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junho 18, 2007

Medo

Em uma semana repleta de sonhos e pesadelos, acordando ofegante, suado e me sentindo ridículo por estar com medo de coisas que não estão lá, resolvi me perguntar o que, aos 36 anos, é fonte dos meus medos...

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Imagino que sejam cartas marcadas, no caso de um cinéfilo como eu, imaginar que meus medos tem raízes em obras cinematográficas. Mas eu me surpreendi bastante ao perceber o que me inquieta, qual a estética que me abala e o que - caso acontecesse - faria meu ceticismo dar uma guinada e enregelaria minha espinha.

Revisitei tudo que pude me lembrar de obras literárias, quadrinhos, desenhos animados, filmes, acontecimentos e - com poucas menções honrosas - uma coisa me veio a mente e me mostrou em quanto essa imagem aí ao lado me causa calafrios...

Não que "Hellraiser" me amedronte. O vilão da estória - Pinhead - é uma personagem forte e tal, mas muito menos me aterroriza que a Lament Configuration (ou "Configuração do Lamento", em português), como se convencionou chamar o cubo enigmático desvendado, voluntária ou inadvertidamente, pelos protagonistas, para abrir um portal entre o mundo dos vivos e uma dimensão infernal de dor e sofrimento.

Por algum motivo que me escapa, a dor e o sofrimento - que são, por si, amedrontadores - me apavoram muito menos que aquele artefato aparentado com um Cubo de Rubik mas cuja estética "barroca", profundamente detalhada e ricamente ornada me arrepiam os pêlos da nuca sempre que dou com os olhos nela.

Há poucos outros elementos no gênero de Terror que me provocam tanto quanto o Lament Configuration... me lembro agora do personagem de Max Von Sydow em "Trocas Macabras", da personagem que jamais aparece em "A Última Profecia", Samara, de "O Chamado" e o Arcanjo Gabriel, de Christopher Walken em "Anjos Rebeldes", mas realmente são poucos elementos - sobretudo em filmes mais novos - que me fazem sentir algum rastro, ainda que fugidio, de medo.

Em nome de descobrir o que tanto me impressionara naquele cubo cheio de mistério eu resolvi buscar o tanto que pude na Internet e ver de novo o primeiro filme da série "HellRaiser".

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...

Bom...

O filme deixa mesmo muito a desejar.

Podia mesmo ter sido magnífico. Mas não é - ou ao menos assim me parece.

Foi escrito e dirigido por Clive Barker - que como diretor era um ótimo escritor... mas não para o cinema.

Os efeitos especiais, para os quais eu nem costumo ligar tanto, embora os admire, estavam um lixo inigualável - ainda mais olhando com olhos de Século XXI.

Até mesmo o cubo me pareceu opaco no filme e, no dia seguinte, resolvi ir procurar novamente informações sobre o Lament Configuration.

O efeito foi o mesmo... o cubo, ao que parece, ficou maior do que o filme para mim.

Fico pensando quantas outras pessoas ainda têm calafrios ao olhar para aquele cubo de madeira e metal, quantas ainda sentem-se arrepiar antes mesmo de suas evoluções começarem.

O que mais me fascinava, creio, depois de muito pensar a respeito, é que alguém tinha construído aquele objeto, alguém diabólico o suficiente para ter um pé "do outro lado". E a história desse sujeito era até bastante elaborada.

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Ao que parece, de acordo com o romance "The Hellbound Heart", com os quadrinhos da Epic Comics e com o quarto filme da série cinematográfica "HellRaiser" - de Clive Barker - Philip LeMarchand era um jovem e talentoso artífice, arquiteto e projetista reponsável pela criação de complexos quebra-cabeças que eram também caixas de música, na Paris do século XIX.

A época do ápice de seu sucesso como artífice Paris era assolada pelo desaparecimento de uma grande quantidade de pessoas, muitas das quais haviam adquirido as caixas de LeMarchand. Suspeitas não confirmadas recaiam sobre ele quando decidiu deixar a Europa e todos os seus pertences.

Após sua fuga, provas se acumulavam quanto a sua culpabilidade nos desaparecimento, dentre elas um auto-retrato usando não tinta a óleo, mas a base de gordura humana, quadro este que teria desaparecido na segunda guerra mundial.

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Não é difícil achar esta uma história fraca e acreditar que há pouca relevância neste texto, no entanto, o que mais me intriga é em quanto o cinema perdeu - ao menos em minha opinião - a condição de aterrorizar, de horrorizar, se concentrando hoje mais em assustar.

Controlamos com tanta competência o calor, o frio e tantos aspectos da natureza que outrora nos oprimiam que, hoje, o último bastião de Medo que parece restar é o medo da violência... e talvez por isso os filmes vêm sistematicamente nos oferecendo banhos de sangue no lugar de um terror psicológico (por vezes com toques sobrenaturais) como estavam presentes em "Os Inocentes" ou "O Iluminado".

Talvez a saída esteja em questionar convincentemente a nossa noção da realidade. Nossa noção fechadinha de como as coisas funcionam... uma noção que deve ser desmantelada aos poucos por tantas técnicas de suspensão de descrença quanto o autor puder usar, como se fosse um nó difícil ou um quebra-cabeças, uma caixa que abra as portas para um outro mundo, para uma outra realidade.

Cada uma de nossas mentes, hoje, é um exemplo da "Configuração do Lamento"... e eu lamento muito...

Clive Barker diz: "O terror começa com uma porta entre-aberta", mas eu diria que o terror começa com uma caixa fechada: Nós.

Bruno Accioly

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Categoria: Cinema

maio 25, 2006

"O Código DaVinci"

Poluído pela farta gama de opiniões contraditórias, fui ver o filme da forma mais isenta que consegui, somente para encontrar uma adaptação honesta, que tende ao literal e que, elegantemente, arrefece a sensação de hostilidade percebida, no livro, por alguns.


Já para início de conversa, o espectador inteligente deveria saber que o filme não é o livro e não precisa, necessariamente, guardar a quantidade de similaridades desejada por este ou por aquele entusiasta da obra original.

Dito isso, posso dizer que é uma das melhores adaptações de romence-produto-moderninho com o qual me deparei nos últimos anos. Quase tão boa, em manter-se honesta, quanto, por exemplo, "Contato", de Carl Sagan - filmado por Robert Zemeckis.

Não sei e não me importo se as mudanças nos pontos hostis e deterministas contra a Igreja Católica foram fruto de processos judiciais ou criativos.

Com um passo talvez rápido demais, o início do filme não se esforça muito para suspender a descrença do espectador, atirando-o numa seqüência de acontecimentos que o leva para o que - acho eu - é o ponto alto do filme (e do livro) - a deliciosa cena em que o apaixonado Leigh Teabin discorre acerca da natureza do Graal atacando a figura da Igreja Católica enquanto Robert Langdon (o protagonista) defende a Igreja de forma mais que competente.

