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fevereiro 07, 2007

"Land of the Blind"

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Uma pérola do cinema independente acerca do totalitarismo político-ideológico, "Land of the Brave" - ops, desculpe - "Land of the Blind" levanta a bola, já mais que levantada, de que não há absurdo nenhum em se comparar ficção com realidade.

No deserto que tem sido a programação da NET nestes dias, tive a oportunidade de encontrar um filme delicioso de se ver no TelecineCult na noite de ontem - ao menos para um eterno indisposto com a realidade como eu.

O escritor e diretor Robert Edwars, ousadamente, centrou o resumo da história do totalitarismo e opressão em uma história absolutamente familiar e desconsertante para qualquer espectador de direita.

Bebendo em fontes já tão destacadas aqui, como "1984", "Animal Farm", "THX 1138", "Fahrenheit 451" e tantos outros clássicos, ele conta a história do ditador Maximilian Bonaventure e seu absolutamente obstruso filho Maximillian II - conhecido como Junior - e seu efeito sobre sobre um ilustre desconhecido homem da lei chamado Joe, outrora defensor do status quo.

Joe, vivido por Ralph Fiennes, vive em uma sociedade onde não se supõe que o povo tenha outra opinião senão a que lhes é concedida pela televisão - constante fornecedora de opiniões acerca do que o homem comum deseja e, quando dá tempo, o que acha certo e errado. Ele escolhe então participar do trabalho de manutenção da paz e da ordem, se tornando guarda em outrora-hospital transformado em presídio para alojar aqueles considerados terroristas pelo Estado.

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Trabalhando em seu belamente patético uniforme em uma rígida estrutura de comando, Joe acaba se permitindo manter longas conversas com um "vil terrorista" chamado Thorne (corruptela de "espinho", em inglês) - vivido por Donald Shutterland que começa a mostrar-lhe o outro lado da moeda - aquele no qual se percebe que a maior parte dos comportamentos aparentemente irracionais e radicais são enraizados no poder desmedido e controle de informações exercidos pelo Estado.

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O filme não chega a ser um chamado às armas ou uma apologia à violência, mas uma mensagem para todos os Joes, sejam eles de que país forem (se me permitem a leitura), para fazer alguma coisa que não ficar na inércia de seus sofás diante do Telecine - Cult ou não.

Não fica pouco evidente também a preocupação de Edwards com o fato de que diferentes partidos e poderes, em uma nação, dificilmente são passíveis de distinção quando lançam mão do poder que lhe é entregue pelo povo. Dados dois partidos eles não costumam ser mais que dois fantoches controlados por um mesmo grupo de interesses, as duas máscaras que se revezam diante dos olhos de um povo ávido por entretenimento, comédia e trajédia... um povo ávido por ser feliz e ter seus alternados estados de cinismo e esperança devidamente retro-alimentados.

Joe é só mais um de nós que, despreparado, alquebrado e constantemente manipulado, acreditava, tanto no que lhe era dito pelo Estado antes, quanto passa a acreditar no Espinho após o coup d'etat que ajuda a promover.

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Edwards demonstra preocupação com o fato de que Estado não é liderança, mas a ferramenta pela qual o povo deveria ter condições de levar sua vida. Fazer parte do poder do Estado deveria ser fazer parte da mais importante forma de SERVIÇO... o Serviço Público. O Estado deveria ser o Instrumento de Poder do Povo e não o contrário.

E é esta a forma de totalitarismo na qual vivemos... com suas nuances desimportantes para poucos e profundamente importantes para aqueles que preferem se imiscuir nos meandros dessa magnífica forma de entretenimento chamada Política, um reality show grotesco e indecente que não faz mais que tentar distrair-nos do que de fato é importante: eles trabalham para nós e não para interesses aristocrático-corporativos!

Ainda que a leitura do filme seja criativa demais, o que nos faz ter a pachorra de continuar meneando a cabeça com um sorrisinho lateral bovino, cinicamente dizendo "as coisas são assim mesmo" ou "não há nada que eu possa fazer"? O que nos faz sentirmo-nos tão impotentes ao ponto de acentuarmos que a única forma de atitude possível é escrever um e-mail indignado ou um texto confuso, embora rebuscado, em um blog?

