julho 31, 2005

"Jogos Mortais"

Há casos em que um filme não pode ser descrito em sinopses. Não se trata meramente de estragá-lo ou de ter sido ele um filme especial ou magnífico. Por vezes apenas foi uma indicação de alguém especial, o que faz dele um filme épico... nem sempre há palavras para descrever um filme - as vezes a palavra simplesmente falta e tudo que se pode fazer é um texto hermético e bobo, sem fundamento ou significado para ninguém mais a não ser o próprio autor.

Seja como for, "Saw" (como é originalmente chamado) é um filme que jamais vou esquecer.

Não tanto pelo que ele é ou pelo que ele pode ser; não mesmo pelos subtextos ou pela profundidade temática; mas pelo que ele representa.

A quem lê só posso dizer: "Veja este filme"... e torcer para que, vendo-o, se compadeçam de como me sinto ao pedir para vê-lo.

A dor é brutal, como a vida costuma ser, por vezes.

Parte de mim foi-se dias depois deste filme. A outra parte não é mais nada. Sou refém, agora, de uma parte de mim que abomino, e nada me sobrou para descrever ao escrever.

Só me resta pedir...

...veja este filme.

Postado por baccioly em 03:35 AM | Comentários (1)

julho 29, 2005

"Tabacaria"


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;

Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.

Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou um não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos
15 de Janeiro de 1928


Postado por baccioly em 04:11 PM | Comentários (3)

julho 27, 2005

"Em boa Companhia"

O mundo corporativo, como vem se tornando em toda parte, é retratado nesta comédia com talento dramático de Paul Weitz. Competentemente, Dennis Quaid e Topher Grace, nos permitem ver para além da comédia romântica que as resenhas insinuam.

Sim... eu fui em boa companhia, o que é importante. Mas talvez seja ainda mais importante o que este filme pode dizer, ainda que não tenha sido esta a intenção do escritor, diretor e produtor, Paul Weitz.

Talvez seja fato que fique marcada, de forma indelével, a cara de uma época e de uma sociedade, nos filmes, livros e na música que elas produzem; por outro lado talvez eu é que esteja "lendo demais" onde não há tanta coisa escrita... seja como for, se você está aqui, no mínimo, é porque aprecia ler qual a última presunção de Bruno Accioly – auto-intitulado um dos mais românticos, apaixonados e esperançosos profetas do apocalipse.

Seja qual for a explicação, quem lê isso aqui sabe que nenhum filme está a salvo de ter seus subtextos – intencionais ou não – escrutinados (sem “trocadalhos”, por favor) por minha cacholinha ensandecida.

Dennis Quaid vive um pai de 51 anos, com duas filhas lindas e mais uma a caminho, casa hipotecada e esposa compreensiva, inteligente e carinhosa – uma família nada disfuncional e bastante conservadora; Topher Grace é um rapaz de 26 anos, não tem filhos (e queria tê-los), precocemente bem sucedido e com uma esposa indiferente, desinteressada e fria – um casamento fadado à destruição, completamente disfuncional e desequilibrado.

Ambos são vendedores, o personagem de Topher um desapaixonado ambicioso pela atividade, mas cheio de atitude e respeitável conhecimento acerca das boas práticas do ramo; o outro com todo conhecimento que se espera de alguém há 23 anos fazendo a mesma coisa e amando cada passo do caminho.

A empresa na qual o personagem de Topher trabalha, compra a empresa de Quaid, escalando Topher para substituí-lo e começar um processo de demissões em massa.

Se não os estou fazendo rir até o momento é porque, mais de uma vez, passei por este processo e sei o quão doloroso ele pode ser.

O personagem de Quaid, Dan Foreman, passa por tudo sem muito jeito, sem conseguir saber como se portar diante de um chefe tão mais novo que ele, tendo que lidar com a gravidez da esposa, fazendo uma segunda hipoteca para cobrir os custos dos estudos da filha – que passou a morar longe dele para cursar Escrita Criativa em Nova Iorque... e, para complicar mais o roteiro, Carter Duryea, o personagem de Topher Grace, se envolve com a filha de Foreman – vivida por Scarlett Johanson.

Aparentemente inofensiva, inocente e insípida, a “comédia” despeja sobre o espectador mais atento uma saraivada de citações que chamam à reflexão e comandam que se acorde para o que se passa na tela.

Em alguns momentos fica claro que o Personagem de Topher simplesmente tem responsabilidades demais para a idade. Não só fica estampado isso nas frases do personagem de Quaid e de suas filhas, mas nas falas do próprio rapaz que acaba de alcançar o novo cargo sem tanto mérito – graças à compra de uma outra empresa.

Em outros notamos a sensação de impotência dos personagens mais velhos, que percebem a arbitrariedade do sistema e nada podem fazer a respeito, sendo julgados não por seus potenciais, atitudes ou profissionalismo, mas pelos gráficos da empresa – que cortam pessoas como se fossem meros números até por não terem como fazer diferente diante desta realidade.

Carter Duryea, de 26 anos, não trabalha porque ama o que faz, apenas para alcançar seus números, adquirir mais e nunca parar – para isso usando de um “jargonês” incompreensível e destituído de significado o suficiente para ninguém entender mas achar que tem que fazer o próprio trabalho; Dan Foreman, de 51 anos, é um apaixonado por seu trabalho e acredita que faz o que faz para o bem das empresas para as quais faz – e usa de seus princípios e dos valores de uma época que já passou.

Não é à toa que Foreman é taxado de “dinossauro”; não há lugar para significado elaborado, responsabilidade moral e baboseiras do tipo em um mundo dinâmico e de decisões rápidas (e necessariamente irrefletidas). “Risco calculado... erramos e aprendemos... mas não gastemos tempo com princípios e ética!”

Acentuando a perspectiva do roteiro e exagerando nas cores, temos um invasor que pilha, prejudica e pisa em tudo o que é das gerações anteriores só porque é de sua natureza e que, ainda por cima, toma para si a filha daquele que antes era o senhor do castelo.

