outubro 06, 2006

Generalizações

“Tenho quase absoluta certeza de que, de repente, é possível que seja provável que minha vivência justifique, sem sombra de dúvida, que talvez eu possa presumir acertadamente o comportamento futuro de um indivíduo, baseado na observação do comportamento pregresso da coletividade.”

É difícil ser menos conclusivo e mais incoerente. Mas nós mesmos declaramos algo muito parecido cada vez que, irresponsavelmente, usamos de generalismos para julgar uma pessoa ou um grupo.

E o que é o generalizar? Há mais de um sentido, mas o que mais se adeqüa aqui é: “Afirmar, de forma infundada ou não, que algo é verdadeiro em grande parte de situações, ou para a maioria das pessoas”.

Fazemos isso o tempo todo, seja ao dizer que “só um por cento das pessoas lê sobre Filosofia”, seja ao afirmar que “só dez por cento dos telespectadores vê a TV Educativa” ou que “é muito pouco provável que não exista vida fora da Terra”. Todas estas pressuposições se baseiam em estatísticas intuitivas, sem bases, puramente ancoradas no preconceito e descaradamente fundamentadas em uma experiência limitada da realidade – ainda que sejam verdadeiras!

Será que é interessante nos acostumarmos a pensar assim? Será que é responsável e justo? Será que é bom? Ou será que é reducionista, superficial e tolo?

Acostumarmos-nos a ser levianos em análises simples – por nos parecerem elas menos importantes – nos condiciona a fazer vista grossa em julgamentos mais relevantes. Um bom exemplo são afirmações como “mulher ao volante é um perigo constante”, ou mesmo ditos populares como, “pau que nasce torto morre torto”.

Antes de qualquer coisa, para os defensores dos ditos populares como “a voz do povo é a voz de Deus”, só tenho a dizer que não é lá muito coerente que se afirme que “mais vale um pássaro na mão que dois voando” quando também se diz que “quem não arrisca não petisca”.

Os generalismos estão em toda parte – sem querer ser generalista – mas mesmo que eu esteja errado quanto a sua fartura em aparecer por aí, veja só o perigo que é generalizar:

“Todo político é salafrário!” – diz ela com desprezo para o recém conhecido.

Ele, tentando não se sentir ofendido – “Ahn... Assim... Literalmente? Todo mesmo?”

“Claro! Todo político! Não tem um que preste.” – Afirma categórica.

Um tanto sem graça ele pergunta – “Mas como você sabe, se não conhece todos?”

“Eu conheci o número suficiente de políticos para saber!” – Postula.

Não sei quanto desse diálogo o leitor teve a oportunidade de presenciar, mas não é difícil imaginar os problemas dele advindos.

Em tendo concluído que Com Certeza Todo Político é Salafrário, não sobra espaço para qualquer incerteza. Se a conclusão da moça estiver errada, ela simplesmente não vai se dar a chance de sabê-lo, pois, precipuamente (antes de mais nada) já tem a certeza de que um político individual – que de fato fosse honesto e bem intencionado – é político e, portanto, salafrário.

Se o leitor não discordou da moça, dada a situação do país ou qualquer outro motivo, troque a palavra “político” por “homem”, “judeu”, “japonês”, “negro” ou qualquer outro grupo que você desejar.

O fato é que agrupamos indivíduos sob rótulos dos quais, muitas vezes, eles sequer se julgam fazer parte. Agrupamos as loiras, ainda que sejam pintadas; os Asiáticos, ainda que japoneses e chineses sejam de culturas completamente diferentes; os filmes de Ficção Científica, embora existam diferentes gêneros dentro deste pseudo-gênero; e temos até a pachorra de inventar um grupo de “pessoas bonitas”.

Esta atitude é útil para catalogar grupos e fazer referência à coletividade, mas trata-se de uma ferramenta e, como tal, não deve ser usada para tarefas para as quais não foi designada. Seria como usar um martelo para apertar um parafuso.

Usar de generalizações como mecanismo para julgar indivíduos a partir de supostos comportamentos de grupos que, por vezes, nós criamos apenas para organizar nossos conceitos e preconceitos? – Isso não tem como ser justo!

Presumir um indivíduo desconhecido como tendo as características de outros indivíduos, baseando-se na própria experiência – ou vivência (escolha a palavra que quiser) – é julgar e condenar sem sequer dar uma oportunidade ao acusado.

E antes do leitor achar que não julga ninguém, não deve se esquecer que toda conclusão acerca do que uma pessoa deve ser, seguida de uma atitude baseada no que se presumiu, é um julgamento e, mais que isso, é uma condenação sem chance de apelação.

Ninguém disse que é fácil, mas sua cautela em não sofrer novamente uma decepção não é mais importante que tratar os outros de forma justa. O ônus da prova recai sempre sobre os ombros de quem julga alguém como desonesto ou presume alguém como culpado de algo. E se alguém já te magoou, não seria surpresa que isto tenha ocorrido porque tal pessoa foi mais cautelosa do que justa com você.

