janeiro 28, 2005

"Sócrates e a Arte de Viver"

Para quem gosta de história, de filosofia e até de "Matrix", o livro de J.C. Ismael conta uma belíssima história de virtude, busca pelo conhecimento e altruísmo.

De leitura fácil e sintetizando muito bem uma história complexa e cheia de revoluteios e versões, "Sócrates e a Arte de Viver: Um guia para a filosofia no cotidiano" pareceu-me uma obra melhor em falar do herói grego real que em trazer a filosofia para o cidadão comum do século XXI.

Tarefa ingrata, logicamente, em um mundo orientado ao produto, ao poder e às aparências, o autor corajosamente escolhe esquecer que tais conceitos se confundem no tecido do mundo moderno e vendam os olhos da maior parte dos leitores.

Alexandre Maron acertou em cheio ao presentear-me com o trabalho de J.C. Ismael, me ajudando a coletar mais um fragmento cultural acerca da Filosofia ClássicaDe 470 a.C. a 320 a.C., Teve nos sofistas e em Sócrates seus principais expoentes. Distinguem-se pela preocupação metafísica, procura do ser, e pelo interesse da política e da vida de acordo com sua noção de sabedoria., uma de minhas obsessões.

Um tanto preconceituosa pareceu-me a abordagem do autor à poesia mítica e à Filosofia Oriental, não comprometendo, entretanto, o belo trabalho de documentação e exposição didática das origens da filosofia dos pré-socráticos e do Sócrates histórico – dando particular atenção aos SofistasNa antiga Grécia (sV a.C. e IV a.C.), mestres da retórica que ensinavam filosofia, gramática e a arte da eloqüência para os cidadãos por dinheiro. e sua importância no lançamento das bases da filosofia.

A arte de viver, segundo o cânone Socrático, vai provavelmente ser menos importante para o leitor que a descrição do personagem e dos diálogos expostos ao fim do livro – estes últimos retirados dos livros de seu célebre discípulo, Platão.

Não tão fácil quanto os adoráveis “ Matrix: Bem-Vindo ao Deserto do Real” ou “Os Simpsons e a Filosofia: o D´oh! de Homer” - ambos de William Irwin - “Sócrates e a Arte de Viver: Um guia para a filosofia no cotidiano” mais do que vale a pena, saindo um pouco da cultura de almanaque e provocando o leitor a procurar mais acerca de um dos responsáveis pelo que há de interessante na realidade em que vivemos.



Postado por baccioly em 10:56 PM | Comentários (0)

janeiro 22, 2005

"Mulheres Perfeitas"

Nicole Kidman, Matthew Broderick, Glenn Close, Christopher Walken, Betty Midler e Jon Lovitz embarcam em um magnífico projeto dirigido por Frank Oz, no qual a estética cinquentista se mistura ao mundo moderno para acusar-nos de uma ingenuidade moral indesculpável e perigosa.

Um elenco cheio de credibilidade, dando vida a um roteiro cáustico que fala em altos brados contra muitos aspectos da vida como a fizemos ser - é uma das formas pelas quais seria possível descrever esta refilmagem da qual poucos gostaram e que inicialmente seria dirigida por Tim Burton.

Frank Oz habilmente nos expõe ao protótipo de uma “sociedade bem ajustada” que é um belo exemplo do desajuste daquilo com que nos conformamos todos os dias, e já que achamos tão normal.

Assim como nos filmes de Monty Python, nos quais através do exagero o grupo tenta nos permitir uma jornada através do absurdo em que escolhemos viver, o roteiro é um modelo de desconstrução da realidade. Pelas mais incontáveis metáforas, o roteiro vai identificando como, pouco a pouco, a mulher tem sua auto-estima seqüestrada pela inverdade de sua hipotética inadequação.

O filme se preocupa em evidenciar, doa a quem doer, a robotização do indivíduo pela globalização do pensamento e da perpetuação de valores medíocres que garantam a estabilidade, uniformidade e uma perfeição de prateleira que passe por cima da vontade, da diversidade e até mesmo da sexualidade.

A sedução do hedonismo institucionalizado, do chauvinismo voluntário e da intolerância irredutível - ante a qual tantas obras nos alertaram que iríamos sosobrar - acabaram se transformando em alicerce inconspícuo sobre o qual construímos nosso modo de viver.