Sempre se pode afirmar que eu sou paranóico com relação a Globalização do Pensamento e com o International Way of Life, entretanto, Teddy K., o dono da empresa que compra, sucateia com idéias improcedentes, usa de discursos retóricos a qualquer custo e destitui os direitos morais do empregado do significado inerente que neles existem... e isto acontece em toda parte.

Exagero? Talvez, mas sabe qual o nome da empresa no filme?

Global.com...

...e a defesa descansa...

A boa notícia, contudo, está em como ambos os personagens conseguem se harmonizar e respeitar mutuamente ao relaxarem suas relações. Ao abrirem mão do cânone globalizante para serem eles mesmos e encontrarem suas próprias saídas, finalmente conseguem alcançar um novo caminho em direção ao bem comum.

O problema de nenhum dos dois personagens é conhecimento – há muito que não é este o problema. Há que se descobrir, contudo, que precisamos de atitude para nos dispormos a encarar o que não queremos conhecer e sabedoria para alcançar a noção de que há muito mais para se conhecer nos lugares onde nada se vê.

Foreman, enfim, descobre que precisa fruir de sua relação com a nova geração, e reconhecer seu potencial, para poder conseguir mais dinamismo e funcionar na nova ordem; Duryea, por sua vez, que há mais jornada entre os pés e o correr que o que se encontra sobre uma esteira ergométrica... e que não há nada como singrar, avidamente, o caminho em direção a um pôr-de-sol que jamais será alcançado.


Postado por baccioly em 08:11 PM | Comentários (4)

julho 26, 2005

Síndrome de Gabriela

"Eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo assim... vou ser sempre assim!", é dos mantras mais cotidianamente entoados nos dias de hoje - de uma forma ou de outra - mas qual a moral da história?

A moral da história? Ninguém mais sabe!

Perdeu-se a noção do que é Moral, Moralidade, Moralismo e, sobretudo, do que e Questionamento Moral. E isto vem ocorrendo há muito tempo.

Não é difícil sustentar, inclusive, que estas noções, em nenhum momento, foram lá tão conhecidas. Talvez, entre o século XVIII e XIX, com sorte, a elite cultural e econômica da sociedade ocidental - e alguns acadêmicos da área de Ciências Humanas - fossem os únicos que, de fato, tiveram tais conceitos como parte de sua vida.

Apesar da Ética ser o estudo sistemático da Moralidade, entende-se ética, em círculos leigos, como um conceito vago que acaba sendo não mais que um mero sinônimo de "conjunto de valores".

É pouco.

Mas começo o texto falando do que batizo de "Síndrome de Gabriela", não é?

Em conversas mais sérias, normalmente daquelas em que falamos “do mundo e das coisas”, é muito comum surgir aquele comentário que esbarra no limite que, cada um de nós, estabelece para o Ser: “Mas esta é a natureza humana!”.

Escrevi sobre isso em “A Tal da Natureza Humana”, há algum tempo, e tentava demonstrar que nos satisfazemos com o senso que fazemos do Homem e, levianamente, nos bastamos neste modelo intuído da realidade.

No que concerne a relacionamentos e comportamento, me parece, existe outro destes aforismos banais que, deterministicamente, acaba por pontuar tanto um fim de discussão quanto a manha de uma criança chata que diz “não quero”!

Quantas vezes já não ouvimos, em discussões e situações tensas, respostas como: “Eu sou assim!”, como se isto fosse suficiente e determinante para estabelecer um argumento irrefutável, independente de quaisquer julgamentos ou conjuntos de princípios.

“Sei que soa incoerente, mas eu sou assim”; “Sei que é injusto, mas sou assim”; “Sei que não tenho traquejo social, mas sou assim”; “Sei que isto não é certo, mas eu sou assim”; “Eu sinto muito, mas eu sou assim”; “Ninguém me muda, você pode não gostar, mas eu sou assim!”.

Estas frases são uma só, são imobilistas e auto-destrutivas... são uma forma de morte de alguém que é esmagado pela sua suposta incapacidade e pela preguiça em lutar contra suas certezas equivocadas e convenientes.

A crescente utilização deste aforismo, entendo eu, tem suas raízes evidenciadas em uma parábola conhecida como “O Insensato”, onde Nietzsche sustenta algo bastante relevante para o entendimento dos porquês de tanto sermos indulgentes com nossas faltas e tentarmos justificá-las.

O Insensato
Conforme escrito em “A Gaia Ciência”

“Nunca ouviram falar do louco que, em pleno dia, acendeu uma lanterna, correu ao mercado e pôs-se a gritar sem parar:

- ‘Procuro Deus! Procuro Deus!’.

Como lá se encontravam muitos que em Deus não acreditavam, provocou muitas risadas.

– ‘Será que ele se perdeu?’ – disse alguém – ‘Perdeu-se tal qual uma criança?’ – falou outro – ‘Ou será que está bem escondido? Tem medo de nós? Será que foi embora? Ou emigrou?’ – gritavam e riam em grande algazarra.

O louco pulou no meio deles e transpassou-os com o olhar:

– ‘Para onde foi Deus?’ – bradou – ‘Vou dizer-lhes para onde foi! Nós o matamos: vocês e eu! Nós todos somos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como pudemos esvaziar o mar bebendo-o até a última gota? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos quando desprendemos a corrente que ligava a Terra ao Sol? Para onde vai agora? Para onde vamos nós? [...]’

Após pronunciar estas palavras, o insensato calou-se e dirigiu novamente o olhar a seus ouvintes; também eles se calavam como ele e o fitavam com espanto. Finalmente, atirou a lanterna ao chão de tal modo que se espatifou, apagando-se.

– ‘Venho muito cedo’ – prosseguiu –, ‘meu tempo ainda não chegou. Esse evento enorme está a caminho, aproxima-se e não chegou ainda aos ouvidos dos homens. É preciso tempo para o relâmpago e o raio, é preciso tempo para a luz dos astros, é preciso tempo para as ações, mesmo depois de concluídas, para serem vistas e entendidas.


