outubro 13, 2004

Cultura na Web

Foi menos divulgado do que todos nós gostaríamos, mas desde o início deste ano o Instituto Moreira Salles passou a disponibilizar na web uma parte substancial de seu acervo de obras raras.

Este novo Espaço Cultural Virtual é extremamente valioso para aqueles que almejam entrar em contato com a cultura nacional e não conseguem encontrar facilmente informações acerca de fotografia, música, literatura e teatro.

O sistema de cadastro pode parecer um tanto enigmático para os menos atentos, mas basta preencher o formulário e certificar-se de que a opção "Acesso aos conteúdos exclusivos" esteja selecionada.

O material reunido pelo Instituto Moreira Sales consiste em uma das mais importantes coleções do país, conservadas com o uso de técnicas especializadas e por profissionais extremamente competentes.

Dentre o acervo musical deste Espaço Cultural Virtual estão mais de dez mil obras produzidas entre 1902 e 1964, sendo Pixinguinha, Orlando Silva, Carmem Miranda e Noel Rosa alguns dos nomes de compositores e intérpretes disponíveis.

Iniciativas do tipo são raras em nosso país e o mérito do projeto é inequívoco, mesmo não sendo a Internet um meio tão democrático quanto todos nós gostaríamos que fosse.

Cadastrar-se não só oferece a oportunidade de fruir esse conteúdo exclusivo e raro disponibilizado pelo instituto, mas passa ao IMS a mensagem de que estão no caminho certo e de que o empenho em desenvolver este tipo de projeto não é em vão.

Postado por baccioly em 08:30 PM | Comentários (2)

outubro 06, 2004

Homens e Livros...

Em suas próprias palavras, condenado a ser o Andersen desta terra, Monteiro Lobato abriu os olhos das crianças para um Mundo das Maravilhas, onde se dava a releitura da história e das fábulas, integrando culturas e despertando a curiosidade.

Não sei se você teve a oportunidade de ler algum dos dezessete volumes das Obras Completas de Monteiro Lobato mas, se não teve, deveria gastar um tempinho procurando para seus filhos e - por que não? - para você mesmo ler.

A coleção é dividida em duas séries, uma adulta, com treze volumes e esta, da qual estou falando, com dezessete inesquecíveis portais para o Mundo das Maravilhas de Lobato - uma espécie de projeto de assimilação cultural que usava de personagens originais para fazer a criança ter contato com uma miríade de outras obras ficcionais e momentos históricos reais.

Para mim, Monteiro Lobato foi o responsável pelo meu primeiro contato com a literatura, contato esse promovido pela Dona Lourdinha, minha mãe e amiga que usou de livros e muito amor para me fazer entender a tolerância, a justiça e a virtude.

Sem críticas vazias ao modus vivendi de hoje, concordo profundamente com a máxima de Lobato: "Um país se faz com Homens e livros". No meu entender, não se trata de Homens e revistas, Homens e brochuras ou Homens e blogs.

Embora a tecnologia aí esteja, a praticidade, custo e a base instalada de eBooks estão muito aquém do que seria necessário para substituir os livros convencionais para cento e setenta milhões de brasileiros - dos quais uma grande parte sequer sabe ler.

O interesse pela leitura, batalha inglória travada por uma minoria de pais, não é substituível por qualquer outro interesse. A música é um meio, o cinema é outro, a TV um terceiro - ainda que sucateado - e cada um deles cumpre um papel no crescimento da criança como pessoa. Não ler por opção é como não tomar vitamina B por opção. Por mais que não se morra disso, os sintomas são identificáveis e as sequelas dificilmente podem ser combatidas a contento.

Antes de saber ler eu ouvia Dona Lourdinha me contar as histórias. Era, para mim, um super-poder dos adultos, sorver com os olhos os rabiscos das páginas dos livros; maior ainda o poder de contar histórias, se envolver com elas e, ainda assim, cuidar das lágrimas e dos risos nervosos que um eu-criança não conseguia conter.

A conquista da leitura enquanto habilidade, da escrita enquanto forma de expressão e das pessoas que te lêem enquanto espectadores, pode ser tão mágica quanto viver no mundo de Lobato...

...e como ele mesmo disse:

"Tentei arrancar de mim o carnegão da literatura. Impossível. Só consegui uma coisa: adiar para depois dos 30 o meu aparecimento. Literatura é cachaça. Vicia. A gente começa com um cálice e acaba pau d'água na cadeia".
São Paulo, 16/6/1904

Minha super-heroína não me faltou, nem aos futuros netos, achando os dezessete volumes e presenteando essas já grandes mãos de criança com o saudoso tesouro literário.

Se escrever é uma cachaça de fato, bem queria eu que tivéssemos mais beberrões a cada esquina, com o dedilhar em teclados a substituir as goladas e soluços.


Postado por baccioly em 10:39 AM | Comentários (2)

outubro 02, 2004

"Dolls"

De engenheiro que não deu certo, passando por dançarino de striptease até conseguir ser ator de TV, Takeshi Kitano nos trouxe, em 2002, uma pérola da qual pouca gente fala e muita gente ia gostar de ver...

"Dolls" é belíssimo, está passando no TeleCine e discorre acerca da natureza do amor, das desventuras a que ele pode levar e do que se perde ao abrir mão dele por medo de sofrimento.

Como você deve saber, não acredito em sinopses, portanto, veja o filme.

Está passando na NET-Rio este mês no Domingo, dia 17/10 à 00h45... como sempre em um horário acessível! :¬)

Os preguiçosos, que querem saber logo o que eu vi de tão especial no filme, podem ler o texto disponibilizado no link mais abaixo

Uma pintura em rosa e cores pardas, Dolls aborda o amor pelos seus defeitos.


