novembro 30, 2004

Tutto nel mundo e Burla

A delícia do sarcasmo, para mim, está em fazer uma troça causticante das macaquices do ser humano.

Ok... de uma forma ou de outra tudo que fazemos é macaquice, mas acho o máximo quando alguém conta uma piada boa como “Brazil – O Filme”, “Muito além do Jardim” ou “O Show de Truman”, como resposta aos caminhos que a sociedade como um todo vem percorrendo com a cumplicidade de cada um de nós.

Encontrar as incoerências em nosso modus vivendi não é fácil, visto que estamos dentro do ventre da besta, mas alguns de nós conseguem fazê-lo de forma magistral, seja fazendo filmes, músicas, livros, contos, poesias ou mesmo piadas.

Esse é o mérito de gente muito boa como Mairus Maichrovicz e suas piadas elaboradas; Fernando Pessoa e sua poderosa eloqüência poética; Isaac Asimov e sua prolífica obra acerca do potencial do Homem; George Orwell e uma leitura mordaz do totalitarismo; Jards Macalé e a irreverente leitura musical que faz do mundo; Terry Gilliam e sua concepção distópica da realidade; Peter Sellers e sua magnífica interpretação da alienação; e tantos outros que não caberiam neste post.

Em 5arcasmos |v|últiplos sonho fazer o mesmo que tanta gente especial andou fazendo por aí e fico feliz de ver que coisas como "The Meatrix" vão aparecendo a todo momento.

Que não confundam meu sarcasmo com cinismo pois "sou do tamanho do que vejo e não do tamanho de minha altura".

A sensibilidade necessária para ver o risível onde deveria haver o pranto; a mordacidade construtiva com intuito de promover o questionamento; a honestidade causticante que grita "o rei está nú"; tudo isso é de uma ousadia e rebeldia deliciosamente íntegras!

Se "Tutto nel mundo e burla"... Ri melhor quem ri por último.

  I started a joke

I started a joke, which started the whole world crying,
oh but I didn't see that the joke was on me, oh no.
and I started to cry, which started the whole world laughing,
oh, if I'd only seen that the joke was on me.
and I looked at the skies, running my hands over my eyes,
and I fell out of bed, curseing my head from things that I'd said.
Til I finally died, which started the whole world living,
oh, if I'd only seen that the joke was on me.
and I looked at the skies, running my hands over my eyes,
and I fell out of bed, cursing my head from things that I'd said.
'Til I finally died, which started the whole world living,
oh, if I'd only seen that the joke was one me.

                                                                     The Bee Gees

Postado por baccioly em 04:34 PM | Comentários (2)

novembro 29, 2004

EXTRA: O que é LitraCon?

Um novo tipo de tijolo de concreto pode mudar a forma de pensar arquitetura e construção. Durável, resistente e... Translúcido(!), o novo material mistura as qualidades do vidro e do concreto.

Para ler este post clique no link abaixo ou na figura ao lado...

LitraCon joga nova luz sobre a arquitetura

Postado por baccioly em 04:04 PM | Comentários (0)

Final dos tempos...

E se eu já disse que parei de me perguntar para que servem as trapizongas tecnológicas regurgitadas pelo mercado ultimamente, basta dar uma olhada no aparelho abaixo para entender o porquê.

A Vodafone japonesa exibiu, em feira de telecomunicações recente, um protótipo de seu aparelho que tem como acessórios Caixas de Som Externas!

Assim, ao chegar em casa, basta colocar seu celular em cima da mesa, encaixado aos speakers, para poder tocar seus gigas de MP3 instalados em seu celular.

É sempre uma possibilidade, lógico, levar as caixas de som com você para... sei lá... parar na frente de um barzinho e "tirar uma onda" com seu "poderoso" aparelho de som "portátil".

Em casa, para que você não precise levantar da poltrona para pular uma MP3 da Kelly Key, instalada sem querer, a Vodafone - que parece mesmo pensar em tudo - disponibilizou um Controle Remoto BlueTooth.

Ah... e ao contrário da EOS 10cel, que eu inventei de brincadeira, o protótipo deste Vodafone está previsto para lançamento como produto em meados do ano que vem.