Sem nos dar trégua, “Mulheres Perfeitas” deixa claro que, ao acreditar que a superfície é tudo que existe; ao nos contentarmos com o que as coisas parecem ser e com a idéia rasa que fazemos delas; ao deixar de questionar o todo pelo todo e percebendo-o apenas como a soma de suas partes; pemitimo-nos aceitar as aparências em detrimento da riqueza de significado.

Stepford - a cidade fictícia em Connecticut - representa a vitória da forma sobre o conteúdo, quando sequer deveria haver a vitória de uma coisa sobre a outra.

Não precisa se tratar apenas de uma crítica social acerca de como evoluiu a sociedade americana, nem tampouco como o "homo-americanus" trata a mulher, mas sim uma alegoria que aponta para aquilo em que todos nos transformamos e nos recusamos a perceber.

Frank Oz consegue, sutilmente, sugerir que despertar do construto social hedonista em que vivemos, livrarmo-nos da mera satisfação e prazer que as coisas que construímos e das coisas em que acreditamos nos oferecem, é um processo individual de desapego, conscientização e tolerância. O resultado deste esforço não apenas nos liberta da prisão invisível que construímos, mas nos permite conhecer a nós mesmos.

Com uma linguagem de comédia leve, os atores desvelam uma história de resistência, cuja mensagem é pungente e atinge com toda sua força aquele que está pronto para identificá-la.

Abdicar de ver para além da superfície e da forma é optar por perder-se de si mesmo e de seu conteúdo. Favorecer o exame contínuo de nossas vidas no lugar de conformarmo-nos com uma perfeição forjada é escolher entre Ser ou Não Ser... e essa é a questão.


Postado por baccioly em 06:27 AM | Comentários (8)

janeiro 07, 2005

Fotografia Estenopéica

A primeira vista anacrônica e pouco prática, a fotografia estenopéica é uma forma de expressão única e cheia de personalidade, que oferece ao fotógrafo uma relação alternativa com a arte da fotografia.

Para quem nunca ouviu falar de Fotografia Estenopéica – ou Fotografia Pin Hole – vale dizer que, trata-se de uma câmera que não tem sistemas óticos baseados em refração, que são substituídos pó um orifício, denominado estenopo, encarregado de formar a imagem em uma superfície sensível.

É possível construir uma máquina dessas em casa, com um pouco de paciência, uma caixa de papelão, madeira ou mesmo uma lata de leite em pó. Ao fim deste texto, inclusive, estou disponibilizando um projeto para uma Câmera Estenopéica que usa filme convencional.

Ao tirar uma foto em uma câmera convencional, afinal, o que estamos fazendo é controlar a quantidade de luz que chega a uma película sensível. Basicamente, as máquinas convencionais consistem de: um diafragma, que controla a quantidade de luz que chega à película; e um obturador, que controla o tempo de exposição desta película.

A maior parte dos demais controles, disponíveis em câmeras convencionais, têm relação com a manipulação de fatores responsáveis pela qualidade do resultado final da exposição. O sistema ótico existente em câmeras convencionais, contudo, não é imprescindível. De fato, o não uso de sistemas óticos baseados em refração luminosa permite evitar problemas ocasionados pela tecnologia de refração.

Por certo que a Fotografia Estenopéica é hoje um processo de entusiastas. Não tendo sido a tecnologia eleita no passado, esta forma de fotografia acabou não progredindo e se sofisticando tanto quanto a fotografia com máquinas convencionais. De diversas formas, a escolha pela fotografia usando conjuntos óticos orientados a refração luminosa remete a escolha entre a corrente contínua e a corrente alternada para a distribuição de energia elétrica em grandes cidades.

A fidelidade da imagem conseguida com câmeras convencionais é maior que a conseguida com máquinas Pin Hole hoje disponíveis no mercado ou construídas em fundo de quintal. É importante, contudo, lembrar que há deficiências na tecnologia das câmeras convencionais que permeiam a distância focal e distorções intrínsecas ao processo.

Para além de meras questões técnicas e da filosofia por trás da escolha que tornou a tecnologia de refração o padrão para máquinas fotográficas, em meados de 1880 um fenômeno interessante acontecia. Enquanto a velha escola artística influenciava a fotografia no sentido de imagens mais nítidas e lentes perfeitas, o Impressionismo ousava contribuir com um novo discurso visual.

Ganhando o primeiro prêmio na Exibição Anual da Sociedade Fotográfica de Londres, em 1890, George Davidson criou polêmica e incentivou a dissidência da instituição marcando alguns pontos para a fotografia estenopéica.

Com a influência crescente do Neorealismo e a produção em massa de câmeras hoje tidas como convencionais, no entanto, a fotografia estenopéica seria praticamente esquecida até a metade do século XX.