Portanto, um homem passar a achar que nenhuma mulher presta, porque uma ou outra – ou quinze – já o traiu, desqualifica estas meninas e não a vítima da traição. Muito menos uma nova mulher que entre em sua vida, porque sua formação como indivíduo não passa, necessariamente, pela aderência – ou aceitação – aos conceitos e ao caráter das meninas que o traíram.

Isso não vale só para homens e mulheres, mas vale também para brancos e negros; protestantes e católicos; ocidentais e orientais; comunistas e capitalistas; flamenguistas e vascaínos; americanos e brasileiros; e por aí vai!

A generalização é uma ferramenta poderosa e extremamente útil e – embora esteja aí para qualquer um usar – não é diferente de uma faca, que serve pra cortar um pãozinho ou pra matar uma pessoa.

Já se discutiu muito sobre isso em um monte de disciplinas. Existe até o conceito chamado de Generalização Desmedida, ou Falácia, que nada mais é que sustentar um argumento aparentemente lógico – o Paralogismo – não apresentando evidências e estabelecendo uma visão reducionista de uma questão, agrupando coisas e pessoas sem que haja qualquer valor lógico na proposição. Bons exemplos são: “Todo mundo sabe que Argentino tem mania de grandeza” ou “Não é novidade para ninguém que Brasileiro só gosta de carnaval, praia e futebol”.

Não podemos nos esquecer que, quando criamos estes grupos na cabeça – onde encaixamos os indivíduos – o fazemos interpretando a realidade ao nosso redor. Nem sempre, contudo, nossa interpretação dos fatos é correta, o que nos faz ver como evidência algo que não é mais que uma coincidência infeliz e incriminadora. Neste processo, nasce um grupo que sequer devia existir ou uma impressão errada do que este grupo de fato é.

Aprender a generalizar responsavelmente é aprender que generalizações, assim como as estatísticas, servem o propósito de definir grupos e não indivíduos. E que um indivíduo só pode ser julgado pelos seus próprios atos e jamais deve pagar pelos atos de outrem.

Ser um pouco mais Tolerante através da forma como nos referimos às coisas e pessoas é um pequeno passo e pode até parecer pequeno demais, mas o leitor deve se lembrar que, para sair de onde se está para chegar a um lugar distante, só empreendendo a jornada um passo de cada vez.

A Impossibilidade da Generalização

"A gravura se refere ao prazer em se tentar e a irritante impossibilidade em se criar uma conclusão.

Não há possibilidade de esgotar um assunto e há sempre o que se questionar e dimensões inacabadas."

"Não estou certo, por exemplo, se Nietzsche acreditava de fato no que escrevia. Portanto, gostar ou desgostar dele é pouco apropriado. Ele fez uma proposição, na qual talvez ele mesmo não acreditasse. Nela viu possibilidade de expressão. Foi prazeroso promover suas idéias bizarras qual fosse uma mina de ouro escondida que engolfava toda a raça humana. Linda, lógica, sua teoria era digna de ser propalada, mesmo que incorreta."

"Ao nos imiscuirmos no espaço para compreendê-lo, é capaz de encontrarmos um poço, que dê passagem para outra "esfera". Extraímos algo deste poço com uma polia e com a ajuda de um balde. E o balde está furado. Não há nenhuma generalização possível. Ela é a invenção mais terrível da raça humana."

"Toda generalização se opõe a frase: "Falar é mentir". O que vemos na vida é apenas um fragmento, uma parte, algo invariavel e profundamente incompleto."

"Toda filosofia, independente de sua similaridade, tem em suas fronteiras um colossal espaço. O homem, diminuto, tem de fugir de uma esfera, cruzar este espaço para só então alcançar a passagem para uma nova esfera - sempre limitado pela vida."

"Estamos livres neste periodo no tempo, na larguesa desta estrada que nos resta. Mas generalizar a vida é pequeno demais."

Sergey Poyarkov
Balance of Contradictions
Postado por baccioly em 11:06 AM | Comentários (1)

outubro 03, 2006

“Fast-food Nation”

Fragmentando a realidade em torno de um fato, Linklater passeia rapidamente pelo impacto que as cadeias de fast-food têm na saúde pública para logo navegar por um oceano de implicações sociais e culturais muito mais complexas, com direito a subtextos brutais e denúncias que vão além da culpabilidade das Corporações e sugerem nossa cumplicidade e responsabilidade por nosso modus vivendi.


















Em débito com o Festival do Rio 2006, resolvi quebrar a corrente e ir em pelo menos um dos dois filmes de um dos meus diretores prediletos - Richard Linklater - e, como eu esperava, o dinheiro do ingresso valeu!

O filme teve algumas críticas ruins aqui e acolá, mas eu confio na visão do diretor de “Antes do Amanhecer”, “Waking Life”, “Tape”, “Antes do Pôr-do-Sol”, “A Scanner Darkly” etc. e resolvi marchar para esse festival que tem uns horários que deixam qualquer pessoa que trabalha de cabelo em pé (ainda bem que eu sou careca).

