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maio 25, 2007

Use Filtro Estelar

Eu já gostava da versão original em inglês, mas esta tem tudo a ver comigo. Quem me conhece vai entender. Quem não conhece, ria à vontade da "remasterização" =)

O original de "Star Wars Sun Screen", no YouTube.

A versão original de "Sun Screen", no YouTube.

A versão original de "Sun Screen", no YouTube

A versão catastrófica... "Filtro Solar", com Pedro Bial, no YouTube


Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (1)
Categoria: Como vejo o mundo...

fevereiro 13, 2007

Enquanto isso, no planeta Terra...

Bruno Accioly

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Categoria: Como vejo o mundo...

outubro 06, 2006

Generalizações

“Tenho quase absoluta certeza de que, de repente, é possível que seja provável que minha vivência justifique, sem sombra de dúvida, que talvez eu possa presumir acertadamente o comportamento futuro de um indivíduo, baseado na observação do comportamento pregresso da coletividade.”

É difícil ser menos conclusivo e mais incoerente. Mas nós mesmos declaramos algo muito parecido cada vez que, irresponsavelmente, usamos de generalismos para julgar uma pessoa ou um grupo.

E o que é o generalizar? Há mais de um sentido, mas o que mais se adeqüa aqui é: “Afirmar, de forma infundada ou não, que algo é verdadeiro em grande parte de situações, ou para a maioria das pessoas”.

Fazemos isso o tempo todo, seja ao dizer que “só um por cento das pessoas lê sobre Filosofia”, seja ao afirmar que “só dez por cento dos telespectadores vê a TV Educativa” ou que “é muito pouco provável que não exista vida fora da Terra”. Todas estas pressuposições se baseiam em estatísticas intuitivas, sem bases, puramente ancoradas no preconceito e descaradamente fundamentadas em uma experiência limitada da realidade – ainda que sejam verdadeiras!

Será que é interessante nos acostumarmos a pensar assim? Será que é responsável e justo? Será que é bom? Ou será que é reducionista, superficial e tolo?

Acostumarmos-nos a ser levianos em análises simples – por nos parecerem elas menos importantes – nos condiciona a fazer vista grossa em julgamentos mais relevantes. Um bom exemplo são afirmações como “mulher ao volante é um perigo constante”, ou mesmo ditos populares como, “pau que nasce torto morre torto”.

Antes de qualquer coisa, para os defensores dos ditos populares como “a voz do povo é a voz de Deus”, só tenho a dizer que não é lá muito coerente que se afirme que “mais vale um pássaro na mão que dois voando” quando também se diz que “quem não arrisca não petisca”.

Os generalismos estão em toda parte – sem querer ser generalista – mas mesmo que eu esteja errado quanto a sua fartura em aparecer por aí, veja só o perigo que é generalizar:

“Todo político é salafrário!” – diz ela com desprezo para o recém conhecido.

Ele, tentando não se sentir ofendido – “Ahn... Assim... Literalmente? Todo mesmo?”

“Claro! Todo político! Não tem um que preste.” – Afirma categórica.

Um tanto sem graça ele pergunta – “Mas como você sabe, se não conhece todos?”

“Eu conheci o número suficiente de políticos para saber!” – Postula.

Não sei quanto desse diálogo o leitor teve a oportunidade de presenciar, mas não é difícil imaginar os problemas dele advindos.

Em tendo concluído que Com Certeza Todo Político é Salafrário, não sobra espaço para qualquer incerteza. Se a conclusão da moça estiver errada, ela simplesmente não vai se dar a chance de sabê-lo, pois, precipuamente (antes de mais nada) já tem a certeza de que um político individual – que de fato fosse honesto e bem intencionado – é político e, portanto, salafrário.

Se o leitor não discordou da moça, dada a situação do país ou qualquer outro motivo, troque a palavra “político” por “homem”, “judeu”, “japonês”, “negro” ou qualquer outro grupo que você desejar.

O fato é que agrupamos indivíduos sob rótulos dos quais, muitas vezes, eles sequer se julgam fazer parte. Agrupamos as loiras, ainda que sejam pintadas; os Asiáticos, ainda que japoneses e chineses sejam de culturas completamente diferentes; os filmes de Ficção Científica, embora existam diferentes gêneros dentro deste pseudo-gênero; e temos até a pachorra de inventar um grupo de “pessoas bonitas”.

Esta atitude é útil para catalogar grupos e fazer referência à coletividade, mas trata-se de uma ferramenta e, como tal, não deve ser usada para tarefas para as quais não foi designada. Seria como usar um martelo para apertar um parafuso.

Usar de generalizações como mecanismo para julgar indivíduos a partir de supostos comportamentos de grupos que, por vezes, nós criamos apenas para organizar nossos conceitos e preconceitos? – Isso não tem como ser justo!

Presumir um indivíduo desconhecido como tendo as características de outros indivíduos, baseando-se na própria experiência – ou vivência (escolha a palavra que quiser) – é julgar e condenar sem sequer dar uma oportunidade ao acusado.

E antes do leitor achar que não julga ninguém, não deve se esquecer que toda conclusão acerca do que uma pessoa deve ser, seguida de uma atitude baseada no que se presumiu, é um julgamento e, mais que isso, é uma condenação sem chance de apelação.

Ninguém disse que é fácil, mas sua cautela em não sofrer novamente uma decepção não é mais importante que tratar os outros de forma justa. O ônus da prova recai sempre sobre os ombros de quem julga alguém como desonesto ou presume alguém como culpado de algo. E se alguém já te magoou, não seria surpresa que isto tenha ocorrido porque tal pessoa foi mais cautelosa do que justa com você.

Portanto, um homem passar a achar que nenhuma mulher presta, porque uma ou outra – ou quinze – já o traiu, desqualifica estas meninas e não a vítima da traição. Muito menos uma nova mulher que entre em sua vida, porque sua formação como indivíduo não passa, necessariamente, pela aderência – ou aceitação – aos conceitos e ao caráter das meninas que o traíram.

Isso não vale só para homens e mulheres, mas vale também para brancos e negros; protestantes e católicos; ocidentais e orientais; comunistas e capitalistas; flamenguistas e vascaínos; americanos e brasileiros; e por aí vai!

A generalização é uma ferramenta poderosa e extremamente útil e – embora esteja aí para qualquer um usar – não é diferente de uma faca, que serve pra cortar um pãozinho ou pra matar uma pessoa.

Já se discutiu muito sobre isso em um monte de disciplinas. Existe até o conceito chamado de Generalização Desmedida, ou Falácia, que nada mais é que sustentar um argumento aparentemente lógico – o Paralogismo – não apresentando evidências e estabelecendo uma visão reducionista de uma questão, agrupando coisas e pessoas sem que haja qualquer valor lógico na proposição. Bons exemplos são: “Todo mundo sabe que Argentino tem mania de grandeza” ou “Não é novidade para ninguém que Brasileiro só gosta de carnaval, praia e futebol”.

Não podemos nos esquecer que, quando criamos estes grupos na cabeça – onde encaixamos os indivíduos – o fazemos interpretando a realidade ao nosso redor. Nem sempre, contudo, nossa interpretação dos fatos é correta, o que nos faz ver como evidência algo que não é mais que uma coincidência infeliz e incriminadora. Neste processo, nasce um grupo que sequer devia existir ou uma impressão errada do que este grupo de fato é.

Aprender a generalizar responsavelmente é aprender que generalizações, assim como as estatísticas, servem o propósito de definir grupos e não indivíduos. E que um indivíduo só pode ser julgado pelos seus próprios atos e jamais deve pagar pelos atos de outrem.

Ser um pouco mais Tolerante através da forma como nos referimos às coisas e pessoas é um pequeno passo e pode até parecer pequeno demais, mas o leitor deve se lembrar que, para sair de onde se está para chegar a um lugar distante, só empreendendo a jornada um passo de cada vez.

A Impossibilidade da Generalização

"A gravura se refere ao prazer em se tentar e a irritante impossibilidade em se criar uma conclusão.

Não há possibilidade de esgotar um assunto e há sempre o que se questionar e dimensões inacabadas."

"Não estou certo, por exemplo, se Nietzsche acreditava de fato no que escrevia. Portanto, gostar ou desgostar dele é pouco apropriado. Ele fez uma proposição, na qual talvez ele mesmo não acreditasse. Nela viu possibilidade de expressão. Foi prazeroso promover suas idéias bizarras qual fosse uma mina de ouro escondida que engolfava toda a raça humana. Linda, lógica, sua teoria era digna de ser propalada, mesmo que incorreta."

"Ao nos imiscuirmos no espaço para compreendê-lo, é capaz de encontrarmos um poço, que dê passagem para outra "esfera". Extraímos algo deste poço com uma polia e com a ajuda de um balde. E o balde está furado. Não há nenhuma generalização possível. Ela é a invenção mais terrível da raça humana."

"Toda generalização se opõe a frase: "Falar é mentir". O que vemos na vida é apenas um fragmento, uma parte, algo invariavel e profundamente incompleto."

"Toda filosofia, independente de sua similaridade, tem em suas fronteiras um colossal espaço. O homem, diminuto, tem de fugir de uma esfera, cruzar este espaço para só então alcançar a passagem para uma nova esfera - sempre limitado pela vida."

"Estamos livres neste periodo no tempo, na larguesa desta estrada que nos resta. Mas generalizar a vida é pequeno demais."

Sergey Poyarkov
Balance of Contradictions

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (1)
Categoria: Como vejo o mundo...

outubro 21, 2005

O Pórtico

Junto ao pórtico partido para o impossível, onde afrescos e relevos manifestavam o triunfo da sensatez sobre a estupidez, postava-se altivo e inabalável... sem soberba ou presunção

Para mim, parábolas são parábolas, venham elas de um livro cheio de tradição ou de um comercial de TV... e eis que, certa vez, Phlox, denobulano, médico e oficial da Enterprise NX-01 foi ao cinema com uma de suas colegas humanas a bordo. Uma vez que, ao invés de olhar para a tela ele olhava para as reações de todos a sua volta, a colega perguntou: “Não parece interessado no filme, Phlox. Não existem filmes em Denobula Triaxa?” – ao que ele respondeu: “Sim, temos algo semelhante... mas descobrimos que a vida real poderia ser muito mais interessante do que a ficção”.

Se assim pode vir a ser, para nós humanos, ou não eu não sei, entretanto me parece que faz um tempo que enveredamos por um caminho sem volta. Um caminho que passa pela resignificação do Homem para unidade produtiva, peça reposicionável e objeto dispensável individualmente, uma vez que facilmente substituível.

A sombra do medo de perder o superestimado e suposto conforto que se “tem” o homo laboris perde significado como um moribundo hemorrágico que sequer sabe verter, em baldes, o próprio sangue.

Semana passada um amigo – Mairus Maichrovicz – refletindo acerca da situação do mundo corporativo, me disse: “Nessa realidade trabalhamos como não queremos, torcendo para que as horas de cada dia passem o mais rápido possível para que cheguemos ao fim de semana e possamos gozar do conforto que o salário de cada mês nos propicia. Fazemos isso o mês inteiro, para que, ao final, ganhemos nosso salário que vai nos permitir querer que o próximo mês passe mais rápido... quando vemos já envelhecemos”.

Tentamos reencontrar a nós mesmos, enfim, em nossa vida pessoal, seja consumindo aquilo que achamos que precisamos – em nome do tal conforto – seja através de nossas relações com amigos ou com a pessoa amada.

Ah! E que conforto nos proporciona a pessoa amada! Nada mais reconfortante que fruir de uma apaixonada relação amorosa com a pessoa que se considera a certa e derradeira!

Particularmente, tive a sorte – diante da torturante realidade de ser obrigado a fazer meu trabalho de uma forma que não acredito certa – encontrar alguém especial no ambiente de trabalho.

Não sei quantos de vocês já tiveram a oportunidade de aderir a esta má prática deliciosa e que empresta um novo significado para tudo o que se faz no dia-a-dia.

Recomendar? Não me atribuam este papel! Opinião é que nem bunda – cada um tem a sua e, de repente, só sai |v|3rda.

Fato é, contudo, que o mundo é como é, pessoas não são ferramentas e, da mesma forma que o Homem é mais que uma unidade produtiva, a pessoa amada é mais que uma alavanca para alcançarmos a felicidade!