As atuações de Tom Hanks e Ian McKellen estão magníficas - apesar de Hanks enfrentar poucos desafios, a não ser no meio e ao fim do filme. Os outros estão bem... mas devo mencionar Paul Bettany, que faz o albino Silas com maestria, mesmo tendo tido cortada boa parte da narrativa acerca de suas origens.

Diante de todas as polêmicas obstrusas elencadas por livros, programas jornalísticos e documentários, o que tenho a dizer é que fizeram muito barulho por nada. "Código DaVinci" mostra um Opus Dei inocente, infiltrado por um "Conselho Sombrio" de inimigos de um Priorado de Sião que o próprio Robert Langdon considera uma mentira!

Sobre o Priorado de Sião, tenho a dizer que ele é tão verdadeiro quanto qualquer sociedade secreta invocada em filmes e livros desde que se começou a fazer Romances.

Romance - Prosa, mais ou menos longa, na qual se narram fatos imaginários, às vezes inspirados em histórias reais, cujo centro de interesse pode estar no relato de aventuras, no estudo de costumes ou tipos psicológicos, na crítica social etc

Se a descrição do Priorado de Sião é precisa? Sim, é... se ele existir - o que é a premissa do filme, sabe? Que nem quando a gente tem uma premissa que estabelece que Kripton era um planetinhazinho que tinha um monte de pessoínhas e que foi destruído e tal, sabe?.

O suposto vilão não sendo a Igreja ou o Opus Dei - como é deixado claro o tempo todo! - sobra para o "Conselho Sombrio", poderia pensar o espectador... mas nem isso. No filme (e no livro!) o vilão sequer é o tal conselho, mas uma figura ainda mais sinistra, que nenhuma relação tem com qualquer destas entidades.

Os queimadores de livros e filmes deviam enfiar as tochas no lugar de onde elas nunca deveriam ter saído: de seus traseiros gordos que, inflamados, lhes deixam com essa carranca babaca de preconceito, intolerância e burrice!

Vá ver o filme! Se não leu o livro, leia!

É pura diversão, é fictício, descreve disciplinas e instituições que são notórias e ao mesmo tempo desconhecidas e - como afirma o próprio Langdon - divulga uma teoria polêmica e que já está sendo vendida em livros menos famosos (e menos divertidos) há décadas.

Tanto o romance como o filme têm um cheiro de "Indiana Jones" e um pouco de "Lara Croft", algo da série "Alias" e foi copiado, antes de sair no cinema, por "A Lenda do Tesouro Perdido", com Nicholas Cage, e por "Sahara", com Matthew McConaughey. Não tinha jeito... todo mundo sabia que o livro ia ser filmado, até o autor, que chega a descrever o personagem principal dizendo que se assemelhava ao Harrison Ford :-|

No fim, Dan Brown escreveu um livro que, enquanto livro, é um ótimo filme. Um filme que, aliás, vai estar nas prateleiras daqui dez anos, depois dessa polêmica jurídico-religiosa cretina e continuar interessante.

Ler um livro como este como se fosse uma teoria acadêmica já seria uma temeridade pelo fato de TODOS OS PERSONAGENS SEREM FICTÍCIOS e pelo fato de que EM NENHUM LUGAR ESTÁ ESCRITO QUE O LIVRO INTEIRO É FACTUAL, mas o que torna tudo mais insólito é ter tantos leitores, críticos, escritores, documentaristas e "especialistas", empenhados em tirar-lhe a credibilidade, processar judicialmente e difamar publicamente um autor de ficção por ele ter sido um documentarista irresponsável em seu românce ficcional!... O mesmo fenômeno estúpido se deu com alguns bocós quando da leitura de "Operação Cavalo de Tróia", mas como fez pouco sucesso, acéfalos e energúmenos de plantão continuaram coçando o saco no sofá defronte de seus televisores.

Testemunhando toda essa balbúrdia armada em torno de um mero comentário na contra-capa de um livro - que diz que as instituições ali descritas foram pesquisadas e suas descrições são precisas - fica mais fácil de entender porque tanta gente acredita piamente na literalidade de certos outros livros só pelo fato de, dentro deles, existir um textinho dizendo que o livro todo é verdadeiro.

Já quanto aos cabelos e ao penteado de Tom Hanks, gente, dá licença, mas me economizem! Faz tempo que não identifico observação mais irrelevante que essa!

Bruno Accioly

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Categoria: Cinema

abril 21, 2006

"Kinsey - Vamos Falar de Sexo"

Tocante, engraçado e profundo, “Kinsey” – que no Brasil ganhou um adendo "Vamos Falar de Sexo" – consegue prender o público, que tem boa vontade e que não tem dificuldade em permanecer atento, com uma história quase heróica de resgate do sexo de seu obscurantismo do meio do século passado.

Alfred Charles Kinsey, talvez como todos nós, era um sujeito incomum, e incomum de uma forma muito incomum. Sua capacidade em abraçar suas causas e as pesquisas em que se engajava foram uma marca registrada. Seu comprometimento com o que acreditava e com o que achava correto, era de uma turronice tão absoluta que supunha-se capaz de “obliterar sua Natureza” em função do que acreditava correto.

Nascido em 23 de Junho de 1894, Kinsey graduou-se magna cum laude em Biologia e Psicologia pelo Bowdoin College, doutorando-se em Biologia por Harvard e lá ministrando aulas de Zoologia a partir de 1920. Quando em 1938 assumiu o “Curso de Casamentos” na Universidade de Indiana, Kinsey identificou um problema que todos tentavam ignorar – na mais famosa postura “mas como poderia ser diferente?”.

Indisposto com aquela realidade, Kinsey começou uma pesquisa doe comportamento sexual entre cerca de cem voluntários que, embora inicialmente modesta, foi tomando proporções cada vez maiores.

A pesquisa, começada em 1940, se estendeu até 1948 e coletou mais de 18 mil depoimentos de Homens e Mulheres em todos os EUA – sob fartas pressões políticas e sociais da época – o que resultou em dois livros, hoje, profundamente respeitados: “O Comportamento Sexual do Macho Humano” e “O Comportamento Sexual da Fêmea Humana”.

Com Liam Neeson como Kimsey e a bela e versátil Laura Linney no papel de sua esposa, temos a oportunidade de ver um filme maravilhosamente encenado pelos dois e dirigido por Bill Condom – sem nos esquecermos das notáveis presenças de John Lithgow, Oliver Platt e Tim Curry.

As virtudes do filme e integridade do personagem, contudo, são o que mais chamaram minha atenção.

Diferente dessa preconceituosa e reducionista noção de empirismo leigo que diz fazer uso da Lógica e, em algum nível, de “informações científicas” e “provas por A mais B”, Kinsey não se contenta em generalizar comportamentos usando o mínimo de tempo possível e somente seu objetivo (e ridiculamente reduzido) espaço amostral.

Ele entende – por não ser mero leigo entusiasta científico e auto-indulgente – que seu pífio espaço amostral jamais poderia ser representativo. E mais que buscar decidir se a população de Homens e Mulheres de seu país é isso ou aquilo, tenta buscar a construção de uma taxonomia – buscar identificar e elencar arquétipos – de forma a enriquecer sua noção da realidade e corrigí-la, no lugar de acentuar os próprios preconceitos e reforçar falsos conceitos para satisfazer um ego improdutivo.