O filme gira em torno de um sanduíche, o Big One, um hambúrguer gigante que o pessoal de marketing da cadeia de lanchonete Mickey’s criou e que vem sendo “superavitário” desde seu lançamento. Há, no entanto, um problema: “Uma universidade encontrou coliformes fecais na carne”... no frigir dos ovos... “Há merda na carne”.

O diretor do departamento de marketing do Mickey’s começa então sua jornada de investigação pelo mundo maravilhoso da produção em massa de carne, com a intenção de descobrir se há alguma verdade na alegação ou se não passa de um mal entendido.

Enquanto isso tudo vai acontecendo, o filme vai se fragmentando em tramas paralelas tão aparentemente díspares quanto uma família de mexicanos que entra ilegalmente para trabalhar no território americano – na produção de carne – até uma família cuja caçula é uma inteligente menina que é caixa de uma lanchonete Mickey’s.

Vale dizer que “Big One” é o nome de um documentário de Michael Moore que critica os E.U.A. e Mickey é o nome do personagem americano que, por um bom tempo, foi o símbolo de seu expansionismo cultural. Se tais referências são intencionais ou não eu não sei, mas me chamaram a atenção de imediato – sem mencionar o nome da mexicana, que se chama nada mais nada menos que Coco.

A aparência desconexa do filme, que salta de uma trama para outra com a agilidade própria de Linklater, pode parecer uma falha narrativa, se descontextualizada da história, entretanto, me parece muito mais que isso.

Quando se trata deste diretor, minha aposta é que tudo é parte de uma mensagem maior. O fato de todos os personagens estarem e se sentirem completamente impotentes o tempo todo, diante de uma realidade opressiva, sem mesmo ter como registrar isso em toda sua dimensão e, ao mesmo tempo, serem vividos por um elenco – a meu ver – formidável, é um significado em si mesmo.

Todos ali são importantes. A mensagem Personalista Kantiana, onde todo ser humano deve ser um fim em si mesmo e jamais um meio apenas, está ali em toda sua glória, enquanto a realidade em torno dos personagens renega esta visão violentamente fazendo, de cada um dos que ali estão, meros degraus para um progresso corporativo pragmático, objetivo e orientado a resultados a qualquer custo.

Greg Kinnear é o diretor de marketing que investiga a merda na “fábrica de carnes”; que emprega ilegal e negligentemente mexicanos - Wilmer Valderrama e Catalina Sandino Moreno - tratados como lixo; que se sujeitam a tudo para poder viver o Sonho Americano comendo fast-food servido por Ashley Johnson e Paul Dano; cuja carne é analisada regular e corruptamente por Bruce Willis; que é denunciado por Kris Kristofferson, cuja fazenda improdutiva vem sendo cercada pela especulação imobiliária e pelo progresso na forma de uma estrada que vai encampar seu território se ele não recorrer do processo; que nem se compara em produção a fazenda da “fábrica de carnes”, que concentra enormes quantidades de cabeças de gado para abate; que são alvo de preocupação e ação de Avril Lavigne e sua “gangue”; cujas ações são fúteis embora meritórias, mas que não dão resultado dado ao estado apático das vítimas diante da realidade e permanecem onde estão, sem sequer saber que estão presas e produzindo o cocô que vai infectar sua carne para só então servir de alerta para o que há de errado.

Linklater tenta, e consegue – a meu ver – fazer com que o espectador mais interessado perceba que não só “A Nação” vêm se alimentando de Merda, mas que as pessoas, que de alguma forma constituem esta nação, vêm sendo tratadas como Esterco e vêm se acostumando a serem rodeadas de um papo que é puro BullShit em nome de um sistema que é uma Bosta e de um sonho que já vem decantando no vaso faz uma data.

Eu até poderia fazer apologia à alimentação vegetariana e tal... mas, sinceramente, não está em mim fazê-lo. O que posso dizer é que vale ver o filme, que ele gera reflexão, incomoda e te coloca em movimento.

Ethan Hawke - o tio idealista de uma geração perdida que quase nada conquistou e cujas causas pífias que abraçou são uma sombra das causas abraçadas por seus pais - faz o papel obstruso do Sábio Eremita que, jogando xadrez com Ashley Johson, aproveita sua jogada para seqüestrar a atenção da menina e abrir-lhe os olhos...

O que importa é que o filme nos mostra que o buraco na cerca está bem ali e que podemos levantar os traseiros gordos que viemos cultivando. O traseiro gordo recheado com toda Merda que gostamos de achar que nos foi empurrada pela goela ao invés de ingerida volutariamente.

A Verdade é indigesta!

...agora é a sua vez. A próxima jogada é sua!

Uma tempestade está se formando... ela se chama Humanidade...
Quando ela precipitar, vai ser algo glorioso de se ver...

Postado por baccioly em 02:20 PM | Comentários (2)