setembro 18, 2006

Filosofia - Ciencia&Vida

Sem criticar as publicações orientadas ao corpo, tecnologia e auto-ajuda - mas lembrando que estas três somam os seguimentos mais ofertados (e talvez mais procurados) nas bancas - Filosofia, da coleção Ciencia & Vida, vem oferecer o raro, com uma roupagem não-vendida e responsável sem ser elitista.

O momento não podia ser mais propício, a meu ver, diante do sucesso improvável da revista História e do fato de que peças de teatro, romances ficcionais e filmes vêm, cada vez mais, batendo na tecla ressonante da Filosofia.

Com textos entre o didáticos mas nada indulgentes a revista da Editora Escala - agora em seu segundo número - mostra a que veio ao mostrar os aspectos práticos da Filosofia, seu rigor contra-intuitivo na analise das questões, sua pluralidade e imparcialidade, sem contudo abrir mão do aspecto subjetivo e não necessariamente orientado a objetivos imediatos.

A revista eh uma janela entre-aberta e, arrisco dizer, uma das poucas saídas em um cômodo aparentemente hermético que nos encaixota em uma matriz reducionista e opressiva de hedonismo, pragmatismo fundamentalista e relatividade moral.

Não se abstendo de comentar a História da Filosofia - essencial para a compreensão e manutenção de conceitos já visitados e para fundamentar novas idéias - a revista navega com facilidade pelo ato de fazer Filosofia e pela filosofia da práxisAção de aplicar, usar, exercitar uma teoria, arte, ciência ou ofício., sua aplicacao direta ou indireta no mundo real.

Não por acaso, nos dois primeiros números menciona-se o advento da Filosofia Clinica, disciplina terapeutica com viés psicanalitico e claras heranças da Psicologia, que foi fundada por Lucio Packter - graduado em Filosofia pela PUC-FAFIMC, de Porto Alegre (RS) e coordenador dos cursos de pós-graduação em Filosofia Clinica da Universidade Moura Lacerda, em Ribeirao Preto (SP) e da Faculdade de Filosofia de Sao Miguel Arcanjo, em Anapolis (GO).

Com muita seriedade, inteligente ironia, uma pitada de sarcasmo, me parece que o material vá agradar desde o mais empedernido mecanicista científico até o mais fundamentalista religioso.

Por R$ 7,90, vale a pena ler algo de totalmente diferente sobre assuntos que são ou não lugar comum em outras revistas. O que vai te surpreender, arrisco dizer, é a riquiza de aspectos e a análise contra-intuitiva que o viés filosófico pode oferecer.

Não há protestos! Nota dez para a publicação, para a iniciativa e paro conteúdo!

O Ato Médico e o Ato Filosófico

O Ato Médico, projeto de lei que uma vez chegado ao Congresso, e se aprovado, tornaria privativos da classe médica todos os "procedimentos e diagnósticos" e "indicações terapêuticas" é o assunto de hoje. Se aprovado ameaçaria a sociedade com O Alienista, de Machado de Assis.

A idéia acendeu os desejos de outros setores. O Ato Enfermeiro proibirá as mães de curativos e relegará os Band-aids® às farmácias, mas nada poderá ser vendido em farmácia por causa do Ato Farmacêutico. De tanto não venderem nada, os farmacêuticos terão lesões na coluna, mas nem pensar em massagens porque o Ato Fisioterápico valerá em todo o território nacional.

O problema é que de tanta vigilância, os fisioterapeutas ficarão doidos e não poderão ir a um médico psiquiatra porque estará vigente o Ato Psicológico, pelo qual nenhum paranóico ousará paranóias como procurar gente desabilitada a lidar com isso, como um médico.

Nervosos, os médicos passarão a comer mal e pouco, mas não poderão fazer qualquer coisa, um vez que estarão condenados à alimentação eterna que iniciaram devido ao Ato Nutricionista. Os próprios nutricionistas não poderão explicar nada aos médicos, para não incorrerem em uma afronta ao Ato Pedagógico, que restringe o ensino aos professores.

Pena que, nessa altura, os professores já tenham morrido, em consequência do Ato Político que, por sua vez, agonizará pelo embate entre o Ato Econômico e o Ato Circense. Ninguém mais estará a salvo.

Os advogados serão impedidos de quase tudo pelo Ato de Direito, segundo o qual todo juiz prescindirá de advogados. Mediante o Ato Teológico os juízes serão proibidos de julgar, já que isso a Deus pertence. Mas o Ato Filosófico será supremo e cerceará a todos, já que ninguém poderá fazer algo sem o uso da razão, o que impedirá na prática a própria Filosofia.

Qualquer coisa que qualquer um faça será condenada pelo Ato dos Atos, que é o projeto de lei que proíbe todas as coisas mediante a suspeita de alguma coisa que possa invadir remotamente outra. Ninguém mais sairá de casa, ninguém dará mais um piu e juntos, em silêncio, todos aguardarão quietos, o Ato do Juízo Final.

Lúcio Packter
Filosofia - Ciência & Vida - Ano I - nº 2

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Editora Escala . Filosofia Ciência & Vida . nº 2
Postado por baccioly em 01:46 PM | Comentários (3)