Podemos rir de tempos passados e reforçar nossa noção atual da realidade, ou podemos tomar o caminho mais pedregoso e desconhecido de identificar nossos próprios defeitos e nossa inépcia em entender que, todos os dias, nos permitimos levianamente analisar a realidade e usar nossa medíocre experiência para fundamentar postulados acerca de indivíduos, graças às nossas observações acerca de grupos mal formulados nos quais nós mesmos os colocamos.

Que tenha vergonha aquele que acredita não fazê-lo e que tenha mais vergonha ainda aquele que está satisfeito – e CONFORMADO – com o montante de tempo que gasta em questionar a si mesmo e as suas análises incompetentes de indivíduos, grupos, definições e conceitos – sobretudo se o faz em nome de “ser feliz”!

O Kinsey cinematográfico, ainda que jamais tenha sido o monstro de virtude retratado (e tudo indica que o foi), em sendo capaz de tamanho auto-controle, se apercebe tão disfuncional quanto quaisquer de suas cobaias. Auto-controle é sua perversão, sua perversão do senso comum e do comportamento tradicional, sua perversão da linha mestra que ele mesmo acreditara poder existir - e no entanto é o que torna humano.

Mesmo percebendo sua inadequação – da mesma forma que entender o vírus do resfriado não nos livra dos sintomas indesejados – ele perpetua essa inadequação como qualquerde nós, tentando, dentro de suas limitações, melhorar enquanto pessoa. E não o faz meramente para ser feliz, mas porque é o melhor que pode fazer.

Magnífico pela brutal sutileza, o filme nos carrega à força pelos cabelos – depois de uns bons golpes de clava na moleira – a Contemplar o fato de que a Ciência é uma magnífica ferramenta para quantificação, catálogo e referência, mas que, para além do comportamento fisiológico do coito, há as nuances de toda uma intrincada gama de sentimentos, a complexidade de uma miríade de valores morais e a sofisticação de algo muito especial que chamamos de Amor – detalhes para os quais a suprema Ciência, a soberana Lógica e a pragmática objetividade falham em ter talento!


Bruno Accioly

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Categoria: Cinema

julho 31, 2005

"Jogos Mortais"

Há casos em que um filme não pode ser descrito em sinopses. Não se trata meramente de estragá-lo ou de ter sido ele um filme especial ou magnífico. Por vezes apenas foi uma indicação de alguém especial, o que faz dele um filme épico... nem sempre há palavras para descrever um filme - as vezes a palavra simplesmente falta e tudo que se pode fazer é um texto hermético e bobo, sem fundamento ou significado para ninguém mais a não ser o próprio autor.

Seja como for, "Saw" (como é originalmente chamado) é um filme que jamais vou esquecer.

Não tanto pelo que ele é ou pelo que ele pode ser; não mesmo pelos subtextos ou pela profundidade temática; mas pelo que ele representa.

A quem lê só posso dizer: "Veja este filme"... e torcer para que, vendo-o, se compadeçam de como me sinto ao pedir para vê-lo.

A dor é brutal, como a vida costuma ser, por vezes.

Parte de mim foi-se dias depois deste filme. A outra parte não é mais nada. Sou refém, agora, de uma parte de mim que abomino, e nada me sobrou para descrever ao escrever.

Só me resta pedir...

...veja este filme.

Bruno Accioly

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Categoria: Cinema

julho 27, 2005

"Em boa Companhia"

O mundo corporativo, como vem se tornando em toda parte, é retratado nesta comédia com talento dramático de Paul Weitz. Competentemente, Dennis Quaid e Topher Grace, nos permitem ver para além da comédia romântica que as resenhas insinuam.

Sim... eu fui em boa companhia, o que é importante. Mas talvez seja ainda mais importante o que este filme pode dizer, ainda que não tenha sido esta a intenção do escritor, diretor e produtor, Paul Weitz.

Talvez seja fato que fique marcada, de forma indelével, a cara de uma época e de uma sociedade, nos filmes, livros e na música que elas produzem; por outro lado talvez eu é que esteja "lendo demais" onde não há tanta coisa escrita... seja como for, se você está aqui, no mínimo, é porque aprecia ler qual a última presunção de Bruno Accioly – auto-intitulado um dos mais românticos, apaixonados e esperançosos profetas do apocalipse.

Seja qual for a explicação, quem lê isso aqui sabe que nenhum filme está a salvo de ter seus subtextos – intencionais ou não – escrutinados (sem “trocadalhos”, por favor) por minha cacholinha ensandecida.

Dennis Quaid vive um pai de 51 anos, com duas filhas lindas e mais uma a caminho, casa hipotecada e esposa compreensiva, inteligente e carinhosa – uma família nada disfuncional e bastante conservadora; Topher Grace é um rapaz de 26 anos, não tem filhos (e queria tê-los), precocemente bem sucedido e com uma esposa indiferente, desinteressada e fria – um casamento fadado à destruição, completamente disfuncional e desequilibrado.

Ambos são vendedores, o personagem de Topher um desapaixonado ambicioso pela atividade, mas cheio de atitude e respeitável conhecimento acerca das boas práticas do ramo; o outro com todo conhecimento que se espera de alguém há 23 anos fazendo a mesma coisa e amando cada passo do caminho.

A empresa na qual o personagem de Topher trabalha, compra a empresa de Quaid, escalando Topher para substituí-lo e começar um processo de demissões em massa.

Se não os estou fazendo rir até o momento é porque, mais de uma vez, passei por este processo e sei o quão doloroso ele pode ser.

O personagem de Quaid, Dan Foreman, passa por tudo sem muito jeito, sem conseguir saber como se portar diante de um chefe tão mais novo que ele, tendo que lidar com a gravidez da esposa, fazendo uma segunda hipoteca para cobrir os custos dos estudos da filha – que passou a morar longe dele para cursar Escrita Criativa em Nova Iorque... e, para complicar mais o roteiro, Carter Duryea, o personagem de Topher Grace, se envolve com a filha de Foreman – vivida por Scarlett Johanson.

Aparentemente inofensiva, inocente e insípida, a “comédia” despeja sobre o espectador mais atento uma saraivada de citações que chamam à reflexão e comandam que se acorde para o que se passa na tela.

Em alguns momentos fica claro que o Personagem de Topher simplesmente tem responsabilidades demais para a idade. Não só fica estampado isso nas frases do personagem de Quaid e de suas filhas, mas nas falas do próprio rapaz que acaba de alcançar o novo cargo sem tanto mérito – graças à compra de uma outra empresa.

Em outros notamos a sensação de impotência dos personagens mais velhos, que percebem a arbitrariedade do sistema e nada podem fazer a respeito, sendo julgados não por seus potenciais, atitudes ou profissionalismo, mas pelos gráficos da empresa – que cortam pessoas como se fossem meros números até por não terem como fazer diferente diante desta realidade.