"O inimigo é mais esperto", seria possível dizer... mas talvez se deixarmos de lado todo esse divertimento - que aliás nos custa caro - que serve para nos afastar de caminhos tendenciosos em direção à metas inexistentes a nós fornecidas; se entendermos que o Estado deixou, faz tempo, de ser instrumento do Povo para ser instrumento de interesses de uma nata Aristocrático-Corporativa; se compreendermos que o mundo de assistencialismos, ações afirmativas segregacionistas, medos de boatos tendenciosos nos meios de comunicação, não servem senão como cercado deste presépio ridículo do qual resolvemos não sair... talvez então entendamos que o Povo (nós!) é (somos!) um rebanho neurotizado incapaz, hoje, de dar um passo em direção a uma saída pelo simples fato de que se indispor é muito trabalhoso e, por isso, fica mais fácil usar os botões do controle remoto e do teclado do computador.

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"Os antigos operários tão logo se tornem governantes ou representantes do povo cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo."
supostamente pelo anarquista russo
Bakunin (1814-1876)

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (0)
Categoria: Cinema Independente

novembro 09, 2006

ClickStar

Nada mais estereotípico que a figura do jovem revolucionário mas, com 69 anos, Morgan Freeman - o adorável sábio de "A um Passo da Eternidade" e o narrador da abertura de "Guerra dos Mundos" - embarca na controversa odisséia com aqueles que apoiam a contra-cultura da distribuição de vídeo pela web.

Usando a Revelations Entertainment - sua empresa fundada com a produtora Lori McCreary - e uma parceria com a Intel, Freeman fez um sério movimento no sentido de chacoalhar o jeito como Hollywood distribui suas produções.

O novo empreendimento foi anunciado em Julho deste ano por Freeman e por Paul Otellini, Presidente e CEO da Intel, na Allen & Company Sun Valley Conference.

Relutante em sofrer dos mesmos males que a indústria da Música, Hollywood evitou, até o momento, oferecer suas produções em formato digitalizado. Entretanto, com um porta-voz como Morgan Freeman é possível que as coisas mudem de figura.

O próprio ator argumenta que seu acordo com a Intel vai fornecer aos usuários "uma forma simples, fácil e atrativa" de evitar a pirataria.

O usuário de internet está ávido por mudanças, legais ou não.

De uma vez por todas - e leiam com atenção - é terminantemente proibido a você, que comprou um CD, fita K7 ou LP, transferir o conteúdo para qualquer outra media. O que você comprou não foi a música, mas o direito de tocá-la única e exclusivamente na media que você adquiriu. É crime, portanto, fazer uma cópia de segurança de seus CDs para outros CDs; transferir o conteúdo de LPs e K7s para CDs; copiar conteúdo de quaisquer media contendo músicas ou filmes para seu computador, iPod ou MP3 Player genérico.

Isto não é brincadeira. É a legislação vigente.

Logicamente, baixar material protegido por copyright via eMule ou bitTorrent é igualmente uma atividade criminosa.

O assunto vem sendo largamente discutido no RadarPop, bem como em todas as agências de notícia que acompanham o fenômeno da explosão no uso de MP3, MP4, MP3(4) Players.

O Windows e o MacOS embutem a capacidade de copiar todo conteúdo de CDs e DVDs para dentro do HD da máquina, ainda que isto seja ilegal.

Dizer que está tudo de pernas pro ar no reino da Literatura, Música e Vídeo, não é nenhum exagero.

E é por isso que iniciativas como a de Morgan Freeman são tão importantes.

"Vamos pular a etapa pela qual a indústria fonográfica teve de passar de modo a chegar antes dos piratas", disse Freeman aos repórteres após sua apresentação do projeto em Sun Valley.

O empreendimento será liderado por Nizar Allibhoy, ex-executivo da Sony Pictures e a ClickStar tem tentado fechar acordos com estúdios e produtores.

Hollywood vem fornecendo filmes via internet já há cinco anos, através de um joint venture de cinco estúdios e CinemaNow - MovieLink - porém não se tornou lá tão popular com o público, em parte por causa do limite no número de títulos mais antigos e em parte porque o site sequer pode ser visto de fora dos EUA, a não ser com o uso de artifícios como o HideMyAss.com, que escondem seu IP dos servidores americanos.