O breve texto de entrada ao topo deste pequeno ensaio descreve o dia-a-dia de um sujeito que viveu a 333 A.C., e que ensinava uma alternativa pouco convencional de se viver e de encarar a vida.

Zenon dissertava ao pé de um Pórtico erigido pelos atenienses após a vitória sobre os persas, que envergava imagens coloridas dos gregos derrotando os bárbaros.

O Pórtico – ou “stoa”, em grego – era o símbolo da vitória da sabedoria sobre a brutalidade, uma franca apologia à capacidade humana em lidar com seus problemas não somente com o ofertado pelos comportamentos óbvios e convenientes que são atribuídos à Natureza Humana, mas também com o ferramental desenvolvido a partir da reflexão, contemplação e sabedoria.

”O mundo é para quem nasce para o conquistar e não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão”, escreveu Pessoa, em Tabacaria.

E é aí que o Estoicismodoutrina fundada por Zenão de Cício (335-264a.C.), e desenvolvida por várias gerações de filósofos, que se caracteriza por uma ética em que a imperturbalidade, a estirpação das paixões e a aceitação resignada do destino, são as marcas fundamentais do homem sábio, o único apto a experimentar a verdadeira felicidade. de Zenon, do Pórtico, pode nos ajudar, uma vez que pregava-o como forma de manter a serenidade diante do revés e do triunfo.

Fugindo das noções artificiais e convenientes de necessidade, de conforto e de prazer, o Estoicismo defendia uma vida não conflitante com o entorno, simplicidade nas vestes, na alimentação e no estilo de vida.

Diante da adversidade “Abster-se e Resignar-se”.

Não se trata de não ligar para mais nada, apesar de Zenon ter sido profundamente influenciado por Crates, adepto da escola filosófica dos Cínicosrelativo a ou adepto da doutrina dos filósofos gregos Antístenes de Atenas (444-365 a.C) e Diógenes de Sinope (400-325 a.C.), que se caracteriza esp. pela oposição aos valores sociais e culturais em vigor, com base na convicção de que não é possível conciliar leis e convenções estabelecidas com a vida natural autêntica e virtuosa..

Trata-se de ser capaz de encarar os fatos sem otimismo e sem pessimismo, abstendo-se de ser tendencioso.

Zenon era filho de pais ricos e, a certa altura, perdeu todas suas posses em um naufrágio. Ao tomar conhecimento do ocorrido serenamente disse: “O destino queria que eu filosofasse mais desembaraçadamente”.

Não é que nada tenha importância ou significado... é que se, por desventura, a vida lhe atira limões, faça uma limonada!

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (23)
Categoria: Como vejo o mundo...

setembro 12, 2005

Logomaquia

“Ai, que texto longo!”, “Não entendi nada!”, “Você gosta de escrever, né?”, “Por que você escreve esquisito assim?”, “Dava pra cortar isso aí pela metade!”, “Por que você não troca ‘acerca’ por ‘sobre’?”, “Seu texto é um auto-elogio só!”, “Eu só gosto de ver as figuras no seu Blog”... é o que eu escuto ou leio semanalmente sobre o conteúdo e a forma do que eu escrevo. Adivinhem – ninguém está errado! – mas discordo dos comentários sob um ou outro aspecto.

“Brutal”, foi a primeira palavra proferida por George Orwell, quando bebê, ou assim nos fez acreditar sua mãe, que eternizou a lenda.

Orwell escreveu “1984”, livro que descreve uma sociedade totalitária que anula o indivíduo, valoriza a coletividade em nome da produção e, sobretudo, em que os fins justificam os meios e a mentira é uma preciosa ferramenta do Estado.

Em seu livro, e mesmo no filme de mesmo nome, Orwell sugere, de forma um tanto velada, que a destruição da língua tem papel importante na sedimentação de um Estado policial totalitário, um governo de exceção.

Na obra, contrações lingüísticas, fusões de palavras, inversões de conceitos, são lugar comum e lindamente costurados com a falta de significado e a distorção do sentido íntimo de tudo o que é dito.

A primeira palavra de Orwell bem poderia ser usada para descrever como desconstruímos nossa história e identidade ao destruirmos a língua... É brutal!

Há quem não se preocupe tanto com isso e ache até muito bom que a língua esteja convergindo para algo mais conciso e eficiente, mais objetivo e pragmático. Sob certos aspectos é, de fato, muito interessante, produtivo e tudo mais, mas é também um empobrecimento da cultura e de nós mesmos.

Desde a revolução industrial, a sociedade vem descrevendo uma curva ascendente em direção à uma maior produtividade, à uma maior eficiência, mesmo que em detrimento da qualidade e da durabilidade. A não sustentabilidade dos meios de produção e dos produtos em si mesmos nem se cogita na lista de prioridades corporativas.

Para alcançar taxas de produção tão elevadas e para garantir a lucratividade torna-se necessário o entendimento do processo produtivo em termos não de homem/hora, mas de homem/centésimo-de-segundo. É preciso criar metodologias cada vez mais elaboradas para alcançar as taxas alvo a despeito do Homem, embora seja ele quem efetivamente trabalha. Entende-se o Homem, nesta realidade, como uma peça em uma máquina e se esquece que é ele um Ser Humano.

Mesmo que este pareça um discurso datado, fica bastante claro que o discurso é atual quando se percebe que é lugar comum uma fábrica sair de seu país de origem para operar com mão de obra mais barata em países em desenvolvimento, deixando inúmeras famílias sem fonte de renda.

Este “industrialismo” teve profundo impacto na forma que o Homem vê o mundo e em sua forma de pensar e agir, viciando-o em conceitos que só parecem verdadeiros graças à realidade na qual foi imerso.

Na Idade Média, a pintura não conhecia a perspectiva, ou melhor, manifestava nas telas inúmeras perspectivas... essencialmente estavam presentes diversos pontos de fuga – conceito que viria posteriormente.

Da geometria projetiva e da Arquitetura veio o conceito de ponto de fuga, que dá ao espectador a impressão de estar dentro do quadro, respeitando a perspectiva qual se estivesse vendo os elementos do quadro como se existissem em um espaço tridimensional.

Por outro lado, o advento do ponto de fuga não mais dá uma multiplicidade de visões, de perspectivas, viciando o espectador no próprio ponto de vista e coincidindo com as tendências mais individualistas descortinadas pelo progresso.

O ponto de fuga pode ser lido como a asserção da própria perspectiva, o encontro consigo mesmo e até a valorização do indivíduo, entretanto afasta o indivíduo da diversidade de visões, da busca de visões estranhas à sua e mesmo a aversão a tudo o que é discordante com a própria opinião.

Em um mundo orientado à produção, o trabalho precisa ser valorizado e moderadamente recompensado, os cidadãos têm de estar imbuídos de valores que o incentivem a trabalhar e deve-se desqualificar quaisquer questionamentos em sentido contrário ou que entrem em conflito com os interesses “produtivos”.

Estando a eficiência a frente da eficácia e da efetividade, perde-se a necessidade da qualidade e da sensatez, focalizando os esforços sociais no sentido de um Objetivismo e Pragmatismo desmedidos que só permitem a análise da realidade através da conclusão de objetivos e só permitem o entendimento do movimento tendo algo previamente eleito como objetivo.

Invariavelmente, em vista de ter-se descartado a qualidade e a sensatez, há que se acobertar tais impropriedades de algum modo. Isto pode ser feito através da criação de órgãos destinados a endossar o cumprimento de boas práticas, elencadas em metodologias que, se seguidas, não permitirão – por sua própria natureza – atingir a tão preciosa lucratividade.

Para garantir a aderência a esse padrão de qualidade fictício sem provocar quedas de produção, os órgãos exigem que a corporação tenha um percentual de seu contingente treinado nesta metodologia e assumem que as tais boas práticas, dado o treinamento do pessoal, sejam levadas à cabo. Eis o conceito de certificação.

O quadro belíssimo leva então a cobertura essencial do discurso vazio, empreendido por profissionais de Administração, Vendas e mesmo Cientistas Políticos, que destilam sofismas, palavras da moda e frases feitas, tão emblemáticas quanto incoerentes, que defendem ora um ora outro ponto de vista, quase sempre conflitantes.

A imersão opera milagres...

Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda no 3º Reich, eternizou aforismos importantíssimos no entendimento da anatomia de um Estado totalitário, afirmando que “quanto maior a mentira, maior a credulidade”, que esta forma de governo “não busca a verdade, mas o efeito por ela produzido” e que “o objetivo do sistema é que até a desobediência se torne uma forma de obediência".

A busca de um ponto de fuga único e orientado ao espectador é o ponto pelo qual o espectador foge da realidade, confiando demais em sua própria visão de mundo para tolerar ou considerar os demais pontos de vista, entendendo como Natureza Humana a condição de não questionar nada e sentindo-se afiançado na posição de acreditar-se fundamentalmente certo.

Hoje, graças aos caminhos que resolvemos percorrer, temos um dicionário rico em verbetes com dez, vinte, cinqüenta acepções e, entretanto, cada indivíduo escolhe fazer uma média das “n” acepções ali descritas e concluir uma única acepção para conceitos complexos como “Questionar”, “Moral”, “Ética”, “Objetivo”, “Abstração”.

Os protocolos de comunicação ruem diante desta brutalidade ideológica de relativização dos significados, não permitindo que duas pessoas se compreendam pois elas não mais conseguem pensar em dez, vinte, cinqüenta acepções para cada uma das palavras que adotam em seu vernáculo, ao invés disso sustentando pontos de vista que se fundamentam no significado que escolheram para as palavras que usam.

A generalização e relativização da língua e a re-significação auto-indulgente de conceitos, são reflexos de nosso desrespeito por qualquer outro ponto de vista e pelo descaso quanto ao sentido íntimo das coisas.

A noção de que “tudo é relativo” é uma generalização tosca, mais uma média “estatística” intuitiva que se tira sem base alguma e meramente para afiançarmos as certezas equivocadas que gostamos de ter.

“Palavras difíceis” são corriqueiramente descartadas, com a impaciência destas pessoas preguiçosas nas quais nos tornamos, e é isso que vai nortear a confecção de textos jornalísticos e obras literárias, levando a língua e a cultura em uma espiral descendente em direção à mediocridade à qual só a média e o relativismo exacerbado tem condições de nos levar.

Destituídos de significado não só os discursos, mas cada um de nós se torna vazio e sem substância. Não há mais protocolo de comunicação possível se decidimos que cada um pode reinventar a língua a seu bel prazer.

Logomaquia é o nome que se dá para discussões geradas por diferentes interpretações acerca do sentido de uma palavra; o emprego de termos não definidos em um discurso ou argumentação; e a querela em torno de coisas insignificantes.

Em que contexto esta palavra se encaixa neste texto cada leitor escolhe, dependendo de suas interpretações do que leram e de forma bastante independente da minha intenção como autor. O que jamais deve ser esquecido é que há mais de uma acepção. Não abra mão dos múltiplos significados das coisas!

Vale refletir acerca da forma que nos relacionamos com nosso entorno e, como escreveu David Reisman: “Faça um apanhado das frases com as quais concorda e questione-as!”

Se uma casca do que um dia fomos é só o que nos resta ser no futuro, só vai valer a pena abrirmos a boca mesmo é para bocejar...

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (11)
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julho 26, 2005

Síndrome de Gabriela

"Eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo assim... vou ser sempre assim!", é dos mantras mais cotidianamente entoados nos dias de hoje - de uma forma ou de outra - mas qual a moral da história?

A moral da história? Ninguém mais sabe!

Perdeu-se a noção do que é Moral, Moralidade, Moralismo e, sobretudo, do que e Questionamento Moral. E isto vem ocorrendo há muito tempo.

Não é difícil sustentar, inclusive, que estas noções, em nenhum momento, foram lá tão conhecidas. Talvez, entre o século XVIII e XIX, com sorte, a elite cultural e econômica da sociedade ocidental - e alguns acadêmicos da área de Ciências Humanas - fossem os únicos que, de fato, tiveram tais conceitos como parte de sua vida.

Apesar da Ética ser o estudo sistemático da Moralidade, entende-se ética, em círculos leigos, como um conceito vago que acaba sendo não mais que um mero sinônimo de "conjunto de valores".

É pouco.

Mas começo o texto falando do que batizo de "Síndrome de Gabriela", não é?

Em conversas mais sérias, normalmente daquelas em que falamos “do mundo e das coisas”, é muito comum surgir aquele comentário que esbarra no limite que, cada um de nós, estabelece para o Ser: “Mas esta é a natureza humana!”.