Sobretudo fora do meio acadêmico, a compreensão da máxima “Deus está morto” é bastante limitada. Muito mais que acerca de um Deus criador, a parábola de Nietzsche falava de tudo aquilo que é sutil demais para ser quantificado, qualificado e facilmente referenciado.

Em sua profecia acerca do que estaria por vir – o modus vivendi dos dias de hoje – o filósofo sustentava repetidamente que o Homem, após dominar tantos campos do conhecimento e da técnica, começou a não ver necessidade objetiva na existência não só de Deus, mas de qualquer outra coisa que não fosse objetiva e imediatamente identificável.

O movimento, segundo ele, provocaria uma cataclísmica degradação dos valores aceitos em função de novos valores. Tais valores seriam largos o suficiente para tornar a própria noção de valores relativa demais para ser pensada ou entendida, abstrata demais para ser tangenciada pelo pensamento, subjetiva demais para que qualquer pessoa objetiva gaste tempo com ela.

Com isso, os sentimentos, as virtudes, a ética, tudo que não tem uma manifestação intuitiva, objetiva e facilmente compreendida, passa a ser secundário, sem valor prático e, o que é pior, insignificante.

E, uma vez que o Homem vê como insignificante o subjetivo ele abre mão do significado, posto que há muito mais riqueza de significado na subjetividade do que na objetividade – esta última um devir de Todo, uma redução medíocre do Real.

Em um mundo com cada vez menos produção de subjetividade, a desqualificação do subjetivo é implícita, o que é belo vira piegas, o que é atencioso vira meloso e o perdão vira fraqueza. A poesia morre e é vista como inocente e boba, a conotação deixa de existir e sobra apenas uma casca do que antes chamávamos conteúdo; a arte vira produto – e produto é a maior diversão.

A obsessão pelo eficiente, pelo direto e pelo pragmático, não deixa qualquer chance para o refletido, o complexo e o elaborado. E, para ilustrar de forma clara: em uma realidade como esta, os livros são julgados pela capa, pois ler dá muito trabalho.

As pessoas são julgadas por tudo de mais óbvio que elas detém, com ou sem mérito de tê-las conquistado, pois a falta de conteúdo se alastra das coisas que fazemos para as pessoas que somos.

Julgar-se distante do problema – descontextualizado desta realidade, isento dos preconceitos, dos princípios da ausência de princípios, do relativismo moral, do cinismo exacerbado, do sarcasmo incondicional e de todos os demais sintomas do idealista frustrado – é não entender-se doente... é estar já desenganado.

O cânone Protagoriano: “O homem é a única medida de si mesmo”, usado fora de contexto e ignorando as ressalvas Socráticas e Platônicas, é usado como só mais uma desculpa. Uma desculpa que torna apenas o Eu importante, retro-alimentando o individualismo crescente ao qual todos sabemos que aderimos cada vez mais.

Sendo importante somente o Eu, este Eu alquebrado e vazio de conteúdo, no qual nos transformamos, tornamo-nos cada vez menos sensíveis, cada vez mais intolerantes, cada vez mais ineptos em termos compaixão e amor – passamos mesmo a ser incapazes de entender qualquer modelo, que não o nosso, como válido. O único esforço que nos resta é tentar concordar com nossas próprias opiniões.

Numa jornada com arreios, sem olhar para os lados e só sendo capazes de olhar um simulacro de objetivo – este para além do horizonte – nem aproveitamos a jornada nem, apesar de queremos crer, temos a certeza de que o destino desejado será alcançado.

Não há mais sentido em nada, a não no que é destituído de conteúdo; não há mais conteúdo em nada, nem em nós mesmos; não há mais modelo satisfatório que não o modelo do próprio indivíduo; e, definitivamente, não há mais sentido na vida alheia, posto que não é a nossa e que, portanto, não pode ser tolerada como exemplo.

O Homem ficou do tamanho que ele entende, pois se acostumou a não ter paciência para entender mais do que o nada. Só a diversão é tolerada, pois ela é um mecanismo diversionista – que nos tira da direção – que nos aliena da realidade cinza da prisão que nós mesmos construímos.

”EU SOU ASSIM, nada vai me mudar. Sou velho demais para mudar; empedernido demais para mudar; não estou disposto a mudar; e não quero mudar. Posso parecer uma criança chata, mas eu sou assim!”

O maior triunfo do Homem foi alcançar o que definiu como perfeição, resolvendo esquecer o que está além da ficção na qual quis acreditar; foi matar a condição de sonhar em ser melhor do que é, posto que jamais foi melhor do que agora acredita que é; foi destruir completamente todos os caminhos para fora da cidade do Eu; foi matar tudo que está além do que pode perceber, que pode sentir; foi matar Deus.

Foi matar não o Deus denotativo, mas o Deus conotativo, uma metáfora que se transubstancia para significar tudo aquilo que existe para além do que o mundo dos sentidos nos permite identificar. É a isso que matamos.

E ao matá-lo, o Homem não tem nada maior a almejar, nada que lhe pareça perfeito e que lhe possa servir de modelo... o Homem está satisfeito na sua condição de carcaça.

Acabou a coragem para trilhar novos caminhos, a inteligência para compreender o que se percebe e a paixão para ser-se mais do que se é.

Ao matar “Deus”, o Homem mata a si mesmo.

E aí não mais importa que se diga “sou assim”... neste altura, simplesmente não se é mais nada!

Postado por baccioly em 07:57 AM | Comentários (7)

julho 25, 2005

"Guerra dos Mundos"

Uma raça alienígena enterrara há muito, debaixo de nossos pés, os alicerces para seu plano de ocupação global, chacina, escravidão, transformação e obtenção da paz em seus termos.

Mais de sessenta anos se passaram desde que um prodígio do rádio, Orson Welles, assustou um considerável número de cidadãos americanos, ao adaptar e narrar a invasão descrita por H.G.Wells.

Em 1953, uma adaptação para o cinema viria a fazer grande sucesso, ainda que Welles tivesse se negado a evolver-se, em qualquer nível, no projeto.