Postado por baccioly em 11:35 AM | Comentários (3)

novembro 25, 2004

Os fins são a mensagem

Alguém se lembra de Além da Imaginação? Alguns sim e outros não, eu presumo; mas foi ao ar um episódio, uma vez, do qual eu queria falar um pouquinho.

Como devem imaginar, ninguém matou a minha babáMais conhecida como televisão... : ) quando eu era mais novo e, talvez por isso, cresci assim: forte, bonito, corado, modesto e obcecado pela telinha.

Tá certo... a TV aberta conseguiu piorar muito desde que eu era garoto, mas eu me lembro que “Além da Imaginação” – em sua versão original, apresentada por Rod Serling – era veiculado para o deleite de fãs de todas as idades.

Depois de um longo e tenebroso inverno sem o programa, a Rede Globo resolveu, no final da década de oitenta, comprar alguns episódios da nova versão da série nos EUA. Já colorida e com uma linguagem menos pesada e sombria, o formato era um retrato dos novos tempos, atendendo a mais demografias e tal.

Pessoalmente eu gostava de todos os episódios mas, recentemente, lembrei-me de um episódio em particular com o qual me identifiquei profundamente.

O nome do episódio era “WordPlay”, ou “Jogo de Palavras”, e contava a história de um vendedor que, em vista da entrada de uma nova carteira de produtos médicos com nomes estranhíssimos, tinha de estudar avidamente o novo catálogo. O trabalho hercúleo era inviável, daqueles que o chefe dá pra nós quando sua esposa dormiu de calça jeans na noite anterior.

O sujeito, contudo, se sente relativamente pronto para encarar mais um dia de trabalho à luz da nova realidade que, de forma tão inesperada, se fez presente em sua vida profissional.

O dia vai até transcorrendo bem, com quase imperceptíveis mas bizarras ocorrências envolvendo palavras. Ao telefone, por exemplo, um cliente menciona seu 17º “capacho”, no lugar de “aniversário”. Os incidentes, contudo, até esse ponto eram sutis demais para ocuparem a mente mais que por um breve momento.

As coisas vão se precipitando a medida que o episódio avança e, com o tempo, o personagem principal passa a compreender uma quantidade substancialmente menor de palavras, frases até que, por fim, não consegue mais entender absolutamente nada do que lhe é dito pelos outros personagens. Até mesmo seu nome ele não mais reconhece.

Antecedendo o fim do episódio, passa por um traumático incidente em que tem de levar seu filho hospital junto com a esposa. Sem ter sequer condições de explicar ao atendente o que está acontecendo, fica claro que sequer tem condições de tomar conta de sua família e deixa tudo a cargo da esposa.

Na cena final, está sentado no quarto do filho, folheando as páginas de um livro infantil... Em uma das páginas, abaixo do desenho de um cão, constata, já resignado, que o significado de tudo a sua volta lhe escapara. Nas páginas do livro, que até uma criança entende, abaixo dos traços de um cão mal desenhado, a palavra “cadeira” se estampa com a violência que só a realidade consegue se impor.

Às vezes, por curiosidade, rebeldia ou loucura mesmo, alguns de nós teimam em seguir caminhos pouco óbvios, não tanto percorridos ou bastante perigosos, de repente não mais conseguindo, ao olhar para trás, ver as margens da realidade, da conformidade ou da sanidade.

Em “Missão: Marte”, o personagem vivido por Tim Robbins, por amor a esposa e por sentir o peso da responsabilidade sobre os outros tripulantes da nave que comandava, dá um salto para morte sem qualquer chance de retorno, terminando a deriva, caindo em direção ao Planeta Vermelho.

Em “Gattaca”, o personagem vivido por Ethan Hawke, tentando provar seu valor como indivíduo, como ser humano, vai além do que sequer entendia como impossível.

Abrir mão do próprio conforto, sacrificar-se por uma causa ou mesmo morrer por algo que se considere como mais importante, nem sempre é absurdo ou radical. Em alguns casos, a realidade é muito mais radical que tais atitudes. Globalizar uma noção de Válido não torna Inválido aquele que discorda da noção vigente.

Por vezes, a distância que resolvemos percorrer é grande demais, ousada demais, excêntrica demais... e mesmo percebendo outros tantos desistindo de ir tão longe ou sequer se aventurando àquelas paragens, em um gesto de calculada renúncia – que alguns chamariam de insensato – não guardamos forças para as braçadas de volta.