Carter Duryea, de 26 anos, não trabalha porque ama o que faz, apenas para alcançar seus números, adquirir mais e nunca parar – para isso usando de um “jargonês” incompreensível e destituído de significado o suficiente para ninguém entender mas achar que tem que fazer o próprio trabalho; Dan Foreman, de 51 anos, é um apaixonado por seu trabalho e acredita que faz o que faz para o bem das empresas para as quais faz – e usa de seus princípios e dos valores de uma época que já passou.

Não é à toa que Foreman é taxado de “dinossauro”; não há lugar para significado elaborado, responsabilidade moral e baboseiras do tipo em um mundo dinâmico e de decisões rápidas (e necessariamente irrefletidas). “Risco calculado... erramos e aprendemos... mas não gastemos tempo com princípios e ética!”

Acentuando a perspectiva do roteiro e exagerando nas cores, temos um invasor que pilha, prejudica e pisa em tudo o que é das gerações anteriores só porque é de sua natureza e que, ainda por cima, toma para si a filha daquele que antes era o senhor do castelo.

Sempre se pode afirmar que eu sou paranóico com relação a Globalização do Pensamento e com o International Way of Life, entretanto, Teddy K., o dono da empresa que compra, sucateia com idéias improcedentes, usa de discursos retóricos a qualquer custo e destitui os direitos morais do empregado do significado inerente que neles existem... e isto acontece em toda parte.

Exagero? Talvez, mas sabe qual o nome da empresa no filme?

Global.com...

...e a defesa descansa...

A boa notícia, contudo, está em como ambos os personagens conseguem se harmonizar e respeitar mutuamente ao relaxarem suas relações. Ao abrirem mão do cânone globalizante para serem eles mesmos e encontrarem suas próprias saídas, finalmente conseguem alcançar um novo caminho em direção ao bem comum.

O problema de nenhum dos dois personagens é conhecimento – há muito que não é este o problema. Há que se descobrir, contudo, que precisamos de atitude para nos dispormos a encarar o que não queremos conhecer e sabedoria para alcançar a noção de que há muito mais para se conhecer nos lugares onde nada se vê.

Foreman, enfim, descobre que precisa fruir de sua relação com a nova geração, e reconhecer seu potencial, para poder conseguir mais dinamismo e funcionar na nova ordem; Duryea, por sua vez, que há mais jornada entre os pés e o correr que o que se encontra sobre uma esteira ergométrica... e que não há nada como singrar, avidamente, o caminho em direção a um pôr-de-sol que jamais será alcançado.


Bruno Accioly

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Categoria: Cinema

julho 25, 2005

"Guerra dos Mundos"

Uma raça alienígena enterrara há muito, debaixo de nossos pés, os alicerces para seu plano de ocupação global, chacina, escravidão, transformação e obtenção da paz em seus termos.

Mais de sessenta anos se passaram desde que um prodígio do rádio, Orson Welles, assustou um considerável número de cidadãos americanos, ao adaptar e narrar a invasão descrita por H.G.Wells.

Em 1953, uma adaptação para o cinema viria a fazer grande sucesso, ainda que Welles tivesse se negado a evolver-se, em qualquer nível, no projeto.

Stephen Spielberg, possuidor de uma das raras cópias do manuscrito, usado por Welles, para sua transmissão de rádio em 1938, fez questão de que Morgan Freeman lê-se uma versão, o mais próxima possível, do texto de abertura e fechamento extraído do original.

"Guerra dos Mundos" tem um texto conhecido, que alguns podem até achar desgastado... como os leitores do 5arcasmos |v|últiplos já devem ter entendido, eu não só discordo como igualmente não acho que "Alice no País das Maravilhas", "O Mágico de Oz" ou "O Pássaro Azul" estejam desgastados.

O frescor com que a obra, já tão conhecida por mim, foi percebida e interpretada, me fez muito feliz. No fim, é maravilhoso como, independente de efeitos especiais excessívos, ausência de necessidade de grandes interpretações e de uma indústria orientada à mera diversão, ainda é possível embutir significado em obras cinematográficas.

Seja ou não intenção de Spielberg, o filme que vi foi muito maior que a clássica história para qual sempre dei uma interpretação tão literal. Uma sinópse, por exemplo, descreve: "um devastador ataque alienígena à Terra faz com que um pai tente proteger seus filhos, com quem não tem uma grande ligação".

Minha leitura do filme é uma teoria... independe das intenções do autor original ou de quaisquer adaptações posteriores. é parte da minha teoria de que arte, produção de subjetividade e expressão cultural tem significados intrínsecos muito maiores - e isso me permite uma deliciosa denúncia do que, para tantos de nós, é tão óbvio.

Se você quiser continuar lendo agora, basta clicar no link abaixo, do contrário, veja o filme e, depois, dê uma lida - só pra matar a curiosidade.

Clique aqui para continuar a leitura...

Continuar...

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (1)
Categoria: Cinema

abril 21, 2005

A invenção do Amor

Quem consegue não acreditar em propaganda, em herança cultural e influências inadvertidas talvez seja mais feliz; talvez, quem não acredite em nada disso precise gastar menos tempo curtindo a própria inépcia em perceber-se vulnerável ao seu entorno e ao contexto do qual, suponho, não conseguimos fugir.

A forma que amamos e que não amamos, a forma que damos ao nosso ódio e à nossa raiva, a estética do pranto e do sorriso, a coragem e têmpera, tudo isso é expressão humana. Fazemos hoje tudo o que fazemos da forma que fazemos e, de repente, não percebemos que as coisas não eram feitas da mesma forma no passado, por aqueles que vieram antes de nós.

Casamento aos quatorze anos, prática comum, agora é pedofilia; o desejo de ter privacidade e direito a não ser filmado ou gravado, outrora implícito, agora é sinal de omissão de culpa; o fim justificar os meios, noutros tempos monstruosidade, agora é pragmatismo.

A lista não terminaria e alguns autores fizeram o possível para mapear as motivações, nuances e pormenores do comportamento humano.

Por mais que muitos de nós não pesquemos a retratação da miséria humana na obra de um certo William Shakespeare, quase que a totalidade vê, na obra deste bretão nascido em 1564, a expressão máxima do amor romântico e voraz.

As peças de Shakespeare, e os filmes que apareceram desde o surgimento do cinema, são um legado contra-intuitivamente maior que a visão superficial pode nos permitir perceber. Com sua obra, este poeta, escritor e ator do século XVI foi capaz de criar neologismos, fornecer-nos citações usadas até hoje, ofertar-nos uma forma de ver o mundo, de sentir os sentimentos e, sobretudo, de amar.

Não são só as palavras que sobreviveram a morte de Shakespeare ou ao desinteresse crônico das massas por suas peças e filmes “chatos”, mas toda uma forma de ver o mundo, descrever o mundo e concebê-lo. Ainda que aparentemente pouco popular, há poucas pessoas, por menos eruditas que sejam, que jamais tenham ouvido falar de Romeu e Julieta.

