dezembro 29, 2004

“Código 46”

Numa narrativa corajosa, com um discurso denso e expressivo, o filme nos leva a uma jornada míope e alienada em um mundo no qual só os que o são conseguem sobreviver.

Sério e familiarmente sombrio, “Código 46” já chega aos cinemas condenado ao descaso, ao desgosto e ao esquecimento.

Diante das opiniões que venho colhendo, que condenam o filme com termos duros que vão desde mau executado, passando por pretensioso, lento ou simplesmente chato, muito pouco sobra para elogiar.

Do que sobra, contudo, o que me chegou aos ouvidos se referia a “Universo” imaginado pelos autores e que, assim mesmo, só nos deixa com gosto de quero mais.

Com tanta insatisfação no ar, pode-se dizer que o quadro geral está tão condenado quanto os primeiros trabalhos de Jackson Pollock.

Pollock desenvolveu um discurso artístico próprio, tenaz, marcante e arrojado que, em sua época, foi descrito pela revista Life como mais parecendo um “prato de macarrão com molho”.

Rejeitar o inusitado a primeira vista é comum, rotineiro e humano, não deixando, contudo de ser precipitado. Por vezes chega a parecer uma forma de defesa contra o desconhecido.

Para além do tal do resultado – leia-se “faturamento na praça” – não devíamos jamais esquecer do fato de que os filmes que passam pelos cinemas, acabam nas prateleiras das locadores e, o que é mais importante, na história do cinema.

Mais do que um sucesso de bilheteria, de público e de crítica, um filme é uma obra de arte – e se você é um dos que não entende o cinema como arte, é produção de subjetividade e relevante forma de expressão humana.

Quantas obras cinematográficas foram repelidas no passado e, no entanto, são hoje consideradas profundamente importantes? Sobre a pintura de Pollock, por exemplo, posso informar que a revista Life, mais tarde, se retratou e dela passou a falar muito bem, obrigado.

”Código 46” discorre sobre uma realidade distópica na qual as divisões sociais são muito claras e se dão pelo mérito individual, medido por uma corporação denominada Sphynx.

Trata-se de um universo integrado, globalizado e pasteurizado, no qual “in vitros”, clones e toda sorte de quimera “tecnumana” coexiste em relativa harmonia e sem aparentemente nutrir qualquer preconceito.

A língua, que aos olhos de uns teria se democratizado, por outros seria descrita como mais uma colcha-de-retalhos, tão sem raiz ou identidade quanto os que as utilizam em toda parte do mundo – ou ao menos nas partes do mundo para onde a Sphynx lhes permite ir.

Totalmente controlado e protegido até de si mesmo, o Homem criou artifícios que o tornam melhor, mais adequado, mais eficiente e uma estrutura social orientada a almejar estar “dentro” e não estar “fora”, seja lá o que isso signifique para este bicho sem identidade no qual o Homem de Código 46 se transformou.

Com uma direção sensível e uma narrativa rica de interpretações, Michael Winterbottom nos permite ver não mais que o necessánecessário, concentrando-se na janela estreita de um caso de amor impossível tão menos árido que o aparentemente rico ambiente entorno dos personagens.

Tergiversando livre e sensualmente acerca do fator humano através dos personagens de Tim Robbins e Samantha Morton, a película converge com o título de forma cruel e shakespeareana. O filme não deixa nunca de evidenciar o brilho eterno das mentes que, mesmo sem a lembrança do que é ser humana, permanece em seu fulgor a despeito do ambiente inóspito no qual se insere.

A tragédia de “Código 46” alerta discreta mas inexoravelmente para as conseqüências de nossos atos enquanto espécie, mostrando em quanto podemos nos transformar em escravos de um complexo emaranhado de códigos pelos quais nós mesmos somos responsáveis.

Não é difícil perceber que entendo este como um filme importante, daqueles para os quais acho muito pouco relevante se alguém gostou ou não.

A super-exposição a um conjunto reduzido de narrativas e discursos cinematográficos nos tornou preguiçosos e mal acostumados, opinativos demais e pouco competentes na arte de contemplar a arte. Nos tornamos intolerantes e muito rápidos em condenar algo a parecer um prato de macarrão com molho.