Stephen Spielberg, possuidor de uma das raras cópias do manuscrito, usado por Welles, para sua transmissão de rádio em 1938, fez questão de que Morgan Freeman lê-se uma versão, o mais próxima possível, do texto de abertura e fechamento extraído do original.

"Guerra dos Mundos" tem um texto conhecido, que alguns podem até achar desgastado... como os leitores do 5arcasmos |v|últiplos já devem ter entendido, eu não só discordo como igualmente não acho que "Alice no País das Maravilhas", "O Mágico de Oz" ou "O Pássaro Azul" estejam desgastados.

O frescor com que a obra, já tão conhecida por mim, foi percebida e interpretada, me fez muito feliz. No fim, é maravilhoso como, independente de efeitos especiais excessívos, ausência de necessidade de grandes interpretações e de uma indústria orientada à mera diversão, ainda é possível embutir significado em obras cinematográficas.

Seja ou não intenção de Spielberg, o filme que vi foi muito maior que a clássica história para qual sempre dei uma interpretação tão literal. Uma sinópse, por exemplo, descreve: "um devastador ataque alienígena à Terra faz com que um pai tente proteger seus filhos, com quem não tem uma grande ligação".

Minha leitura do filme é uma teoria... independe das intenções do autor original ou de quaisquer adaptações posteriores. é parte da minha teoria de que arte, produção de subjetividade e expressão cultural tem significados intrínsecos muito maiores - e isso me permite uma deliciosa denúncia do que, para tantos de nós, é tão óbvio.

Se você quiser continuar lendo agora, basta clicar no link abaixo, do contrário, veja o filme e, depois, dê uma lida - só pra matar a curiosidade.

Clique aqui para continuar a leitura...


Pax Marciana

Sem aviso, mas premeditadamente, raios que jamais cairam duas vezes no mesmo lugar começam a fazê-lo... coincidências que não mais podiam ser consideradas coincidências passam a ser parte do dia-a-dia e, em pouco tempo, a verdade vem à tona na forma de monstros tecnológicos. Manifestações de um poder supremo sem igual em parte alguma

Impávidos, os monstros quixotescos, nada parecidos com moinhos, mostraram a que vieram e que, apesar de toda crença reinante, nunca estivemos seguros. O inimigo - muito mais esperto - deixou que construíssemos nossos sonhos tendo nas fundações o instrumento de nossa destruição.

Libertos e descobertos, as monstruosidades destroem o homem e suas construções, sem motivo aparente ou propósito identificável, não fazendo distinção de nenhum tipo e exterminando só o suficiente para tornar claro que se trata de um poder absoluto.

Estabelecida a hegemonia, definida a superioridade daqueles instrumentos da destruição, começa a caça e nada fica no caminho das criaturas, que fazem a colheita. O Homem, assustado, sequer tenta revidar.

Só então começa a ficar claro porque as criaturas evitam matar os sobreviventes... fica claro que as criaturas buscam a essência da vida humana em toda sua diversidade para criar um simulacro de vida... uma abominação.

A tecnologia busca o sangue do Homem para tornar todos os Homens iguais, para totalitarizar a vida do Homem, para Globalizar o Ser, fazendo com que todos sejamos não mais que vegetais, dos quais, da criatura original, só sobraria a cor.

A "Pax Marciana" - a paz segundo os termos destes alienígenas - não é nada menos que a perda da dimensão do humano, é a perversão do Homem até transformá-lo em vegetal, é conseguir reduzir uma civilização cheia de diversidade em uma papa disforme e globalizada... nomalizada... normatizada.

Creio que me fiz entender... e esta fábula está não só no filme de Spielberg, mas no de Byron Haskin - de 1953 -, no texto de Welles e no original de H.G.Wells.

Mas em todas as adaptações da obra há uma visão de esperança, pois é diante do sangue do próprio Homem e diante da própria Natureza - da qual ele faz parte - que a abominação cai de joelhos.

A diversidade inerente ao Homem e seu entorno terminam por deter o crescimento do devir de normatização imposta pelo inimigo. Mesmo com todo seu poder de destruição, a natureza intrínseca do projeto totalitário não se sustenta em si mesma... e a vida acha sempre uma saída.

"Guerra dos Mundos" é uma história de esperança, de coragem e que mostra valer a pena dar o melhor de si em nome do bem comum, enquanto o pior passa e é combatido por aqueles que se propõe a tanto.

Ray Ferrier - vivido por Tom Cruise - é um homem normal. Embora não tenha força para combater a invasão como um todo, faz a sua parte - em nome do bem dos seus, sim - mas com a têmpera de um herói viável, com a têmpera que um indivíduo ordinário pode demonstrar em situações extraordinárias.

Postado por baccioly em 12:26 AM | Comentários (1)

julho 22, 2005

Índio quer apito

Podia ser 5arcasmo, podia ser ©inismo, podia ser qualquer coisa menos uma manifestação da realidade, entretanto, a verdade está aí para que todos vejam e achem "legal! supimpa! uma brasa!".

Já estão saindo da faculdade os profissionais do futuro, aqueles que nasceram sob o signo do Celular, aqueles que são a expressão da Geração Convergente... aqueles que resolvem colocar em seus projetos finais coisas como telefones celulares capazes de fazer mais que tirar fotos ruins, com conjuntos óticos ruins e péssima ergonomia.

Agora, os telefones celulares poderão fazer muito mais! Poderão fotografar o feto dentro da barriga de uma grávida que esteja dando sopa perto de você!

Creio que nunca fizeram nada de tão útil desde que o Laboratório Sérgio Franco tornou possível ver o resultado de exame de fezes pela Internet!


Postado por baccioly em 12:44 PM | Comentários (2)

julho 20, 2005

“Newsradio”

Criada por Paul Simms, a primeira e segunda temporadas de uma das melhores séries dos anos 90, já está disponível para fãs e corajosos garimpeiros de boas risadas.

Produtor do “The Larry Sanders Show”, Paul Simms escrevia parte do material do programa da mesma forma que fizera, dez anos antes, para o “Late Night with David Letterman”.

