"Em boa Companhia"
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O mundo corporativo, como vem se tornando em toda parte, é retratado nesta comédia com talento dramático de Paul Weitz. Competentemente, Dennis Quaid e Topher Grace, nos permitem ver para além da comédia romântica que as resenhas insinuam.
Sim... eu fui em boa companhia, o que é importante. Mas talvez seja ainda mais importante o que este filme pode dizer, ainda que não tenha sido esta a intenção do escritor, diretor e produtor, Paul Weitz.
Talvez seja fato que fique marcada, de forma indelével, a cara de uma época e de uma sociedade, nos filmes, livros e na música que elas produzem; por outro lado talvez eu é que esteja "lendo demais" onde não há tanta coisa escrita... seja como for, se você está aqui, no mínimo, é porque aprecia ler qual a última presunção de Bruno Accioly – auto-intitulado um dos mais românticos, apaixonados e esperançosos profetas do apocalipse.
Seja qual for a explicação, quem lê isso aqui sabe que nenhum filme está a salvo de ter seus subtextos – intencionais ou não – escrutinados (sem “trocadalhos”, por favor) por minha cacholinha ensandecida.
Dennis Quaid vive um pai de 51 anos, com duas filhas lindas e mais uma a caminho, casa hipotecada e esposa compreensiva, inteligente e carinhosa – uma família nada disfuncional e bastante conservadora; Topher Grace é um rapaz de 26 anos, não tem filhos (e queria tê-los), precocemente bem sucedido e com uma esposa indiferente, desinteressada e fria – um casamento fadado à destruição, completamente disfuncional e desequilibrado.
Ambos são vendedores, o personagem de Topher um desapaixonado ambicioso pela atividade, mas cheio de atitude e respeitável conhecimento acerca das boas práticas do ramo; o outro com todo conhecimento que se espera de alguém há 23 anos fazendo a mesma coisa e amando cada passo do caminho.
A empresa na qual o personagem de Topher trabalha, compra a empresa de Quaid, escalando Topher para substituí-lo e começar um processo de demissões em massa.
Se não os estou fazendo rir até o momento é porque, mais de uma vez, passei por este processo e sei o quão doloroso ele pode ser.
O personagem de Quaid, Dan Foreman, passa por tudo sem muito jeito, sem conseguir saber como se portar diante de um chefe tão mais novo que ele, tendo que lidar com a gravidez da esposa, fazendo uma segunda hipoteca para cobrir os custos dos estudos da filha – que passou a morar longe dele para cursar Escrita Criativa em Nova Iorque... e, para complicar mais o roteiro, Carter Duryea, o personagem de Topher Grace, se envolve com a filha de Foreman – vivida por Scarlett Johanson.
Aparentemente inofensiva, inocente e insípida, a “comédia” despeja sobre o espectador mais atento uma saraivada de citações que chamam à reflexão e comandam que se acorde para o que se passa na tela.
Em alguns momentos fica claro que o Personagem de Topher simplesmente tem responsabilidades demais para a idade. Não só fica estampado isso nas frases do personagem de Quaid e de suas filhas, mas nas falas do próprio rapaz que acaba de alcançar o novo cargo sem tanto mérito – graças à compra de uma outra empresa.
Em outros notamos a sensação de impotência dos personagens mais velhos, que percebem a arbitrariedade do sistema e nada podem fazer a respeito, sendo julgados não por seus potenciais, atitudes ou profissionalismo, mas pelos gráficos da empresa – que cortam pessoas como se fossem meros números até por não terem como fazer diferente diante desta realidade.
Carter Duryea, de 26 anos, não trabalha porque ama o que faz, apenas para alcançar seus números, adquirir mais e nunca parar – para isso usando de um “jargonês” incompreensível e destituído de significado o suficiente para ninguém entender mas achar que tem que fazer o próprio trabalho; Dan Foreman, de 51 anos, é um apaixonado por seu trabalho e acredita que faz o que faz para o bem das empresas para as quais faz – e usa de seus princípios e dos valores de uma época que já passou.
Não é à toa que Foreman é taxado de “dinossauro”; não há lugar para significado elaborado, responsabilidade moral e baboseiras do tipo em um mundo dinâmico e de decisões rápidas (e necessariamente irrefletidas). “Risco calculado... erramos e aprendemos... mas não gastemos tempo com princípios e ética!”
Acentuando a perspectiva do roteiro e exagerando nas cores, temos um invasor que pilha, prejudica e pisa em tudo o que é das gerações anteriores só porque é de sua natureza e que, ainda por cima, toma para si a filha daquele que antes era o senhor do castelo.
Sempre se pode afirmar que eu sou paranóico com relação a Globalização do Pensamento e com o International Way of Life, entretanto, Teddy K., o dono da empresa que compra, sucateia com idéias improcedentes, usa de discursos retóricos a qualquer custo e destitui os direitos morais do empregado do significado inerente que neles existem... e isto acontece em toda parte.
Exagero? Talvez, mas sabe qual o nome da empresa no filme?
Global.com...
...e a defesa descansa...
A boa notícia, contudo, está em como ambos os personagens conseguem se harmonizar e respeitar mutuamente ao relaxarem suas relações. Ao abrirem mão do cânone globalizante para serem eles mesmos e encontrarem suas próprias saídas, finalmente conseguem alcançar um novo caminho em direção ao bem comum.
