setembro 19, 2005

PodCasts

Antigamente, para ter uma rádio, seria preciso extrair uma concessão do Estado para operar, ter uma infra-estrutura relativamente pesada, comprometer seu conteúdo com mensagens publicitárias e rezar para conseguir se manter no ar.

Em fins do Século XX e início do Século XXI, com a evolução da tecnologia de compressão de áudio, o MP3 virou um dos ícones da tecno-cultura.

A popularização do formato MPEG-1 Audio Layer 3 – MP3 – acabou por fazer com que as empresas entrassem no jogo produzindo uma enxurrada de MP3 Players capazes de armazenar centenas e até milhares de músicas em um espaço bastante reduzido.

Poucas são as empresas de aparelhos eletrônicos que não se interessaram por uma fatia deste mercado em expansão. Dentre os mais bem sucedidos e engenhosos concorrentes neste mercado está a Apple – fabricante dos estilosos Macs – que, sob a batuta de Steve Jobs, vem desenvolvendo uma estratégia inteligente e bem articulada para alcançar todos os perfis de consumidores desta nova tecnologia.

A Apple projetou e lançou no mercado brasileiro equipamentos com custos que variam de R$ 500,00 até R$ 3000,00 e capacidade que varia de 512Mb até 40Gb – em diversos modelos e tamanhos, com inúmeros acessórios úteis e bugigangas de utilidade duvidosa.

Já até dei um destes de presente, entretanto ainda não tive coragem de comprar pra mim um dos aparelhinhos. De repente agora, que foi lançado o iPod Nano, com capacidade de 4Gb, preço em torno de R$ 1000,00 e a espessura de um lápis, eu comecei a me interessar mais.

O fato é que os MP3 Players parecem ter chegado para ficar – ao menos enquanto forem moda e enquanto não oferecerem nenhum gargalo tecnológico.

Em um movimento coordenado com o lançamento de seus produtos, a Apple teve a preocupação de disponibilizar o iTunes, um software dedicado à busca, cópia, organização e sincronização de músicas com seu iPod, digitalizando seus CDs e integrando seu computador pessoal com o aparelhinho.

É neste ponto, na verdade, que eles me pegaram pelo pé, e foi neste momento que ouvi, pela primeira vez, a palavra PodCast.

PodCast é um conceito que se tornou popular a partir de 2004 e que descreve um método de publicação de arquivos de áudio a serem distribuídos via Internet. O conceito envolve a assinatura de PodCasts como se fossem “revistas”, programas temáticos. São como programas de rádio gravados e distribuídos que, com a ajuda de software como o iTunes, carregam estes programas da Internet para seu computador e de lá para seu iPod.

Tanto músicas em MP3 quanto PodCasts podem ser ouvidos no próprio computador de mesa e o iTunes funciona também independente de você ter ou não um iPod.

De início imaginei que seria muito difícil achar um PodCast que prestasse, mas meus amigos Cristiano Dias e Alexandre Maron remediaram isso ao criar o RadarPoP PodCast, uma revista semanal sobre cultura pop que cobre, cinema, jogos, televisão, música, literatura, quadrinhos e tudo mais que você possa imaginar.

Se vou comprar um iPod eu não sei – e nem sei se recomendo a compra de algo com preços tão salgados – mas posso te dizer que, se não baixar o RadarPoP PodCast, vai perder uma grande oportunidade de se informar sobre o que há de mais interessante por aí!

Postado por baccioly em 02:10 PM | Comentários (3)

setembro 12, 2005

Logomaquia

“Ai, que texto longo!”, “Não entendi nada!”, “Você gosta de escrever, né?”, “Por que você escreve esquisito assim?”, “Dava pra cortar isso aí pela metade!”, “Por que você não troca ‘acerca’ por ‘sobre’?”, “Seu texto é um auto-elogio só!”, “Eu só gosto de ver as figuras no seu Blog”... é o que eu escuto ou leio semanalmente sobre o conteúdo e a forma do que eu escrevo. Adivinhem – ninguém está errado! – mas discordo dos comentários sob um ou outro aspecto.