Escrevi sobre isso em “A Tal da Natureza Humana”, há algum tempo, e tentava demonstrar que nos satisfazemos com o senso que fazemos do Homem e, levianamente, nos bastamos neste modelo intuído da realidade.

No que concerne a relacionamentos e comportamento, me parece, existe outro destes aforismos banais que, deterministicamente, acaba por pontuar tanto um fim de discussão quanto a manha de uma criança chata que diz “não quero”!

Quantas vezes já não ouvimos, em discussões e situações tensas, respostas como: “Eu sou assim!”, como se isto fosse suficiente e determinante para estabelecer um argumento irrefutável, independente de quaisquer julgamentos ou conjuntos de princípios.

“Sei que soa incoerente, mas eu sou assim”; “Sei que é injusto, mas sou assim”; “Sei que não tenho traquejo social, mas sou assim”; “Sei que isto não é certo, mas eu sou assim”; “Eu sinto muito, mas eu sou assim”; “Ninguém me muda, você pode não gostar, mas eu sou assim!”.

Estas frases são uma só, são imobilistas e auto-destrutivas... são uma forma de morte de alguém que é esmagado pela sua suposta incapacidade e pela preguiça em lutar contra suas certezas equivocadas e convenientes.

A crescente utilização deste aforismo, entendo eu, tem suas raízes evidenciadas em uma parábola conhecida como “O Insensato”, onde Nietzsche sustenta algo bastante relevante para o entendimento dos porquês de tanto sermos indulgentes com nossas faltas e tentarmos justificá-las.

O Insensato
Conforme escrito em “A Gaia Ciência”

“Nunca ouviram falar do louco que, em pleno dia, acendeu uma lanterna, correu ao mercado e pôs-se a gritar sem parar:

- ‘Procuro Deus! Procuro Deus!’.

Como lá se encontravam muitos que em Deus não acreditavam, provocou muitas risadas.

– ‘Será que ele se perdeu?’ – disse alguém – ‘Perdeu-se tal qual uma criança?’ – falou outro – ‘Ou será que está bem escondido? Tem medo de nós? Será que foi embora? Ou emigrou?’ – gritavam e riam em grande algazarra.

O louco pulou no meio deles e transpassou-os com o olhar:

– ‘Para onde foi Deus?’ – bradou – ‘Vou dizer-lhes para onde foi! Nós o matamos: vocês e eu! Nós todos somos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como pudemos esvaziar o mar bebendo-o até a última gota? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos quando desprendemos a corrente que ligava a Terra ao Sol? Para onde vai agora? Para onde vamos nós? [...]’

Após pronunciar estas palavras, o insensato calou-se e dirigiu novamente o olhar a seus ouvintes; também eles se calavam como ele e o fitavam com espanto. Finalmente, atirou a lanterna ao chão de tal modo que se espatifou, apagando-se.

– ‘Venho muito cedo’ – prosseguiu –, ‘meu tempo ainda não chegou. Esse evento enorme está a caminho, aproxima-se e não chegou ainda aos ouvidos dos homens. É preciso tempo para o relâmpago e o raio, é preciso tempo para a luz dos astros, é preciso tempo para as ações, mesmo depois de concluídas, para serem vistas e entendidas.


Sobretudo fora do meio acadêmico, a compreensão da máxima “Deus está morto” é bastante limitada. Muito mais que acerca de um Deus criador, a parábola de Nietzsche falava de tudo aquilo que é sutil demais para ser quantificado, qualificado e facilmente referenciado.

Em sua profecia acerca do que estaria por vir – o modus vivendi dos dias de hoje – o filósofo sustentava repetidamente que o Homem, após dominar tantos campos do conhecimento e da técnica, começou a não ver necessidade objetiva na existência não só de Deus, mas de qualquer outra coisa que não fosse objetiva e imediatamente identificável.

O movimento, segundo ele, provocaria uma cataclísmica degradação dos valores aceitos em função de novos valores. Tais valores seriam largos o suficiente para tornar a própria noção de valores relativa demais para ser pensada ou entendida, abstrata demais para ser tangenciada pelo pensamento, subjetiva demais para que qualquer pessoa objetiva gaste tempo com ela.

Com isso, os sentimentos, as virtudes, a ética, tudo que não tem uma manifestação intuitiva, objetiva e facilmente compreendida, passa a ser secundário, sem valor prático e, o que é pior, insignificante.

E, uma vez que o Homem vê como insignificante o subjetivo ele abre mão do significado, posto que há muito mais riqueza de significado na subjetividade do que na objetividade – esta última um devir de Todo, uma redução medíocre do Real.

Em um mundo com cada vez menos produção de subjetividade, a desqualificação do subjetivo é implícita, o que é belo vira piegas, o que é atencioso vira meloso e o perdão vira fraqueza. A poesia morre e é vista como inocente e boba, a conotação deixa de existir e sobra apenas uma casca do que antes chamávamos conteúdo; a arte vira produto – e produto é a maior diversão.

A obsessão pelo eficiente, pelo direto e pelo pragmático, não deixa qualquer chance para o refletido, o complexo e o elaborado. E, para ilustrar de forma clara: em uma realidade como esta, os livros são julgados pela capa, pois ler dá muito trabalho.

As pessoas são julgadas por tudo de mais óbvio que elas detém, com ou sem mérito de tê-las conquistado, pois a falta de conteúdo se alastra das coisas que fazemos para as pessoas que somos.

Julgar-se distante do problema – descontextualizado desta realidade, isento dos preconceitos, dos princípios da ausência de princípios, do relativismo moral, do cinismo exacerbado, do sarcasmo incondicional e de todos os demais sintomas do idealista frustrado – é não entender-se doente... é estar já desenganado.

O cânone Protagoriano: “O homem é a única medida de si mesmo”, usado fora de contexto e ignorando as ressalvas Socráticas e Platônicas, é usado como só mais uma desculpa. Uma desculpa que torna apenas o Eu importante, retro-alimentando o individualismo crescente ao qual todos sabemos que aderimos cada vez mais.

Sendo importante somente o Eu, este Eu alquebrado e vazio de conteúdo, no qual nos transformamos, tornamo-nos cada vez menos sensíveis, cada vez mais intolerantes, cada vez mais ineptos em termos compaixão e amor – passamos mesmo a ser incapazes de entender qualquer modelo, que não o nosso, como válido. O único esforço que nos resta é tentar concordar com nossas próprias opiniões.

Numa jornada com arreios, sem olhar para os lados e só sendo capazes de olhar um simulacro de objetivo – este para além do horizonte – nem aproveitamos a jornada nem, apesar de queremos crer, temos a certeza de que o destino desejado será alcançado.

Não há mais sentido em nada, a não no que é destituído de conteúdo; não há mais conteúdo em nada, nem em nós mesmos; não há mais modelo satisfatório que não o modelo do próprio indivíduo; e, definitivamente, não há mais sentido na vida alheia, posto que não é a nossa e que, portanto, não pode ser tolerada como exemplo.

O Homem ficou do tamanho que ele entende, pois se acostumou a não ter paciência para entender mais do que o nada. Só a diversão é tolerada, pois ela é um mecanismo diversionista – que nos tira da direção – que nos aliena da realidade cinza da prisão que nós mesmos construímos.

”EU SOU ASSIM, nada vai me mudar. Sou velho demais para mudar; empedernido demais para mudar; não estou disposto a mudar; e não quero mudar. Posso parecer uma criança chata, mas eu sou assim!”

O maior triunfo do Homem foi alcançar o que definiu como perfeição, resolvendo esquecer o que está além da ficção na qual quis acreditar; foi matar a condição de sonhar em ser melhor do que é, posto que jamais foi melhor do que agora acredita que é; foi destruir completamente todos os caminhos para fora da cidade do Eu; foi matar tudo que está além do que pode perceber, que pode sentir; foi matar Deus.

Foi matar não o Deus denotativo, mas o Deus conotativo, uma metáfora que se transubstancia para significar tudo aquilo que existe para além do que o mundo dos sentidos nos permite identificar. É a isso que matamos.

E ao matá-lo, o Homem não tem nada maior a almejar, nada que lhe pareça perfeito e que lhe possa servir de modelo... o Homem está satisfeito na sua condição de carcaça.

Acabou a coragem para trilhar novos caminhos, a inteligência para compreender o que se percebe e a paixão para ser-se mais do que se é.

Ao matar “Deus”, o Homem mata a si mesmo.

E aí não mais importa que se diga “sou assim”... neste altura, simplesmente não se é mais nada!

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (7)
Categoria: Como vejo o mundo...

julho 16, 2005

Toda Teoria é uma Denúncia

Uma das mais surpreendentes faculdades humanas, a capacidade de fazer senso do que há entre o céu e a Terra, pode facilmente revestir-se de presunção e arrogância, embotando o que de bom existe em nossa vã filosofia.

“Tempos bicudos”, costumo dizer, indulgente em um dos muitos eufemismos que gosto de recitar para as pessoas que mais gosto – ao perceber a realidade à minha volta.

O leitor assíduo, e mesmo aquele que só dá as caras por aqui de tempos em tempos, já percebeu o tamanho de minha indisposição com meu entorno. E não há outra forma de encarar a questão, a não ser que se deseje cometer o pecado de ser profundo: “Tempos bicudos”...

O fato, contudo, é que há muita gente feliz por aí. Há gente feliz em toda parte. Não falo de gente feliz só com a própria vidinha e tal, mas feliz com tudo. Gente absolutamente feliz com tudo que o cerca.

Seria tão conveniente eu me permitir afirmar que aqueles que estão felizes com “as coisas” estão apenas equivocados, que são ignorantes do inferno para o qual, sob diversos aspectos, acordamos todos os dias...

...mas se o fizesse, eu não seria eu.

A minha noção do mundo, pra mim, é só uma noção. Na verdade, não a considero melhor ou pior que qualquer outra noção, ainda que tenha disposições em contrário a quaisquer delas.

A minha noção do mundo, enfim, é só uma noção mais recorrente em meu discurso, nada mais.

Talvez você já tenha percebido, mas eu simplesmente entendo minha noção do mundo e das coisas como irrelevante, como qualquer outra noção do mundo e das coisas.

Não se trata de Niilismoponto de vista que considera que as crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência, juro, mas de uma prática à qual, com o tempo, acabei aderindo.

No meu entender, as noções de mundo são reflexo de nossa experiência dentro dele e acho uma pena, uma pena mesmo, que haja quem confie tanto apenas no próprio ponto de vista. Afinal, é tão fácil concordar consigo mesmo.

Sugere a Matemática – ou ao menos é o que dizem aqueles que nesta noção se fiam – que a Lógica é a mais efetiva forma de se concluir algo a partir de premissas disponíveis.

Parecem, contudo esquecer-se de que a própria Lógica, enquanto disciplina, postula que premissas verdadeiras também levam à conclusões falsas. Mesmo quem não faz uso da Lógica, com rigor, para tirar conclusões acerca de qualquer coisa, procura concluir baseado em evidências.

“Teria o Michael Jackson ido pra cama com criancinhas?”, “Como foram feitas as Pirâmides do Egito?”, “Estaria minha esposa me traindo?”, “Por que os homens não baixam o assento do vaso?”, “Por que as mulheres reclamam do assento do vaso mas não acham que precisam baixar o tampo do vaso?”, “Eram os Deuses astronautas?”, “Se uma árvore cair numa floresta, sem ninguém por perto, haverá som?”, “Existe vida após a morte?”, “Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”, “Deus existe?”.

Estas são questões que jamais foram completamente respondidas e, no entanto, muitos de nós têm noções tão fortes acerca das respostas para cada uma destas perguntas. Muitos de nós até, arrisco dizer, têm a pachorra de afirma ter a certeza absoluta de que sua resposta é a certa e que as demais respostas estão simplesmente erradas... tudo, claro, baseando-se na experiência própria e desqualificando completamente o fato de que cada um dos demais também basearam suas conclusões na própria experiência.

Conclusões são armas poderosas para que funcionemos no mundo. Permitem-nos aprender com o passado, nos indicam que há conseqüências para nossos atos e, por conseguinte nos ajudam a tomar decisões acerca do que fazer no presente, normalmente perfilando uma estratégia para nossas decisões futuras. Este ferramental, que nos permite refletir e concluir é, portanto, essencial para que desenvolvamos nossos princípios e a base de nossa moral.