Postado por baccioly em 03:19 PM | Comentários (2)

novembro 24, 2004

Sinal dos tempos...

Já houve tempo em que eu me perguntava qual a real utilidade das coisas. Ultimamente tenho tentado parar de me perguntar pois, em muitos casos, não há resposta.

No elevador, indo para o almoço, eu, Mairus Maichrovicz e Vânia Azevedo, conversávamos brevemente.

Intrigada pela câmera fotográfica que o Mairus carregava a tira-colo, Vânia perguntou: "Vai tirar fotos por aí?"

Ao que o sujeito respondeu: "Não... é que minha máquina fotográfica tem um celular embutido. Tenho de levá-la sempre comigo."

Entrando na onda eu mesmo indaguei: "É mesmo? Que moderno!"

Mairus, sem perder a pose, retruca: "Pois é... A câmera é ótima, mas o celular tem um chiado meio chato."

A Vânia, já nos conhecendo e acostumada com nossas inexplicáveis viagens Monty-Pytonianas, já havia desistido de nós havia algum tempo.

"E a cobertura?" - continuei eu - "É boa?"

Ao que o Mairus me respondeu: "A cobertura é ótima! O problema é o alcance... só consigo falar com celulares no raio de 50 metros do meu."

Sem pestanejar, não me acanhei: "Ah! Mas já é um avanço!"

Ok... estamos brincando e tudo mas, a meu ver, é exatamente esse o rumo da tecnologia nos dias de hoje.


O fictício pesadelo tecnológico EOS 10cel.
Com bluetooth, Wi-Fi, FireWire, MP3 Player,
Rádio-Gravador e acesso à Internet (claro)!

Postado por baccioly em 04:45 PM | Comentários (3)

novembro 21, 2004

Eu sou você amanhã (II)...

Cyrano de Bergerac; o Talento vs. o Nariz"Talento não é desculpa", eu ouvi um grande amigo dizer um dia e, a despeito do contexto e da intenção do autor da citação, fica muito claro que Talento não é mesmo desculpa para quase nada...

...e definitivamente, Talento NÃO é desculpa para DEIXAR de executar uma boa idéia, um sonho antigo ou uma obra que - independente de não ser vista por ninguém como arte - tem o valor intrínseco emprestado pelo simples fato de que foi levada a cabo!

O 5arcasmos |v|últiplos recebeu a ilustre visita, recentemente, do meu chará-de-nome-e-sobrenome Bruno Accioly e Haruki Kume, da A&K Filmes, que me acharam, provavelmente, graça ao Google - que foi o responsável por eu mesmo tê-los achado em Agosto passado.

Ambos são responsáveis pela execução de um número respeitável de filmes independentes dos quais, provavelmente, você nunca ouviu falar.

O comentário não foi nada pejorativo. Semana passada vi uma entrevista do Arnaldo Antunes na TV a cabo acerca de sua obra "Nome", de 1993, produção de subjetividade multimedia .

Na entrevista, Arnando Antunes se viu diante da pergunta: "Como você encarou o fracasso da sua obra 'Nome'?", ao que respondeu, sem dificuldade, algo como, "Não entendo 'Nome♫' como um fracasso artístico, mas como fracasso de crítica. Até mesmo o fracasso comercial é questionável, uma vez que a crítica tem profundo impacto no que o consumidor acha que deve comprar".

Goste você ou não de Arnaldo Antunes, ou de "Nome", não importa. Ele de fato fez alguma coisa. Esconder-se por detrás do ombro de gigantes para não fazer aquilo que seu potencial latente lhe permite, está muito aquém do que devia-se esperar de si mesmo.

Meu tio, certa vez me disse, "Escreva... mesmo que ninguém leia, escreva. Nunca se sabe nas mãos de quem isso acaba; não é uma questão de dinheiro, mas uma questão da importância que você tem no seu espaço. Tudo o que você fala e escreve, tudo que alguém escuta e lê, modifica o seu em torno". Ele disse isso pois soube que eu pretendia parar de escrever. Como resultado, não parei.

Apesar do que o senso comum alardeia, a produção de subjetividade - ou a obra de arte - que nunca é lida ou vista, tem importância. No mínimo tem importância para o autor, lhe permitindo refletir e fruir a essência de si mesmo, em meio ao processo de criação, o que acaba por verter-se para o mundo através de seu discurso e atitudes.