Mas hoje em dia é assim que os “livros” são queimados... sem alarde.

A personagem de Samantha Morton nos pergunta algo no filme: “Se você tivesse informações suficientes e pudéssemos prever as conseqüências de seus atos. Você iria querer saber? Se beijasse aquela garota, falasse com aquele sujeito, assumisse aquele cargo ou casasse com aquela mulher, se soubéssemos o que aconteceria seríamos capazes de dar o primeiro passo? Seríamos capazes de tomar aquela iniciativa?”

Censuramos e condenamos, sem maiores julgamentos, livros, quadros e filmes simplesmente por deles não gostarmos, deixando de lado seu mérito intrínseco, sem entretanto questionarmos numerosos aspectos do mundo moderno, como nossa relação com a tecnologia e tantos preconceitos individuais.

O filme preconiza um futuro possível, nos mostra como este mundo perpassa a vida de pessoas comuns nele inseridas e clama por atenção a tais questões, pedindo discernimento e ponderação.

Oferecendo-nos boas vindas ao deserto do real, a película nos propõe uma charada e, se ao longo de “Código 46” escutamos a todo momento que “A Sphynx sabe o que faz”, sugiro que nos lembremos de uma outra esfinge, que em dada parábola nos disse: “Decifra-me ou te devoro!”

Postado por baccioly em 02:33 PM | Comentários (7)

dezembro 21, 2004

Gardenal dos tempos...

Em um mar de insensatez o mérito normalmente se perde e tudo o que parece importar é o que menos deveria...

Convenhamos, os dispositivos que projetamos são cada vez mais reduzidos e aglutinam cada vez mais funções... e muitas delas são muito pouco úteis.

Sem entrar no mérito de quão duvidosas são as relações entre cada uma das funções que escolhemos para estes dispositivos, temos de admitir algo: parece uma prerrogativa de mercado disponibilizar todas as fases de produção de seus protótipos como se fossem produtos acabados!

Para atender a esta tendência em aglutinar funções deficientes em um espaço tão diminuto, projetos de interface cada vez mais arrojados têm de ser desenvolvidos.

Escrevi sobre isso em um artigo que discorria acerca de teclados de celulares. A "vedete" do artigo tinha sido idealizada por David Levy, da Apple.

Desde o teclado de múltiplos toques até a função T9 de digitação previsiva, usuários vêm tendo opções canhestras de interação com esses dispositivos maravilhos.

Ainda não vi quem elogiasse o mérito do esforço deste novo brinquedo lançado pela LG - o LG 6190 - entretanto trata-se de uma tentativa legítima de, no espaço exíguo oferecido pelos teclados de celular, dispor uma tecla para cada uma das letras do alfabeto.

Em meio a uma guerra de características sem substância, como câmeras ruins, caixas de som para fones portáteis, celulares com telas wide-screen etc., o contra-intuitivo teclado do tipo FastTap perde em popularidade, arrancando caretas de desgosto dos rostos de compradores de celulares.

Os limites para confecção de interfaces de celulares, hoje, estão profundamente ligados às dimensões dos aparelhos. Futuramente, com um mais sofisticado mecanismo de reconhecimento vocal, possivelmente nossos filhos vão rir da estranheza dos aparelhos que usamos.

O próprio conceito de celular, em um futuro não muito distante, pode vir a ser risível... mas nunca se sabe.

O fato, afinal, é que a demanda é criada por quem vende o produto e empresas vêm perpetuando a estranheza de seus produtos há tanto tempo que fica difícil fazer qualquer previsão.

Listas grandes de funções inúteis vêm ganhando de listas úteis mais modestas já há muito e não há indícios de que isso venha a mudar tão cedo.

Outro dia me perguntaram: "E por que deveria mudar?", e sinceramente me parece mais importante - perdoe meu conservadorismo - que o foco do produto seja atender aos requisitos do cliente e não oferecer-lhe funções as quais ele jamais virá a usar.