Este ferramental, contudo, não infere apenas em nossa moral. É bastante comum que um conjunto de conclusões acerca do que nos cerca vá ganhando adeptos. Tais conclusões, enfim, acabam se tornando convicções e tais convicções acabam por desenhar toda uma parcela, senão a totalidade, da sociedade.

A despeito de ser ensinado nas escolas, a Teoria da Gravitação Universal, de Newton, estava fundamentalmente imprecisa – para não dizer equivocada – e sua mais famosa fórmula seria capaz de fazer com que jamais alcançássemos Plutão – por exemplo.

Não me entendam mal... sem Newton, Einstein “jamais” chegaria à Teoria Geral da Relatividade. Não consigo, entretanto, tirar da cabeça que, ao contrário do que se deseja acreditar, toda a Teoria da Gravitação Universal – embora bastante "boa" – estava longe de ser excelente e, embora intuísse brilhantemente que todo corpo dotado de massa atraía outros corpos dotados de massa, neste mesmo particular estava simplesmente errada.

Enquanto coçam o queixo gostaria de lembrar que a Teoria Geral da Relatividade reza que não se trata de mera atração. O fundamento do comportamento dos mencionados corpos se dá devido à natureza do “tecido do espaço”. Segundo Einstein, corpos com massa provocam uma distorção na geometria do Universo, o que ocasiona um movimento mútuo de cada um deles.

Pode parecer preciosismo, contudo, ignorar a relação de causa e efeito em uma teoria supostamente responsável por cálculos – e conclusões – necessariamente precisos, não é muito diferente que acreditar que o coração é a fonte do pensamento baseando-se em que, ao pensar em alguém, suas palpitações se alteram em ritmo (teoria largamente aceita na idade média).

Boa parte da Teoria Geral da Relatividade – como qualquer teoria cosmológica – é 60% abstração, 30% genialidade e 10% realidade, coisa da qual não se consegue fugir, uma vez que significativas parcelas da teoria de Einstein vêm sendo invalidadas continuamente pela Mecânica Quântica e por teorias mais obscuras – ou menos populares.

Não há mais muito como esconder: apesar de toda sua popularidade, a teoria Einsteiniana está relativamente errada (!) uma vez que ela sustenta que a velocidade da luz é constante, o que foi refutado recentemente.

Conclusões se baseiam em premissas, evidências e – tentem me demover da idéia – ponto de vista!

Em breve a Mecânica Quântica estará em jogo e a teoria que a colocar abaixo também será posta de lado daqui algum tempo. Isso não desqualifica nem a Comunidade Científica nem o Método Científico... mas pode ser encarado como uma bela fábula, que deveria nos demover da necessidade de acreditar que temos quase que absoluta certeza que, de repente, devemos estar certos se tudo o que entendemos como correto realmente o for – por mais provável que seja.

Cientistas, acadêmicos, leigos, muitos vão se debater contra a idéia - nem que seja por tradição! - e, no final, vão ter de se render diante das evidências e conclusões... diante dos "fatos"!

Mas que "fatos" são estes? Diferenciar "fatos" de "flatos" em métodos baseados em FalsificacionismoKarl Popper nega que os cientistas começam com observações e inferem depois uma teoria geral. Em vez disso, afirma, propõem uma teoria, apresentando-a como uma conjectura inicialmente não corroborada, e depois comparam as suas previsões com observações para ver se ela resiste aos testes. Se esses testes se mostrarem negativos, então a teoria será experimentalmente falsificada e os cientistas irão procurar uma nova alternativa. Se, pelo contrário, os testes estiverem de acordo com a teoria, então os cientistas continuarão a mantê-la não como uma verdade provada, é certo, mas ainda assim como uma conjectura não refutada. é chover no molhado! O Método Científico, como tantos outros métodos, é útil, entretanto é só relativamente útil.

Toda teoria é uma denúncia, por certo, e a capacidade de tirar conclusões é uma das faculdades humanas mais importantes e fascinantes... mas se achamos isso de fato, por que parar? Por que devemos simplesmente agarrar-nos a nossas primeiras ou segundas conclusões e parar por dezenas ou centenas de anos, criando uma forma de “moralismo cognitivo” no lugar de questionarmos este comportamento.

Ainda que toda teoria seja uma denúncia, o que há de denúncia vazia por aí não tá no gibi!

Questionar nossas conclusões não é errado, não as desqualifica e não fere sua pureza. Colocar em perspectiva as conclusões às quais chegamos não só é prudente, mas sensato e sábio. É observar nosso objeto de estudo por mais de um ângulo e acaba nos tornando simpáticos às formas que os demais enxergam as mesmas questões, inevitavelmente nos tornando mais tolerantes com noções diferentes das nossas.

Pouco importa que usei um pedacinho da História da Ciência para afirmar isso – ao menos é esta a minha noção – usasse eu uma fábula qualquer, como “A Roupa nova do Rei”, ou qualquer outra, ainda assim eu estaria querendo dizer o seguinte:

A mentira tolerável é aquela na qual você acredita!

...mas uma vez que minha noção é irrelevante, você bem pode ignorar tudo que leu. Colocar as próprias noções em cheque?... pra que?

Para quem precisa de maiores explicações...
O meu raciocínio é contra-intuitivo, com relação a esta questão, sei disso.

Para mim todo evento é uma Fábula. A forma como o Método Científico cria e desqualifica teorias pregressas – e a forma como os leigos encaram tal processo – descrevem uma Fábula bastante consistente, a meu ver.

Fábulas, para mim, são ferramentas importantes para promover a reflexão.

No meu entender, a noção de que é ideal usar um só conjunto de premissas, para identificar e qualificar evidências, é falha e perigosa. Mais que isso... é fundamentalista.

Ao menos é o que me parece.

Assim como a fábula que identifiquei na História da Ciência, outra fábula - desta vez fictícia - que aponta na mesma direção, a meu ver, é "A Roupa nova do Rei", que pode ser lida na continuação deste pequeno ensaio.


Continuar...

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (1)
Categoria: Como vejo o mundo...

junho 24, 2005

O próximo passo

Por mais que se tenha pisado na grama a vida toda, se um dia nos parecer importante, podemos passar a não fazê-lo.

Lembro-me que, quando era mais novo, eu não tinha medida para tomar Coca-Cola. Coca-Cola é um troço muito bom, gostoso mesmo. Eu, pelo menos, adoro. Na verdade, não existia Coca-Cola Light (nem Diet), na "minha época" e eu bebia em escala industrial!

Meus amigos lembram da quantidade de Coca-Cola que eu tomava, creio. A piada padrão era o impacto que seria nas ações da Coca-Cola se eu parasse de beber aquele líquido preto e borbulhante.

Mais tarde, já trabalhando, eu comprava uma caixa de uma dúzia por dia, para beber enquanto trabalhava.

A idade foi chegando e houve necessidade de reduzir o açúcar. Como já existia a Coca-Cola Light, tudo ficou mais fácil. Aconteceu também que notei que a própria taxa de consumo de Coca-Cola acabava me fazendo mal. Hoje, de um modo geral, almoço bebendo água com gás e só janto tomando Coca-Cola... e Light, claro...

Nem sempre Coca-Cola foi uma coisa tão trivial. Houve época em que a Coca-Cola foi um luxo. Era até bem carinha - se é que não é cara hoje. As garrafas eram de vidro e ter um litro à mesa era tudo. Duas Cocas na refeição? Não! Que exagero! Mais que dava para três pessoas!

Mas sabe como é criança... eu queria beber todas as quatro que davam sopa na geladeira - e que provavelmente iam durar a semana toda.

Recentemente vi na GNT um documentário que falava de uma pesquisa sobre comportamento infantil. Segundo a pesquisa, as crianças de menos de oito anos preferiam ganhar um bombom de imediato que dois após meia hora.

Outra pesquisa que vi, não sei onde, demonstrava que crianças de menos de quinze anos preferiam comer cinco docinhos em um dia que guardar para ter docinhos a semana toda. O triunfo da urgência do desejo sobre a prudência do planejamento.

Ver o fundo do pacote pode parecer estar dentro de nós... coisa de "natureza humana" e tal, mas no fim, afinal, a gente cresce, não?

Pois é...

Muita gente ainda vê questões ecológicas como coisa típica daquele pessoal que bem poderia bem entrar pra Amway ou que se amarra em polemizar - gente chata! Questões ecológicas, contudo, tem estreita relação com essa tal "natureza humana", a qual eu daria o nome de, digamos... "Imaturidade Logística".

A rigor, bombons são docinhos e docinhos são recursos. Adultos, supõe-se, se relacionam com recursos, de forma mais planejada. Eles se preocupam em armazenar, economizar e, enfim, criar um processo sustentável de manutenção da quantidade de bombons - e docinhos de um modo geral.

Muitos recursos por nós usados são renováveis, entretanto, a taxa de renovação dos recursos varia de recurso para recurso.

A má notícia é que estamos consumindo nossos recursos muito mais rápido que eles tem condição de se renovar...

...a boa, é que, se cada um de nós resolver usar só que realmente precisa, ao invés de usar do jeito que tem vontade, é possível reverter este quadro.

Papo chato... e por isso eu não vou entrar nele. Mas faz o seguinte: vai no site EcoFoot.org. Basta escolher seu país e língua e você descobre qual o tamanho da pegada que você tem deixado nesse planetinha que nos acolhe desde que nascemos até hoje.

Além de possivelmente ficar impressionado, é capaz de você passar a pensar duas vezes antes de dar o próximo passo por sobre o gramado de nossos recursos...

Faça agora o "Teste da Pegada"!


Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (6)
Categoria: Como vejo o mundo...

junho 21, 2005

Fora de Foco

Um dos primeiros parabéns do dia veio por SMS. Daqueles parabéns que nos forçam a visita de um sorriso ao rosto. Veio por de um de meus mestres... de um grande amigo. E, por acaso, navegando por pastas de e-mail muito pouco navegadas, achei um de seus textos.

Recentemente fui bombardeado com filmes, livros, quadros, pinturas e situações no campo emocional e profissional que me deixaram profundamente desconcertado com a realidade.

Indisposições crônicas, com o meio, à parte, a sucessão de películas como "O Articulador", "Anti-Herói Americano", "Adaptação", "Quero ser John Malkovich", "Pi", "Brazil", "1984", "O Processo" - só pra falar de alguns dos filmes - não tem como não provocar uma ruptura com o entorno e uma "desconstrução do Harry" que há em mim.

O dia do envelhecer é um dia delicado... A soma de todos os dias desde o último aniversário... O único dia de chuva franca depois de tantos dias de Sol... 21 de Junho é, afinal, o dia que traz na bagagem o Inverno... Seria este o Inverno do meu descontentamento?

Quem sabe?

Seja como for, dou lugar - uma vez mais - às sábias palavras de Eduardo Gouveia que, creio eu, devia ser lido por mais gente!

"Minha vida é faminta de opções.
Alimento-me delas.
Vivo de devorá-las vorazmente, com fome de migalhas caídas ao chão.
Ancho abdome, corrompido pela saciedade dos devires extintos.
Não gozo pela vida que me escorre à farta pela garganta já sem gosto.
Gozo pela consumação de mais uma escolha, pelo esgotamento de uma possibilidade.
Respiro aliviado pela letra vencida, a vírgula já posta, a decisão tomada, o peso descido e digesto.
Subsisto, intangível estoque de renúncias, dádiva do compromisso que assumo com o que não escolhi.
Não fui e pronto! Não serei nunca mais. Não mais é preciso sê-lo.
Basta-me ter escolhido o que já fui. Vejamos logo o que ainda me cabe decidir.
Vivo mesmo é de esgotar possibilidades. Existir é escolher."
por Eduardo Augusto Gouveia dos Santos


Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (1)
Categoria: Como vejo o mundo...

março 24, 2005

"Pensando bem..."

"Que obra de arte é o homem; tão nobre no raciocínio, tão vário na capacidade; em forma e movimento, tão preciso e admirável, na ação é como um anjo, no entendimento é como um deus; a beleza do mundo, o exemplo dos animais."

O Senhor da fazenda chegava à casa grande depois de uma ida à cidade. Seguiam-no as carroças de café, já sem suas cargas mas apinhadas de negros cansados e pingando suor, tantas foram as sacas que haviam sido embarcadas no Porto de Santos.

