subjetividade que discorra ou pareça descrever uma realidade opressiva e totalitária.
E se "Você quer saber mais?" é a pergunta, Eduardo, cada vez mais percebo que a resposta que está em toda parte é um sonoro "NÃO"...
..."quase ninguém parece querer saber mais."
Publicado por: Bruno Accioly em março 28, 2005 10:10 PMO mundo é egoista!!!
Publicado por: Etel em março 29, 2005 12:09 AMHahahahaha!...
E eu comentando o quanto esse comercial incitava o consumismo e o "american way"!
Hahahahaha!...
Não é possível ignorar o poder (coercitivo???) da propaganda, não é possível ignorar o imenso poder da cultura de massa. Não se trata de cercear a liberdade de expressão, e sim, criticar o uso irresponsável e reacionário de algumas linguagens. Eu adorei seu texto.
Publicado por: Vivien em abril 4, 2005 02:39 PMO engraçado é que eu gostei do texto também. Mas deixa pra lá porquê entrar na seara da discussão sobre gosto versus opinião relativa cansa pra burro.
Não creio que a propaganda tenha tanto poder assim, como também creio que a VW cometeu um erro tão grande quanto a SKOL, por exemplo, ao aprovar a música clássica como trilha de fundo para sua “Ilha Quadrada”.
Demonizar a publicidade não adianta nada. Da mesma forma que não consigo concordar que os guris em Columbine encheram os amigos de chumbo “influenciados” pelo filme “Matrix”.
Achei este post uma das melhores coisas que andei lendo na Internet ultimamente. Só quis discutir até que ponto vão determinadas coisas.
Gostar ou não, não interessa tanto, pra mim.
E não estou ligando se estou certo ou errado, da mesma forma que não estou ligando se o comercial é certo ou errado, a discussão é adiante. Perder tempo com esquerda e direita embota a mente.
Cordialmente
Edu.
Publicado por: Eduardo Rocha em abril 7, 2005 09:57 PMGoebbels acharia isso discutível.
Está aí um ponto no qual eu e o maldito concordamos.
Produção de Subjetividade é formadora de opinião e não só é a medida deu uma sociedade, como pode ser usada para controlá-la.
Bruno Accioly
Publicado por: Bruno Accioly em abril 8, 2005 09:31 PMOk, concordo. Eu estou equivocado.
Publicado por: Eduardo Rocha em abril 12, 2005 03:10 PMBruno Accioly,
Parabéns pelo engajamento e pela riqueza de conteúdo.
Concordo plenamente com tudo que você disse.
Estava há algum tempo procurando por esta propaganda, pois como não assisto muita tv, nao tive a chance de assisti-la mais que uma vez, mas foi o suficiente para ficar chocada.
Obrigada pela oportunidade!