O problema de nenhum dos dois personagens é conhecimento – há muito que não é este o problema. Há que se descobrir, contudo, que precisamos de atitude para nos dispormos a encarar o que não queremos conhecer e sabedoria para alcançar a noção de que há muito mais para se conhecer nos lugares onde nada se vê.
Foreman, enfim, descobre que precisa fruir de sua relação com a nova geração, e reconhecer seu potencial, para poder conseguir mais dinamismo e funcionar na nova ordem; Duryea, por sua vez, que há mais jornada entre os pés e o correr que o que se encontra sobre uma esteira ergométrica... e que não há nada como singrar, avidamente, o caminho em direção a um pôr-de-sol que jamais será alcançado.
IMDB.com . Ficha do filme no IMDB
Estação Virtual . Resenha do Grupo Estação
Apple.com . Trailer do filme em diferentes resoluções
Amazon.com . Para comprar o filme
Yahoo Movies . Resenha do Filme
RottenTomatoes.com . Resenha do Filme
Bruno Accioly
"Sempre se pode afirmar que eu sou paranóico com relação a Globalização do Pensamento e com o International Way of Life, entretanto..."
1) O "l" de "International" não apareceu para mim. Somente neste copiar e colar que entendi q o termo utilizado não foi "Internationa"
2) O que é "International way of life"? Saiu de algum lugar? Tem mais sobre isto?
3) Vc é, talvez, insistente (somos). Paranóia é outra parada.
Na verdade, foi um termo cunhado só para o post "International Way of Life" é só uma insinuação acerca de onde vem e para onde vai a tão alardeada Globalização.
O engraçado quanto a esta insistência é que, a cada post, mais me parece que não entendem que falo sempre da mesma coisa :-)
Publicado por: Bruno Accioly em julho 28, 2005 03:40 PMAcho mesmo que você viu mais do que realmente existia para ser visto. Digo isto pois chequei no IMDB o Paul Weitz. Mas é mesmo este o mistério da fé: conseguir turbilhonar um monte de idéias a partir de um elemento que não foi mais que o catalisador. Tenho acompanhado seu desassossego (nossa, quanto “s”, fui até conferir) com a vida corporativa como representação do processo de globalização. E porque você o vive. Vivemos, na verdade. Relativizo (é próprio destes tempos relativizar) as questões éticas e humanitárias que sobrevêm destas facetas de realidade que você aborda. Parece-me que os coeficientes de mediocridade, violência, ética, ignorância, entre outros, sejam historicamente quase que constantes equilibrados em uma equação química. Pende para um lado, compensa de outro e a forma como este equilíbrio se faz dá o retrado daquele espaço-tempo. Em um oriente antigo no qual honra fosse “bem de consumo” mais valorizado que em nossa atualidade acidental (com trocadilho) as violências individuais seriam quem sabe mais severas. Mas isto é, enfim, só um olhar relativizante (versão plus, agora com o “elemento idiosincrático” que faz mais por sua aldeia global). Acho que falta um filme que tente nos ver neste admirável mundo novo que percebemos batendo a nossa porta. Não um documentário, não um romance, mas uma tentativa de apreender uma visão prática deste novo cânone existencial que enfrentamos.
Isto é, entretanto, realidade apenas para quem a faz real. Os que lutam por pirão de farinha em Nigéria, ou no Nordeste desconhecem esta realidade. O desassossego só é possível de barriga cheia. Com fome não há espaço para ética, estética ou filosofia. Mas este filme deveria apreender também estas realidades. E quem sabe tentar nos propor um retrato do que seremos amanhã. O que, presumo, nos apresenta o filme em questão, é um pouco do que já sabemos ser. E, duvido que cause reais engulhos para quem o vê.
Foi nestes dias que me ocorreu de forma mais insistente a questão do entretenimento. Isto é entretenimento. A cultura americana é a do entretenimento. Brasileiro é que tem presunção e hipocrisia de chamar entretenimento de cultura.
Ah, mas é aí que está. A meu ver é impossível ler mais do que lá está, embora ache possível que eu tenha lido mais que o Weitz tenha tido a intenção de escrever.
Também fui verificar a ficha na polícia do diretor de "American Pie" e produtor de "American Pie 2" - e outras pérolas - ainda assim acho que você devia ver o filme.
Se o Sol foi Deus que fez, o Diabo ou as Leis da Físicas, ainda assim foi o Homem que viu nele Deus, o Diabo e as Leis da Física. Há, na paisagem, sempre muito mais pra ler porque quem lê somos nós - creio que concorda comigo.
Sob este aspecto, como costumo colocar aqui pelo blog, produção de subjetividade é só mais um acidente geográfico e, avaliá-lo tanto pela cogitada intenção do autor quanto pela fábula que se percebe escondida no texto por você mesmo, só enriquece a nossa realidade.
Não sei se colocaria num filme de duas hora a responsabilidades por todas as questões sociais da humanidade. Creio que é razoável que um filme aborde apenas uma questão, por um determinado ângulo e que possamos lidar com tal filme individualmente.
Há questões, com barriga cheia, há questões com barriga vazia. Há até Filosofia, com barriga vazia... mas a natureza de cada escola filosófica, advinda desta condição de fazer senso do entorno, varia de condição para condição humana, claro.
Seja como for, estamos contextualizados na realidade em que estamos. E acho pertinente mesmo que haja reflexão a partir de qualquer cômodo deste castelo cheio de torres e pátios.
Publicado por: Bruno Accioly em julho 28, 2005 11:26 PM