Bruno "Que-não-sou-eu" Accioly e Haruki Kume são pessoas especiais, que insistem em produzir filmes (veja só!), em um mundo onde para manter uma obra nos cinemas é necessário gastar, por baixo, 10 milhões de dólares em marketing. Para mim, quem faz filmes, de fato, são eles, e não essa indústria fria e orientada a resultados que, em última instância, passaria a vender Balas Juquinha se estas fossem mais lucrativas!

Revisitando o que vêm produzindo tive a oportunidade de perceber a sutileza e sensibilidade da direção que, com ar de troça e insuspeita humildade, invade o espectador com mensagens tocantes e cheias de significado.

Redimindo-me dos comentários acerca do elenco, tenho de admitir que há um belo trabalho sendo desenvolvido pelos atores, sobretudo em "Bate Papos de Outono" e "Dedicação". Não se trata, obviamente, de um material convencional ou conservador em sua execução, mas de um discurso cinematográfico próprio e íntegro.

No fim, aquele que não expõe as próprias poesias, dado o tamanho do nariz, subestima aquele de quem as esconde... Se as expusesse, afinal, talvez fosse possível, então, olhar para além da grotesca forma que a insegurança força o autor a acreditar que existe.

Eu? Eu vou seguir o conselho de Haruki Kume, deixar de temer ser menos que Orson Welles e filmar logo meu humilde "Indivisível"!

Postado por baccioly em 04:02 PM | Comentários (2)

novembro 16, 2004

"Agosto"

Com direção de Paulo José e produção de Carlos Manga, “Agosto” é lançado sem alarde em DVD, enriquecendo as prateleiras das lojas especializadas.

Aconteceu em Agosto de 1954, mas eu só comprei em Novembro de 2004.

Magnificamente dirigida e produzida, a série “Agosto”, que foi ao ar pela Rede Globo de Televisão na década de 80, está disponível em DVD. Foi uma espera longa para mim, um cara que não costuma apreciar tanto as séries televisivas nacionais.

A caixa, cuja humildade despretensiosa salta aos olhos, não depõe contra a edição bem feita das vastas horas filmadas, viabilizando o produto sem comprometer demais o resultado final.

O material extra é exíguo, trazendo o clássico making-off, que fala mais dos efeitos especiais que de qualquer outra coisa – saído direto do Vídeo Show - mas consegue ser comovente ao documentar um recente e descontraído papo entre Paulo José e Carlos Manga, no qual se elogiam mutuamente e falam de alguns detalhes belíssimos do trabalho que desenvolveram.

A série transformada em um filme que se espalha por dois DVDs é densa e cheia de significado histórico, não tomando partido de Carlos Lacerda nem de Getúlio Vargas, contando a história do suicídio deste último, que começa pelo atentado ao primeiro e que tem como resultado a morte do Major Vaz.

Deslocando o eixo da narrativa do evento histórico, Paulo José e Carlos Manga fazem um belíssimo trabalho em filmar a obra literária de Ruben Fonseca, que se concentra numa história paralela envolvente com o personagem antológico vivido por José Mayer: o Comissário Mattos.

A expressão de todos os defeitos e qualidades masculinas, Mattos é um policial íntegro e incompreendido. O ex-advogado erudito, apaixonado por Ópera e pelo próprio passado é todo virtude e retidão. Fadado ao sofrimento e a sua destrutiva natureza romântica, o personagem noir é um mártir anônimo, o símbolo de uma virtude rara em um país cuja relatividade moral é raramente trazida a baila.

Tal relatividade é encarnada de forma magistral por Carlos Vereza, que acompanha o personagem de José Mayer sem compreende-lo completamente mas admirando-o como ninguém mais.

Se a direção é irrepreensível, o que dizer do elenco, encabeçado por José Wilker, Vera Fischer, Hugo Carvana, Letícia Sabatella, Elias Gleiser, Lúcia Veríssimo, Rodolfo Botino, Marcos Winter, Sérgio Mamberti e Norton Nascimento, com deliciosas aparições de Ary Fontoura, Lima Duarte, Mario Lago e Paulo Gracindo.

É inusitado, mas o soturno personagem Gregório Fortunato, o “Anjo Negro”, chefe da segurança de Getúlio é vivido de forma surpreendentemente convincente por Tony Tornado.