Nada mais havia a fazer o resto do dia e poderia, orgulhoso, descer de sua bela montaria e apreciar-lhe o magnífico porte enquanto era escovado e limpo.

Já de cima da varanda da casa grande, sentado em sua cadeira predilecta, via sua excêntrica aquisição, o Cavalo Árabe que comprara de Assis Brasil.

Não havia outro fazendeiro que tivesse bem tão precioso e belo, mas tinha certeza que todos lhe invejavam ao saber-lhe a posse de tão grandioso animal.

O Sol lhe incomodava sobremaneira sem a brisa que lhe vinha ao rosto enquanto montava, e fez sinal para que um negro lhe viesse abanar.

Sem saber bem o que fazer, o escravo sacudia sem muita destreza o abanador de madeira e palha.

Era nessas horas que o Senhor tinha certeza da superioridade que Deus havia lhe dado sobre aquelas criaturas feias, preguiçosas e insubordinadas. Era nessas horas que lhe vinham filosofias à cabeça...

“Ah, como seria bom se tudo fosse tão perfeito quanto um Cavalo Árabe” – pensava – “As criaturas seriam menos suscetíveis e substituíveis, seriam mais importantes que são hoje.”

“Se assim fosse” – continuava – “tudo seria mais belo e durável, minhas vestes seriam as mais airosas e duradouras, a casa grande não teria de ser caiada tantas vezes por ano e as rodas das carroças seriam mais resistentes aos buracos do caminho.”

“Os compadres, por hombridade, já não precisariam cobrir as negrinhas para parecerem viris e sentir-se poderosos. E os casamentos seriam felizes por muito mais tempo.”

“E como a felicidade conjugal duraria mais, as gentes não iam precisar de tanto conforto para suprir a felicidade que lhes falta e acabariam adquirindo menos posses.”

“Todos teriam sorrisos nos rostos e não mais se fixariam no vazio dos dotes acumulados.”

“Por não precisar mais ganhar tanto dinheiro os Senhores do Café não iam precisar produzir tanto, necessitar de tantas mãos no campo e poderiam dividir suas posses entre aqueles que trabalham.”

“Todos poderiam ser iguais ainda que não o fossem e, cheios de dignidade, transformar o trabalho em algo edificante, nada penoso, podendo até receber um bom dinheiro, pois haveria muito!”

“As fazendas iriam ver os negros escravos como homens de bem, iguais, e precisariam produzir menos café, dando tempo aos pobres para ler, escrever e fazer arte!”

“Com o dinheiro dos fazendeiros fluindo por entre os não-mais-escravos iam todos ter o razoável e não a riqueza obscena que se tem para... espere um instante?!”

“Mas e eu? Eu ia acabar não tendo tanto... E se não tivesse tanto, ia acabar não podendo comprar meu Puro-Sangue...”

“...Pensando bem: que bom que nem tudo é tão perfeito quanto um Cavalo Árabe, não é?”


E se quiser saber do que estou falando, tenha um pouco de paciência e clique no link abaixo para ver um vídeo publicitário (5,11 Mbytes):
"Pensando bem..." - A nova campanha da Volkswagen



Continuar...

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (12)
Categoria: Como vejo o mundo...

fevereiro 22, 2005

Sintomas...

Piada ou não, não há nada mais eloqüente do que a realidade.

A importância atribuída à valores morais, espirituais, artísticos e humanos, pelo Homem de hoje, está profunda e talvez irremediavelmente comprometido.

E, se é discutível que tal comprometimento seja irremediável, é dificilmente contestável que tal comprometimento seja profundo.

Conheço pouca gente que se preocupe com tais problemas no dia-a-dia. Na maior parte dos casos as pessoas acham até muito chato pensar a respeito dessas coisas, não dominam o jargão nem o ferramental para discutí-las e, muitas vezes, acham até que a visão de que há um problema não seja nada mais que pessimismo.

Qualquer um, contudo, está fadado a sofrer as conseqüências da existência de tais problemas, ainda que não relacione cada uma destas questões às suas causas menos óbvias.

Saindo um pouco do campo da abstração, no dia-a-dia alguns pais não sabem lidar com crianças nunca antes tão rebeldes; a todo momento ouvimos na TV que algum país foi bombardeado por motivos que de fato jamais foram comprovados; volta e meia escutamos que pessoas em outro país comem carne do melhor amigo do Homem; repetidamente percebemos os meios de comunicação perpetuando um modelo de beleza tão determinista quanto irreal; e, não raro, a comercialização de práticas cirúrgicas como se fossem meros serviços.

Além de se tratar de questões do dia-a-dia, tais situações não só jamais foram resolvidas como vêm se agravando. Uma idéia comum – nos meios acadêmicos relacionados com o questionamento moral – é que tais questões podem ter raízes em um problema comum, ou em um conjunto de problemas comuns.

Não, não se está dizendo por aí que se trata de uma conspiração governamental ou uma dissimulada estratégia de um governo invisível – ou por outra até se está dizendo isso em alguns círculos, mas não tanto nos meios acadêmicos.

Uma das idéias mais comuns – já há muito tempo – em Filosofia, Antropologia e Sociologia, é a de que há uma inclinação natural para o movimento social observado em nossa civilização, diante do conjunto de escolhas morais e suas inter-relações desde, digamos, o século XVI.

Pode parecer muito estranho que exista um motivo comum para a “má-criação” das crianças de hoje e as características freqüentes em todas as modelos nas capas de revistas femininas. Mas, como sustento aqui, é justamente isso que o pessoal das tais Ciências Humanas vêm comentando.

Já mencionei que minha preocupação é muito menos se as coisas poderiam ser piores e muito mais se as coisas poderiam ser melhores. Seja como for, ao que parece, a maior parte das pessoas que conheço estão bastante mais satisfeitas que eu com seu entorno.

Temos, entretanto, de lembrar que, à época da ditadura, aqueles que discordavam do sistema e que eram exilados ou até mortos – sim, aquela gente que protagonizava o “Anos Rebeldes” – eram a minoria, eram considerados maus meninos por seus pais e pelos vizinhos, e sobretudo eram chamados, pelo governo, de terroristas.

Isso coloca em perspectiva gente maluca como eu, que parece estar gritando para todo mundo ouvir que “o fim está próximo”, que “não está bom do jeito que está” ou que “alguma coisa está fora da ordem”.

Vem sendo dito por esse pessoal - que se formou em cadeiras chatas e aparentemente desnecessárias como a Filosofia, Sociologia, Antropologia e História - que um dos motivos das nossas mais alarmantes e meramente desconfortáveis questões sociais, é justamente aquilo que vem nos proporcionando mais conforto: a Tecnologia.

Antes de concordar ou discordar da proposição, é bom entendermos como é que essa gente esquisita discute questões morais e como identificam as causas de conseqüências como as descritas mais acima neste texto. Eles se questionam o tempo todo, usando sim métodos e premissas mais ou menos fixas, mas nunca conseguindo livrar-se do fato de que, em Ciências Humanas, o número de variáveis é muito maior que o presente nas mais complexas equações matemáticas.

Segundo eles, o conforto proporcionado pela tecnologia, embora valoroso e logicamente muito conveniente, tem conseqüências sérias e que tendem a perpetuar a si mesmas.

Não se trata de parar de ler esse texto e ir quebrar o aparelho de DVD mais próximo ou ser um ativista “anti-ar-condicionados”, mas sim de se recostar e continuar lendo e questionando tudo o que está escrito, tendo em mente que temos a conveniente tendência de concordarmos com nossas próprias opiniões.

Em dado momento, o que hoje chamamos de Tecnologia não era senão o estudo da técnica ou um reduzido conjunto de técnicas. O impacto desta panacéia – deste “remédio para todos os males” – era então bem menor que aquele empreendido nos últimos séculos, em que este conjunto de técnicas se tornou tão colossal.

Hoje muitos dos frutos da Tecnologia só podem existir graças a terem envolvido um conjunto de técnicas vertiginoso, um grupo de pessoas enorme e uma movimentação econômica descomunal. Não seríamos capazes de construir sozinhos, ou com a ajuda de todo o pessoal do condomínio, um alto percentual dos aparelhos e até dos móveis que temos em casa.

Sem as incontáveis linhas de montagem que nos proporcionam todo nosso conforto, talvez sequer conseguiríamos sobreviver. Afinal, não sabemos mais construir o que nos oferece o parâmetro de conforto ao qual nos acostumamos; na verdade nem mesmo nos lembramo o que outrora se sabia acerca de como conseguir sobreviver sem esse conforto todo.

O conforto é uma coisa perigosa... por mais abrasivo que seja o mundo a nossa volta, por mais que o ar condicionado, o ventilador, o aquecedor ou o automóvel nos protejam da realidade, proteger-se da realidade é - sob muitos aspectos - se afastar dela.

De diversas formas, afastar-se da realidade através da Tecnologia - a qual se tem acesso graças a quantidade de dinheiro que se tem - é se distanciar da realidade de que não são 170 milhões de brasileiros que tem acesso a mesma Tecnologia... muito menos as 6 bilhões de pessoas do planeta.

"Mas vamos lá" - diriam alguns colegas meus - “De novo, sem demagogia!”.

E ainda assim, o conforto é uma coisa perigosa... André Gregory conta que sua mãe conhecia uma das mulheres mais ricas do mundo, uma tal Lady Hatfield, que não gostava de nada além de frango. Por puro conforto ela passou, portanto, a comer apenas frango. Pois bem, segundo André Gregory ela morreu de inanição graças ao fato de, embora seu corpo estar faminto por nutrientes, ela estar ocupada demais sendo feliz ao comer apenas frango.

Verdade ou não, é uma bela alegoria da questão levantada por esses acadêmicos.

A Tecnologia vêm nos oferecendo cada vez mais, cada vez com mais eficiência e, no processo, influenciando nossos valores e o valor que damos para as coisas. Não precisamos ouvir música ao vivo, basta tocar um mp3; não precisamos de frutas para fazer um suco, basta comprar de caixinha; não precisamos ler livros, basta ler o resumo na internet; não precisamos questionar a existência ou não de um Deus, basta escolher se vai acreditar ou não.

Os valores que fomos adquirindo, graças a nos acostumarmos com o conforto que pode ser proporcionado pela Tecnologia e suas conseqüências, nos fez perverter nossos valores para uma condição de viver para o prazer, viver para conseguir mais conforto, viver para adquirir mais Tecnologia.

Valores outrora promovidos pela Igreja Católica e diversas outras religiões do mundo foram sendo convenientemente chamados de radicais e colocados em segundo plano. A moral secular - aquela passada de pais não religiosos para seus filhos - sofreu da mesma forma, tendo de se adaptar aos novos tempos.

A Ciência não só havia dado a luz à grande parte do que hoje entendemos por Tecnologia, mas se emparelhava com os novos valores orientados à eficiência e a noção cartesiana de que a soma das Partes é Igual ao Todo. A escolha mais natural estava feita para a civilização, cada vez mais globalizada através da Tecnologia da Comunicação de Massa: o "Cânone Científico".

Diferente do exercício da Filosofia – responsável por seu nascimento e pelo nascimento de diversas outras escolas filosóficas – a Ciência era capaz de observar o Universo através de uma janela mais estreita, construída a partir de “materiais” mas palpáveis e de mais fácil compreensão... dando ao Homem a idéia de que ele só precisava acreditar na existência do que era detectável e quantificável, sem sequer ter de ponderar para além do que havia sido decidido que não existia ou que provavelmente não existia.

Uma visão dura acerca da Ciência? Uma visão falaciosa da Tecnologia? Talvez... mas ainda assim um conjunto de questionamentos que vêm cozinhando há muito tempo nos meios acadêmicos.

Não se trata de achar que a Ciência e a Tecnologia são nocivas e devem ser esquecidas, mas de perceber que ferramentas devem ser usadas de acordo com os requisitos do trabalho a ser empreendido. E é trabalho tanto da Comunidade Científica quanto de outras instituições, descobrir os limites da Ciência.

É preciso pensar sobretudo, acerca das questões morais, éticas e dos impactos sociais impostos pelos caminhos oferecidos e empreendidos pela Tecnologia.

O que está sendo apontado, afinal, é que o Homem descobriu ter um problema hormonal e que esta é a causa de sua obesidade. O que ele faz? Uma operação de estômago, resolvendo assim sua obesidade e permanecendo com o problema hormonal, cujas repercussões são menos óbvias, mas persistem.