A Sony e a Warner pretendem fornecer soluções próprias de distribuição de material cinematográfico pela web, mas o projeto de Freeman e da Intel é bem mais ambicioso.

Segundo Bill Calder, porta-voz da Intel, a corporação e Freeman vêm trabalhando juntos já há alguns anos para projetar processos de distribuição de vídeo digital usando mecanismos wireless de longa distância, dentro de uma estratégia chamada The Digital Home.

Robert Redford e o Sundance Festival entraram na jogada com a Intel e Freeman, recentemente, exibindo filmes usando a tecnologia.

A ClickStar pretende lançar filmes pela internet antes mesmo de seu lançamento em DVD e, para tanto, vai precisar de parceiros de peso, o que explica o motivo da apresentação na Conferência de Sun Valley, que tem a reputação de anualmente reunir CEOs de media, investidores e figuras chave na área de Cinema.

Dentre os presentes na conferência estavam Rupert Murdoch (News Corporation), Michael Dell (Dell Corporation), Michael Eisner (Dysney) e o investidor Warren Buffett - o homem-de-46-bilhões-de-dólares, a segunda pessoa mais rica do mundo segundo a Forbes.

Em outra entrevista Freeman afirmou que "A ClickStar é endereçada a crescente demanda por conteúdo digital - sobretudo cinematográfico e televisivo. Nosso objetivo é entregar conteúdo inédito para fans do cinema em todo o mundo a tornar mais fácil comprar que piratear estas obras."

A estratégia da ClickStar, diante disso, é criar um serviço online no qual o consumidor possa acessar, pagar e fazer o download de lançamentos inéditos, antes de sair em DVD. Este novo canal será projetado de forma a aproximar fans e cineastas, fornecendo um veículo para uma nova experiência de entretenimento. Diante disso, se a indústria cinematográfica e televisiva tiverem um pouco de jogo de cintura, novas oportunidades de crescimento e lucrativos modelos de negócio podem surgir daí.

A ClickStar é uma importante iniciativa, de fato, mas talvez seja apenas um primeiro passo da Revelations Entertainment, que segundo Freeman está "Comprometida com o desenvolvimento e produção de obras de entretenimento comercialmente bem sucedidas em toda media emergente que promova o enriquecimento, a expressão e glória da experiência humana". Metas ambiciosas para um homem admirável e de notórias conquistas.


Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (1)
Categoria: Cinema Independente

outubro 03, 2006

“Fast-food Nation”

Fragmentando a realidade em torno de um fato, Linklater passeia rapidamente pelo impacto que as cadeias de fast-food têm na saúde pública para logo navegar por um oceano de implicações sociais e culturais muito mais complexas, com direito a subtextos brutais e denúncias que vão além da culpabilidade das Corporações e sugerem nossa cumplicidade e responsabilidade por nosso modus vivendi.


















Em débito com o Festival do Rio 2006, resolvi quebrar a corrente e ir em pelo menos um dos dois filmes de um dos meus diretores prediletos - Richard Linklater - e, como eu esperava, o dinheiro do ingresso valeu!

O filme teve algumas críticas ruins aqui e acolá, mas eu confio na visão do diretor de “Antes do Amanhecer”, “Waking Life”, “Tape”, “Antes do Pôr-do-Sol”, “A Scanner Darkly” etc. e resolvi marchar para esse festival que tem uns horários que deixam qualquer pessoa que trabalha de cabelo em pé (ainda bem que eu sou careca).

O filme gira em torno de um sanduíche, o Big One, um hambúrguer gigante que o pessoal de marketing da cadeia de lanchonete Mickey’s criou e que vem sendo “superavitário” desde seu lançamento. Há, no entanto, um problema: “Uma universidade encontrou coliformes fecais na carne”... no frigir dos ovos... “Há merda na carne”.

O diretor do departamento de marketing do Mickey’s começa então sua jornada de investigação pelo mundo maravilhoso da produção em massa de carne, com a intenção de descobrir se há alguma verdade na alegação ou se não passa de um mal entendido.