“Brutal”, foi a primeira palavra proferida por George Orwell, quando bebê, ou assim nos fez acreditar sua mãe, que eternizou a lenda.

Orwell escreveu “1984”, livro que descreve uma sociedade totalitária que anula o indivíduo, valoriza a coletividade em nome da produção e, sobretudo, em que os fins justificam os meios e a mentira é uma preciosa ferramenta do Estado.

Em seu livro, e mesmo no filme de mesmo nome, Orwell sugere, de forma um tanto velada, que a destruição da língua tem papel importante na sedimentação de um Estado policial totalitário, um governo de exceção.

Na obra, contrações lingüísticas, fusões de palavras, inversões de conceitos, são lugar comum e lindamente costurados com a falta de significado e a distorção do sentido íntimo de tudo o que é dito.

A primeira palavra de Orwell bem poderia ser usada para descrever como desconstruímos nossa história e identidade ao destruirmos a língua... É brutal!

Há quem não se preocupe tanto com isso e ache até muito bom que a língua esteja convergindo para algo mais conciso e eficiente, mais objetivo e pragmático. Sob certos aspectos é, de fato, muito interessante, produtivo e tudo mais, mas é também um empobrecimento da cultura e de nós mesmos.

Desde a revolução industrial, a sociedade vem descrevendo uma curva ascendente em direção à uma maior produtividade, à uma maior eficiência, mesmo que em detrimento da qualidade e da durabilidade. A não sustentabilidade dos meios de produção e dos produtos em si mesmos nem se cogita na lista de prioridades corporativas.

Para alcançar taxas de produção tão elevadas e para garantir a lucratividade torna-se necessário o entendimento do processo produtivo em termos não de homem/hora, mas de homem/centésimo-de-segundo. É preciso criar metodologias cada vez mais elaboradas para alcançar as taxas alvo a despeito do Homem, embora seja ele quem efetivamente trabalha. Entende-se o Homem, nesta realidade, como uma peça em uma máquina e se esquece que é ele um Ser Humano.

Mesmo que este pareça um discurso datado, fica bastante claro que o discurso é atual quando se percebe que é lugar comum uma fábrica sair de seu país de origem para operar com mão de obra mais barata em países em desenvolvimento, deixando inúmeras famílias sem fonte de renda.

Este “industrialismo” teve profundo impacto na forma que o Homem vê o mundo e em sua forma de pensar e agir, viciando-o em conceitos que só parecem verdadeiros graças à realidade na qual foi imerso.

Na Idade Média, a pintura não conhecia a perspectiva, ou melhor, manifestava nas telas inúmeras perspectivas... essencialmente estavam presentes diversos pontos de fuga – conceito que viria posteriormente.

Da geometria projetiva e da Arquitetura veio o conceito de ponto de fuga, que dá ao espectador a impressão de estar dentro do quadro, respeitando a perspectiva qual se estivesse vendo os elementos do quadro como se existissem em um espaço tridimensional.

Por outro lado, o advento do ponto de fuga não mais dá uma multiplicidade de visões, de perspectivas, viciando o espectador no próprio ponto de vista e coincidindo com as tendências mais individualistas descortinadas pelo progresso.

O ponto de fuga pode ser lido como a asserção da própria perspectiva, o encontro consigo mesmo e até a valorização do indivíduo, entretanto afasta o indivíduo da diversidade de visões, da busca de visões estranhas à sua e mesmo a aversão a tudo o que é discordante com a própria opinião.

Em um mundo orientado à produção, o trabalho precisa ser valorizado e moderadamente recompensado, os cidadãos têm de estar imbuídos de valores que o incentivem a trabalhar e deve-se desqualificar quaisquer questionamentos em sentido contrário ou que entrem em conflito com os interesses “produtivos”.

Estando a eficiência a frente da eficácia e da efetividade, perde-se a necessidade da qualidade e da sensatez, focalizando os esforços sociais no sentido de um Objetivismo e Pragmatismo desmedidos que só permitem a análise da realidade através da conclusão de objetivos e só permitem o entendimento do movimento tendo algo previamente eleito como objetivo.

