março 24, 2005

"Pensando bem..."

"Que obra de arte é o homem; tão nobre no raciocínio, tão vário na capacidade; em forma e movimento, tão preciso e admirável, na ação é como um anjo, no entendimento é como um deus; a beleza do mundo, o exemplo dos animais."

O Senhor da fazenda chegava à casa grande depois de uma ida à cidade. Seguiam-no as carroças de café, já sem suas cargas mas apinhadas de negros cansados e pingando suor, tantas foram as sacas que haviam sido embarcadas no Porto de Santos.

Nada mais havia a fazer o resto do dia e poderia, orgulhoso, descer de sua bela montaria e apreciar-lhe o magnífico porte enquanto era escovado e limpo.

Já de cima da varanda da casa grande, sentado em sua cadeira predilecta, via sua excêntrica aquisição, o Cavalo Árabe que comprara de Assis Brasil.

Não havia outro fazendeiro que tivesse bem tão precioso e belo, mas tinha certeza que todos lhe invejavam ao saber-lhe a posse de tão grandioso animal.

O Sol lhe incomodava sobremaneira sem a brisa que lhe vinha ao rosto enquanto montava, e fez sinal para que um negro lhe viesse abanar.

Sem saber bem o que fazer, o escravo sacudia sem muita destreza o abanador de madeira e palha.

Era nessas horas que o Senhor tinha certeza da superioridade que Deus havia lhe dado sobre aquelas criaturas feias, preguiçosas e insubordinadas. Era nessas horas que lhe vinham filosofias à cabeça...

“Ah, como seria bom se tudo fosse tão perfeito quanto um Cavalo Árabe” – pensava – “As criaturas seriam menos suscetíveis e substituíveis, seriam mais importantes que são hoje.”

“Se assim fosse” – continuava – “tudo seria mais belo e durável, minhas vestes seriam as mais airosas e duradouras, a casa grande não teria de ser caiada tantas vezes por ano e as rodas das carroças seriam mais resistentes aos buracos do caminho.”

“Os compadres, por hombridade, já não precisariam cobrir as negrinhas para parecerem viris e sentir-se poderosos. E os casamentos seriam felizes por muito mais tempo.”

“E como a felicidade conjugal duraria mais, as gentes não iam precisar de tanto conforto para suprir a felicidade que lhes falta e acabariam adquirindo menos posses.”

“Todos teriam sorrisos nos rostos e não mais se fixariam no vazio dos dotes acumulados.”

“Por não precisar mais ganhar tanto dinheiro os Senhores do Café não iam precisar produzir tanto, necessitar de tantas mãos no campo e poderiam dividir suas posses entre aqueles que trabalham.”

“Todos poderiam ser iguais ainda que não o fossem e, cheios de dignidade, transformar o trabalho em algo edificante, nada penoso, podendo até receber um bom dinheiro, pois haveria muito!”

“As fazendas iriam ver os negros escravos como homens de bem, iguais, e precisariam produzir menos café, dando tempo aos pobres para ler, escrever e fazer arte!”

“Com o dinheiro dos fazendeiros fluindo por entre os não-mais-escravos iam todos ter o razoável e não a riqueza obscena que se tem para... espere um instante?!”

“Mas e eu? Eu ia acabar não tendo tanto... E se não tivesse tanto, ia acabar não podendo comprar meu Puro-Sangue...”

“...Pensando bem: que bom que nem tudo é tão perfeito quanto um Cavalo Árabe, não é?”


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Postado por baccioly em 09:24 PM | Comentários (12)

março 04, 2005

"Poema em Linha Reta"

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Fernando Pessoa
(Poesias de Álvaro de Campos)


Postado por baccioly em 03:34 PM | Comentários (8)