Enquanto isso tudo vai acontecendo, o filme vai se fragmentando em tramas paralelas tão aparentemente díspares quanto uma família de mexicanos que entra ilegalmente para trabalhar no território americano – na produção de carne – até uma família cuja caçula é uma inteligente menina que é caixa de uma lanchonete Mickey’s.

Vale dizer que “Big One” é o nome de um documentário de Michael Moore que critica os E.U.A. e Mickey é o nome do personagem americano que, por um bom tempo, foi o símbolo de seu expansionismo cultural. Se tais referências são intencionais ou não eu não sei, mas me chamaram a atenção de imediato – sem mencionar o nome da mexicana, que se chama nada mais nada menos que Coco.

A aparência desconexa do filme, que salta de uma trama para outra com a agilidade própria de Linklater, pode parecer uma falha narrativa, se descontextualizada da história, entretanto, me parece muito mais que isso.

Quando se trata deste diretor, minha aposta é que tudo é parte de uma mensagem maior. O fato de todos os personagens estarem e se sentirem completamente impotentes o tempo todo, diante de uma realidade opressiva, sem mesmo ter como registrar isso em toda sua dimensão e, ao mesmo tempo, serem vividos por um elenco – a meu ver – formidável, é um significado em si mesmo.

Todos ali são importantes. A mensagem Personalista Kantiana, onde todo ser humano deve ser um fim em si mesmo e jamais um meio apenas, está ali em toda sua glória, enquanto a realidade em torno dos personagens renega esta visão violentamente fazendo, de cada um dos que ali estão, meros degraus para um progresso corporativo pragmático, objetivo e orientado a resultados a qualquer custo.

Greg Kinnear é o diretor de marketing que investiga a merda na “fábrica de carnes”; que emprega ilegal e negligentemente mexicanos - Wilmer Valderrama e Catalina Sandino Moreno - tratados como lixo; que se sujeitam a tudo para poder viver o Sonho Americano comendo fast-food servido por Ashley Johnson e Paul Dano; cuja carne é analisada regular e corruptamente por Bruce Willis; que é denunciado por Kris Kristofferson, cuja fazenda improdutiva vem sendo cercada pela especulação imobiliária e pelo progresso na forma de uma estrada que vai encampar seu território se ele não recorrer do processo; que nem se compara em produção a fazenda da “fábrica de carnes”, que concentra enormes quantidades de cabeças de gado para abate; que são alvo de preocupação e ação de Avril Lavigne e sua “gangue”; cujas ações são fúteis embora meritórias, mas que não dão resultado dado ao estado apático das vítimas diante da realidade e permanecem onde estão, sem sequer saber que estão presas e produzindo o cocô que vai infectar sua carne para só então servir de alerta para o que há de errado.

Linklater tenta, e consegue – a meu ver – fazer com que o espectador mais interessado perceba que não só “A Nação” vêm se alimentando de Merda, mas que as pessoas, que de alguma forma constituem esta nação, vêm sendo tratadas como Esterco e vêm se acostumando a serem rodeadas de um papo que é puro BullShit em nome de um sistema que é uma Bosta e de um sonho que já vem decantando no vaso faz uma data.

Eu até poderia fazer apologia à alimentação vegetariana e tal... mas, sinceramente, não está em mim fazê-lo. O que posso dizer é que vale ver o filme, que ele gera reflexão, incomoda e te coloca em movimento.

Ethan Hawke - o tio idealista de uma geração perdida que quase nada conquistou e cujas causas pífias que abraçou são uma sombra das causas abraçadas por seus pais - faz o papel obstruso do Sábio Eremita que, jogando xadrez com Ashley Johson, aproveita sua jogada para seqüestrar a atenção da menina e abrir-lhe os olhos...

O que importa é que o filme nos mostra que o buraco na cerca está bem ali e que podemos levantar os traseiros gordos que viemos cultivando. O traseiro gordo recheado com toda Merda que gostamos de achar que nos foi empurrada pela goela ao invés de ingerida volutariamente.

A Verdade é indigesta!

...agora é a sua vez. A próxima jogada é sua!

Uma tempestade está se formando... ela se chama Humanidade...
Quando ela precipitar, vai ser algo glorioso de se ver...