Somente na década de 60 a técnica passaria a ser utilizada novamente, como forma de expressão alternativa e ferramenta de criação, como é usada até hoje das mais diversas formas.

É curioso perceber esta risga um tanto quanto patética entre defensores da tecnologia estabelecida e da tecnologia alternativa, até porque o aquecimento do mercado de fotografia tem muito menos relação com a quantidade de artistas comprando máquinas e acessórios e muito mais profissionais da fotografia e sobretudo o cidadão comum, que só quer um retrato fiel do que está diante dele.

A expressão artística é uma fatia bem estreita do que move a máquina corporativa e nem os artistas da fotografia de convencional nem os da fotografia estenopéica vão influir profundamente nestas questões.

Mais que uma forma romântica de fotografar, sair a campo com uma máquina estenopéica é uma proposta interessante e deliciosa que, mesmo nas mãos de um interessado sem grandes pretensões artísticas, permite a elaboração de algo que foge a mesmice do que o fotógrafo medíocre consegue de fato fazer.

Seja você um artista ou um leigo completo; um fotógrafo publicitário ou alguém que gosta muito de fotografar; um decorador que gosta de pendurar coisas na parede ou um sujeito que gosta de coisas diferentes e sofisticadas; a fotografia estenopéica é mais uma daquelas coisas que podem dar um toque todo especial em conjunto com sua obra, no álbum de família, naquela campanha de marketing, no passeio no campo, num painel sobre o sofá ou no porta retrato da sala.

No fim é algo barato, moderadamente fácil de se fazer e, caso você seja muito preguiçoso, dá até pra comprar pela internet!

Clicando no link abaixo você tem acesso aos planos para a montagem de uma máquina fotográfica estenopéica que usa filmes convencionais.

Postado por baccioly em 10:10 AM | Comentários (4)

janeiro 05, 2005

Encaixotando o Humano

Para alguns o papel da arte na vida é tão mais significativo quanto mais pessoas conseguem se relacionar com a obra do artista... o humor de Nick Rodrigues parece uma boa saída, se você acredita nisso.

A Cabine Portátil de Telefonia Celular provê uma leitura visual dos sacrifícios sociais vigentes e a perda da oportunidade de interagir uns com os outros, graças ao inexorável individualismo em que nos mergulhamos.

Trata-se de uma obra que consiste em uma estrutura retrátil que pode ser carregada nas costas e desliza para cima e por sobre a cabeça, isolando completamente o usuário do resto da sociedade.

Historicamente, as cabines telefônicas são um ícone prolífico em significados, que representava tanto um lugar ao qual era possível recorrer para ficar só com seu interlocutor, quanto para ter acesso ao quartel general do “Controle”; tanto para viajar de um universo virtual para o real, quanto para transformar-se no Super-Homem.

Hoje em fase de obsolescência, as cabines telefônicas se transformam em um ícone tão sombrio e distante quanto daguerreótipos, fonógrafos, aplaudímetros, bilboquets e outros brinquedos aos quais nos apegamos tanto por dado espaço de tempo. Qual uma criança que vê em algo a resposta para todo os seus anceios, achamos tão imprescindíveis este ou aquele brinquedo até simplesmente mudarmos de opinião.

Com a Cabine Portátil de Telefonia Celular é possível transformar-se de um membro da sociedade em uma espécie de eremita urbano, trancando tudo mais do lado de fora o tempo suficiente para suportar viver no mundo moderno.

Segundo Nick Rodrigues, Psicólogo Comportamental e Escultor, ao expor sua escultura para um público insuspeito, a obra começa a fazer seu efeito, emanando uma miríade de mensagens subliminares que vão desde a sátira ao nosso modus vivendi até a profunda crítica social – remetendo à negligência para com o interlocutor e para com as relações humanas.

A deliciosamente ridícula e profundamente crítica obra de Nick Rodrigues, como ele mesmo diz: “Fala acerca de questões que todos percebemos mas que não temos o poder para mudar.”

Postado por baccioly em 11:55 AM | Comentários (6)

janeiro 04, 2005

EXTRA: Overdose tecnológica

Ela é adorável, sofisticada e o sonho de consumo de quase todo homem ou mulher que conheço, mas cuidado... se você der mole ela monta!

Para ler este post clique no link abaixo ou na figura ao lado...

A Tecnologia e a Relação que Mantemos com Ela

Postado por baccioly em 03:28 PM | Comentários (0)