As mais conhecidas peças de Shakespeare têm traduções em todos os idiomas ocidentais – e mesmo no Japão. Ingmar Bergman, Akira Kurosawa foram alguns dos que levaram às telas suas peças. Há poucos escritores modernos que se podem dizer não ter influenciados por Shakespeare, já que leram-no ou nele se inspiraram. Obras musicais foram profundamente influenciadas por peças de Shakespeare inclusive promovendo o rompimento com o neoclassicismo.

Considerado um dos maiores dramaturgos da história, Shakespeare pode ser “lido” como sendo profundo e cheio de significado em seus pentâmetros iambicosPentâmetro Iambico: Basicamente trata-se de um esquema rítmico. Cada linha consiste em cinco pés métricos, cada um dos quais contêm duas sílabas, uma breve (átona) e uma longa (acentuada). Simplificando, um pentâmetro iambico é uma coluna de cinco estrofes, cada uma formada por um iambo, que é uma medida - um pé de verso - constituído de uma sílaba breve e outra longa., mas nada impede que seja lido sem grandes aspirações cognitivas e tanto sofrimento, o que torna sua obra versátil – satisfazendo tanto ao acadêmico quanto ao curioso, tanto a quem quer pensar como a quem quer só se divertir.

Neste sábado, dia 23 de Abril, a NET exibe, no Telecine Emotion, várias produções baseadas na obra de Shakespeare que, embora até bastante modernas, são conceituadas e bastante criativas em temos de execução.

Sábado, dia 23 de Abril
10:30 . Henrique V . Direção de Kenneth Branagh
13:00 . Muito barulho por nada . Direção de Kenneth Branagh
15:00 . Romeu + Julieta . Direção de Baz Luhrmann
17:10 . Sonho de uma noite de verão . Direção de Adrian Noble
19:00 . Hamlet – Vingança e Tragédia . Direção Michael Almereyda
21:00 . Jutland – Reinado de Ódio . Direção Gabriel Axel
22:35 . Rosencrantz e Guildenstern estão mortos . Direção Tom Stoppard
00:40 . Ricardo III - Um Ensaio . Direção Al Pacino

Não me perguntem os motivos do Telecine... pelo jeito alguém não estava olhando e acabou que, acidentalmente, eles acabaram deixando passar uma grade de programação interessante.

Mas tem uma coisa! Não deixem de ver “Rosencrantz e Guildenstern estão mortos”. Nem é de Shakespeare – e um dia falo mais do filme por aqui – mas é um filme muito especial, escrito e dirigido por Tom Stoppard (que co-escreveu “Brazil” com o diretor Terry Gilliam).

Vejam o filme tendo em mente que este mostra os eventos de "Hamlet" sob a ótica de dois personagens menores da peça que, sem qualquer controle sobre seu destito, acabam inspirando profundas reflexões no espectador - e provocando boas risadas também.

Ter visto alguma adaptação de "Hamlet" ajuda, claro.


...E o resto é silêncio...

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (5)
Categoria: Cinema

abril 17, 2005

"Nada é para Sempre"

Em Montana, na década de 30, ao sopé das Montanhas Rochosas, dois rapazes crescem aprendendo acerca da vida e das coisas. Pastor presbiteriano que perdeu a mulher cedo, seu pai usa do Fly Fishing, sua maior paixão, para passar valores a dois irmãos em tanto tão diferentes e que, ainda assim, têm tanto em comum.

Pode-se falar da beleza geográfica por tomos e mais tomos, mas o fato é que a fotografia de Philippe Rousselot (“Constantine”, “Peixe Grande”, “Entrevista com o Vampiro” e “Rainha Margot”), sob a direção de Robert Redford, são os grandes responsáveis por fazer o espectador sentir-se mais e mais imerso nas águas, só para então ser fisgado.

Tom Skerritt está magnífico, balanceando a religiosidade e moral cristãs com suas noções individuais do mundo a sua volta e sua responsabilidade como pai. Não sendo seguido muito de longe, em sua competente atuação, pelo já tão subestimado Craig Sheffer e por um Brad Pitt cuja a atuação está além das expectativas de qualquer fã dedicado.

O amante de cinema que precisa de ação ou efeitos especiais para manter a atenção, ou mesmo aqueles que acham que filmes têm de ter uma estrutura do tipo A ou B para ser bom, talvez não gostem tanto do que vão ver... e adiante eu falo mais sobre uma obra e a necessidade de esforço ou sacrifício, para entendê-la.

Fato é que, a despeito de uma bela e envolvente história – e mesmo da suposta intenção de autores, roteiristas e diretores – trata-se de um filme que pode permitir ao espectador mais que simplesmente observar o que está acontecendo, propondo a imersão em uma mensagem tão cristalina quanto as águas do Rio Big Black Foot.

“Nada é para Sempre” guarda muito menos relação com o que se passa na tela e muito mais com o que aquilo tudo pode significar.

Recentemente, Cristiano Dias, grande amigo, mandou-me um site com fotografias artísticas, tiradas nas estradas dos E.U.A. e que mostravam os enormes logos de empresas de petróleo, normalmente sustentados por altos postes, mas cuidadosamente editadas para parecer que os logos permaneciam ali por uma força invisível, sem nada para segurá-los. Pacientemente vi todas as fotos, sem no entanto ser capaz de estabelecer qualquer relação com aquilo que estava vendo, até que um texto, escrito pelo autor das poses, me chamou a atenção.

No texto, o fotógrafo explicava que sua intenção fora acentuar, através do remover dos sustentáculos daqueles grandes estandartes, em quanto pode as marcas, as corporações e os conceitos ali dispostos parecem estar acima do Homem, acima de todas as coisas, como se nada fosse mais importante. Foi-me feita uma pergunta curiosa, recentemente, num destes bares da vida, quando contei esta história: “Mas, Bruno... você não acha que é muito ruim que a obra precise de uma bula para poder ser ‘lida’?”.

A pergunta, muito pertinente, tem profundo efeito... Mas de fato não entendo que seja necessária uma bula, apesar de o autor ter-nos fornecido uma. Se eu, sem ler a bula, “não gostei” do que vi, ou não entendi a obra como proposta pelo autor, ainda assim pode haver aqueles que dela “gostaram”, ou entenderam a obra conforme a proposta. Há ainda aqueles que identificaram na obra mensagens não propostas pelo autor e que, ainda assim são belíssimas, brilhantes... ou não.

Seja como for, a identificação de significado em produção de subjetividade ou obra de arte é fruto da capacidade de interpretação do espectador, de sua vivência, de seu momento, de sua disposição e de estar afeito a associar, com ou sem sacrifício ou esforço, a realidade do que vê com a realidade do que está dentro dele.

Mais que isso, identificar subtexto é uma das coisas que o Homem mais faz, seja olhando para belas pinturas, estranhas pinturas, paredes texturizadas ou um muro pintado sem capricho.