Será este o mundo que queremos para nós?

Ao longo de todo o texto, Jessica Rabbit, atraente e sensual, acompanhou a sua leitura, entretanto sua presença fez pouco mais que desviar sua atenção e até confundí-lo um pouco. Quem viu um sentido, parabéns. Até o momento eu não havia pensado nisso.

Ela bem poderia, contudo, ser uma alegoria do conforto que a Tecnologia nos oferece, a despeito de ser pouco mais que um reflexo da imaginação humana e guardar menos relação do que se pode imaginar, com o que está a sua volta. Em suma... um mero sintoma.

Dito isso, quem chegou até aqui talvez tenha percebido que o escrevi de forma mais coloquial que de costume, concentrando-me em prender mais a atenção do leitor médio e convidando-o muito mais a entender cada um dos parágrafos, sem a necessidade de refletir muito acerca deles, ainda que se trate de um assunto difícil e controverso.

No meu entender, um texto é um texto tanto quanto um quadro é um quadro, e há obras que atendem a uma quantidade maior de pessoas e outras que afugentam àqueles que procuram o que é mais óbvio e mais fácil.

Meu texto tem propostas intrínsecas a serem identificadas ou ignoradas, a meu ver, o rebuscar das palavras enriquece a cultura do leitor, pede maior reflexão no durar da leitura e faz uso de palavras que condensam conceitos sofisticados que merecem a pesquisa individual.

Venho até sendo criticado por algumas pessoas pela forma que dou ao meu discurso e , embora até tenha muito a dizer acerca do assunto, creio que os parágrafos acima dizem tudo:

Parece-me que querer o caminho mais fácil e mais confortável pode ser parte do problema...

...e não parte da solução.


Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (4)
Categoria: Como vejo o mundo...

fevereiro 12, 2005

A tal da Natureza Humana

Em mais um presunçoso debate acerca do Homem, do mundo e das coisas, eu, Cristiano Dias e Eduardo Gouveia, passeávamos por Tecnologia, Ciência, Filosofia e tudo mais sobre o que o construímos nossa realidade...

Foi à forma determinista pela qual abraçamos um ou outro aspecto desta disciplina que chamei de “remendos na barragem”... um comportamento que me parece crônico nos dia de hoje, em que não costumamos questionar as premissas do que fazemos, seguindo na construção de coisas por sobre fundamentos crescentemente duvidosos.

Minha preocupação não é meramente prática. Não me importa tanto se as coisas “poderiam ser piores”, mas se as coisas poderiam ser melhores!

Entendo o questionamento como uma atividade legitimada em si mesma e a reflexão pura como algo que não deve ser desqualificado de ante-mão, sob o preço de reduzirmos questões a meros resultados práticos de curto e médio prazo.

Cristiano Dias levantou o fato de que, historicamente, uma espécie de Darwinismo Social – uma hipotética curva antropológica – forçasse o Homem a evoluir sempre a passos pequenos, até um momento de ruptura, quando uma nova realidade se sobrepõe a anterior.

Trata-se de uma magnificamente elaborada racionalização em cima de algo que de fato ocorreu e vem ocorrendo ao longo de toda a história humana e, talvez, a melhor forma que eu já tenha visto de se dizer: “É a Natureza Humana... o que se há de fazer?”

O mérito da teoria é inequívoca, como o mérito do próprio Darwinismo, do Lamarquismo e (por que não dizer?) do Criacionismo – e aqui, provavelmente, só os Protestantes e Evangélicos iriam concordar.

Parece-me haver estreita relação entre nossa insegurança em não ter controle sobre as coisas, as pessoas e os acontecimentos e nossa obsessão em conseguir respostas, no lugar de continuamente investigar a VerdadeAqui expressa como a diferença entre a realidade que é percebida pelo Homem e o Real, que talvez exista para além da percepção do Homem..

Esta insegurança e obsessão por controle me parece impelir-nos a, após fazer sensoAqui colocado no sentido de teorizar explicações em cima de evidências empiricamente coletadas ou intuídas. das coisas, independente da qualidade das evidências em favor de nossas impressões, concentramo-nos em perpetuar, a todo custo, tais opiniões, construindo castelos de novas opiniões cada vez mais altos sobre estes alicerces de confiabilidade duvidosa.

Seguindo esta linha de raciocínio, procuramos algo que justifique a realidade percebida, segundo nossos termos, para então defender esta justificativa com unhas e dentes, tentando identificar uma ponderabilidade que talvez sequer exista.

No processo, acabamos não questionando nossos conceitos – ou preconceitos – preferindo as nossas confortáveis justificativas à trabalhosa busca por respostas alternativas.

Antes que, novamente, alguém puxe a carta da “Natureza Humana” para justificar tal comportamento e ir de encontro ao que coloquei na mesa, vale perguntarmo-nos se isso não é um reflexo do nosso tempo, de nossos meios de produção e da forma que demos a nossa civilização – entendendo aí, possivelmente, até 3000 anos de evolução ocidental.

Vivemos em um mundo onde as pessoas têm pouco ou nenhum tempo para o crescimento pessoal, para o questionamento moral ou aquisição de conhecimento; um mundo onde a formação acadêmica e profissional é altamente especializada e orientada à resultados, à eficiência e à objetividade; um mundo onde cada indivíduo tem formação tão diversa da de seus semelhantes que sequer é capaz de compreender o que fazem, o que os move e o porquê de pensarem de determinada forma.

Há ainda uma profunda estratificação cultural e social, uma preocupante concentração de renda e uma conseqüente indiferença com os porquês do que ocorre em lugares diferentes daqueles em que se vive.

Somando essa realidade à noção de que a GlobalizaçãoEm Política: Política nacional que vê no mundo inteiro uma esfera propícia de influência política; internacionalismo, imperialismo (Houaiss) e a Convergência CulturalTendência para aproximação cultural do indivíduo, grupo ou povo para fins comuns ou não, se adaptando a uma cultura predominante ou às culturas envolvidas retirando traços significativos – sejam eles lingüísticos, artísticos, ideológicos etc. é intrinsecamente benéfica, se não necessária, um pesadelo OrwellianoRefere-se a George Orwell – autor de “1984”. se descortina.

Só pensamos no futuro impelidos pela necessidade de adquirir melhores resultados, com a maior eficiência possível, com um tempo para reflexão tão menor quanto conseguirmos, sacrificando a qualidade de nossas decisões.

Olhando para trás, então, identificamos decisões de qualidade, na melhor das hipóteses, sofríveis, sem jamais questionar as premissas que nos levaram a conseguir tão lamentável resultado, até porque não devemos gastar nosso precioso tempo com o que já passou.

O controle foi perdido no momento em que nos comprometemos, a todo custo, com tais premissas, entretanto nos agarramos a este cânonePor extensão de sentido: Maneira de agir; modelo, padrão. sócio-cultural como nos agarramos às tais respostas às quais chegamos de forma tão leviana. E tudo isso para não perdermos um controle que nunca tivemos.

É uma relação neurótica com um construtoConstrução puramente mental, criada a partir de elementos mais simples, para ser parte de uma teoria. frágil, que evoluiu em cima de um alicerce comprometido ao longo do tempo que permitimos que evoluísse.

Tentamos defender nosso modus vivendiModo de viver, de conviver, de sobreviver. a todo momento, como alguém recém desperto de um sonho bom e que passa feliz o resto do dia sem bem saber o porquê... ou como um animal de corte, feliz por comer uma farta refeição, ignorante da morte iminente.

”A lei da natureza era o Caos: O Homem sonhou com a Ordem”, disse o historiador americano Henry Brooks Adams (1838-1918), e talvez isso ajude a elucidar a essência do questionamento proposto.

Criamos insistentemente racionalizações elaboradas para justificar nossos defeitos e os defeitos de nossos pequenos modelos. Douramos a pílula amarga pela qual somos responsáveis e fazemos isso não apenas para justificarmo-nos diante dos outros, mas diante de nós mesmos.

Todas as teorias, filosofias e ciências são exemplos clássicos desta necessidade humana em fazer senso do Universo. O que bem pode ser nossa maior qualidade pode igualmente ser nosso maior defeito, se insistirmos defender quaisquer destes cânones de forma absoluta, em detrimento do direito a Não Saber e Continuar Tentando.

A diversidade, em suma, não precisa existir apenas no âmbito social - através da diferença ou divergência entre indivíduos - mas também pode ser expressa na tolerância individual para com os demais cânones.

Mais que tolerância, a busca de um entendimento pode ser conseguida através do questionamento constante das próprias premissas, do questionamento sistemático do alicerce dos castelos que construímos em redor de nós mesmos.

O Sol, visto das janelas de outros castelos, erigidos sobre diferentes fundações, têm uma beleza própria. Aprender a bater nos portões sem tentar colocá-los abaixo pode ser um exercício edificante por si só.

Bruno Accioly

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dezembro 08, 2004

A piada mortal

Outro dia, um amigo do trabalho – o José Vasconcelos – colocou um comentário em um texto meu aqui do 5arcásmos |v|últiplos.

Em “Tutto nel mundo e Burla” comentei a capacidade de algumas pessoas – por chatice, genialidade ou loucura – de identificar sub-textos na realidade a sua volta e transformá-los em obras magníficas, comentários mordazes ou mesmo piadas aparentemente descartáveis que guardam mais relação com a “natureza das coisas” do que gostaríamos que guardassem.

O comentário se referia a uma piada: um homem vai ao médico dizendo estar deprimido. Ele se lamenta afirmando que a vida é dura e cruel, que sente-se só e ameaçado em um mundo onde o que está adiante é vago e incerto. O médico, confiante, retruca que “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci estará na cidade esta noite. Vá assisti-lo! Isto com certeza vai fazê-lo sentir-se melhor”. O pobre homem cai em prantos... “Mas, Doutor... Eu sou Pagliacci.”.

É uma boa piada, todo mundo ri, ouve-se o rufar dos tambores e fecham-se as cortinas… será?

No fim de semana passado vi um ótimo filme, que eu havia visto algum tempo atrás, gostado, mas que sabia ter deixado passar alguma coisa. Não sabia bem o que, mas havia deixado passar.

O filme se chama “O Psicopata Americano”, estrelado por Christian Bale que, descrevendo superficialmente, é um bem sucedido yuppie que “trabalha” em Wall Street em uma empresa fundada por seu pai.

Vivendo uma vida superficial de futilidades e preocupações sem qualquer relação com as divididas pelo resto do mundo, o personagem nos mostra uma rotina completamente alienada do universo que todos conhecemos (cada um a sua maneira).

Em dado momento, o personagem começa a verter sua não-relação com o mundo através de atos para todos nós tidos como vis e cruéis. Na tela, um banho de sangue, morte, violência e humilhação desfila em suas mais diversas formas, vitimando desconhecidos, colegas e amigos do personagem.

Perseguido pelo desejo de continuar a saga de crueldade, acentuando a diferença que existe, ou que ele deseja que exista, entre ele e seu meio, o personagem vê-se também “assombrado” por um detetive de comportamento e percepção absolutamente inverossímeis.

Apesar de sua idéia de si mesmo e da idéia que faz de sua descontextualização de seu entorno, o personagem é um entusiasta e conhecedor de compositores, bandas e cantores da década de oitenta, como Phil Collins e Whitney Huston, sobre os quais discorre enquanto comete seus crimes.

Uma vez que pretendo instigar o leitor a ver o filme, não vou falar ainda mais a respeito de seu enredo, entretanto posso dizer que, desta vez, o número de elementos em jogo que identifiquei foi de fato muito maior que havia notado anteriormente.

Percebi uma relação sombria, um subtexto soturno, que apontava para o significado intrínseco de nutrir e perpetuar um sistema capaz de gerar tamanha diferença entre os indivíduos, capaz de elevar um grupo tão reduzido até os estertores da indecência e da imoralidade através do dinheiro e do poder.

O personagem vivido por Christian Bale é mais que alguém doente; ele é uma metáfora daquilo no que o extremo de poder pode tornar um indivíduo, um grupo ou uma nação. A noção de que o direito de uns acaba onde começa o direito de outros fica comprometida em uma sociedade onde os direitos não são iguais e onde um indivíduo, grupo ou nação acabam por poder cometer qualquer atitude impunemente.