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (2)
Categoria: Cinema Independente

abril 22, 2006

"Férias"

Meu xará continua fazendo das suas por aí. Bruno Accioly - não eu, o outro - e Haruki Kume estão cada vez mais competentes e alcançando resultados cada vez mais elaborados com suas produções (não importa a metragem).

A dupla de cineastas deu as caras no Festival do Minuto - do qual só fiquei sabendo hoje - e atendeu ao tema "O Silêncio" com maestria em um filme simples, dinâmico e gostoso de assistir.

É um módico minuto e pouco de filme, é verdade, mas a corrida apaixonada do protagonista e sua saga diminuta nos dão vontade de saber o que acontece depois.

O filme, com música de Dandy Warhols, já começa com uma profusão de movimento e a curiosidade do espectador de imediato pede passagem para saber o que está acontecendo - o que me lembrou aquele fantástico início de "De Volta para o Futuro", logo depois que o personagem vivido por Michael J. Fox descobre que está atrasado.

Vale a pena baixar. São só 6 megabytes e você vê o trabalho bem acabado que o (outro) Bruno Accioly vem desenvolvendo com seu parceiro Haruki Kume.


Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (3)
Categoria: Cinema Independente

janeiro 10, 2006

“Quem Somos Nós?”

...foi a tradução escolhida para o título do inusitado “What the Bleep do We Know?”, que se escondeu dos espectadores nos cinemas do Grupo Estação.

Contando com Físicos, Psiquiatras, Médicos, Teólogos, Bioquímicos e representantes Holísticos, “Quem Somos Nós?” remete a uma narrativa incomum – embora não inédita – que mistura ficção e documentário.

Narrando um intervalo importante na vida de uma mulher, cujo cinismo e amargura arrogante a fazem protótipo representativo de nosso tempo, o documentário segue sustentando os motivos de nossas aflições e ansiedades.

Passando pela nossa incapacidade de assumir responsabilidade por nossos atos através do breve drama, é denunciada nossa tendência em transformar nossos defeitos em virtudes, fazendo uso de um eficiente e conveniente conjunto de mecanismos de auto-indulgência.

Em meio a narrativa ficcional acerca das frustrações daquele protótipo de nós mesmos, o documentário segue pelo caminho mais difícil, justificando suas críticas através da Mecânica Quântica e de suas implicações, das mais singelas às mais grandiloqüentes.

Notável pela sua sensibilidade quanto ao momento histórico em que até mesmo a astrologia, espiritismo e religião buscam aprovação e comprovação de sua fé nas entrelinhas do Método, Comunidade e Conclusões Científicas, o filme enfileira depoimentos inesperados acerca da natureza do Real e dos efeitos do observador sobre a forma como ela se apresenta.

Seja expressão de uma tendência científica marcada pela elegância das teorias ou a manifestação factual de como as coisas de fato são, o filme sustenta, posteriormente, no universo da Bioquímica, para explorar uma noção moderna a controversa. A de que comportamento e a rotina humanas são um conjunto de vícios em substâncias geradas pelos circuitos neurais facilitados ao longo de cada uma das atitudes que perpetuamos.

Opinativo em questões polêmicas como Religião e Moral, o documentário não tem medo de propor soluções para os dilemas e questões existenciais de nosso tempo ancorando-se no que sustenta das quatro camadas que propõe para o Ser: Subatômica, Bioquímica, Celular e Cognitiva.

Tratando o corpo como um exo-esqueleto do Ser – que não tenta distinguir ou definir – o filme não se furta a argumentar em favor de práticas que remetem às que são levadas a cabo há mais de três mil anos no Oriente e no “Velho Mundo”.

À luz disso o filme sugere que o pensamento é uma dimensão tão mensurável quanto o Espaço e o Tempo; e colocando que, ao aprender a manejar as rédeas do pensamento, o observador cria e interfere na realidade a sua volta.

Expressão de uma insistente cultura Pós-NewAge ou não, o documentário é um claro sintoma da existência de um movimento intelectual multi-disciplinar e ecumênico que bem pode moldar o panorama ideológico deste Século.

Vale a pena assistir mais de uma vez e guardar na prateleira como um tratado acerca de como ter uma atitude positiva e cheia de significado diante de um mundo onde o significado vem sendo banido.