No meu entender, fazemos isso também com o que não é feito pelo Homem, a cada vez que olhamos para a Lua, para um Rio ou diretamente para o Sol e, individualmente, pensamos quão belas são tais coisas, quão magistral é a obra de Deus ou quão admirável é a complexidade do mundo regido pelas leis da Física.

Parece-me que identificamos significado a todo tempo e em todas as coisas e é desta forma que fazemos senso da realidade... é assim que construímos nossa realidade, para além do Real, desenhando uma linha entre o que acreditamos estar lá e o que lá efetivamente está.

Todo o significado identificado por nós e responsável pelo construto que individualmente damos o nome de “realidade”, ainda que divergente do Real e do que efetivamente existe, guarda um mérito formidável e irrepreensível... sendo a manifestação de tudo que o ser humano pode ser.

Por mais discrepante que seja este construto, ainda assim o mérito de pensá-lo é inequívoco. A interpretação de uma obra ou conceito é a obra do espectador e pode ser igualmente apreciada, da mesma forma que a poesia que descreve, como bela, a mais corriqueira das situações... ou como a alegoria visual, que mostra o Homem a pescar significado no rio da vida.

Para o personagem de Tom Skerritt, o Reverendo Maclean, as semelhanças que identificou entre o Fly Fishing e a vida, foram demais para serem ignoradas e passou – mais através desta prática que através de sua religiosidade – a ensinar seus filhos, Norman e Paul Maclean.

Se, ainda que eventualmente, a arte de pescar o significado - onde pode não haver - nos proporciona belos quadros, parece-me valer a pena sacrificar-se um pouco, não optar pelo óbvio e pelo superficial, mas molhar a cabeça em nome de uma outra verdade, ainda que não seja aquela que esperávamos.

Ser objetivo e pragmático - sem motivos utilitários específicos - é a desculpa moderna que nos damos para observarmos o mundo por uma janela estreita.


Uma passagem do filme em particular, na voz de Robert Redford – uma transcrição direta do romance “A River Runs Through It”, de Normal Maclean – é um dos textos mais comoventes e significativos que já li em toda minha vida. Como o barulho da água nas pedras, aquelas palavras ecoam em todas as direções, ao pensar nas coisas pelas quais já passei e pelas que ainda vou passar.

Clique aqui para ouvir a narração

“But when I am alone in the half light of the canyon all existence seems to fade to a being with my soul and memories.”
“And the sounds of the Big Black Foot River and a four count rhythm and the hope that a fish will rise.”

“Eventually, all things merge into one… and a river runs through it.”

“The river was cut by the world's great flood and runs over rocks from the basement of time.”
“On some of the rocks are timeless raindrops. Under the rocks are the words, and some of the words are theirs.”

“I am haunted by waters.”

E já que estou falando do significado oculto das coisas, sendo ele intencional ou não, há muito a se dizer...

Cada uma das coisas que acontece em nossas vidas não é mais que um evento... tão importante quanto a queda de uma folha de árvore sobre a correnteza de um rio. Do ponto de vista da pequena folha, contudo, o turbilhão à sua volta é tudo o que existe e o eventual choque contra as pedras magoa o tanto de sentimento que ela se permite ter.

Se à superfície a folha sofre tanto, quando submersa e entregue tudo fica mais tranqüilo, sem tanto barulho e sem tantos solavancos.

“De vez em quando é preciso respirar”, imagina... mas mal sabe a pequena folha que, quando abandona as árvores que a enraizava à margem do rio, não mais precisa do ar que acha que respira.

A vida pode ser tão mais fácil ou difícil quanto nos dispomos a permitir que ela seja...

Perder a noção, já estreita, do que está por vir - entre as ondas e a espuma que a correnteza faz - ou tentar intuí-lo a partir do que já passou, não te ajuda o quanto quer nem te oferece a paz que precisa para ser feliz.

Megulha, então... Mergulha e vive o tanto que pode, imersa nos próprios sentimentos, sem se agarrar a um devir de segurança que talvez sequer exista.

Viver o resfolegar na superfície, tentando divisar um horizonte fugidio, é não se permitir ir a fundo no que se vive.


Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (5)
Categoria: Cinema

fevereiro 14, 2005

"A Vila"

Subestimado e incompreendido, "A Vila" faz juz a genialidade de M.Night Shyamalan, se apresentando aos espectadores como mero suspense, pungente crítica política ou denúncia da arrogência humana...

...e por aí eu seguiria sem parar, em minha análise tardia – já que não vi o filme no cinema.

E cá estou eu, mais uma vez, defendendo como interessante algo de que pouca gente de fato gostou.

Para quem ainda não entendeu, acho bastante irrelevante se alguém gosta ou não de uma obra - ao menos do ponto de vista da obra. A obra está lá e só vamos aprender alguma coisa com ela se pudermos, quisermos e nos dispusermos a isso. Se ninguém colocar os olhos sobre a obra ainda assim ela existirá.

Deste ponto de vista a obra é quase um acidente geográfico... Olhamos para um afloramento rochoso de dois metros de altura sozinho numa clareira, com árvores a toda sua volta e, de repente, vemos apenas um afloramento rochoso de dois metros de altura sozinho numa clareira, com árvores a toda sua volta.

Um geólogo talvez visse ali algo mais que isso; um físico, por outro lado, talvez interpretasse aquilo de uma forma diferente; um poeta talvez fizesse analogia disso com a solidão do homem; um ufólogo poderia ver ali a possibilidade de intervenção alienígena; e um antropólogo, quem sabe, poderia traçar um paralelo entre a formação e Stonehenge.

Em “A Vila”, Shyamalan conserva seu gosto pela sensação de iminência de desastre, nos deixando sempre a espera de mais uma evidência criptica do que vem a seguir, em nome da história mais rasa, e do significado inconspícuo – fortuito ou não – que cada uma destas evidências de fato guardam.

O filme me pareceu ter sido vendido como filme de terror, à época, e aí está a beleza de pegar o filme em DVD sem sequer ler sinopse – prática que eu sugiro para quem nunca o fez.

Parece-me que alguns autores são refratários a trailers e sinopses. Quase todo filme de Shyamalan acaba sendo vendido de forma a criar expectativas completamente descabidas, o que aconteceu com “Sinais” e com “Corpo Fechado”, por exemplo.

Ver chamadas, na TV ou no Cinema, de filmes de autores como Lars Von Trier – de “Dogville”; ou Charlie Kaufman – de “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, por exemplo, tem se mostrado uma tarefa impossível para quem ganha a bolada de marketing destes filmes.

Sequer esbarrando nas “sagradas” intenções do autor – e sem querer contar nada do filme – vale ver o filme como algo mais que um brinquedo, como algo feito para meramente entreter o espectador e dar a chance para o filme colocar a velha massa cinzenta para funcionar.

“A Vila” é um filme rico em interpretações que vão além da leitura rasa do que se passa na tela, fornecendo uma redução conveniente, que ajuda a explicar a forma pela qual o cidadão é manipulado na sociedade; que nos permite traduzi-lo numa constatação da condição humana, de levar seus problemas para onde vão, independente de sua intenções; ou mesmo para justificar a estupidez e inépcia do poder público, identificando conseqüências de sua atitude e suas mentiras.