O subtexto está em todo o lugar pois o subtexto está na mente de quem o identificou. Por vezes quem o identificou percebeu algo que o autor desejava insinuar, entretanto o valor em se identificar, em uma obra, algo que de fato não foi intencional, pode ser enorme.

Cada espectador recria uma ou mais obras a partir daquilo que interpretou do que de fato experimentou. Deixar de lado o que se interpreta ou o que se deduz, a meu ver, é um grande erro – sobretudo se temos condição de lembrarmo-nos que o que identificamos não é senão uma conjectura preciosa.

Coincidentemente, ao ver os extras, pude ter conhecimento do fato de que o livro, do qual foi feito o filme, foi considerado, à época, uma paródia mordaz do sonho americano e das conseqüências que são impostas aos demais para que este sonho prevaleça.

A diretora Mary Harron sustenta que extraiu do texto uma noção menos taciturna, atendo-se a outros aspectos da obra e deixando menos expresso um conjunto que, no livro, se torna mais óbvio.

Não é difícil concluir que até mesmo a identidade de um indivíduo, tão alienado de seu meio e de sua noção de eu, fica profundamente comprometida. Fica fácil imaginar que tamanha supremacia torna o indivíduo incapaz de importar-se com questões que aflijam a quaisquer pessoas que não tenham relação com seus próprios interesses.

No fim, o que aflige tal sorte de indivíduo, grupo ou nação, é sequer compreender as próprias motivações e os motivos pelos quais são odiados e incompreendidos. Além do alcance de qualquer forma de resgate, tal sorte de indivíduo é a única chance de si mesmo e, se não encontrar uma forma de prestar-se o devido socorro, vai sucumbir diante da própria alienação.

Outrora, parábolas foram profundamente importantes para nós e, em um mundo onde as novas-fábulas perpetuam uma aridez de subtextos, onde a precisão na passagem da mensagem parece ter tomado o lugar da profundidade temática e da riqueza de interpretações, gastar tempo em interpretar passou a ser sinônimo de entender errado.

Alienamo-nos de nosso potencial humano e subjetivo emulando estruturas intrinsecamente objetivas somente existentes nas máquinas que nós mesmos idealizamos. Valoramos a aderência a metodologias rígidas e a um pragmatismo absoluto como se houvesse apenas um meio de ser objetivo e, no final, perdemos nossa identidade como seres humanos.

Você pode discordar ou concordar com este texto, não me importo. No final, os palhaços somos nós, e a piada de mau gosto em que se transformou a sociedade em que vivemos é um subtexto a ser identificado... e sequer o fazemos.

Parece-me que cabe a nós perceber que nosso tratamento é simples, que alguém chegou por estas paragens e que pode nos ajudar... e que este alguém somos nós mesmos.


Bruno Accioly

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novembro 25, 2004

Os fins são a mensagem

Alguém se lembra de Além da Imaginação? Alguns sim e outros não, eu presumo; mas foi ao ar um episódio, uma vez, do qual eu queria falar um pouquinho.

Como devem imaginar, ninguém matou a minha babáMais conhecida como televisão... : ) quando eu era mais novo e, talvez por isso, cresci assim: forte, bonito, corado, modesto e obcecado pela telinha.

Tá certo... a TV aberta conseguiu piorar muito desde que eu era garoto, mas eu me lembro que “Além da Imaginação” – em sua versão original, apresentada por Rod Serling – era veiculado para o deleite de fãs de todas as idades.

Depois de um longo e tenebroso inverno sem o programa, a Rede Globo resolveu, no final da década de oitenta, comprar alguns episódios da nova versão da série nos EUA. Já colorida e com uma linguagem menos pesada e sombria, o formato era um retrato dos novos tempos, atendendo a mais demografias e tal.

Pessoalmente eu gostava de todos os episódios mas, recentemente, lembrei-me de um episódio em particular com o qual me identifiquei profundamente.

O nome do episódio era “WordPlay”, ou “Jogo de Palavras”, e contava a história de um vendedor que, em vista da entrada de uma nova carteira de produtos médicos com nomes estranhíssimos, tinha de estudar avidamente o novo catálogo. O trabalho hercúleo era inviável, daqueles que o chefe dá pra nós quando sua esposa dormiu de calça jeans na noite anterior.

O sujeito, contudo, se sente relativamente pronto para encarar mais um dia de trabalho à luz da nova realidade que, de forma tão inesperada, se fez presente em sua vida profissional.

O dia vai até transcorrendo bem, com quase imperceptíveis mas bizarras ocorrências envolvendo palavras. Ao telefone, por exemplo, um cliente menciona seu 17º “capacho”, no lugar de “aniversário”. Os incidentes, contudo, até esse ponto eram sutis demais para ocuparem a mente mais que por um breve momento.

As coisas vão se precipitando a medida que o episódio avança e, com o tempo, o personagem principal passa a compreender uma quantidade substancialmente menor de palavras, frases até que, por fim, não consegue mais entender absolutamente nada do que lhe é dito pelos outros personagens. Até mesmo seu nome ele não mais reconhece.

Antecedendo o fim do episódio, passa por um traumático incidente em que tem de levar seu filho hospital junto com a esposa. Sem ter sequer condições de explicar ao atendente o que está acontecendo, fica claro que sequer tem condições de tomar conta de sua família e deixa tudo a cargo da esposa.

Na cena final, está sentado no quarto do filho, folheando as páginas de um livro infantil... Em uma das páginas, abaixo do desenho de um cão, constata, já resignado, que o significado de tudo a sua volta lhe escapara. Nas páginas do livro, que até uma criança entende, abaixo dos traços de um cão mal desenhado, a palavra “cadeira” se estampa com a violência que só a realidade consegue se impor.

Às vezes, por curiosidade, rebeldia ou loucura mesmo, alguns de nós teimam em seguir caminhos pouco óbvios, não tanto percorridos ou bastante perigosos, de repente não mais conseguindo, ao olhar para trás, ver as margens da realidade, da conformidade ou da sanidade.

Em “Missão: Marte”, o personagem vivido por Tim Robbins, por amor a esposa e por sentir o peso da responsabilidade sobre os outros tripulantes da nave que comandava, dá um salto para morte sem qualquer chance de retorno, terminando a deriva, caindo em direção ao Planeta Vermelho.

Em “Gattaca”, o personagem vivido por Ethan Hawke, tentando provar seu valor como indivíduo, como ser humano, vai além do que sequer entendia como impossível.

Abrir mão do próprio conforto, sacrificar-se por uma causa ou mesmo morrer por algo que se considere como mais importante, nem sempre é absurdo ou radical. Em alguns casos, a realidade é muito mais radical que tais atitudes. Globalizar uma noção de Válido não torna Inválido aquele que discorda da noção vigente.

Por vezes, a distância que resolvemos percorrer é grande demais, ousada demais, excêntrica demais... e mesmo percebendo outros tantos desistindo de ir tão longe ou sequer se aventurando àquelas paragens, em um gesto de calculada renúncia – que alguns chamariam de insensato – não guardamos forças para as braçadas de volta.


Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (2)
Categoria: Como vejo o mundo...

novembro 14, 2004

...que prende o meu pezinho

"Era uma vez uma formiguinha que ficou com o pé preso num floco de neve."

Não sei se alguém se lembra disso, mas eu costumo lembrar de três a cinco vezes por ano.

Quando era pequeno (sim, eu já fui pequeno) tive a oportunidade de ler uma fábula muito bacaninha. Naquela época as fábulas eram só bacaninhas pra mim, nada mais que isso. Ok... talvez eu percebesse alguma profundidade até então inalcançável para mim em algumas das fábulas que minha mãe lia para mim ou nas que eu ia encontrando pelo meio dos livros que ia lendo com dificuldade.

O fato é que essa fábula deixou uma marca indelével na minha cachola e acabou que nunca mais consegui me livrar disso.

Nos dias de hoje, em que as fábulas são consideradas bobas por quase todas as crianças que têm a idade que eu tinha (e possivelmente mesmo pelas outras crianças de minha idade na época), minhas fábulas são outras. Fico com os filmes que falam de totalitarismo, com os livros que falam dos tempos que já passaram, com as poesias que pouca gente lê e com a vontade de escrever minhas fábulas com um pouco mais de regularidade.

Gostar de fábulas é um dom e uma maldição. Me lembro que, desde pequeno, me interessava pelas palavras e frases, pelos parágrafos e livros, de uma forma muito diferente de meus colegas. Lembro-me de amar ficar até tarde vendo filmes ruins na televisão e, permissivamente (diriam uns), identificar o que de bom havia ali, extraindo do tempo que eu gastava com aquilo algo que eu pudesse aprender.

As fábulas são tão ruins ou bobas quanto quem não as entende, e tão magníficas e surpreendentes quanto quem as entende. Há tanto numa frase quanto cabe dentro de você, muito mais do que cabe entre a primeira e a última palavra que a compõe.

Apreender, de alguns parágrafos aparentemente inocentes, signos que abram portais para novos universos, é ter a disposição um mundo maior... é encontrar, na pobreza aparente das coisas, a riqueza escondida em si mesmo.

Cada um vive como quer, claro; e viver como eu - que presunçosamente sofro de gostar de ser como sou - nem sempre é fácil.

Dói ser tão verbal e gostar de escrever e conversar... e quase sempre perceber que só um ou dois, de todos que se conhece, concordam com sua visão de mundo. É tão sôfrego isso quanto o era quando uma menininha do primário não gostava de mim por eu querer ser astronauta.

No final, ser diferente - ou pensar-se diferente - pode ser muito doído.

O curioso é o motivo que me levou a escrever esse pequeno texto: o fiz graças a ter visto ontem "Condenação Brutal", com Silvester Stallone - vai entender!

O enredo do filme incomoda a muitos dos adoradores de filmes de ação e pancadaria estrelados pelo astro, que encarna um sujeito íntegro e que faz de tudo para não se meter em confusões, apesar de estarem todos querendo que ele o faça.

Não que o filme, de um modo geral, tenha uma profundidade temática intencional evidente ou coisa que o valha, mas apesar de todos os obstáculos, cada filme, para mim, até hoje, é uma fábula, uma parábola, uma alegoria da qual é possível apreender mais do que a soma de suas partes mais óbvias.

Frank Leone, seu personagem no filme, ajuda os presos a reformar e botar para funcionar um Mustang antigo que acaba se tornando um símbolo do que aqueles pobres diabos conseguem construir juntos, apesar da opressão de seu entorno.

Depois de pronto, o carro fica belíssimo e funcionando como um relógio. O diretor da prisão, Drumgoole - vivido por Donald Shutterland - acaba por ordenar a destruição do veículo por alguns dos outros detentos.

Após sair da "solitária", Leone volta à oficina da prisão, onde estão todos revoltados por terem tido seu carro destruído. Eles dizem querer vingança. Leone, furioso, esbraveja algo como: "Vocês realmente acham que este carro é seu?! Estamos em uma prisão! Trabalhamos neste carro, nos divertimos com isso, foi incrível, mas é só! Esse carro não é de vocês! Esse carro é de Drumgoole!", e continua, "No momento em que começarem a acreditar que este carro é de vocês, vocês se tornam propriedade de Drumgoole também! Não entendem?!".

Pode parecer curioso que este pequeno discurso tenha desencadeado este texto mas, para mim, a relação entre os detentos e "A Formiguinha" é deliciosamente óbvia.

Vale a pena procurar o filme na locadora ou TV a cabo... é um bom filme, afinal. Mas mais que isso, vale a pena questionar se a locação, a fatura da NET ou mesmo o enriquecimento pessoal, não ficam mais valorizados ao admitir que o trabalho de apreender todo um universo de interpretações e possibilidades, pode ser muito mais interessante do que a atitude passiva de compreender o filme como a soma dos minutos que perfazem suas duas horas.

Frank Leone, em “Condenação Brutal”, passa o filme todo tentando se afastar de problemas e se concentra em levar sua vidinha Zen dentro dos muros da prisão, engolindo cada um dos sapos que Drumgoole coloca em sua frente.

A pobre formiguinha vai ficar para sempre presa na neve se não tomar uma atitude e descobrir como se livrar do que está entre ela e a liberdade.

Por mais inexpressivo e inócuo que tenha sido este texto para alguns, quero crer que outros, ao lê-lo, consigam se livrar de todos os obstáculos entre si mesmos e a descoberta de que o senso comum não é senão uma idéia e que há muito mais entre as linhas de um texto e os minutos de um filme, que a soma de suas partes.