Postado por baccioly em 11:42 AM | Comentários (18)

dezembro 08, 2004

A piada mortal

Outro dia, um amigo do trabalho – o José Vasconcelos – colocou um comentário em um texto meu aqui do 5arcásmos |v|últiplos.

Em “Tutto nel mundo e Burla” comentei a capacidade de algumas pessoas – por chatice, genialidade ou loucura – de identificar sub-textos na realidade a sua volta e transformá-los em obras magníficas, comentários mordazes ou mesmo piadas aparentemente descartáveis que guardam mais relação com a “natureza das coisas” do que gostaríamos que guardassem.

O comentário se referia a uma piada: um homem vai ao médico dizendo estar deprimido. Ele se lamenta afirmando que a vida é dura e cruel, que sente-se só e ameaçado em um mundo onde o que está adiante é vago e incerto. O médico, confiante, retruca que “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci estará na cidade esta noite. Vá assisti-lo! Isto com certeza vai fazê-lo sentir-se melhor”. O pobre homem cai em prantos... “Mas, Doutor... Eu sou Pagliacci.”.

É uma boa piada, todo mundo ri, ouve-se o rufar dos tambores e fecham-se as cortinas… será?

No fim de semana passado vi um ótimo filme, que eu havia visto algum tempo atrás, gostado, mas que sabia ter deixado passar alguma coisa. Não sabia bem o que, mas havia deixado passar.

O filme se chama “O Psicopata Americano”, estrelado por Christian Bale que, descrevendo superficialmente, é um bem sucedido yuppie que “trabalha” em Wall Street em uma empresa fundada por seu pai.

Vivendo uma vida superficial de futilidades e preocupações sem qualquer relação com as divididas pelo resto do mundo, o personagem nos mostra uma rotina completamente alienada do universo que todos conhecemos (cada um a sua maneira).

Em dado momento, o personagem começa a verter sua não-relação com o mundo através de atos para todos nós tidos como vis e cruéis. Na tela, um banho de sangue, morte, violência e humilhação desfila em suas mais diversas formas, vitimando desconhecidos, colegas e amigos do personagem.

Perseguido pelo desejo de continuar a saga de crueldade, acentuando a diferença que existe, ou que ele deseja que exista, entre ele e seu meio, o personagem vê-se também “assombrado” por um detetive de comportamento e percepção absolutamente inverossímeis.

Apesar de sua idéia de si mesmo e da idéia que faz de sua descontextualização de seu entorno, o personagem é um entusiasta e conhecedor de compositores, bandas e cantores da década de oitenta, como Phil Collins e Whitney Huston, sobre os quais discorre enquanto comete seus crimes.

Uma vez que pretendo instigar o leitor a ver o filme, não vou falar ainda mais a respeito de seu enredo, entretanto posso dizer que, desta vez, o número de elementos em jogo que identifiquei foi de fato muito maior que havia notado anteriormente.

Percebi uma relação sombria, um subtexto soturno, que apontava para o significado intrínseco de nutrir e perpetuar um sistema capaz de gerar tamanha diferença entre os indivíduos, capaz de elevar um grupo tão reduzido até os estertores da indecência e da imoralidade através do dinheiro e do poder.

O personagem vivido por Christian Bale é mais que alguém doente; ele é uma metáfora daquilo no que o extremo de poder pode tornar um indivíduo, um grupo ou uma nação. A noção de que o direito de uns acaba onde começa o direito de outros fica comprometida em uma sociedade onde os direitos não são iguais e onde um indivíduo, grupo ou nação acabam por poder cometer qualquer atitude impunemente.

O subtexto está em todo o lugar pois o subtexto está na mente de quem o identificou. Por vezes quem o identificou percebeu algo que o autor desejava insinuar, entretanto o valor em se identificar, em uma obra, algo que de fato não foi intencional, pode ser enorme.

Cada espectador recria uma ou mais obras a partir daquilo que interpretou do que de fato experimentou. Deixar de lado o que se interpreta ou o que se deduz, a meu ver, é um grande erro – sobretudo se temos condição de lembrarmo-nos que o que identificamos não é senão uma conjectura preciosa.