O filme coloca diante do expectador – através de arquétipos bem definidos, ameaças iminentes e mentiras bem intencionadas – um quadro profundamente semelhante àquele que vemos todos os dias...

...A estrada para o inferno é pavimentada de boas – e más – intenções.


Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (12)
Categoria: Cinema

janeiro 22, 2005

"Mulheres Perfeitas"

Nicole Kidman, Matthew Broderick, Glenn Close, Christopher Walken, Betty Midler e Jon Lovitz embarcam em um magnífico projeto dirigido por Frank Oz, no qual a estética cinquentista se mistura ao mundo moderno para acusar-nos de uma ingenuidade moral indesculpável e perigosa.

Um elenco cheio de credibilidade, dando vida a um roteiro cáustico que fala em altos brados contra muitos aspectos da vida como a fizemos ser - é uma das formas pelas quais seria possível descrever esta refilmagem da qual poucos gostaram e que inicialmente seria dirigida por Tim Burton.

Frank Oz habilmente nos expõe ao protótipo de uma “sociedade bem ajustada” que é um belo exemplo do desajuste daquilo com que nos conformamos todos os dias, e já que achamos tão normal.

Assim como nos filmes de Monty Python, nos quais através do exagero o grupo tenta nos permitir uma jornada através do absurdo em que escolhemos viver, o roteiro é um modelo de desconstrução da realidade. Pelas mais incontáveis metáforas, o roteiro vai identificando como, pouco a pouco, a mulher tem sua auto-estima seqüestrada pela inverdade de sua hipotética inadequação.

O filme se preocupa em evidenciar, doa a quem doer, a robotização do indivíduo pela globalização do pensamento e da perpetuação de valores medíocres que garantam a estabilidade, uniformidade e uma perfeição de prateleira que passe por cima da vontade, da diversidade e até mesmo da sexualidade.

A sedução do hedonismo institucionalizado, do chauvinismo voluntário e da intolerância irredutível - ante a qual tantas obras nos alertaram que iríamos sosobrar - acabaram se transformando em alicerce inconspícuo sobre o qual construímos nosso modo de viver.

Sem nos dar trégua, “Mulheres Perfeitas” deixa claro que, ao acreditar que a superfície é tudo que existe; ao nos contentarmos com o que as coisas parecem ser e com a idéia rasa que fazemos delas; ao deixar de questionar o todo pelo todo e percebendo-o apenas como a soma de suas partes; pemitimo-nos aceitar as aparências em detrimento da riqueza de significado.

Stepford - a cidade fictícia em Connecticut - representa a vitória da forma sobre o conteúdo, quando sequer deveria haver a vitória de uma coisa sobre a outra.

Não precisa se tratar apenas de uma crítica social acerca de como evoluiu a sociedade americana, nem tampouco como o "homo-americanus" trata a mulher, mas sim uma alegoria que aponta para aquilo em que todos nos transformamos e nos recusamos a perceber.

Frank Oz consegue, sutilmente, sugerir que despertar do construto social hedonista em que vivemos, livrarmo-nos da mera satisfação e prazer que as coisas que construímos e das coisas em que acreditamos nos oferecem, é um processo individual de desapego, conscientização e tolerância. O resultado deste esforço não apenas nos liberta da prisão invisível que construímos, mas nos permite conhecer a nós mesmos.

Com uma linguagem de comédia leve, os atores desvelam uma história de resistência, cuja mensagem é pungente e atinge com toda sua força aquele que está pronto para identificá-la.

Abdicar de ver para além da superfície e da forma é optar por perder-se de si mesmo e de seu conteúdo. Favorecer o exame contínuo de nossas vidas no lugar de conformarmo-nos com uma perfeição forjada é escolher entre Ser ou Não Ser... e essa é a questão.


Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (8)
Categoria: Cinema

dezembro 29, 2004

“Código 46”

Numa narrativa corajosa, com um discurso denso e expressivo, o filme nos leva a uma jornada míope e alienada em um mundo no qual só os que o são conseguem sobreviver.

Sério e familiarmente sombrio, “Código 46” já chega aos cinemas condenado ao descaso, ao desgosto e ao esquecimento.

Diante das opiniões que venho colhendo, que condenam o filme com termos duros que vão desde mau executado, passando por pretensioso, lento ou simplesmente chato, muito pouco sobra para elogiar.

Do que sobra, contudo, o que me chegou aos ouvidos se referia a “Universo” imaginado pelos autores e que, assim mesmo, só nos deixa com gosto de quero mais.

Com tanta insatisfação no ar, pode-se dizer que o quadro geral está tão condenado quanto os primeiros trabalhos de Jackson Pollock.

Pollock desenvolveu um discurso artístico próprio, tenaz, marcante e arrojado que, em sua época, foi descrito pela revista Life como mais parecendo um “prato de macarrão com molho”.

Rejeitar o inusitado a primeira vista é comum, rotineiro e humano, não deixando, contudo de ser precipitado. Por vezes chega a parecer uma forma de defesa contra o desconhecido.

Para além do tal do resultado – leia-se “faturamento na praça” – não devíamos jamais esquecer do fato de que os filmes que passam pelos cinemas, acabam nas prateleiras das locadores e, o que é mais importante, na história do cinema.

Mais do que um sucesso de bilheteria, de público e de crítica, um filme é uma obra de arte – e se você é um dos que não entende o cinema como arte, é produção de subjetividade e relevante forma de expressão humana.

Quantas obras cinematográficas foram repelidas no passado e, no entanto, são hoje consideradas profundamente importantes? Sobre a pintura de Pollock, por exemplo, posso informar que a revista Life, mais tarde, se retratou e dela passou a falar muito bem, obrigado.

”Código 46” discorre sobre uma realidade distópica na qual as divisões sociais são muito claras e se dão pelo mérito individual, medido por uma corporação denominada Sphynx.

Trata-se de um universo integrado, globalizado e pasteurizado, no qual “in vitros”, clones e toda sorte de quimera “tecnumana” coexiste em relativa harmonia e sem aparentemente nutrir qualquer preconceito.

A língua, que aos olhos de uns teria se democratizado, por outros seria descrita como mais uma colcha-de-retalhos, tão sem raiz ou identidade quanto os que as utilizam em toda parte do mundo – ou ao menos nas partes do mundo para onde a Sphynx lhes permite ir.

Totalmente controlado e protegido até de si mesmo, o Homem criou artifícios que o tornam melhor, mais adequado, mais eficiente e uma estrutura social orientada a almejar estar “dentro” e não estar “fora”, seja lá o que isso signifique para este bicho sem identidade no qual o Homem de Código 46 se transformou.

Com uma direção sensível e uma narrativa rica de interpretações, Michael Winterbottom nos permite ver não mais que o necessánecessário, concentrando-se na janela estreita de um caso de amor impossível tão menos árido que o aparentemente rico ambiente entorno dos personagens.