E vale a pena esperar pela continuação - “What the Bleep do We Know? - Down the Rabbit Hole” - que está prometida para lançamento em Fevereiro de 2006 nos EUA.


Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (17)
Categoria: Cinema Independente

agosto 29, 2005

"Sete Minutos"

Um Macbeth interrompido, nos palcos do teatro, é pretexto para que Antônio Fagundes vire a mesa, denunciando o público sem pena enquanto conta um pouco da história do teatro, da realidade da televisão e da tristeza cabe nos sete minutos que nos restam.

Foi escrito certa vez - e repetido milhões de vezes - que "a vida é uma sombra que passa, uma história idiota, cheia de som e de fúria, contada por um louco... significando... nada!"

Insuspespeito, nas prateleiras da Blockbuster mais próxima de você, está um filme brasileiro que denuncia o problema que é a capacidade do novo espectador, derrubando a suposta quarta parede que existe entre o ator de teatro e aquele que o assiste. O filme, sem deixar de tentar investir contra o muro que se contruiu, faz troça do "jeito que as coisas são" para que o espectador veja na arte mais que entretenimento.

"Sete Minutos", em um texto inicialmente leve e cômico passa, quase que desapercebido, pelo fato de que desde pequenos somos programados para engolir o que nos torna os consumidores ideais.

O protesto externado no monólogo magnífico e acusativo de Antônio Fagundes - que pode até ser óbvio para muitos mas nunca deve deixar de ser exaltado em praça pública - finca os dentes da verdade na carne do cinismo e da apatia que cobre este corpo que se larga na cadeira diante das TVs a Cabo da vida.

Comprei o DVD sem mesmo pensar muito a respeito - pois gosto muito de surpresas - mas, para os que gostam de mais certezas na vida, recomendo o aluguel.

Se fosse apenas pelo monólogo já valeria a pena, mas não é. Numa linguagem aparentemente "Sai de Baixo", desde o início, a peça filmada acaba por peregrinar pelo terreno da crítica com desenvoltura e charme.

"É verdade, nós vivemos em um país desacostumado ao ato de pensar.

Nossa formação cultural está reduzida àquela dúzia de filmes americanos com sua fantástica linguagem traduzida em ação.

Nosso padrão de televisão, esperto, ágil e dinâmico, prende nossa atenção por, no máximo, sete minutos! O tempo aproximado de cada segmento, antes do intervalo comercial."

"Sete Minutos"
Escrito por Antônio Fagundes
Dirigido por Bibi Ferreira

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (10)
Categoria: Cinema Independente

novembro 21, 2004

Eu sou você amanhã (II)...

Cyrano de Bergerac; o Talento vs. o Nariz"Talento não é desculpa", eu ouvi um grande amigo dizer um dia e, a despeito do contexto e da intenção do autor da citação, fica muito claro que Talento não é mesmo desculpa para quase nada...

...e definitivamente, Talento NÃO é desculpa para DEIXAR de executar uma boa idéia, um sonho antigo ou uma obra que - independente de não ser vista por ninguém como arte - tem o valor intrínseco emprestado pelo simples fato de que foi levada a cabo!

O 5arcasmos |v|últiplos recebeu a ilustre visita, recentemente, do meu chará-de-nome-e-sobrenome Bruno Accioly e Haruki Kume, da A&K Filmes, que me acharam, provavelmente, graça ao Google - que foi o responsável por eu mesmo tê-los achado em Agosto passado.

Ambos são responsáveis pela execução de um número respeitável de filmes independentes dos quais, provavelmente, você nunca ouviu falar.

O comentário não foi nada pejorativo. Semana passada vi uma entrevista do Arnaldo Antunes na TV a cabo acerca de sua obra "Nome", de 1993, produção de subjetividade multimedia .

Na entrevista, Arnando Antunes se viu diante da pergunta: "Como você encarou o fracasso da sua obra 'Nome'?", ao que respondeu, sem dificuldade, algo como, "Não entendo 'Nome♫' como um fracasso artístico, mas como fracasso de crítica. Até mesmo o fracasso comercial é questionável, uma vez que a crítica tem profundo impacto no que o consumidor acha que deve comprar".