Coincidentemente, ao ver os extras, pude ter conhecimento do fato de que o livro, do qual foi feito o filme, foi considerado, à época, uma paródia mordaz do sonho americano e das conseqüências que são impostas aos demais para que este sonho prevaleça.

A diretora Mary Harron sustenta que extraiu do texto uma noção menos taciturna, atendo-se a outros aspectos da obra e deixando menos expresso um conjunto que, no livro, se torna mais óbvio.

Não é difícil concluir que até mesmo a identidade de um indivíduo, tão alienado de seu meio e de sua noção de eu, fica profundamente comprometida. Fica fácil imaginar que tamanha supremacia torna o indivíduo incapaz de importar-se com questões que aflijam a quaisquer pessoas que não tenham relação com seus próprios interesses.

No fim, o que aflige tal sorte de indivíduo, grupo ou nação, é sequer compreender as próprias motivações e os motivos pelos quais são odiados e incompreendidos. Além do alcance de qualquer forma de resgate, tal sorte de indivíduo é a única chance de si mesmo e, se não encontrar uma forma de prestar-se o devido socorro, vai sucumbir diante da própria alienação.

Outrora, parábolas foram profundamente importantes para nós e, em um mundo onde as novas-fábulas perpetuam uma aridez de subtextos, onde a precisão na passagem da mensagem parece ter tomado o lugar da profundidade temática e da riqueza de interpretações, gastar tempo em interpretar passou a ser sinônimo de entender errado.

Alienamo-nos de nosso potencial humano e subjetivo emulando estruturas intrinsecamente objetivas somente existentes nas máquinas que nós mesmos idealizamos. Valoramos a aderência a metodologias rígidas e a um pragmatismo absoluto como se houvesse apenas um meio de ser objetivo e, no final, perdemos nossa identidade como seres humanos.

Você pode discordar ou concordar com este texto, não me importo. No final, os palhaços somos nós, e a piada de mau gosto em que se transformou a sociedade em que vivemos é um subtexto a ser identificado... e sequer o fazemos.

Parece-me que cabe a nós perceber que nosso tratamento é simples, que alguém chegou por estas paragens e que pode nos ajudar... e que este alguém somos nós mesmos.


Postado por baccioly em 09:19 AM | Comentários (13)

dezembro 01, 2004

Supraliminal dos tempos...

Eis que o protótipo de uns é o produto de outros e, em meio ao tiroteio entre os fabricantes de celular, a maior vítima é o bom senso da massa de manobra.

O celular com caixas de som foi, por alguém, considerado uma boa idéia e, por isso mesmo, outro fabricante (muito antenado) já está lançando a idéia como produto

Qualquer novidade é valor agregado, nos dias de hoje, e os produtos não são desenvolvidos de acordo com os requisitos do consumidor. A tendência do mercado é criar o requisito; vendê-lo como essencial; convencer a massa; vender quantos for possível antes de descobrirem o engodo; e, depois de toda essa mão de obra, desqualificar este com um novo produto igualmente absurdo.

A AnyCall está lançando o referido produto com o nome de AnyCall Theater, e promete (como sempre prometem as empresas) abalar as estruturas do mercado e fazer de Você (!) uma pessoa melhor após a compra do produto.

Como "valor agregado", a tela do celular gira em noventa graus, permitindo, por exemplo, ver trailers de filme baixados da Internet e (quem sabe?) ligar um DVD que suporte 5.1 canais de som.

Sabe do que me lembro sempre que olho pra esses Fabricantes loucos e seus Celulares maravilhosos?

Enquanto isso, do outro lado da Força...

...uma equipe de pesquisadores da Universidade de Warwick desenvolve um polímero biodegradável que pode substituir os plásticos dos quais são feitos as consoles de celulares e outros equipamentos eletrônicos.

Para ler sobre o polímero reciclável clique aqui...



Atualização - 02 de dezembro de 2004:
Bananular Phone . Vinheta promocional

Postado por baccioly em 05:47 PM | Comentários (5)