A quem recomendo a compra? A quem é Brasileiro!

Postado por baccioly em 09:12 AM | Comentários (2)

novembro 14, 2004

...que prende o meu pezinho

"Era uma vez uma formiguinha que ficou com o pé preso num floco de neve."

Não sei se alguém se lembra disso, mas eu costumo lembrar de três a cinco vezes por ano.

Quando era pequeno (sim, eu já fui pequeno) tive a oportunidade de ler uma fábula muito bacaninha. Naquela época as fábulas eram só bacaninhas pra mim, nada mais que isso. Ok... talvez eu percebesse alguma profundidade até então inalcançável para mim em algumas das fábulas que minha mãe lia para mim ou nas que eu ia encontrando pelo meio dos livros que ia lendo com dificuldade.

O fato é que essa fábula deixou uma marca indelével na minha cachola e acabou que nunca mais consegui me livrar disso.

Nos dias de hoje, em que as fábulas são consideradas bobas por quase todas as crianças que têm a idade que eu tinha (e possivelmente mesmo pelas outras crianças de minha idade na época), minhas fábulas são outras. Fico com os filmes que falam de totalitarismo, com os livros que falam dos tempos que já passaram, com as poesias que pouca gente lê e com a vontade de escrever minhas fábulas com um pouco mais de regularidade.

Gostar de fábulas é um dom e uma maldição. Me lembro que, desde pequeno, me interessava pelas palavras e frases, pelos parágrafos e livros, de uma forma muito diferente de meus colegas. Lembro-me de amar ficar até tarde vendo filmes ruins na televisão e, permissivamente (diriam uns), identificar o que de bom havia ali, extraindo do tempo que eu gastava com aquilo algo que eu pudesse aprender.

As fábulas são tão ruins ou bobas quanto quem não as entende, e tão magníficas e surpreendentes quanto quem as entende. Há tanto numa frase quanto cabe dentro de você, muito mais do que cabe entre a primeira e a última palavra que a compõe.

Apreender, de alguns parágrafos aparentemente inocentes, signos que abram portais para novos universos, é ter a disposição um mundo maior... é encontrar, na pobreza aparente das coisas, a riqueza escondida em si mesmo.

Cada um vive como quer, claro; e viver como eu - que presunçosamente sofro de gostar de ser como sou - nem sempre é fácil.

Dói ser tão verbal e gostar de escrever e conversar... e quase sempre perceber que só um ou dois, de todos que se conhece, concordam com sua visão de mundo. É tão sôfrego isso quanto o era quando uma menininha do primário não gostava de mim por eu querer ser astronauta.

No final, ser diferente - ou pensar-se diferente - pode ser muito doído.

O curioso é o motivo que me levou a escrever esse pequeno texto: o fiz graças a ter visto ontem "Condenação Brutal", com Silvester Stallone - vai entender!

O enredo do filme incomoda a muitos dos adoradores de filmes de ação e pancadaria estrelados pelo astro, que encarna um sujeito íntegro e que faz de tudo para não se meter em confusões, apesar de estarem todos querendo que ele o faça.

Não que o filme, de um modo geral, tenha uma profundidade temática intencional evidente ou coisa que o valha, mas apesar de todos os obstáculos, cada filme, para mim, até hoje, é uma fábula, uma parábola, uma alegoria da qual é possível apreender mais do que a soma de suas partes mais óbvias.

Frank Leone, seu personagem no filme, ajuda os presos a reformar e botar para funcionar um Mustang antigo que acaba se tornando um símbolo do que aqueles pobres diabos conseguem construir juntos, apesar da opressão de seu entorno.

Depois de pronto, o carro fica belíssimo e funcionando como um relógio. O diretor da prisão, Drumgoole - vivido por Donald Shutterland - acaba por ordenar a destruição do veículo por alguns dos outros detentos.

Após sair da "solitária", Leone volta à oficina da prisão, onde estão todos revoltados por terem tido seu carro destruído. Eles dizem querer vingança. Leone, furioso, esbraveja algo como: "Vocês realmente acham que este carro é seu?! Estamos em uma prisão! Trabalhamos neste carro, nos divertimos com isso, foi incrível, mas é só! Esse carro não é de vocês! Esse carro é de Drumgoole!", e continua, "No momento em que começarem a acreditar que este carro é de vocês, vocês se tornam propriedade de Drumgoole também! Não entendem?!".