Candidato constante de 1995 à 1998 ao Emmy, Image Award por diversos motivos, o Casting Society of America chegou a considerar a série para o prêmio Artios, dado o fato de que elenco de “Newsradio” é um exemplo de boas escolhas. O material escrito por Paul Simms e sua equipe de vinte roteiristas sempre se mostrou impecável e hilariante e é digno de nota em qualquer análise que se possa encontrar por aí.

Dave Foley, de “Kids in the Hall” – uma espécie de “Mounty Python Flying Circus” canadense – encabeça democraticamente um grupo brilhante de comediantes como Phil Hartman, Stephen Root, Andy Dick, Vicki Lewis, Joe Rogan, e atores dramáticos como a bela Maura Tierney e Khandi Alexander.

Apesar da morte do carismático Phil Hartman, Jon Lovitz assume um personagem fixo em seu lugar a partir da quinta temporada. Embora Hartman faça falta, Jon Lovitz, acabou conseguindo a simpatia dos espectadores.

No piloto da série, David Nelson - vivido por Foley - chega do Wisconsin a WNYX, a segunda mais bem sucedida rádio de Nova Iorque, para assumir o lugar de Diretor de Notícias. É pelos seus olhos que vamos conhecendo as excentricidades e características de cada um dos adoráveis personagens, como o âncora Bill McNeal (Hartman), a secretária Beth (Vicky), o impagável Mathew (Dick), o eletricista Joe (Rogan), a locutora Katherine (Khandi), a supervisora de produção Lisa Miller (Tierney) - por quem acaba se apaixonando - e, é claro, Jymmy James (Root), o dono da estação.

Satirizando e explorando a política dentro de corporações, relações amorosas entre colegas de trabalho e crises no relacionamento profissional, “Newsradio”, com muito charme, monta os arquétipos que encontramos em cada empresa – do company-idiotTrocadilho com "village idiot" - idiota da cidade - quadro de Mounty Python, passando pelo over-achieverDiz-se daquele que executa suas funções para além do que dele se espera, por um ou por outro motivo., perfilando o egocentric-professionalDiz-se daquele que considera o próprio trabalho a coisa mais importante da empresa e desvaloriza o trabalho de todos os demais. e sempre descrevendo de forma breve a relação entre cada personagem, sem no entanto deixar de ser profundo.

Nos 29 episódios inclusos nos 3 DVDs que vêm embalados no pacote – que nem deixa tanto a desejar em termos de qualidade – um considerável número de extras salta aos olhos, que contam com as impressões de todo elenco em sessões de comentário, erros de gravação, entrevistas, bastidores e filmografias.

Apesar de ser conhecido por gostar de qualquer coisa que possa ser colocada numa tela de TV, garanto que “Newsradio” agrada do público mais singelo de “Friends” até o público mais sofisticado de “Mounty Python Flying Circus” – conseguindo, inclusive, ser ainda mais profundo que o primeiro e menos denso que o segundo, criando um nicho onde a crítica construtiva e a fábula moral se encontram.

Amava muito esta série e fiquei muito feliz quando ganhei a caixa de aniversário – responsabilidade do meu grande amigo Alexandre Maron, que indicou a compra pro Casal mais Lindo do Mundo, os culpados por muitas horas de gargalhadas nostálgicas! A série, que acompanhei há muitos anos foi, para mim, um daqueles programas que dali em diante me fariam recordar momentos da vida empresarial dos personagens a cada passo da minha vida profissional.

Para aqueles que gostam da forma pela qual destrincho e analiso filmes, vale ler “NewsradioArt.com”, um conjunto de ensaios só sobre a série que perfasem uma extensa análise sobre suas intenções, significados e importância, diante do meio árido e combalido que é a televisão.

A quem recomendo a compra? Recomendo a compra a quem trabalha em algum lugar, já trabalhou em algum lugar ou pretende, um dia, vir a trabalhar em algum lugar!


Postado por baccioly em 11:54 PM | Comentários (1)

julho 18, 2005

A triste realidade...

...é aquela que nos estapeia com luvas de pelica, quando denunciadas na forma de discursos, de artigos, ou através de qualquer forma de arte.

Nestes quadrinhos, Sean Phillips e Mark Millar - mais conhecidos por seus trabalhos na DC Comics - criaram um diálogo fictício entre Tony Blair e George Bush, para o jornal Sunday Herald, que teria se passado na Reunião do G8 em GleneagleGrupo dos Oito é um termo que se refere aos EUA, Japão, Alemanhã, França, Inglatera, Itália, Canadá e Rússia. Formalmente conhecidos como G7 antes do ingresso da Rússia, em junho de 2002. O G8 é o mais influente grupo de países desenvolvidos, no que se refere ao seu papel no sistema financeiro internacional ..

Clique nas páginas para ampliá-las...

Postado por baccioly em 04:22 PM | Comentários (1)

julho 16, 2005

Toda Teoria é uma Denúncia

Uma das mais surpreendentes faculdades humanas, a capacidade de fazer senso do que há entre o céu e a Terra, pode facilmente revestir-se de presunção e arrogância, embotando o que de bom existe em nossa vã filosofia.

“Tempos bicudos”, costumo dizer, indulgente em um dos muitos eufemismos que gosto de recitar para as pessoas que mais gosto – ao perceber a realidade à minha volta.

O leitor assíduo, e mesmo aquele que só dá as caras por aqui de tempos em tempos, já percebeu o tamanho de minha indisposição com meu entorno. E não há outra forma de encarar a questão, a não ser que se deseje cometer o pecado de ser profundo: “Tempos bicudos”...

O fato, contudo, é que há muita gente feliz por aí. Há gente feliz em toda parte. Não falo de gente feliz só com a própria vidinha e tal, mas feliz com tudo. Gente absolutamente feliz com tudo que o cerca.

Seria tão conveniente eu me permitir afirmar que aqueles que estão felizes com “as coisas” estão apenas equivocados, que são ignorantes do inferno para o qual, sob diversos aspectos, acordamos todos os dias...

...mas se o fizesse, eu não seria eu.