Segue a fábula "A Formiguinha e a Neve"

Continuar...

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (11)
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setembro 29, 2004

"Quer ir por onde?"

Quando tinha 28 anos furtaram o meu carro. Eu não tinha vaga, na garagem de onde morava, no bairro do Flamengo e, oportunamente, até recebi a micharia do seguro.

Não comprei outro carro. Resolvi que nunca mais ia comprar um automóvel. Colocando na ponta do lápis, gastava menos com táxis durante um mês que com os custos do carro.

A escolha não é para qualquer um, concordo. Nem todo mundo abre mão do Barra Shopping todo fim de semana ou de viajar. Naquela época lembro-me que ia para lugares distantes, como a Barra, uma a duas vezes por mês no máximo.

Morando na Zona Sul do Rio de Janeiro era muito fácil não precisar de mais nada de outros bairros. A Marquês de Abrantes tem Metrô, supermercado 24horas, papelaria, academia, bar, restaurante, delicatessem, padaria, confeitaria, açougue, loja de ferragens, lavanderia, locadora de vídeo e ponto de táxi na frente de onde eu morava.

Estava a dez minutos do trabalho e o traslado acabava que não impactava em nada o meu dia, me emprestando uma noite inteira livre e dando uma sensação deliciosa de dia produtivo.

Se morasse em São Paulo provavelmente não poderia ser assim, claro. Lá tudo é longe, cada bairro é monstruoso, o transporte público na prática inexiste e não dá para sair todos os dias usando o produto em cima do qual o Estado te diz, todos os dias, que foi projetada toda a arquitetura urbana.

É engraçado... o dono de automóvel paga o carro, o que até dá pra entender bem; o combustível, que afinal é o suprimento do produto; a manutenção, que aqui no Brasil não só é necessária graças ao uso e a qualidade, mas também a qualidade das ruas e estradas; o IPVA, que supostamente garantiria a qualidade das ruas e estradas; o estacionamento, o que me causa estranheza uma vez que o IPVA e a própria idéia de que as cidades foram projetadas para conter carros deveria cuidar disso; o seguro, para evitar que o carro seja roubado, coisa que outros tantos impostos deveriam cobrir, já que segurança é algo que deve ser provido pelo Estado.

Somando tudo isso com tudo mais que eu me esqueci de mencionar – como o valor real em horas gastas nos engarrafamentos das ruas projetadas com o dinheiro do IPVA – fico pensando se o status de ter um carro, a possibilidade de viajar ou a condição de poder encarar a Estátua da Liberdade do New York City Center, valem todo esse dinheiro.

Com um pouco de boa vontade, creio, dá para chegar em uma conta na qual, abrindo mão do carro, valha muito mais a pena andar de ônibus, metrô e/ou táxi.

Nem comento o impacto no meio ambiente, até porque não há massa crítica de gente preocupada com isso para fazer diferença.

Hoje moro na Ilha do Governador, ando para cima e para baixo com um laptop da empresa – com a qual tenho um contrato de comodato do aparelho – e, pasmem, ainda não tenho carro.

Tá certo... andar de Van não é o mais recomendável, com um equipamento tão caro a tira-colo, mas dá pra deixar o portátil na empresa de duas a três vezes por semana, voltando de mãos abanando e sem incomodar a patroa em casa com o fato de chegar e abrir logo a máquina.

O resto da semana, pensando bem, nem fica tão caro assim ir e voltar de táxi, luxo que os onze anos de profissão felizmente acabaram me permitindo.

Agora há pouco me perguntou o motorista: “Quer ir por onde, senhor?”, ao que eu respondi – “Confio em você, meu caro... Sei que vai fazer o melhor caminho possível. Vai na fé que a gente só vai chegar depois que estiver lá!”.

Isso nada paga, o tempo de pensar na vida, ler um livro, acessar a Internet de dentro do táxi ou simplesmente aproveitar a jornada.

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (4)
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setembro 28, 2004

Voando baixo...

Há mais entre a vinheta de entrada da produtora e os créditos do filme que sonha nossa vã filosofia?


Ontem aconteceu algo muito interessante! Em seguida a última publicação no blog, em que comentei “Voando Alto”, Gwyneth Paltrow (segundo o TeleCine) teria dito que o filme foi o pior filme de todos os tempos.


Segundo o Rotten Tomatoes, o filme não passa de lixo amador, se tratando de uma obra sem graça, boba e que não merece mais de 3.6, numa escala de zero a dez.


Estranhamente, a notícia de que Paltrow teria dito isso acerca do filme surge um dia depois da notícia de que ela teria afirmado que seria uma mulher-gato muito mais competente que Halle Berry, no difamado “Cat-Woman”.


Como perceberam no último post meu comentário acerca do filme foi bastante positivo e, a princípio, poderia-se imaginar que fosse uma grande falta de sorte que a atriz principal (além de tudo que a crítica já havia falado) resolvesse falar tão mal do resultado final da obra.


Por que considero algo muito interessante que isso tenha acontecido?
Deixe-me tentar explicar...

Continuar...

Bruno Accioly

Sarcasmeie você também (0)
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setembro 20, 2004

Sinopses e Sinapses

Pessoalmente não suporto sinopses de filmes. No meu entender a sinopse ou crítica de um filme falam mais acerca de quem a escreveu do que do filme em si.

Adoro a sensação de ver um filme do qual não sei nada a não ser o título e do qual tenha visto o mínimo possível de material de marketing. Nem sempre é possível, ainda mais numa era em que um filme só consegue permanecer no cinema por mais de uma semana caso dezenas de milhões de dólares tiverem sido gastos em propaganda.

Minha alternativa era simplesmente tentar ignorar todos os comentários de amigos, propagandas na TV, cartazes nas ruas e tudo mais, indo ao cinema o mais no escuro possível para que minha neurose não me incomodasse demais.

Meus problemas foram em parte resolvidos quando o Cristiano Dias me apresentou ao MovieLens, um projeto acadêmico desenvolvido na Universidade de Minnesota.

Bruno Accioly

Continuar...

Bruno Accioly

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setembro 06, 2004

O Esquadrão da Reforma

É muito bom ter oportunidade de estar com os amigos. Sabe aqueles amigos com os quais você realmente se identifica e os quais tanto admira? Esses mesmos.

Tenho me sentido só e, no entanto, tenho tido a oportunidade de estar mais com eles.

Vamos envelhecendo meio que separados, encontrando uns com os outros o máximo que podemos e construindo concepções do mundo que, por mais diferentes que sejam, acabam mantendo certa semelhança. Mesmo as discordâncias são cabíveis e, muitas vezes, nem se discorda tanto assim.

Essa visão comum de mundo nos define e nos ajuda a não nos sentirmos sozinhos. Isso me parece profundamente importante entre amigos... mas também me parece profundamente perigoso em larga escala.

Aproveito a solidão do momento para falar de como as coisas me parecem estar. O incauto, excessivamente confiante, bem pode passar do conforto da aprovação para a arrogância da certeza quando tem um grupo suficientemente grande por trás de si.

O determinismo não meramente me preocupa. Parece-me que, cada vez mais, os postulados tomam o lugar do questionamento e da reflexão, fazendo com que todo e qualquer empreendimento humano esteja mais emparelhado com o resultado mais imediato e óbvio do que com uma solução efetiva e duradoura.

Identifico a Globalização do Pensamento em tudo, da noção do certo e errado até a noção de quem está certo e quem está errado. E é aí que me sinto como alguém que caiu no mundo de pára-quedas.

Fico feliz que meus amigos, cada um a sua maneira, também se sintam vivendo em uma realidade distópica, que identifiquem a nossa volta elementos de romances e filmes como "1984", "Fahrenheit 451", "Brazil", "Dogville".

Cada um de nós tenta viver neste mundo disfuncional da melhor maneira que pode e tenta nele fazer diferença a medida que nossa disposição, interesses e preocupações nos permitem, sem mesmo saber se é possível arranhar a superfície dessa realidade empedernida que nos surpreende a todo momento.

A confiança com que as pessoas hoje afirmam que a humanidade evoluiu o suficiente para evitar erros do passado me assusta. É tão fácil perder a mão e trilhar um caminho fundamentalista e totalitário... e quando não se acredita nisso, abre-se a guarda justamente para construtos deste tipo.

Ao voltar da casa do Cris Dias tive a oportunidade de ver um filme que, ao que parece, pouca gente viu, e que foi muito marcante para mim quando mais novo. Trata-se de "Drop Squad - O Esquadrão da Reforma", um filme que pode parecer retratar um mero exagero da intolerância racial, mas que para mim significa muito mais.

Minha mania de perseguir uma noção metafísica do Real, de engendrar um sem número de analogias, de identificar infinitas similaridades no Todo, podem parecer, para quem não me conhece - e até para quem me conhece - um deslumbramento pouco pragmático e infrutífero. Uma vez que concordo comigo mesmo :¬) não penso que assim seja, mesmo admitindo que possa estar errado.

Você sempre pode esquecer o que leu aqui, dar de ombros e simplesmente afirmar de si para si que discorda ou que esse post foi uma "viajada" só. Só dessa vez, contudo, tente não fazer isso; tente refletir a respeito durante o seu dia, nem que seja apenas para se questionar.

Quanto mais leitores forem capazes de se questionar, mais provável se torna que eu esteja errado, afinal...

Bruno Accioly

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agosto 22, 2004

Similaridade

Um dos "tremendos brunismos" do qual sou acusado

Tudo começou quando, aos quinze anos, no colégio, eu avistei separadamente três pessoas e, olhando para seus rostos, tirei a conclusão: "São irmãos!".

E não é que eu acertei?!

Venho fazendo isso há tanto tempo com pessoas, acontecimentos, conceitos que, por vezes, fica até difícil de alguém concordar comigo que alguém, algum lugar ou alguma coisa são, sob algum aspecto, semelhantes.

Pode até ser uma forma de loucura, admito, mas sabe aquele dom, aquele talento escondido, que você tem e que ninguém sabe ou nunca notou que você tem? Pois é... faço isso há tempo demais para não ter percebido que, por vezes, é bastante útil e me ajuda a chegar a conclusões muito interessantes.

Dá pra escrever um livro acerca disso, claro. Nem vou aqui começar a falar de como esse talento obscuro me ajudou a elaborar uma metafísica da Engenharia de Usabilidade ou a engendrar toda uma filosofia de vida baseada em tolerância... do contrário você largaria esse post às moscas.

Quem teve a oportunidade de assistir a série “Perdidos no Espaço” deve se lembrar de uma menininha que fazia o personagem Penny Robinson, que o dublador fazia toda questão de mencionar em voz alta nos créditos. Tratava-se de Angela Cartwright, uma verdadeira sensação na época.

Muitos e muitos anos depois, quando tive a oportunidade de ver “Alien – O 8º Passageiro” pela enésima vez, percebi que conhecia a atriz principal, e não era apenas de seu outro filme “Invasores de Corpos”! Aquele rosto, aqueles olhos, a estrutura óssea... minha cacholinha dodói entrou em curto quando a identifiquei como Angela Cartwright! Uma das girls next door dos anos sessenta! Penny Robinson! E fazendo “Alien”! Nada mais irônico e apropriado.

Angela
Veronica

Se as duas são a mesma pessoa? Não, não são. Eu errei... Elas são IRMÃS! A da esquerda é Angela Cartwright e a da direita é Verônica Cartwright. A da esquerda fez “Perdidos no Espaço” e “Noviça Rebelde”, enquanto a da direita fez “Alien” e “Os Pássaros”. Agora... veja a foto de ambas em “Noviça Rebelde” e em uma das séries dirigidas por Hitchcock.

Angela
Veronica

Como podem ver não sou assim tão louco - mas assumo... isso é um "brunismo" de marca maior!

Saber o nome dos atores - neste meu hobby - é o último recurso dos incompetentes, claro. Mas não fique assim tão assombrado. Eu também erro e, ontem mesmo, encasquetei que o Donald Pleasence (de "Fugindo do Inferno"), era parente do Brent Spiner (o Data de "Star Trek - Next Generation"). Vejam por si mesmos:

Donald Pleasence
Data
Brent Spiner

Para os ainda incrédulos acerca de Angela e Veronica Cartwright, eis uma foto de ambas na “Jupiter II”, de “Perdidos no Espaço”.

Angela
Veronica

Bruno Accioly

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