Pode parecer curioso que este pequeno discurso tenha desencadeado este texto mas, para mim, a relação entre os detentos e "A Formiguinha" é deliciosamente óbvia.

Vale a pena procurar o filme na locadora ou TV a cabo... é um bom filme, afinal. Mas mais que isso, vale a pena questionar se a locação, a fatura da NET ou mesmo o enriquecimento pessoal, não ficam mais valorizados ao admitir que o trabalho de apreender todo um universo de interpretações e possibilidades, pode ser muito mais interessante do que a atitude passiva de compreender o filme como a soma dos minutos que perfazem suas duas horas.

Frank Leone, em “Condenação Brutal”, passa o filme todo tentando se afastar de problemas e se concentra em levar sua vidinha Zen dentro dos muros da prisão, engolindo cada um dos sapos que Drumgoole coloca em sua frente.

A pobre formiguinha vai ficar para sempre presa na neve se não tomar uma atitude e descobrir como se livrar do que está entre ela e a liberdade.

Por mais inexpressivo e inócuo que tenha sido este texto para alguns, quero crer que outros, ao lê-lo, consigam se livrar de todos os obstáculos entre si mesmos e a descoberta de que o senso comum não é senão uma idéia e que há muito mais entre as linhas de um texto e os minutos de um filme, que a soma de suas partes.

Segue a fábula "A Formiguinha e a Neve"

A Formiguinha e a Neve

Certa manhã de inverno,
uma formiguinha saiu
para seu trabalho diário.
Já ia muito longe,
à procura de alimento,
quando um floco de neve caiu
- pim! - e prendeu o seu pezinho!

Aflita, vendo que não podia
livrar-se da neve
e iria assim
morrer de fome e de frio,
voltou-se para o Sol e disse:

- Oh, Sol, tu que és tão forte,
derrete a neve
e desprende meu pezinho...

E o Sol, indiferente nas alturas,
falou:

- Mais forte do que eu
é o muro que me tapa!

Olhando então para o muro,
a formiguinha pediu:

- Oh, muro, tu que és tão forte,
que tapas o Sol,
que derrete a neve,
desprende meu pezinho...

E o muro que nada vê
e muito pouco fala
respondeu apenas:

- Mais forte do que eu
é o rato que me rói!

Voltando-se então para um ratinho
que passava apressado,
a formiguinha suplicou:

- Oh, rato, tu que és tão forte,
que róis o muro,
que tapa o Sol,
que derrete a neve,
desprende meu pezinho...

Mas o rato, que também ia fugindo do frio,
gritou de longe:

- Mais forte do que eu
é o gato que me come!

Já cansada, a formiguinha pediu ao gato:

- Oh, gato, tu que és tão forte,
que comes o rato,
que rói o muro,
que tapa o Sol,
que derrete a neve,
desprende meu pezinho...

E o gato, sempre preguiçoso,
disse bocejando:

- Mais forte do que eu
é o cão que me persegue!

Aflita e chorosa,
a pobre formiguinha pediu ao cão:

- Oh, cão, tu que és tão forte,
que persegues o gato,
que come o rato,
que rói o muro,
que tapa o Sol,
que derrete a neve,
desprende meu pezinho...

E o cão, que ia correndo
atrás de uma raposa,
respondeu sem parar:

- Mais forte do que eu
é o homem que me bate!

Já quase sem forças,
sentindo o coração gelado de frio,
a formiguinha implorou ao homem:

- Oh, homem, tu que és tão forte,
que bates no cão,
que persegue o gato,
que come o rato,
que rói o muro,
que tapa o Sol,
que derrete a neve,
desprende meu pezinho...

E o homem,
sempre preocupado com seu trabalho,
Respondeu apenas:

- Mais forte do que eu
é a morte que me mata!

Trêmula de medo,
olhando a morte que se aproximava,
a pobre formiguinha suplicou:

- Oh, morte, tu que és tão forte,
que matas o homem,
que bate no cão,
que persegue o gato,
que come o rato,
que rói o muro,
que tapa o Sol,
que derrete a neve,
desprende meu pezinho...