A minha noção do mundo, pra mim, é só uma noção. Na verdade, não a considero melhor ou pior que qualquer outra noção, ainda que tenha disposições em contrário a quaisquer delas.

A minha noção do mundo, enfim, é só uma noção mais recorrente em meu discurso, nada mais.

Talvez você já tenha percebido, mas eu simplesmente entendo minha noção do mundo e das coisas como irrelevante, como qualquer outra noção do mundo e das coisas.

Não se trata de Niilismoponto de vista que considera que as crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência, juro, mas de uma prática à qual, com o tempo, acabei aderindo.

No meu entender, as noções de mundo são reflexo de nossa experiência dentro dele e acho uma pena, uma pena mesmo, que haja quem confie tanto apenas no próprio ponto de vista. Afinal, é tão fácil concordar consigo mesmo.

Sugere a Matemática – ou ao menos é o que dizem aqueles que nesta noção se fiam – que a Lógica é a mais efetiva forma de se concluir algo a partir de premissas disponíveis.

Parecem, contudo esquecer-se de que a própria Lógica, enquanto disciplina, postula que premissas verdadeiras também levam à conclusões falsas. Mesmo quem não faz uso da Lógica, com rigor, para tirar conclusões acerca de qualquer coisa, procura concluir baseado em evidências.

“Teria o Michael Jackson ido pra cama com criancinhas?”, “Como foram feitas as Pirâmides do Egito?”, “Estaria minha esposa me traindo?”, “Por que os homens não baixam o assento do vaso?”, “Por que as mulheres reclamam do assento do vaso mas não acham que precisam baixar o tampo do vaso?”, “Eram os Deuses astronautas?”, “Se uma árvore cair numa floresta, sem ninguém por perto, haverá som?”, “Existe vida após a morte?”, “Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”, “Deus existe?”.

Estas são questões que jamais foram completamente respondidas e, no entanto, muitos de nós têm noções tão fortes acerca das respostas para cada uma destas perguntas. Muitos de nós até, arrisco dizer, têm a pachorra de afirma ter a certeza absoluta de que sua resposta é a certa e que as demais respostas estão simplesmente erradas... tudo, claro, baseando-se na experiência própria e desqualificando completamente o fato de que cada um dos demais também basearam suas conclusões na própria experiência.

Conclusões são armas poderosas para que funcionemos no mundo. Permitem-nos aprender com o passado, nos indicam que há conseqüências para nossos atos e, por conseguinte nos ajudam a tomar decisões acerca do que fazer no presente, normalmente perfilando uma estratégia para nossas decisões futuras. Este ferramental, que nos permite refletir e concluir é, portanto, essencial para que desenvolvamos nossos princípios e a base de nossa moral.

Este ferramental, contudo, não infere apenas em nossa moral. É bastante comum que um conjunto de conclusões acerca do que nos cerca vá ganhando adeptos. Tais conclusões, enfim, acabam se tornando convicções e tais convicções acabam por desenhar toda uma parcela, senão a totalidade, da sociedade.

A despeito de ser ensinado nas escolas, a Teoria da Gravitação Universal, de Newton, estava fundamentalmente imprecisa – para não dizer equivocada – e sua mais famosa fórmula seria capaz de fazer com que jamais alcançássemos Plutão – por exemplo.

Não me entendam mal... sem Newton, Einstein “jamais” chegaria à Teoria Geral da Relatividade. Não consigo, entretanto, tirar da cabeça que, ao contrário do que se deseja acreditar, toda a Teoria da Gravitação Universal – embora bastante "boa" – estava longe de ser excelente e, embora intuísse brilhantemente que todo corpo dotado de massa atraía outros corpos dotados de massa, neste mesmo particular estava simplesmente errada.

Enquanto coçam o queixo gostaria de lembrar que a Teoria Geral da Relatividade reza que não se trata de mera atração. O fundamento do comportamento dos mencionados corpos se dá devido à natureza do “tecido do espaço”. Segundo Einstein, corpos com massa provocam uma distorção na geometria do Universo, o que ocasiona um movimento mútuo de cada um deles.

Pode parecer preciosismo, contudo, ignorar a relação de causa e efeito em uma teoria supostamente responsável por cálculos – e conclusões – necessariamente precisos, não é muito diferente que acreditar que o coração é a fonte do pensamento baseando-se em que, ao pensar em alguém, suas palpitações se alteram em ritmo (teoria largamente aceita na idade média).

Boa parte da Teoria Geral da Relatividade – como qualquer teoria cosmológica – é 60% abstração, 30% genialidade e 10% realidade, coisa da qual não se consegue fugir, uma vez que significativas parcelas da teoria de Einstein vêm sendo invalidadas continuamente pela Mecânica Quântica e por teorias mais obscuras – ou menos populares.

Não há mais muito como esconder: apesar de toda sua popularidade, a teoria Einsteiniana está relativamente errada (!) uma vez que ela sustenta que a velocidade da luz é constante, o que foi refutado recentemente.

Conclusões se baseiam em premissas, evidências e – tentem me demover da idéia – ponto de vista!

Em breve a Mecânica Quântica estará em jogo e a teoria que a colocar abaixo também será posta de lado daqui algum tempo. Isso não desqualifica nem a Comunidade Científica nem o Método Científico... mas pode ser encarado como uma bela fábula, que deveria nos demover da necessidade de acreditar que temos quase que absoluta certeza que, de repente, devemos estar certos se tudo o que entendemos como correto realmente o for – por mais provável que seja.

Cientistas, acadêmicos, leigos, muitos vão se debater contra a idéia - nem que seja por tradição! - e, no final, vão ter de se render diante das evidências e conclusões... diante dos "fatos"!