Tergiversando livre e sensualmente acerca do fator humano através dos personagens de Tim Robbins e Samantha Morton, a película converge com o título de forma cruel e shakespeareana. O filme não deixa nunca de evidenciar o brilho eterno das mentes que, mesmo sem a lembrança do que é ser humana, permanece em seu fulgor a despeito do ambiente inóspito no qual se insere.

A tragédia de “Código 46” alerta discreta mas inexoravelmente para as conseqüências de nossos atos enquanto espécie, mostrando em quanto podemos nos transformar em escravos de um complexo emaranhado de códigos pelos quais nós mesmos somos responsáveis.

Não é difícil perceber que entendo este como um filme importante, daqueles para os quais acho muito pouco relevante se alguém gostou ou não.

A super-exposição a um conjunto reduzido de narrativas e discursos cinematográficos nos tornou preguiçosos e mal acostumados, opinativos demais e pouco competentes na arte de contemplar a arte. Nos tornamos intolerantes e muito rápidos em condenar algo a parecer um prato de macarrão com molho.

Mas hoje em dia é assim que os “livros” são queimados... sem alarde.

A personagem de Samantha Morton nos pergunta algo no filme: “Se você tivesse informações suficientes e pudéssemos prever as conseqüências de seus atos. Você iria querer saber? Se beijasse aquela garota, falasse com aquele sujeito, assumisse aquele cargo ou casasse com aquela mulher, se soubéssemos o que aconteceria seríamos capazes de dar o primeiro passo? Seríamos capazes de tomar aquela iniciativa?”

Censuramos e condenamos, sem maiores julgamentos, livros, quadros e filmes simplesmente por deles não gostarmos, deixando de lado seu mérito intrínseco, sem entretanto questionarmos numerosos aspectos do mundo moderno, como nossa relação com a tecnologia e tantos preconceitos individuais.

O filme preconiza um futuro possível, nos mostra como este mundo perpassa a vida de pessoas comuns nele inseridas e clama por atenção a tais questões, pedindo discernimento e ponderação.

Oferecendo-nos boas vindas ao deserto do real, a película nos propõe uma charada e, se ao longo de “Código 46” escutamos a todo momento que “A Sphynx sabe o que faz”, sugiro que nos lembremos de uma outra esfinge, que em dada parábola nos disse: “Decifra-me ou te devoro!”

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (7)
Categoria: Cinema

setembro 26, 2004

"Voando Alto"

"View from the Top" - ou "Voando Alto", como acabou sendo chamando no Brasil - é uma viagem bem humorada pela busca da satisfação pessoal e profissional, não perdendo de vista os sacrifícios e dilemas que todos enfrentamos no caminho para o sucesso.

Com roteiro de Eric Wald e direção de Bruno Barreto (de "Bossa Nova"), "Voando Alto" usa a comédia como meio de abordar o crescimento pessoal e a ética profissional.

Imagino que você possa estar revirando os olhos diante do que pode parecer indulgência de um espectador capaz de ver mérito em qualquer coisa. Apesar de a tendência de fato estar em mim, o que me faz apreciar este chick-flick é a sensibilidade e inteligência com a qual Bruno Barreto e o roteirista conseguem discorrer acerca do um assunto escolhido.

Continuar...

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (13)
Categoria: Cinema

setembro 13, 2004

"Meu Jantar com André"

Perturbador, pertinente e instigante, "My Dinner with André" está sendo exibido no TeleCine Emotion em Setembro e Outubro, para quem gosta de Cinema, de Filosofia e de "pensar sobre a vida e as coisas".

Foi um golpe de sorte e não mais que isso. Confesso não ser o espectador típico e não me considero nada pop no que se refere ao que gosto, faço ou vejo. Por isso mesmo estou indicando aqui um filme inusitado, fora do comum e que, em minha opinião, é uma pérola no meio de muito lixo.

Trata-se de "Meu Jantar com André", escrito para o teatro por André Gregory e Wallace Shaw, filmado por Louis Malle, em um balé de diálogos acerca do que se considera Estabelecido e do que de fato está.

Louis Malle dirigiu também "Vanya on 42nd Street" (em 1984), de Chekhov (no Cinema), com créditos de roteiro para André Gregory, sendo também responsável por magníficas obras como "Ascenseur pour l'échafaud" ("O Ascensor para o Cadafalso") e "Les Amans", ambos de 1958.

Wallace Shaw é um ator versátil e até bastante requisitado, daqueles dos quais ninguém lembra mas que dão o ponto em filmes como "O Noivo da Princesa" (1987), "Simon" (1980), "All that Jazz" e "Manhattan", de 1979.

Encontrar o filme em DVD no Brasil vai ser um golpe de sorte. Esperemos que apareça.

Para quem é mais curioso que prudente e gosta muito de ver filmes, vale a viagem. Felizmente a NET vai exibí-lo no Domingo, dia 26 de Setembro às 8 horas da manhã, e na Quinta-Feira, 14 de Outubro às 2 horas da madrugada.

Ahn... não são os melhores horários do mundo, eu sei, mas que diabos! Ouse sair da rotina!

A NET colocou no ar, há algum tempo, um sistema que lembra o assinante por e-mail que determinado filme está para ser exibido.

Se eu fosse esquecido eu usava :¬)

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (4)
Categoria: Cinema

agosto 23, 2004

"Eu, Robô"

Pipocão que vale a pena e que foge aos padrões (baixos) de Hollywood

>Como ávido leitor de Asimov na minha adolescência, fiquei muito feliz quando ouvi falar que mais um filme fazendo alusão ao universo imaginado por ele estava saindo do forno. Fiquei dividido, contudo, quando tive a oportunidade de ver o trailer. Robôs pulando, quebrando tudo e atacando seres humanos!

Não é que nos contos e livros de Isaac Asimov isso nunca acontecesse, mas não soava muito asimoviano retratar robôs daquela forma. A sensação, basicamente, vinha do fato de Asimov não tratar robôs e seres humanos de um ponto de vista meramente maniqueísta.

Asimov, ao tratar das possibilidades da integração de robôs na sociedade humana, fazia-o com sensibilidade e imaginação, intencionalmente ou não ressaltando limites e atributos humanos no que concerne a sua tolerância e a sua capacidade de se relacionar consigo mesmo.

E o que dizer do filme que fui ver neste fim de semana? Em uma frase: Surpreendentemente bom!

Sério. Eu não esperava que o filme conseguisse unir a tendência à produtização do Cinema de hoje e a aderência às premissas do universo de Asimov e da própria adaptação cinematográfica.

A necessidade de atender um intervalo maior de demografias acabou não fazendo diferença quando o espectador nota que não estão tentando distraí-lo com os efeitos especiais, apenas usando-os para contar a história.

Acabou sendo uma adaptação bastante razoável do universo de Asimov e bastante inspiradora enquanto filme.

Se você discordou de tudo o que eu disse até aqui, saiba que eu gostei também de “O Homem Bicentenário”. Qualquer protesto é só dar uma sarcasmeada aí em baixo.

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (22)
Categoria: Cinema