E a morte, impassível, respondeu:

- Mais forte do que eu
é Deus que me governa!

Quase morrendo,
a formiguinha
rezou baixinho:

- Meu Deus, tu que és tão forte,
que governas a morte,
que mata o homem,
que bate no cão,
que persegue o gato,
que come o rato,
que rói o muro,
que tapa o Sol,
que derrete a neve,
desprende meu pezinho...

E Deus, então,
que ouve todas as preces, sorriu.
Estendeu a mão por cima das montanhas
e ordenou que viesse a primavera!
No mesmo instante,
a primavera desceu sobre a Terra,
enchendo de flores os campos,
enchendo de luz os caminhos!

E, vendo a formiguinha quase morta, gelada pelo frio,
tomou-a carinhosamente entre as mãos
e levou-a para seu reino encantado,
onde não há inverno, onde o Sol brilha sempre
e onde os campos estão sempre cobertos de flores!

Postado por baccioly em 12:25 PM | Comentários (11)

novembro 05, 2004

"THX 1138"

Baseado em um projeto de faculdade de George Lucas, escrito em 1967 e com o auxílio de produção de Francis Ford Coppola, THX 1138 é uma obra prima do gênero e a frente de seu tempo tecnicamente.

Há algum tempo quero escrever acerca desta refilmagem do anônimo “THX 1138:4EB”, escrito e dirigido por Lucas na University of Southern Califórnia. Resultante deste trabalho final de faculdade, "THX 1138" foi para mim um desses filmes que - antes da TV a cabo - ao ligar o aparelho na Rede Globo, acabei encontrando algo que o Departamento de Perpetuação da Decadência Televisiva deixou passar.

Muita gente gosta de cinema. Pessoalmente, gosto de ver filmes mas, ultimamente, me parece mais que isso... parece-me que gosto de ter contato com as histórias que as pessoas contam. Em quanto mais níveis estas histórias funcionarem melhor para mim. A cada frase adicional viajo por significados cuja autoria oscila entre a intenção do autor e minha interpretação daquela realidade que diante de mim se dispõe.

“THX 1138” pode bem ser um filme de ação econômico e denso, sendo capaz, contudo, de ser muito mais do que isso. Como seu primo mais velho, “1984” - de outro George - o filme de Lucas pode ser fruído com superficialidade sem, entretanto, deixar de ser flexível e subjetivo o suficiente para que o espectador mergulhe em toda sua profundidade temática.

O personagem principal, incentivado pelo construto social do qual desfruta, ingere substâncias que o ajudam a ser “um ser humano melhor” sob muitos aspectos. A escolha é dele, como tantas outras. É ele também, que escolhe o holo-canal que vai assistir, dentre uma vasta programação cuidadosamente desenvolvida que contém o sexo proibido pelo Estado, a violência coibida pelos sedativos e a dança, que não parece guardar qualquer relação com o ambiente acético e inexpressivo no qual ele existe.


Para a comodidade de todos, cada armário controla a ingestão de substâncias de forma a impedir que um cidadão seja prejudicado pelas drogas ingeridas, o que prejudicaria o sistema como um todo.

Já havia visto o filme algumas vezes, o que acabou mesmo sendo responsável por tê-lo adquirido em DVD. Valeu a pena. O produto final de Lucas - a versão adulterada pelo diretor, claro - surge timidamente nas prateleiras como um filme moderadamente desconhecido mas profundamente importante, que entraria fácil para o gênero “filme-chato” segundo muita gente, como quase todo filme importante.

O que posso dizer é que este é um daqueles filmes que você pode contar inteiro e que não fará lá muita diferença, pois o impacto da experiência pessoal com o filme supera qualquer narrativa fornecida previamente.

Para quem se interessa por saber mais sobre a história e sobre minha visão acerca dos subtextos que a permitem funcionar em tantos níveis, vale clicar no link abaixo:

ATENÇÃO: O texto a seguir comenta a história do filme!

“Que obra de arte é o homem”, disse o grande-mestre... e eu concordo. O senso comum é uma forma de demanda e o Sistema supre essa demanda de forma progressivamente mais eficiente – ou ao menos é o que o filme advoga (e o que ando ouvindo por aí).

Em qualquer cadeira medíocre de marketing, entretanto, a gente aprende que a demanda é criada por quem vende o produto.