Mas que "fatos" são estes? Diferenciar "fatos" de "flatos" em métodos baseados em FalsificacionismoKarl Popper nega que os cientistas começam com observações e inferem depois uma teoria geral. Em vez disso, afirma, propõem uma teoria, apresentando-a como uma conjectura inicialmente não corroborada, e depois comparam as suas previsões com observações para ver se ela resiste aos testes. Se esses testes se mostrarem negativos, então a teoria será experimentalmente falsificada e os cientistas irão procurar uma nova alternativa. Se, pelo contrário, os testes estiverem de acordo com a teoria, então os cientistas continuarão a mantê-la não como uma verdade provada, é certo, mas ainda assim como uma conjectura não refutada. é chover no molhado! O Método Científico, como tantos outros métodos, é útil, entretanto é só relativamente útil.

Toda teoria é uma denúncia, por certo, e a capacidade de tirar conclusões é uma das faculdades humanas mais importantes e fascinantes... mas se achamos isso de fato, por que parar? Por que devemos simplesmente agarrar-nos a nossas primeiras ou segundas conclusões e parar por dezenas ou centenas de anos, criando uma forma de “moralismo cognitivo” no lugar de questionarmos este comportamento.

Ainda que toda teoria seja uma denúncia, o que há de denúncia vazia por aí não tá no gibi!

Questionar nossas conclusões não é errado, não as desqualifica e não fere sua pureza. Colocar em perspectiva as conclusões às quais chegamos não só é prudente, mas sensato e sábio. É observar nosso objeto de estudo por mais de um ângulo e acaba nos tornando simpáticos às formas que os demais enxergam as mesmas questões, inevitavelmente nos tornando mais tolerantes com noções diferentes das nossas.

Pouco importa que usei um pedacinho da História da Ciência para afirmar isso – ao menos é esta a minha noção – usasse eu uma fábula qualquer, como “A Roupa nova do Rei”, ou qualquer outra, ainda assim eu estaria querendo dizer o seguinte:

A mentira tolerável é aquela na qual você acredita!

...mas uma vez que minha noção é irrelevante, você bem pode ignorar tudo que leu. Colocar as próprias noções em cheque?... pra que?

Para quem precisa de maiores explicações...
O meu raciocínio é contra-intuitivo, com relação a esta questão, sei disso.

Para mim todo evento é uma Fábula. A forma como o Método Científico cria e desqualifica teorias pregressas – e a forma como os leigos encaram tal processo – descrevem uma Fábula bastante consistente, a meu ver.

Fábulas, para mim, são ferramentas importantes para promover a reflexão.

No meu entender, a noção de que é ideal usar um só conjunto de premissas, para identificar e qualificar evidências, é falha e perigosa. Mais que isso... é fundamentalista.

Ao menos é o que me parece.

Assim como a fábula que identifiquei na História da Ciência, outra fábula - desta vez fictícia - que aponta na mesma direção, a meu ver, é "A Roupa nova do Rei", que pode ser lida na continuação deste pequeno ensaio.


A Roupa nova do Rei

Era uma vez um rei, tão exageradamente amigo de roupas novas, que nelas gastava todo o seu dinheiro. Ele não se preocupava com seus soldados, com o teatro ou com os passeios pela floresta, a não ser para exibir roupas novas. Para cada hora do dia, tinha uma roupa diferente. Em vez de o povo dizer, como de costume, com relação a outro rei: "Ele está em seu gabinete de trabalho", dizia "Ele está no seu quarto de vestir".

A vida era muito divertida na cidade onde ele vivia. Um dia, chegaram hóspedes estrangeiros ao palácio. Entre eles havia dois trapaceiros. Apresentaram-se como tecelões e gabavam-se de fabricar os mais lindos tecidos do mundo. Não só os padrões e as cores eram fora do comum, como, também as fazendas tinham a especialidade de parecer invisíveis às pessoas destituídas de inteligência, ou àquelas que não estavam aptas para os cargos que ocupavam.

- "Essas fazendas devem ser esplêndidas", pensou o rei. "Usando-as poderei descobrir quais os homens, no meu reino, que não estão em condições de ocupar seus postos, e poderei substituí-los pelos mais capazes... Ordenarei, então, que fabriquem certa quantidade deste tecido para mim."

Pagou aos dois tecelões uma grande quantia, adiantadamente, para que logo começassem a trabalhar. Eles trouxeram dois teares nos quais fingiram tecer, mas nada havia em suas lançadeiras. Exigiram que lhes fosse dada uma porção da mais cara linha de seda e ouro, que puseram imediatamente em suas bolsas, enquanto fingiam trabalhar nos teares vazios.

- "Eu gostaria de saber como vai indo o trabalho dos tecelões", pensou o rei.

Entretanto, sentiu-se um pouco embaraçado ao pensar que quem fosse estúpido, ou não tivesse capacidade para ocupar seu posto, não seria capaz de ver o tecido. Ele não tinha propriamente dúvidas a seu respeito, mas achou melhor mandar alguém primeiro, para ver o andamento do trabalho.

Todos na cidade conheciam o maravilhoso poder do tecido e cada qual estava mais ansioso para saber quão estúpido era o seu vizinho.

- "Mandarei meu velho ministro observar o trabalho dos tecelões. Ele, melhor do que ninguém, poderá ver o tecido, pois é um homem inteligente e que desempenha suas funções com o máximo da perfeição", resolveu o rei.

Assim sendo, mandou o velho ministro ao quarto onde os dois embusteiros simulavam trabalhar nos teares vazios.

- "Deus nos acuda!", pensou o velho ministro, abrindo bem os olhos. "Não consigo ver nada!"

Não obstante, teve o cuidado de não declarar isso em voz alta. Os tecelões o convidaram para aproximar-se a fim de verificar se o tecido estava ficando bonito e apontavam para os teares. O pobre homem fixou a vista o mais que pode, mas não conseguiu ver coisa alguma.

- "Céus!, pensou ele. Será possível que eu seja um tolo? Se é assim, ninguém deverá sabê-lo e não direi a quem quer que seja que não vi o tecido."

- "O senhor nada disse sobre a fazenda", queixou-se um dos tecelões.

- "Oh, é muito bonita. É encantadora!" Respondeu o ministro, olhando através de seus óculos. "O padrão é lindo e as cores estão muito bem combinadas. Direi ao rei que me agradou muito".