Goste você ou não de Arnaldo Antunes, ou de "Nome", não importa. Ele de fato fez alguma coisa. Esconder-se por detrás do ombro de gigantes para não fazer aquilo que seu potencial latente lhe permite, está muito aquém do que devia-se esperar de si mesmo.

Meu tio, certa vez me disse, "Escreva... mesmo que ninguém leia, escreva. Nunca se sabe nas mãos de quem isso acaba; não é uma questão de dinheiro, mas uma questão da importância que você tem no seu espaço. Tudo o que você fala e escreve, tudo que alguém escuta e lê, modifica o seu em torno". Ele disse isso pois soube que eu pretendia parar de escrever. Como resultado, não parei.

Apesar do que o senso comum alardeia, a produção de subjetividade - ou a obra de arte - que nunca é lida ou vista, tem importância. No mínimo tem importância para o autor, lhe permitindo refletir e fruir a essência de si mesmo, em meio ao processo de criação, o que acaba por verter-se para o mundo através de seu discurso e atitudes.

Bruno "Que-não-sou-eu" Accioly e Haruki Kume são pessoas especiais, que insistem em produzir filmes (veja só!), em um mundo onde para manter uma obra nos cinemas é necessário gastar, por baixo, 10 milhões de dólares em marketing. Para mim, quem faz filmes, de fato, são eles, e não essa indústria fria e orientada a resultados que, em última instância, passaria a vender Balas Juquinha se estas fossem mais lucrativas!

Revisitando o que vêm produzindo tive a oportunidade de perceber a sutileza e sensibilidade da direção que, com ar de troça e insuspeita humildade, invade o espectador com mensagens tocantes e cheias de significado.

Redimindo-me dos comentários acerca do elenco, tenho de admitir que há um belo trabalho sendo desenvolvido pelos atores, sobretudo em "Bate Papos de Outono" e "Dedicação". Não se trata, obviamente, de um material convencional ou conservador em sua execução, mas de um discurso cinematográfico próprio e íntegro.

No fim, aquele que não expõe as próprias poesias, dado o tamanho do nariz, subestima aquele de quem as esconde... Se as expusesse, afinal, talvez fosse possível, então, olhar para além da grotesca forma que a insegurança força o autor a acreditar que existe.

Eu? Eu vou seguir o conselho de Haruki Kume, deixar de temer ser menos que Orson Welles e filmar logo meu humilde "Indivisível"!

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (2)
Categoria: Cinema Independente

novembro 05, 2004

"THX 1138"

Baseado em um projeto de faculdade de George Lucas, escrito em 1967 e com o auxílio de produção de Francis Ford Coppola, THX 1138 é uma obra prima do gênero e a frente de seu tempo tecnicamente.

Há algum tempo quero escrever acerca desta refilmagem do anônimo “THX 1138:4EB”, escrito e dirigido por Lucas na University of Southern Califórnia. Resultante deste trabalho final de faculdade, "THX 1138" foi para mim um desses filmes que - antes da TV a cabo - ao ligar o aparelho na Rede Globo, acabei encontrando algo que o Departamento de Perpetuação da Decadência Televisiva deixou passar.

Muita gente gosta de cinema. Pessoalmente, gosto de ver filmes mas, ultimamente, me parece mais que isso... parece-me que gosto de ter contato com as histórias que as pessoas contam. Em quanto mais níveis estas histórias funcionarem melhor para mim. A cada frase adicional viajo por significados cuja autoria oscila entre a intenção do autor e minha interpretação daquela realidade que diante de mim se dispõe.

“THX 1138” pode bem ser um filme de ação econômico e denso, sendo capaz, contudo, de ser muito mais do que isso. Como seu primo mais velho, “1984” - de outro George - o filme de Lucas pode ser fruído com superficialidade sem, entretanto, deixar de ser flexível e subjetivo o suficiente para que o espectador mergulhe em toda sua profundidade temática.

O personagem principal, incentivado pelo construto social do qual desfruta, ingere substâncias que o ajudam a ser “um ser humano melhor” sob muitos aspectos. A escolha é dele, como tantas outras. É ele também, que escolhe o holo-canal que vai assistir, dentre uma vasta programação cuidadosamente desenvolvida que contém o sexo proibido pelo Estado, a violência coibida pelos sedativos e a dança, que não parece guardar qualquer relação com o ambiente acético e inexpressivo no qual ele existe.


