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outubro 03, 2006

“Fast-food Nation”

«Filosofia - Ciencia&Vida | Principal | Generalizações»



Fragmentando a realidade em torno de um fato, Linklater passeia rapidamente pelo impacto que as cadeias de fast-food têm na saúde pública para logo navegar por um oceano de implicações sociais e culturais muito mais complexas, com direito a subtextos brutais e denúncias que vão além da culpabilidade das Corporações e sugerem nossa cumplicidade e responsabilidade por nosso modus vivendi.


















Em débito com o Festival do Rio 2006, resolvi quebrar a corrente e ir em pelo menos um dos dois filmes de um dos meus diretores prediletos - Richard Linklater - e, como eu esperava, o dinheiro do ingresso valeu!

O filme teve algumas críticas ruins aqui e acolá, mas eu confio na visão do diretor de “Antes do Amanhecer”, “Waking Life”, “Tape”, “Antes do Pôr-do-Sol”, “A Scanner Darkly” etc. e resolvi marchar para esse festival que tem uns horários que deixam qualquer pessoa que trabalha de cabelo em pé (ainda bem que eu sou careca).

O filme gira em torno de um sanduíche, o Big One, um hambúrguer gigante que o pessoal de marketing da cadeia de lanchonete Mickey’s criou e que vem sendo “superavitário” desde seu lançamento. Há, no entanto, um problema: “Uma universidade encontrou coliformes fecais na carne”... no frigir dos ovos... “Há merda na carne”.

O diretor do departamento de marketing do Mickey’s começa então sua jornada de investigação pelo mundo maravilhoso da produção em massa de carne, com a intenção de descobrir se há alguma verdade na alegação ou se não passa de um mal entendido.

Enquanto isso tudo vai acontecendo, o filme vai se fragmentando em tramas paralelas tão aparentemente díspares quanto uma família de mexicanos que entra ilegalmente para trabalhar no território americano – na produção de carne – até uma família cuja caçula é uma inteligente menina que é caixa de uma lanchonete Mickey’s.

Vale dizer que “Big One” é o nome de um documentário de Michael Moore que critica os E.U.A. e Mickey é o nome do personagem americano que, por um bom tempo, foi o símbolo de seu expansionismo cultural. Se tais referências são intencionais ou não eu não sei, mas me chamaram a atenção de imediato – sem mencionar o nome da mexicana, que se chama nada mais nada menos que Coco.

A aparência desconexa do filme, que salta de uma trama para outra com a agilidade própria de Linklater, pode parecer uma falha narrativa, se descontextualizada da história, entretanto, me parece muito mais que isso.

Quando se trata deste diretor, minha aposta é que tudo é parte de uma mensagem maior. O fato de todos os personagens estarem e se sentirem completamente impotentes o tempo todo, diante de uma realidade opressiva, sem mesmo ter como registrar isso em toda sua dimensão e, ao mesmo tempo, serem vividos por um elenco – a meu ver – formidável, é um significado em si mesmo.

Todos ali são importantes. A mensagem Personalista Kantiana, onde todo ser humano deve ser um fim em si mesmo e jamais um meio apenas, está ali em toda sua glória, enquanto a realidade em torno dos personagens renega esta visão violentamente fazendo, de cada um dos que ali estão, meros degraus para um progresso corporativo pragmático, objetivo e orientado a resultados a qualquer custo.

Greg Kinnear é o diretor de marketing que investiga a merda na “fábrica de carnes”; que emprega ilegal e negligentemente mexicanos - Wilmer Valderrama e Catalina Sandino Moreno - tratados como lixo; que se sujeitam a tudo para poder viver o Sonho Americano comendo fast-food servido por Ashley Johnson e Paul Dano; cuja carne é analisada regular e corruptamente por Bruce Willis; que é denunciado por Kris Kristofferson, cuja fazenda improdutiva vem sendo cercada pela especulação imobiliária e pelo progresso na forma de uma estrada que vai encampar seu território se ele não recorrer do processo; que nem se compara em produção a fazenda da “fábrica de carnes”, que concentra enormes quantidades de cabeças de gado para abate; que são alvo de preocupação e ação de Avril Lavigne e sua “gangue”; cujas ações são fúteis embora meritórias, mas que não dão resultado dado ao estado apático das vítimas diante da realidade e permanecem onde estão, sem sequer saber que estão presas e produzindo o cocô que vai infectar sua carne para só então servir de alerta para o que há de errado.

Linklater tenta, e consegue – a meu ver – fazer com que o espectador mais interessado perceba que não só “A Nação” vêm se alimentando de Merda, mas que as pessoas, que de alguma forma constituem esta nação, vêm sendo tratadas como Esterco e vêm se acostumando a serem rodeadas de um papo que é puro BullShit em nome de um sistema que é uma Bosta e de um sonho que já vem decantando no vaso faz uma data.

Eu até poderia fazer apologia à alimentação vegetariana e tal... mas, sinceramente, não está em mim fazê-lo. O que posso dizer é que vale ver o filme, que ele gera reflexão, incomoda e te coloca em movimento.

Ethan Hawke - o tio idealista de uma geração perdida que quase nada conquistou e cujas causas pífias que abraçou são uma sombra das causas abraçadas por seus pais - faz o papel obstruso do Sábio Eremita que, jogando xadrez com Ashley Johson, aproveita sua jogada para seqüestrar a atenção da menina e abrir-lhe os olhos...

O que importa é que o filme nos mostra que o buraco na cerca está bem ali e que podemos levantar os traseiros gordos que viemos cultivando. O traseiro gordo recheado com toda Merda que gostamos de achar que nos foi empurrada pela goela ao invés de ingerida volutariamente.

A Verdade é indigesta!

...agora é a sua vez. A próxima jogada é sua!

Uma tempestade está se formando... ela se chama Humanidade...
Quando ela precipitar, vai ser algo glorioso de se ver...

Bruno Accioly


Categoria: Cinema Independente

Consegui recomendar um bom filme mesmo sem tê-lo visto!

Publicado por: Lorena em outubro 3, 2006 03:04 PM



Ah, e traseiro gordo é o da senhora sua bisavó!

Publicado por: Lorena em outubro 3, 2006 03:06 PM




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