No filme, Robert Duvall - no papel de THX 1138 - é um operário cujo trabalho é construir os mecanismos mais óbvios de controle do Estado: sentinelas andróides cuja inteligência duvidosa e criteriosa polidez ficam claras desde o início.

O trabalho, extremamente valorizado, nesta sociedade orientada a resultados, tem um perfil técnico profundamente dependente de tecnologia e de uma precisão de execução quase inumana.

Em meio a uma rotina que, para nós, seria esmagadora e por si só entorpecente, LUH 3417, companheira de THX, deliberadamente passa a adulterar seu estoque de sedativos, trocando-os por estimulantes.

Não fica clara a forma pela qual, antes dele, sua companheira conseguiu escapar ao efeito das drogas, mas fica evidente que nada os impede de parar de ingerir as substâncias senão o condicionamento e um complexo e burocrático sistema de câmeras acopladas ao fundo dos armários de remédio.

Perdendo os referenciais mais básicos de seu entorno, devido a privação daquilo que apenas achava que precisava, THX procura uma das muitas "UniCapelasDo original UniChapels, onde um sistema especialista TespianMecanismo de inteligência artificial dedicado a conversação, o OHM 0000, recebe sua confissão, incentivando-o com um discurso tautológico e inexpressivo.

O amor e luxúria que se ocupam de THX atraem a atenção de SEN 5241 - vivido por Donald Pleasent – que, como LUH, trabalha tendo acesso as telas que supervisionam outros cidadãos.

Um excêntrico e doentio triângulo amoroso toma a narrativa quando SEN consegue afastar LUH, tornando-se companheiro de THX. Como resultado da confusão, que começara quando LUH repudiara o sistema, mudando o estado mental do companheiro, os três são detidos, julgados e condenados a ser confinados do lado de fora daquela sociedade “paradisíaca”.

A prisão, sem muros intransponíveis ou paredes distintas, não conserva seus prisioneiros senão pelo medo e condicionamento, o que não é muito diferente da realidade anterior vivida por cada um deles.

Torturado e perseguido, nesta prisão sem paredes, pelos mecanismos que ele mesmo construiu, THX é julgado irrecuperável, dadas as seqüelas causadas pelos estimulantes ingeridos e por não mais guardar referencial com o Estabelecido.

Constantemente exposto a indivíduos ensandecidos e comportamentos excêntricos, THX resolve uma vez mais se rebelar contra a situação que lhe é imposta e foge em direção ao nada, sem se importar sequer com sua ração ou necessidades, levando em seu encalço SEN, que as carrega o tempo todo preocupado em levar toda comida que pode.

Quando conseguem escapar da alvura de sua prisão de paredes indistintas, só o fazem graças ao único negro que aparece em todo o filme, que se diz - ou acredita ser - um holograma, e que no entanto se diz faminto. Sem guardar a mesma relação com seu em torno, só ele consegue identificar a saída.

Em contato com a sociedade, já do lado de fora da prisão em que estavam e do lado de dentro da prisão comum a todos os cidadãos, os três se deparam com uma multidão em turbilhão, todos indo numa mesma direção, da qual só o holograma e THX conseguem escapar e a qual SEN se apega irremediavelmente e por ela é levado.

Por mais que tente, SEN jamais consegue escapar, mesmo tendo todas as chances e recursos para tanto. Por medo, condicionamento, apego e conformismo, permanece no perímetro e é detido, sendo recuperado pelos sentinelas.

Tendo descoberto que LUH fora já reciclada como reprodutora e sequer existia mais, THX finalmente rompe todas as amarras com o Estabelecido e, com a ajuda do holograma - que acaba perecendo - consegue alcançar o caminho para a liberdade.

Prestes a alcançá-lo, os sentinelas e o sistema mostram o fundamentalismo de sua maior qualidade e o tamanho de seu maior defeito: orientados a resultados práticos e orçamentos inflexíveis, uma vez que o projeto de busca ao fugitivo tem seu orçamento máximo alcançado, a poucos metros de alcançar seu objetivo o sistema não mais os permitem continuar.

No fim tudo se resume a isso: “O sistema não permite”, e mesmo assim... “Que obra de arte é o homem!”


Imagens das alterações na versão do Diretor em DVD


Postado por baccioly em 09:37 AM | Comentários (3)