Invariavelmente, em vista de ter-se descartado a qualidade e a sensatez, há que se acobertar tais impropriedades de algum modo. Isto pode ser feito através da criação de órgãos destinados a endossar o cumprimento de boas práticas, elencadas em metodologias que, se seguidas, não permitirão – por sua própria natureza – atingir a tão preciosa lucratividade.

Para garantir a aderência a esse padrão de qualidade fictício sem provocar quedas de produção, os órgãos exigem que a corporação tenha um percentual de seu contingente treinado nesta metodologia e assumem que as tais boas práticas, dado o treinamento do pessoal, sejam levadas à cabo. Eis o conceito de certificação.

O quadro belíssimo leva então a cobertura essencial do discurso vazio, empreendido por profissionais de Administração, Vendas e mesmo Cientistas Políticos, que destilam sofismas, palavras da moda e frases feitas, tão emblemáticas quanto incoerentes, que defendem ora um ora outro ponto de vista, quase sempre conflitantes.

A imersão opera milagres...

Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda no 3º Reich, eternizou aforismos importantíssimos no entendimento da anatomia de um Estado totalitário, afirmando que “quanto maior a mentira, maior a credulidade”, que esta forma de governo “não busca a verdade, mas o efeito por ela produzido” e que “o objetivo do sistema é que até a desobediência se torne uma forma de obediência".

A busca de um ponto de fuga único e orientado ao espectador é o ponto pelo qual o espectador foge da realidade, confiando demais em sua própria visão de mundo para tolerar ou considerar os demais pontos de vista, entendendo como Natureza Humana a condição de não questionar nada e sentindo-se afiançado na posição de acreditar-se fundamentalmente certo.

Hoje, graças aos caminhos que resolvemos percorrer, temos um dicionário rico em verbetes com dez, vinte, cinqüenta acepções e, entretanto, cada indivíduo escolhe fazer uma média das “n” acepções ali descritas e concluir uma única acepção para conceitos complexos como “Questionar”, “Moral”, “Ética”, “Objetivo”, “Abstração”.

Os protocolos de comunicação ruem diante desta brutalidade ideológica de relativização dos significados, não permitindo que duas pessoas se compreendam pois elas não mais conseguem pensar em dez, vinte, cinqüenta acepções para cada uma das palavras que adotam em seu vernáculo, ao invés disso sustentando pontos de vista que se fundamentam no significado que escolheram para as palavras que usam.

A generalização e relativização da língua e a re-significação auto-indulgente de conceitos, são reflexos de nosso desrespeito por qualquer outro ponto de vista e pelo descaso quanto ao sentido íntimo das coisas.

A noção de que “tudo é relativo” é uma generalização tosca, mais uma média “estatística” intuitiva que se tira sem base alguma e meramente para afiançarmos as certezas equivocadas que gostamos de ter.

“Palavras difíceis” são corriqueiramente descartadas, com a impaciência destas pessoas preguiçosas nas quais nos tornamos, e é isso que vai nortear a confecção de textos jornalísticos e obras literárias, levando a língua e a cultura em uma espiral descendente em direção à mediocridade à qual só a média e o relativismo exacerbado tem condições de nos levar.

Destituídos de significado não só os discursos, mas cada um de nós se torna vazio e sem substância. Não há mais protocolo de comunicação possível se decidimos que cada um pode reinventar a língua a seu bel prazer.

Logomaquia é o nome que se dá para discussões geradas por diferentes interpretações acerca do sentido de uma palavra; o emprego de termos não definidos em um discurso ou argumentação; e a querela em torno de coisas insignificantes.

Em que contexto esta palavra se encaixa neste texto cada leitor escolhe, dependendo de suas interpretações do que leram e de forma bastante independente da minha intenção como autor. O que jamais deve ser esquecido é que há mais de uma acepção. Não abra mão dos múltiplos significados das coisas!

Vale refletir acerca da forma que nos relacionamos com nosso entorno e, como escreveu David Reisman: “Faça um apanhado das frases com as quais concorda e questione-as!”

Se uma casca do que um dia fomos é só o que nos resta ser no futuro, só vai valer a pena abrirmos a boca mesmo é para bocejar...

Postado por baccioly em 02:52 PM | Comentários (11)