- "Estamos encantados com a sua opinião!", responderam os dois ao mesmo tempo e descreveram as cores e o padrão especial da fazenda. O velho ministro prestou muita atenção a tudo o que diziam, para poder reproduzi-lo diante do rei.

Os embusteiros pediram mais dinheiro, mais seda e ouro para prosseguir o trabalho. Puseram tudo em suas bolsas. Nem um fiapo foi posto nos teares, e continuaram fingindo que teciam. Algum tempo depois, o rei enviou outro fiel oficial para olhar o andamento do trabalho e saber se ficaria pronto em breve. A mesma coisa lhe aconteceu: olhou, tornou a olhar, mas só via os teares vazios.

- "Não é lindo o tecido?" Indagaram os tecelões, e deram-lhe as mais variadas explicações sobre o padrão e as cores.

- "Eu penso que não sou um tolo", refletiu o homem. Se assim fosse, eu não estaria à altura do cargo que ocupo. "Que coisa estranha!" Pôs-se então a elogiar as cores e o desenho do tecido e, depois, disse ao rei: "É uma verdadeira maravilha!"

Todos na cidade não falavam noutra coisa senão nessa esplendida fazenda, de modo que o rei, muito curioso, resolveu vê-la, enquanto ainda estava nos teares. Acompanhado por um grupo de cortesões, entre os quais se achavam os dois que já tinham ido ver o imaginário tecido, foi ele visitar os dois astuciosos impostores. Eles estavam trabalhando mais do que nunca, nos teares vazios.

- "É magnífico!" Disseram os dois altos funcionários do rei. "Veja Majestade, que delicadeza de desenho! Que combinação de cores!" Apontavam para os teares vazios com receio de que os outros não estivessem vendo o tecido.

O rei, que nada via, horrorizado pensou: "Serei eu um tolo e não estarei em condições de ser rei? Nada pior do que isso poderia acontecer-me!" Então, bem alto, declarou:

- "Que beleza! Realmente merece minha aprovação! Por nada neste mundo ele confessaria que não tinha visto coisa nenhuma. Todos aqueles que o acompanhavam também não conseguiram ver a fazenda, mas exclamaram a uma só voz:

- "Deslumbrante! Magnífico!"

Aconselharam eles ao rei que usasse a nova roupa, feita daquele tecido, por ocasião de um desfile, que se ia realizar daí a alguns dias. O rei concedeu a cada um dos tecelões uma condecoração de cavaleiro, para seu usada na lapela, com o título "cavaleiro tecelão". Na noite que precedeu o desfile, os embusteiros fiizeram serão. Queimaram dezesseis velas para que todos vissem o quanto estavam trabalhando, para aprontar a roupa. Fingiram tirar o tecido dos teares, cortaram a roupa no ar, com um par de tesouras enormes e coseram-na com agulhas sem linha.

Afinal, disseram:

- "Agora, a roupa do rei está pronta."

Sua Majestade, acompanhado dos cortesões, veio vestir a nova roupa. Os tecelões fingiam segurar alguma coisa e diziam:

- "Aqui está a calça, aqui está o casaco, e aqui o manto. Estão leves como uma teia de aranha. Pode parecer a alguém que não há nada cobrindo a pessoa, mas aí é que está a beleza da fazenda".

- "Sim! Concordaram todos", embora nada estivessem vendo.

- "Poderia Vossa Majestade tirar a roupa?", propuseram os embusteiros. "Assim poderiamos vestir-lhe a nova, aqui, em frente ao espelho." O rei fez-lhes a vontade e eles fingiram vestir-lhe peça por peça. Sua majestade virava-se para lá e para cá, olhando-se no espelho e vendo sempre a mesma imagem, de seu corpo nu.

- "Como lhe assentou bem o novo traje! Que lindas cores! Que bonito desenho!" Diziam todos com medo de perderem seus postos se admitissem que não viam nada. O mestre de cerimônias anunciou:

- "A carruagem está esperando à porta, para conduzir Sua Majestade, durante o desfile."

- "Estou quase pronto...", respondeu ele.

Mais uma vez, virou-se em frente ao espelho, numa atitude de quem está mesmo apreciando alguma coisa. Os camareiros que iam segurar a cauda, inclinaram-se, como se fossem levantá-la do chão e foram caminhando, com as mãos no ar, sem dar a perceber que não estavam vendo roupa alguma. O rei caminhou à frente da carruagem, durante o desfile. O povo, nas calçadas e nas janelas, não querendo passar por tolo, exclamava:

- "Que linda é a nova roupa do rei! Que belo manto! Que perfeição de tecido!"

Nenhuma roupa do rei obtivera antes tamanho sucesso!

Porém, uma criança que estava entre a multidão, em sua imensa inocência, achou aquilo tudo muito estranho e gritou:

- "Coitado! O rei está completamente nú! O rei está nú!"

O povo, então, enchendo-se de coragem, começou a gritar:

- "O rei está nú! O rei está nú!"

O rei, ao ouvir esses comentários, ficou furioso por estar representando um papel tão ridículo! O desfile, entretanto, devia prosseguir, de modo que se manteve imperturbável e os camareiros continuaram a segurar-lhe a cauda invisível.

Depois que tudo terminou, ele voltou ao palácio, de onde envergonhado, nunca mais pretendia sair. Somente depois de muito tempo, com o carinho e afeto demonstrado por seus cortesões e por todo o povo, também envergonhados por se deixarem enganar pelos falsos tecelões, e que clamavam pela volta do rei, é que ele resolveu se mostrar em breve aparições Entretanto, nunca mais se deixou levar pela vaidade e perdeu para sempre a mania de trocar de roupas a todo momento.

Quanto aos dois supostos tecelões, desapareceram misteriosamente, levando o dinheiro e os fios de seda e ouro. Mas, depois de algum tempo, chegou a notícia na corte, de que eles haviam tentando aplicarr o mesmo golpe em outro reino e haviam sido desmascarados, e agora cumpriam uma longa pena na prisão.

Hans Christian Andersen




Postado por baccioly em 11:25 PM | Comentários (1)