Para a comodidade de todos, cada armário controla a ingestão de substâncias de forma a impedir que um cidadão seja prejudicado pelas drogas ingeridas, o que prejudicaria o sistema como um todo.

Já havia visto o filme algumas vezes, o que acabou mesmo sendo responsável por tê-lo adquirido em DVD. Valeu a pena. O produto final de Lucas - a versão adulterada pelo diretor, claro - surge timidamente nas prateleiras como um filme moderadamente desconhecido mas profundamente importante, que entraria fácil para o gênero “filme-chato” segundo muita gente, como quase todo filme importante.

O que posso dizer é que este é um daqueles filmes que você pode contar inteiro e que não fará lá muita diferença, pois o impacto da experiência pessoal com o filme supera qualquer narrativa fornecida previamente.

Para quem se interessa por saber mais sobre a história e sobre minha visão acerca dos subtextos que a permitem funcionar em tantos níveis, vale clicar no link abaixo:

ATENÇÃO: O texto a seguir comenta a história do filme!

Continuar...

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (3)
Categoria: Cinema Independente

outubro 02, 2004

"Dolls"

De engenheiro que não deu certo, passando por dançarino de striptease até conseguir ser ator de TV, Takeshi Kitano nos trouxe, em 2002, uma pérola da qual pouca gente fala e muita gente ia gostar de ver...

"Dolls" é belíssimo, está passando no TeleCine e discorre acerca da natureza do amor, das desventuras a que ele pode levar e do que se perde ao abrir mão dele por medo de sofrimento.

Como você deve saber, não acredito em sinopses, portanto, veja o filme.

Está passando na NET-Rio este mês no Domingo, dia 17/10 à 00h45... como sempre em um horário acessível! :¬)

Os preguiçosos, que querem saber logo o que eu vi de tão especial no filme, podem ler o texto disponibilizado no link mais abaixo

Continuar...

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (219)
Categoria: Cinema Independente

agosto 20, 2004

Eu sou você amanhã...

Como dizia o velho deitado: "O destino ao Google pertence"

Talvez mesmo quem me conheça muito não saiba o tamanho da minha ambição.

A quantidade de coisas que faço e pretendo fazer é colossal. De ensaios a poesias, de contos a livros, de filmes ao exercício da filosofia!

Tudo, claro, com a maior fé em mim mesmo que consigo ter, dosando presunção e auto-confiança da melhor forma possível.

Imagino se somos todos assim, ambiciosos para além da medida do razoável, otimistas presos nos corpos de cínicos desesperançosos.

Não sei você, mas volta e meia procuro meu nome junto a Deus - você sabe, o Google - na esperança de que mais um link esteja ali presente, que mais uma vez o Deus ex Machina que domina a Internet tenha se voltado para mim e percebido mais uma de minhas convulsões cognitivas.

Estupefato acabei encontrando meu nome relacionado a uma de minhas grandes ambições: fazer filmes independentes – assim, sabe? Como quem escreve um livro ou pinta um quadro.

Segundo o Google eu havia feito já mais de dez filmes e continuava dirigindo-os e publicando na Internet, tudo como sempre quis fazer!

Em um arroto de esperança, passou-me pela cabeça dodói, que era eu aquele ali e que, de algum modo, o Google cometera uma gafe e passara a acessar na web fatos que ainda estavam por ocorrer.

É... seria maravilhoso se fosse possível... acessar o Google e ter um encontro com o próprio futuro.

Antes que me passe pela cabeça colocar no papel essa historieta, tive a oportunidade de navegar até a AK Filmes – onde o Google foi achar meu destino – e descobri que o tal Bruno Accioly é até bastante prolífico e seus filmes, dadas todas as restrições técnicas e atores pouco capazes, faz até um bom trabalho (por favor não comparem com as produções de Hollywood, que hoje são sinônimo de Cinema).

Dêem um pulo no site do sujeito. Vale a pena. E um dia, quem sabe, meus links lá no “eu que fiz” vão levá-los a minhas modestas mas honestas produções.

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (10)
Categoria: Cinema Independente