Mostrando como o humano é disfuncional e frágil, ele leva o incauto espectador a sentir as próprias asas arrancadas na figura de uma borboleta morta, na esfera perfeita maculada de um brinquedo de criança e no flutuar balouçante de uma folha de outono que flui a deriva num rio caudaloso.


As alegorias insistentes contrapõe o corpo desfigurado aos sacrifícios, cicatrizes e perdas advindas de amar apaixonadamente.


Os amantes, nas mãos de forças muito mais poderosas que eles, não são mais que títeres de si mesmos e de tudo que não compreendem.


A tragédia que se desenrola a partir do desejo carnal, da ternura angelical e da perpetuação do amor na memória, ata-os e os conduz por sendas inóspitas e destrutivas - e ao mesmo tempo por aventuras que define-os como vivos, embora loucos.


O diretor nos tortura pelo caminho estereotípico do amor romântico ocidental até a trilha arquetípica do amor humano, que propõe universal.


A catástrofe na qual parece transformar o amor, entretanto, para aquele que sabe olhar o rosa da paisagem pardacenta, vale cada bocado de dor e desespero.


Amor romântico, absurdo, quântico, solitário, platônico ou jâmbico... é ele o responsável pela única cor que vale o filme todo... o rosa que se vê no perfume das flores, nas amarras que nos prendem a quem se ama e na dor do sangue-sacrifício derramado sob si.

Postado por baccioly em 02:26 AM | Comentários (219)

outubro 01, 2004

Patriotismo

As discussões sobre patriotismo, hoje, me parecem mais próximas de discussões de futebol que qualquer outra coisa. Há maturidade política no cidadão brasileiro do início do Século XXI?

Sem querer comprar nenhuma briga, convido-o a ler a bela poesia abaixo e continuar a ler este modesto post antes de meditar junto comigo acerca do que Tagore escreveu.

Onde a mente é intrépida

Onde a mente se conserva intrépida e a cabeça se mantém erguida; Onde o conhecimento é liberto; Onde o mundo não se esfacelou em fragmentos ...cindido por provincianos muros; Onde as palavras emanam das profundezas da verdade;

Onde o progresso incansável estende seus braços à perfeição; Onde o fluxo cristalino da razão não perdeu seu curso ...nos áridos desertos de rotinas inertes;

Onde a mente é conduzida adiante por Ti ...à ascensão progressiva da reflexão e da atitude, ...àquela liberdade idílica, meu Pai, permita que meu país acorde!

Rabindranath Tagore

Esta poesia foi escrita pelo ganhador do prêmio Nobel de literatura de 1913, Rabindranath Tagore (1861-1941), indiano que influenciou profundamente Ghandi e os fundadores da moderna Índia.

Ontem a noite, no Inside Actors Studio - programa levado ao ar no Brasil pelo canal MultiShow - tive a oportunidade de ver Martin Sheen declamando em estas linhas em inglês.

Um aspirante a ator, que dissera ser formado por West Point e discordar frontalmente do ativismo de Sheen, afirmou ter ficado maravilhado com a integridade do ator e com o fato de ter se identificado tanto com ele.

Martin Sheen afirmou algo como: "Tive a oportunidade de participar de muitos filmes que demonstram minha posição de oposição a algumas políticas de nosso grande país", e continuou, "No meu entender, ser patriota é como ser pai. Não adianta passar a mão na cabeça de seu filho toda vez que ele faz algo de errado; é necessário, para que ele não se torne um mau-caráter, que seu comportamento seja questionado e que fique bem claro para ele que errou."

Tendo mencionado a poesia de Rabindranath Tagore, declamou-a ante os pedidos de sua platéia.

Martin Sheen não é um cínico, não se contenta com as coisas como são nem finge conhecê-las muito bem, aceitando a realidade como ela se apresenta. Ele tenta alterar o seu meio como pode, seja através de seu ativismo ou na formação de opinião de atores mais jovens.

A noção do que é dever e o que é direito vem se perdendo há algum tempo no Brasil. Alguns esperam que o Estado tudo faça, outros que os cidadãos se mexam para que toda e qualquer coisa aconteça. Há entretanto o que é direito do cidadão e o que é dever do Estado. Quando se enturvam as fronteiras entre uma coisa e outra todo tipo de injustiça pode acontecer e todo tipo de ativismo improcedente pode ter lugar. Ser patriota é uma virtude magnífica, mas é preciso ser Patriota com Consciência!

A Consciência - essa desconhecida - se atinge pela aquisição de conhecimento, pela reflexão e por uma gama de meios que são de responsabilidade tanto do cidadão quanto do Estado.

Se o Estado não dá condições para que o cidadão adquira o conhecimento ou tenha condições para a reflexão - se ele não viabiliza estas virtudes através da educação e da promoção de atividades culturais, por exemplo - há sim plenas condições e procedência para que indivíduos, grupos ou instituições promovam movimentos sociais de protesto.

Como disse recentemente um grande amigo meu, Alexandre Maron: "Reduzir um problema a uma questão é o primeiro passo para não resolvê-lo". De fato, perde-se a noção do problema como um todo, quando se elege uma questão, ou sintoma, como seu causador único ou mais importante. A atitude de combate ao sintoma muitas vezes se torna meramente leviana e fútil.

Façamos o que podemos, enfim, mas o façamos com responsabilidade, sensatez e reflexão!

Postado por baccioly em 02:40 PM | Comentários (5)